Money
50 Quando o Jogo Muda
O novo caderno de Noah tinha poucas páginas preenchidas.
“O que Henrique nunca mencionou.”
No começo parecia exagero. Quase culpa. Afinal, Henrique ajudava, aparecia, facilitava contatos.
Mas então Luna percebeu algo.
Os nomes indicados por Henrique eram sempre ligados às empresas investigadas.
Os nomes que Alex anotou sozinho, antes de morrer… nunca apareciam.
Nunca.
— Noah… — ela murmurou numa tarde chuvosa no sótão. — Olha isso.
Ela espalhou três folhas.
Uma era da pasta antiga de Alex.
Outra, dos documentos do pai dela.
A terceira, das informações recentes.
O mesmo sobrenome aparecia.
Não Henrique.
Outro.
Um diretor financeiro.
Sempre próximo dos casos.
Sempre desaparecendo depois.
Sempre ignorado.
Noah ficou imóvel.
— Como a gente deixou isso passar?
— Porque estávamos olhando pro que entregavam pra gente… e não pro que já tínhamos.
Silêncio.
Pesado.
Desconfortável.
Pela primeira vez em meses, sentiram que tinham encontrado algo verdadeiro.
Não uma distração.
Uma rachadura.
Naquela noite, Noah percebeu algo estranho.
Seu computador estava ligado.
Ele tinha certeza absoluta de que desligara.
Nada parecia fora do lugar.
Mas estava.
Era aquela sensação ruim.
Como entrar no quarto e sentir que alguém mexeu nas suas coisas.
— Você contou pra alguém das novas descobertas? — Luna perguntou por chamada.
— Não.
— Nem sua mãe?
— Não.
Ela demorou segundos para responder.
— Então por que parece que alguém já sabe?
O estômago dele afundou.
Dois dias depois, receberam um e-mail anônimo.
Sem assinatura.
Sem texto.
Só um arquivo.
Uma foto antiga.
Alex.
Os pais de Luna.
Outros funcionários do banco.
Uma reunião.
No canto da imagem, escrito à caneta:
“Algumas verdades enterram quem procura.”
Luna ficou pálida.
— Isso é ameaça?
Noah lia repetidamente.
Pela primeira vez desde que começaram:
Ele teve medo.
Medo verdadeiro.
Não por si.
Por ela.
Na mesma noite, ele apareceu na casa dos tios dela sem avisar.
Luna abriu a porta de moletom, surpresa.
— Noah?
Ele não respondeu imediatamente.
Só a abraçou.
Forte.
Como quem precisava confirmar que ela estava ali.
Viva.
Segura.
Ela percebeu.
— Você tá assustado.
A voz saiu baixa.
Ele encostou a testa na dela.
Os olhos cansados.
— Acho que isso ficou grande demais.
Pela primeira vez:
Ele admitia.
Luna segurou seu rosto.
— Então a gente para de tentar ser herói.
Ele a olhou.
Ela continuou:
— O Alex tentou sozinho.
Meus pais tentaram resolver coisas sozinhos.
Olha o que aconteceu.
O silêncio entre eles doeu.
Porque era verdade.
Na madrugada daquele dia, tomaram uma decisão.
Organizaram tudo:
Fotos.
Datas.
Nomes.
E-mails.
Anotações de Alex.
Documentos do banco.
Suspeitas.
Guardaram cópias.
Pendrive.
Nuvem.
Envelope físico.
No topo escreveram:
“Se algo acontecer conosco, investiguem isto.”
E pela primeira vez desde o começo:
Luna chorou não pela perda dos pais.
Noah não chorou pelo irmão.
Choraram pelo medo do futuro.
Porque descobriram algo pior:
A verdade existia.
E alguém não queria que chegassem nela.
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