Money

17 Um Domingo Diferente


Notas iniciais
Noah, apesar de evitar lugares cheios, vai à feira local com o irmão mais novo, Théo. Lá, encontra Luna por acaso. A conexão entre os dois se intensifica em meio a conversas simples, churros e um passeio de roda gigante. Noah, silenciosamente marcado pelo luto, percebe que Luna está entrando em sua vida de forma suave e inesperada — e talvez ele esteja pronto para deixá-la ficar.

PN. Luna


Quando tia Marianne bateu na porta dizendo que haveria uma feirinha no centro da cidade, eu quase inventei uma desculpa. Não estava no clima.

Mas algo em mim disse: vai.


Talvez fosse só a vontade de sair do quarto. Ou, quem sabe, a expectativa inconsciente de vê-lo.


E sim, ele estava lá.


Entre barraquinhas de algodão-doce, música ao vivo e pessoas sorrindo por motivos banais, eu vi Noah.

Com aquela expressão neutra que já me era familiar, as mãos no bolso e os fones pendurados no pescoço. Ele parecia deslocado. Assim como eu.


Nos encaramos de longe por uns segundos.

Ele fez um aceno quase imperceptível com a cabeça.

Me aproximei.


— Você não parece o tipo que curte multidões — brinquei.


— Nem você — ele retrucou, e sorriu. Um sorriso pequeno, mas real.


Caminhamos lado a lado sem rumo certo. Paramos em uma barraca de churros, e quando percebi, ele estava comprando dois.

— Com recheio de quê? — perguntou.


— Chocolate.


Ele entregou o churro como se fosse um presente valioso.

— Pra adoçar o dia — disse, sem encarar diretamente.


Conversamos sobre coisas leves. Um cachorro que passou correndo. Um cara que tropeçou em uma mesa. A criança fantasiada de dinossauro que tentou rugir pra uma senhora.

Eu ri. Noah riu também.


Era estranho... e bom.


Na roda gigante, Trevor apareceu e sugeriu que subíssemos todos. Britney estava com ele, de óculos escuros e cara de tédio. Pietro também veio, mas felizmente não falou comigo.


Fui ao lado de Noah.

Lá do alto, a cidade parecia menor. A dor também.


No silêncio daquela altura, ele falou:

— Sabe, quando eu te conheci, achei que você fosse como todo mundo. Mas você não é.


— Não sou mesmo — respondi. — E você também não é.


Nos encaramos por um momento longo demais.

Não houve beijo. Nem toque.

Só aquela sensação estranha, nova e boa.

De estar onde se deveria estar.


PN. Noah


Domingo.

O dia mais silencioso da semana, pelo menos dentro da minha cabeça.

Só que hoje teve feira no centro da cidade — e Théo implorou pra ir.


Eu fui. Não por vontade. Mas porque ele tem esses olhos que lembram o Alex quando era mais novo.

E eu não consigo dizer não pra isso.


O lugar estava cheio. Barracas, vozes, cheiros, barulho. Tudo que eu tento evitar.

Mas foi ali, entre um vendedor de pipoca e um cachorro usando óculos escuros, que eu vi ela.


Luna.


Ela não me viu primeiro. Caminhava devagar, olhando ao redor como quem ainda não se acostumou com o lugar.

E mesmo com o olhar meio perdido, parecia mais segura do que a maioria das pessoas ali.


Quando me viu, seu rosto mudou. Um leve sorriso apareceu — e algo dentro de mim desacelerou.


Ela se aproximou. E era natural.

Conversamos sobre besteiras. Sobre o dia, sobre o tédio, sobre o absurdo de venderem churros a vinte reais.


Comprei um pra ela mesmo assim.

Chocolate.


Ela sorriu de novo. E não era um sorriso forçado. Era sincero.

E por um instante, desejei que aquele momento não acabasse tão cedo.


Trevor apareceu com Britney, Pietro e mais barulho.

Fomos convidados — ou arrastados — pra roda gigante.

Acabei sentado ao lado de Luna.


Lá do alto, eu olhei pro céu e pensei em Alex.

Ele gostava de vir aqui quando éramos pequenos.


— Quando te conheci, achei que você fosse como todo mundo — falei, sem saber de onde veio aquilo. — Mas você não é.


Ela me olhou de lado, com aquele olhar que escuta de verdade.


— Não sou mesmo. E você também não é.


Ali, naquele segundo de silêncio entre nós dois, eu soube.


Ela estava entrando na minha vida.

Devagar, sem invadir, sem pedir licença.


E talvez, só talvez, eu estivesse deixando.