-Isso não vai dar certo, vocês sabem que não. –murmurou a garota de cabelo loiro seguindo ao dois meninos pela madrugada na direção do pequeno casebre não muito longe dos alojamentos. Estavam os três de pijama e tênis, cada um com sua lanterna, andando apressados na direção do objetivo: a sala de primeiros socorros.

-Isso tem que dar certo, Sherri. –murmurou John, seguindo fiel atrás de Jesse.

-É, e é simples, só precisamos de um pote de laxante, já vi em filmes. –assentiu o loirinho, finalmente chegando à porta.

-Tá, e o que te garante que aí dentro tem laxante, Lacey? –Sherri cruzou os braços e desligou a lanterna, irritada por ter que estar participando de algo que nem era problema seu, afinal, não foi ela que prometeu dar um jeito nos grandões de Baldwin. Os dois a olharam, a repreendendo por ser tão pessimista.

-Tem que ter, sempre tem. Agora, abre a porta. –ordenou Jesse. Bufando, Sherri tirou um arame do bolso do pijama, se colocando em frente à maçaneta iluminada pela lanterna de John, trabalhando concentrada.

-Não sei o que eu tinha na cabeça quando contei pra vocês que eu sei abrir portas. – e um clique foi ouvido, Sherri girou a maçaneta e a porta se abriu, permitindo que Jesse e John entrassem empolgados. –Nem quando eu topei abrir isso pra vocês. –resmungou ela entrando atrás, fechando a porta em seguida.

Jesse estava em um banquinho, de pé, mexendo no armário com a lanterna ligada, procurando o vidro de laxante para seu plano. John ajudava, de pé procurando em outro armário, e Sherri tomou a liberdade de se sentar na maca do casebre, que tinha apenas dois cômodos: uma salinha que havia sido transformada em enfermaria e um banheiro pequeno.

-Não to achando... –murmurou Jesse.

-Procura direito, todo acampamento tem mesmo um vidro de laxante na enfermaria. –ironizou Sherri. Jesse não se abalou.

-Claro, porque eles não podem simplesmente espremer uma criança até que ela faça cocô. –respondeu.

-Não vamos entrar no assunto do cocô, né? –perguntou John de onde estava, preocupado. Sherri riu, se ajeitando na maca.

-Que assunto? –perguntou cheia de curiosidade. Jesse a olhou rindo.

-O John acha que nunca fez cocô na calça. –riu mais, enquanto John se enfiava dentro do armário.

-Ué, eu também nunca fiz. –Sherri franziu a testa e Jesse parou de rir.

-Achei! –exclamou John tirando a cabeça de dentro do armário, sorrindo empolgado. –Tá cheio.

John viu claramente quando os DuPree se aproximaram cantarolando sorridentes da mesa da Equipe Vermelha, assistiu Garron se sentando à mesa com Weston, enquanto Chauntelle fazia gestos exagerados para chamar a atenção dos meninos à mesa, que não pareciam interessados em nada do que os DuPree falavam ou faziam, no entanto estavam distraídos.

O bastante para que Sherri jogasse um pouco do laxante na jarra de vitamina deles.

John riu, levando um cutucão de Jesse, que tentava fingir estar interado na conversa de Brian e Will, mas de soslaio observava o mesmo que ele. Segundos depois que a vitamina recebeu o laxante, os DuPree foram de volta para suas mesas.

-Plano A, completo. –disse Jesse sorrindo para John sentado à sua frente.

-Não vão culpar os DuPree? –perguntou confuso. Jesse abriu a boca, mas achou melhor não pensar nisso por enquanto. Não queria que os outros fossem culpados, e se isso acontecesse, assumiria a culpa.

Claro, com John junto.

Se um ia se dar mal, o outro iria junto, era óbvio. Eram melhores amigos, e melhores amigos eram pra sempre, pra todos os momentos, até os momentos em que os dois poderiam acabar bem ferrados com o monitor nazista do acampamento.

Não que eles soubessem o que “nazista” significava, mas ouviam falar por aí e pelo jeito não era algo muito legal.

-Vitamina. –exclamou Bill batendo a jarra em cima da mesa da Equipe Verde, justamente no momento em que Chauntelle começava a se sentar.

-Ah, não, obrigado. – disse Jesse tentando se manter frio ao perceber que a jarra da Equipe Vermelha não estava lá. John se encolheu um pouco, evitando olhar Bill.

Estavam tão ferrados...

