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51 O Dia em Que o Medo Ganhou Nome


Os dias seguintes foram estranhos.

Silenciosos demais.

Nenhuma pista nova.

Nenhuma mensagem.

Nenhum avanço.

E, curiosamente, Henrique comentava menos sobre a investigação. Parecia respeitar o espaço deles.

Luna chegou a pensar que talvez estivessem exagerando.

Talvez o e-mail fosse uma brincadeira cruel.

Talvez o medo estivesse transformando tudo em ameaça.

Até aquela quarta-feira.

Ela e Noah saíam da biblioteca pública no centro da cidade.

Passaram a tarde pesquisando registros antigos de empresas ligadas ao banco dos pais dela. Nada muito revelador, mas suficiente para encher mais um caderno.

Era fim de tarde.

Chovia fraco.

Luna segurava uma pasta contra o peito enquanto Noah reclamava do frio.

— Você rouba meus moletons e ainda reclama.

— Porque seus moletons são horríveis.

— Você literalmente dorme usando eles.

Ela abriu a boca para responder.

Então ouviu pneus.

Muito rápido.

Muito perto.

Um carro preto virou a esquina acelerando.

Noah percebeu primeiro.

O veículo não diminuía.

Ia direto na direção deles.

— LUNA!

Tudo aconteceu em segundos.

Ele puxou o braço dela com força.

Os dois caíram no chão molhado.

A pasta voou.

Papéis espalharam pela rua.

O carro passou raspando perto demais.

Perto o suficiente para Noah sentir o retrovisor atingir seu ombro.

Freada.

Silêncio.

O motor acelerou outra vez.

Foi embora.

Por alguns segundos:

Nenhum dos dois respirou direito.

Só chuva.

E coração.

Muito coração.

— Noah—

A voz dela tremia.

Ele ainda segurava o braço dela.

Forte demais.

Como se soltá-la fosse perdê-la.

Os olhos castanhos estavam assustados.

De verdade.

Ela nunca tinha visto.

— Você bateu? — Luna perguntou rápido.

— Não…

Mentira.

O ombro ardia.

Mas ele nem sentia.

Porque olhava para ela.

Procurando sangue.

Machucados.

Qualquer coisa.

— Você tá bem?

Ela assentiu.

E então percebeu:

As mãos dele tremiam.

Noah.

O garoto que segurou o luto sozinho.

Que enterrou o irmão.

Que cuidava da mãe.

Do Théo.

Estava tremendo.

Ela segurou o rosto dele.

— Ei… eu tô aqui.

Aquilo quebrou algo.

Ele abaixou a cabeça.

Respiração falhando.

— Eu achei… — a voz saiu rouca — achei que ia perder você.

Silêncio.

Cru.

Feio.

Real.

Luna o abraçou no meio da calçada molhada.

Sem vergonha.

Sem pensar.

Porque entendeu:

Não era só medo.

Era amor.

Mais tarde descobriram:

A câmera da rua "estava em manutenção".

Nenhuma placa registrada.

Nenhuma identificação.

Foi naquela noite que decidiram:

Chega.

Entraram na delegacia juntos.

Com o pendrive.

Os documentos.

As fotos.

As anotações do Alex.

Tudo.

O investigador ouviu em silêncio.

Expressão séria.

Folheando papéis.

— Vocês demoraram pra trazer isso.

Noah respondeu:

— A gente achou que conseguia resolver sozinho.

O homem fechou a pasta.

Olhou para ambos.

— A partir de agora, vocês param de investigar.

Entenderam?

Isso pode envolver gente perigosa.

Luna apertou a mão de Noah.

Porque pela primeira vez alguém confirmava:

Eles não estavam imaginando.

Na volta, nenhum dos dois quis ir para casa.

Acabaram no parque.

O mesmo banco.

O mesmo lago.

Do primeiro beijo.

A noite estava fria.

Luna estava encolhida no moletom dele.

— Você lembra do que falou aqui? — ela perguntou.

Noah olhou confuso.

— Que eu era seu ponto de paz.

Ele sorriu pequeno.

Cansado.

— Lembro.

Ela apoiou a cabeça no ombro dele.

— Acho que você virou minha casa.

Aquilo desmontou Noah.

Porque ninguém nunca tinha dito algo assim.

Ele segurou a mão dela.

Beijou seus dedos.

Devagar.

— Então fica.

Quando isso acabar…

Fica.

Os olhos dela marejaram.

— Você acha que existe depois disso?

Ele pensou.

Muito.

Então respondeu:

— Pela primeira vez em muito tempo…

Eu quero acreditar que existe.

Com você.

E ali:

No meio do medo.

Da investigação.

Da saudade dos mortos.

Do futuro incerto—

Eles se apaixonaram mais.

Não no fogo.

Mas na permanência.