Money
13 Fragmentos de Confiança
Notas iniciais
Luna
Era uma quarta-feira nublada, daquelas que combinam com o que a gente sente por dentro.
Saí para o jardim dos fundos depois do almoço. A casa estava cheia de barulhos — panela batendo, risadas abafadas da Britney no telefone, música vindo do quarto do Trevor —, mas eu precisava de silêncio.
Me sentei no banco de madeira perto do limoeiro. A mesma árvore onde, dias atrás, eu tinha chorado até dormir. O lugar tinha virado meu refúgio.
Foi então que ouvi passos leves na grama.
— Tá tudo bem se eu sentar aqui? — perguntou Noah, com as mãos nos bolsos do moletom cinza.
Assenti, sem falar nada. Ele se sentou do outro lado do banco, como sempre fazia. Olhou para o chão, depois para o céu.
— Gosto de dias nublados — disse. — É como se o mundo parasse de fingir que está tudo bem.
Sorri pela primeira vez naquele dia. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
— Eu também. O céu parece mais honesto assim — respondi.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Não o silêncio pesado do velório. Era outro tipo de silêncio. Quase confortável.
— Sabe… — Noah começou, olhando para as mãos — tem dias em que eu acho que nunca vou me livrar da raiva. Do quanto eu queria poder mudar tudo. Gritar. Voltar no tempo. Mas depois vem o vazio. E o cansaço.
Assenti. A garganta apertou, mas eu consegui dizer:
— Eu falo com eles toda noite. Antes de dormir. Como se eles pudessem ouvir. Não sei se é pra eles ou só pra mim.
Ele me olhou com um respeito que doeu. Como se entendesse cada sílaba.
— Eu fazia isso também — ele disse, baixinho. — Com o Alex. Durante muito tempo. Às vezes ainda faço.
— Você fala pouco sobre ele.
— Porque dói muito.
Eu entendi. Era o mesmo comigo.
— Como ele era? — perguntei.
— Inteligente demais. Irritantemente responsável. Fazia a piada certa na hora errada. Queria salvar o mundo. E… ele salvava a gente. De muitas formas.
Fechei os olhos por um instante, tentando imaginar esse irmão. Consegui.
— Meus pais eram assim. Sempre tentando fazer o mundo parecer seguro… até quando já não era.
Noah olhou para mim. Pela primeira vez, de verdade.
— A gente se machucou no mesmo lugar — ele disse. — Isso… não some. Mas talvez fique mais leve quando a gente não carrega sozinho.
Aquela frase ficou em mim.
Por um segundo, tive vontade de segurar sua mão. Mas não fiz. Ainda não.
Mas eu fiquei. E ele também.
E, pela primeira vez, falar do que doía não pareceu impossível.
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