Money

13 Fragmentos de Confiança


Notas iniciais
Luna e Noah se encontram no jardim da casa e, pela primeira vez, compartilham mais do que o silêncio. Em meio a lembranças e dores, começam a falar sobre a perda de seus entes queridos. Noah fala sobre o irmão Alex, e Luna sobre os pais. É um momento íntimo e sincero, onde a conexão entre os dois se aprofunda. Eles ainda não sabem o que sentem exatamente, mas descobrem que confiar um no outro torna o peso do luto um pouco mais leve.

Luna


Era uma quarta-feira nublada, daquelas que combinam com o que a gente sente por dentro.


Saí para o jardim dos fundos depois do almoço. A casa estava cheia de barulhos — panela batendo, risadas abafadas da Britney no telefone, música vindo do quarto do Trevor —, mas eu precisava de silêncio.


Me sentei no banco de madeira perto do limoeiro. A mesma árvore onde, dias atrás, eu tinha chorado até dormir. O lugar tinha virado meu refúgio.


Foi então que ouvi passos leves na grama.


— Tá tudo bem se eu sentar aqui? — perguntou Noah, com as mãos nos bolsos do moletom cinza.


Assenti, sem falar nada. Ele se sentou do outro lado do banco, como sempre fazia. Olhou para o chão, depois para o céu.


— Gosto de dias nublados — disse. — É como se o mundo parasse de fingir que está tudo bem.


Sorri pela primeira vez naquele dia. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro.


— Eu também. O céu parece mais honesto assim — respondi.


Ficamos em silêncio por alguns minutos. Não o silêncio pesado do velório. Era outro tipo de silêncio. Quase confortável.


— Sabe… — Noah começou, olhando para as mãos — tem dias em que eu acho que nunca vou me livrar da raiva. Do quanto eu queria poder mudar tudo. Gritar. Voltar no tempo. Mas depois vem o vazio. E o cansaço.


Assenti. A garganta apertou, mas eu consegui dizer:


— Eu falo com eles toda noite. Antes de dormir. Como se eles pudessem ouvir. Não sei se é pra eles ou só pra mim.


Ele me olhou com um respeito que doeu. Como se entendesse cada sílaba.


— Eu fazia isso também — ele disse, baixinho. — Com o Alex. Durante muito tempo. Às vezes ainda faço.


— Você fala pouco sobre ele.


— Porque dói muito.


Eu entendi. Era o mesmo comigo.


— Como ele era? — perguntei.


— Inteligente demais. Irritantemente responsável. Fazia a piada certa na hora errada. Queria salvar o mundo. E… ele salvava a gente. De muitas formas.


Fechei os olhos por um instante, tentando imaginar esse irmão. Consegui.


— Meus pais eram assim. Sempre tentando fazer o mundo parecer seguro… até quando já não era.


Noah olhou para mim. Pela primeira vez, de verdade.


— A gente se machucou no mesmo lugar — ele disse. — Isso… não some. Mas talvez fique mais leve quando a gente não carrega sozinho.


Aquela frase ficou em mim.


Por um segundo, tive vontade de segurar sua mão. Mas não fiz. Ainda não.


Mas eu fiquei. E ele também.


E, pela primeira vez, falar do que doía não pareceu impossível.