Money
14 Confiança
Notas iniciais
PV Luna
Voltar às aulas parecia mais assustador do que embarcar sozinha para outro país.
Ficar em casa era difícil, mas pelo menos ninguém me olhava como se eu estivesse quebrada.
Na escola, todos pareciam saber.
Não sei quem contou, ou se foi simplesmente o comentário que correu pelos corredores. Mas o fato era que, assim que pisei no prédio, os olhares vieram. Alguns disfarçados, outros escancarados. Um ou dois sorrisos tímidos. Abraços constrangidos. E muito, muito silêncio.
A diretora me chamou na sala dela antes da primeira aula. Falou com cuidado, com voz baixa demais, como se eu fosse feita de vidro.
— Qualquer coisa, querida, pode nos procurar. Não queremos forçar nada, apenas... esteja onde se sentir confortável, está bem?
Assenti. Eu não queria conforto. Eu queria meus pais.
Fui para a aula de literatura e sentei no fundo. Os livros pareciam tão irrelevantes agora. Palavras bonitas que não sabiam nada sobre dor real.
No intervalo, saí rápido e fui para os fundos da escola, onde havia uma área com grama e sombra. Quando me aproximei, alguém já estava lá, encostado na árvore.
— Sabia que você viria — disse Noah, sem olhar pra mim.
— E você? Sempre fica aqui?
— Só nos dias em que o mundo pesa mais do que deveria.
Me sentei a uma distância confortável. Ainda havia um espaço entre nós, mas algo estava diferente. Menos silêncio forçado, mais presença verdadeira.
— É estranho. Parece que tudo continuou igual, menos eu — murmurei, olhando pro céu nublado.
— É porque você sabe o que o resto do mundo finge não ver. — Ele virou o rosto pra mim. — Você mudou. A dor muda a gente. Não tem como voltar a ser quem era.
Eu olhei pra ele e assenti. E, pela primeira vez desde que cheguei aqui, não me senti fora de lugar.
Ficamos ali até o sinal tocar.
Na hora de voltar pra sala, ele disse, como se não fosse nada:
— Se precisar fugir de novo amanhã, vou estar aqui.
Era só isso. Mas naquele momento, foi tudo.
PV — Noah
Eu a vi entrar no pátio e soube que viria para cá.
Desde que ela chegou, meio apagada e ao mesmo tempo tão viva em silêncio, percebi que esse lugar virou o refúgio dela também.
O mesmo que foi o meu, quando tudo desmoronou.
Vi as pessoas olhando pra ela o dia inteiro. A forma como tentavam parecer gentis, mas encaravam demais.
Sei como é.
Sei como é se sentir exposto, como se a dor fosse algo que os outros enxergam estampado no seu rosto.
Como se a gente não tivesse mais direito de existir sem ser lembrado pelo que perdeu.
Quando Luna sentou ao meu lado, senti que não precisava dizer nada. Só estar.
Mas ela falou.
E quando disse que tudo estava igual, menos ela, aquilo me atingiu mais do que imaginei.
Porque era exatamente isso. A mesma sensação que carreguei por muito tempo, quando o Alex se foi.
Quis dizer algo que a fizesse se sentir menos sozinha. E foi só isso que consegui:
“Você mudou. A dor muda a gente.”
Ela não respondeu com palavras. Só olhou pra mim como quem entendeu. E por um momento, naquele silêncio, eu me senti mais leve.
Eu não sei o que é isso que está surgindo entre nós.
Não é paixão. Ainda não.
É outra coisa. Uma ligação quieta, feita de dor dividida e de um cuidado silencioso.
Quando o sinal tocou, eu quase não quis levantar.
Mas me levantei, e disse, quase sem pensar:
— Se precisar fugir de novo amanhã, vou estar aqui.
Ela me olhou. Só isso. Mas no olhar dela tinha algo parecido com alívio.
E eu soube que, de algum jeito estranho e lento, a confiança estava crescendo.
Dessa vez, com alguém que não vai desaparecer.
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