Money
11 Adeus
Notas iniciais
PV. Luna
O salão era claro demais para um dia tão escuro.
As pessoas entravam em silêncio, como se palavras fossem inadequadas. Havia flores por todos os lados, arranjos brancos com fitas douradas, como se estivessem tentando suavizar uma tragédia que não podia ser suavizada.
No centro, dois caixões fechados.
Era tudo o que restava deles.
Minha mãe.
Meu pai.
O coração que sustentava meu mundo, agora reduzido a lembranças e retratos sorridentes dispostos em cavaletes.
Aproximei-me, devagar, como se ainda existisse alguma chance de que tudo fosse mentira. Que, ao chegar perto, eu visse outra coisa. Mas não. O vazio era real.
As mãos de Marianne seguravam as minhas com força. Ela estava firme por fora, mas vi seus olhos inchados. Tio Brian mantinha a compostura, resolvendo detalhes com os organizadores. Britney e Trevor estavam pálidos, visivelmente desconfortáveis. Eu não sabia se era pela dor ou pelo incômodo de ver o mundo quebrado tão de perto.
Eu só… não sentia nada. Ou tudo ao mesmo tempo.
Uma senhora se aproximou e começou a falar sobre como meus pais eram generosos. Outra disse que meu pai a ajudara com um empréstimo sem juros. Alguém contou que minha mãe organizava doações anônimas todos os natais.
Assenti a todas. Sorria por educação. Mas cada palavra era como uma pedra colocada no meu peito.
“Eles eram incríveis.”
“Eles eram admiráveis.”
“Eles eram.”
Eram.
Esse tempo verbal me dilacerava.
Fui até o fundo do salão e me sentei num banco, afastada do burburinho. Olhei para as mãos no colo, sentindo-as vazias. Senti falta da câmera. Dos olhos dos meus pais me observando com orgulho toda vez que eu dizia que queria ser fotógrafa.
Minha garganta queimava, mas as lágrimas não vinham. Era como se meu corpo se recusasse a processar. Como se chorar fosse admitir que era verdade.
Ouvi passos lentos se aproximando. Olhei para o lado.
Era Noah.
Ele não disse nada. Apenas se sentou no banco, a uma distância respeitosa. Também não olhou diretamente para mim. Ficamos ali, em silêncio. O tipo de silêncio que fala. Que entende.
Depois de alguns minutos, ele falou, com a voz rouca:
— Quando meu irmão morreu… eu passei semanas esperando ele entrar pela porta. Toda vez que ouvia um barulho em casa… achava que era ele. É estranho como a gente se recusa a aceitar que acabou.
Olhei para ele. Pela primeira vez, sem máscara. Ele não estava só calado, ele estava ferido. Como eu.
— Eu ainda escuto a voz da minha mãe — sussurrei. — Antes de dormir, eu fico esperando ela me ligar.
Ele assentiu. Os olhos marejados. A dor ali, exposta. Sem floreios.
— Todo mundo vem com essas frases feitas… “eles estão num lugar melhor”, “eles gostariam que você fosse forte”. Mas a verdade é que a gente só queria mais um abraço. Só mais um minuto.
— Sim — respondi, sentindo finalmente uma lágrima rolar. — Eu só queria ouvir “boa noite, filha” mais uma vez.
Ficamos em silêncio por mais alguns minutos. O barulho ao fundo parecia distante. Só existia aquele banco, e o eco da dor que nos unia.
Ele não tentou me consolar. E isso foi um alívio.
Ele apenas ficou.
E foi o suficiente.
PV. Noah
Quando entrei no salão, o cheiro das flores me acertou como um soco no estômago. Era o mesmo aroma sufocante daquele dia. Daquele maldito dia.
Meus olhos encontraram Luna, sentada na fileira da frente, os ombros encolhidos, as mãos trêmulas no colo. Havia um peso em volta dela que eu conhecia bem. O tipo de dor que torna o ar difícil de respirar.
Parei por um instante perto da porta, observando sem ser notado. Cada detalhe daquela cerimônia trazia memórias que eu tentei esquecer.
O caixão do Alex.
A mãe sendo amparada pelos braços que não eram os dele.
Théo, imóvel no canto, com os olhos secos, como se tivesse se apagado por dentro.
Ele tinha só doze anos na época.
Ficou quase um ano inteiro sem dizer uma palavra.
Nem uma frase. Nem um som.
Ele apenas existia.
E eu… sobrevivi porque não sabia o que mais fazer.
Caminhei até o banco de pedra onde Luna se sentava sozinha. Não planejei o que diria. Não queria dizer nada que soasse forçado. Só me sentei, respeitando o silêncio dela. O mesmo silêncio que, um dia, foi meu.
Vi o jeito como ela olhava para as mãos.
Como se estivesse procurando algo que perdeu.
Era igual a mim.
— Quando meu irmão morreu… — comecei, com a voz mais baixa do que esperava —... eu passei semanas achando que ele ainda ia aparecer. Que tudo era um engano.
Ela não olhou, mas ouviu. E isso bastava.
— Théo… meu irmão mais novo… — continuei, hesitando — ele ficou quase um ano sem falar. Como se a voz tivesse morrido junto com o Alex.
Luna finalmente virou o rosto. Havia dor nos olhos dela. Mas também… compreensão.
— Às vezes, eu queria ter ficado em silêncio também — ela murmurou.
Eu não respondi.
A dor da gente se reconheceu.
E só o fato de estarmos ali, sentados, sem fingir que estava tudo bem, já era um tipo de consolo.
Lembrei do enterro do Alex. Do frio nas mãos da minha mãe. Do vazio no olhar do Théo.
Luna ainda teria muita coisa para enfrentar.
Mas, de algum jeito, ela ia conseguir.
Porque ela tinha algo que eu não tive: alguém ali, sentado ao lado.
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