Money
5 Antes da Tempestade
Notas iniciais
Parte 1: Luna
Era noite em Paris, e o céu estava num tom entre azul profundo e dourado queimado. A vista da varanda do hotel era digna de cartão-postal, e mesmo assim, eu não tirei nenhuma foto. Pela primeira vez em dias, deixei minha câmera de lado. Estava tudo ali — meus pais, uma mesa de jantar improvisada com sobremesas francesas, e muitas risadas.
Mamãe estava sentada na cama com uma taça de vinho, o cabelo loiro preso de forma displicente, usando uma camisola de seda cor de pérola e o robe do hotel. Papai, de meias engraçadas e calça de pijama xadrez, digitava algo no celular enquanto tentava roubar uma das trufas da caixinha que eu guardava só para ocasiões especiais.
— Ethan, você tem uma fortuna e mesmo assim rouba o chocolate da sua filha? — mamãe ralhou, mas sem raiva, segurando o riso.
— Eu invisto em experiências — respondeu ele, com um olhar cúmplice para mim. — E esse chocolate tem valor emocional.
— Só se for pra mim — retruquei, rindo, enquanto puxava a caixa de volta.
Mamãe se deitou de lado, apoiando o rosto na mão.
— Sabe o que eu estava lembrando hoje? Daquela vez em Tóquio, quando a Luna tirou uma foto minha e do seu pai em frente àquele templo... Ela tinha o quê, nove anos?
— E ficou incrível — papai completou. — Na verdade, a Luna sempre viu o mundo de um jeito diferente. Enxerga o que ninguém nota.
Corei um pouco. Sempre achei bonito quando eles me elogiavam, mas nunca soube bem como reagir. Só sorri e olhei pra eles.
— Vocês acham que eu enxergo diferente porque me amam — falei, encostando a cabeça no ombro da mamãe.
Ela passou a mão no meu cabelo devagar.
— A gente te ama sim. Mas o seu olhar é só seu. E é lindo. Mesmo que a gente não fosse seus pais, saberia disso.
Papai nos observava, e então se aproximou com o celular.
— Esperem, esse momento merece registro.
Nos reunimos os três na cama, abraçados. Papai esticou o braço, colocou o celular no modo selfie e tirou uma sequência de fotos — algumas sérias, outras fazendo caretas. Eu ri tanto que chorei um pouco. Ninguém percebeu.
Depois, já de pijama e pronta para dormir, me sentei na varanda e observei a cidade iluminada. Mamãe apareceu atrás de mim, silenciosa, e se sentou ao meu lado. Ficamos ali em silêncio por um tempo.
— Você vai ficar bem, meu amor — ela disse, sem que eu perguntasse nada. — Por mais difícil que pareça, vai.
Olhei pra ela.
— Promete que volta logo?
Ela sorriu. E embora eu quisesse acreditar, havia algo nos olhos dela que parecia hesitar por um segundo.
— Prometo — respondeu, e me abraçou.
Naquela noite, dormi entre os dois. Algo que não fazia há anos. Acho que, de algum jeito, o
coração pressente o que vem antes da cabeça.
Parte 2: Noah
Sábado era o único dia em que Alex estava em casa antes das nove da noite. Naquele, chegou mais cedo, com a camisa social meio amassada, a gravata no bolso e uma sacola com comida chinesa equilibrada na mão.
— Declaro oficialmente iniciado o jantar de família — disse, abrindo a porta com o pé. — E se o Theo não aparecer até o arroz ficar frio, eu como tudo sozinho!
Mamãe riu da cozinha, com um pano de prato no ombro. Fazia tempo que a casa não parecia tão viva. Desde que papai foi embora — ou fugiu, ninguém nunca soube ao certo —, as coisas ficaram silenciosas, como se a ausência dele tivesse deixado um buraco que ninguém sabia como tapar.
Alex, com apenas quinze anos na época, simplesmente... assumiu. Não por obrigação. Mas porque era isso ou tudo desabava.
Ele começou a estudar como se a vida dele dependesse disso — e, de certa forma, dependia. Conseguiu uma bolsa, fez estágio, entrou no banco e logo se tornou um dos funcionários mais promissores. Mas, em casa, nunca deixou de ser o irmão que ensinava matemática ao Theo, que me cobrava de lavar a louça, que segurava a mão da mamãe quando ela achava que não ia conseguir.
Alex era o elo entre todos nós. O tipo de pessoa que fazia parecer que tudo ia ficar bem, mesmo quando não estava.
— E aí, poeta sombrio, sobreviveu à semana? — ele me cutucou com o cotovelo quando se jogou no sofá ao meu lado.
— Por enquanto — respondi, sem graça, e ele riu, como sempre fazia quando eu dizia algo pessimista.
Theo apareceu correndo, com a espada de brinquedo em uma mão e uma toalha ainda enrolada no pescoço, fingindo ser uma capa.
— Cavaleiros do apocalipse atacam novamente! — gritou, pulando em cima do Alex.
— Você é o dragão, Noah! — Alex gritou, se fingindo de escudo humano entre mim e Theo.
Acabamos os três rindo no chão da sala. A mãe apareceu na porta, sorriu, e disse:
— Vocês me orgulham tanto. Mesmo quando parecem um bando de lunáticos.
Depois do jantar, Alex e eu ficamos na garagem. Ele sempre dizia que ali era o único lugar onde dava para pensar. O portão entreaberto deixava entrar um vento gelado. Ele segurava uma latinha de refrigerante, apoiado no capô do carro velho.
— O banco anda estranho — comentou, olhando para o chão. — Documentos com lacunas, movimentações esquisitas... muita coisa que não bate.
— E você tá perguntando sobre isso?
— Claro que sim. Mas tem gente que não gosta de perguntas.
— Você devia sair de lá — eu disse, baixando o tom.
Ele me olhou de lado.
— E deixar a mamãe e o Theo na mão? A gente precisa disso agora. Eu dou um jeito. Sempre dou.
Ficamos em silêncio. Então ele falou algo que me arrepiou:
— Se um dia eu não estiver aqui… você cuida deles por mim. Sério, Noah.
— Para com isso. Você fala como se fosse desaparecer.
— Não planejo desaparecer. Mas a vida não manda aviso.
E ele sorriu. Um sorriso de quem sabe mais do que diz.
Naquela noite, vi Alex colocar uma manta sobre Theo. Mamãe passou no corredor e sussurrou:
— Ele tem um coração de ouro, esse menino.
Papai nunca disse isso. Ele nunca teve tempo pra dizer nada.
Mas eu sabia: Alex foi tudo o que a gente precisou. O irmão, o pai ausente, o amigo. Nosso orgulho. Nosso elo.
Eu não sabia que aquela seria a última vez que ouviria a voz dele.
Mas alguma parte de mim... já sentia.
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