-Eu não estou perguntando, Lacey. –disse Bill, firme. –Eu estou mandando tomarem, estão uns fracotes, todos vocês.

Jesse engoliu em seco, fitando John enquanto Bill servia os outros, inclusive Chauntelle, que olhava apavorada pro copo. John podia sentir a mesa da equipe amarela os encarando como se fossem seguir a trilha pra guilhotina.

Na verdade estariam é seguindo o caminho do banheiro em alguns minutos.

-O John e eu não tomamos leite, Bill. – tentou Jesse com um sorriso meigo no rosto, forçando a expressão quando Bill – irritado – puxou seu copo e colocou vitamina até a metade.

-Tome. Tudo. –e com essa ordem deixou a mesa.

John segurava seu copo de vitamina um tanto quanto apavorado.

Sabia que no dia em que lhe pediram um lápis na sala de aula ele deveria ter ignorado, ou ter saído correndo... ah, se pudesse voltar no tempo...

A música era ensurdecedora na sala, mas na cozinha nem tanto, podia até ouvir seus amigos, que o estavam circulando, falando ao mesmo tempo, rindo e gesticulando.

-Caras... calma. –disse. Calma. Era uma palavra que no momento fazia bastante sentido na teoria, mas na prática ele não conseguia saber bem o significado. Suas pernas tremiam, e sua respiração estava acelerada enquanto os outros falavam, e ele tentava prestar atenção.

-Vai devagar, sempre devagar no começo, Jesse, mas só no começo. –alertou Brian rindo.

-E use isso. –Garrett o entregou um pacotinho plástico coloridinho, que Jesse pegou rápido de suas mãos e enfiou no bolso, olhando ao redor, preocupado se mais alguém havia visto. Pelo jeito não, estavam todos mais ocupados ficando bêbados.

O fato era que estavam em uma festa, na casa de alguém que conhecia um amigo de Vinnie, que chamou todo o resto, e que Jesse não tinha idéia de quem era, nem de como a chave do quarto dos pais do garoto foi parar nas mãos de John, que a colocou no bolso traseiro de Jesse naquele instante, se encostando ao seu lado com uma latinha de cerveja na mão.

-Pronto? –perguntou sorrindo, já bem alterado pelo álcool. –Ela está no quarto, te esperando.

-Eu... eu não sei se eu quero fazer isso. –Confessou Jesse, inseguro. John era o único que o entenderia.

-Oi? É claro que quer! –exclamou John. –Você não pode ter dezesseis anos e ser virgem!

-Eu não sou mais virgem, eu já li “O Apanhador No Campo De Centeio”! –sorriu. Bom, pelo menos não era um virgem literário. John riu, o único que entendeu e riu da piada.

-Seu dork, vai logo! –Shaun o empurrou para fora da roda de meninos. Com um último olhar de súplica para os outros, ele saiu da cozinha.

-Ele vai mesmo ficar bem, John? –perguntou Will. John deu um gole na cerveja, pensativo, e depois assentiu.

-Vai sim. Ele é o Jesse, ele sabe como agir.

Assim que entrou no quarto sua mão alcançou para o interruptor, mas outra mão cobriu a sua, o impedindo de acender a luz.

-Oi Jesse. –a voz feminina disse, segurando a sua mão –suada e fria e trêmula – e o puxando até a cama. Jesse não sabia muita coisa sobre a mulher com quem estava, só que a chamavam de Jane, que era uma garota de programa, e que devia ter no mínimo uns dez anos a mais que ele. –Está nervoso?

Ela sabia que ele estava nervoso, e ele sabia que ele estava nervoso. Na verdade, ele gostaria de conversar um pouco antes, e não que ela já fosse colocando as mãos dentro de sua calça com estava fazendo, e também não queria que ela começasse a morder e beijar seu pescoço em uma tentativa de o excitar para terminarem logo aquilo tudo.

-Jane... espera... –pediu ele, só para ter os lábios cobertos pelos dela com firmeza, tendo sua boca invadida pela língua daquela desconhecida que seus amigos pagaram para que tirasse sua virgindade.

Afastou o rosto do dela, e foi jogado na cama, e teria levantado se ela não estivesse sentada em cima dele, uma perna de cada lado do seu quadril, a blusa justa que ela usava sendo jogada – por ela mesma – para o outro lado do quarto, enquanto Jesse observava, aterrorizado, ela tirando o sutiã.

Ele não conseguia se mexer.

Não conseguia tirar as mãos dos lados do corpo, e não conseguia soltar o lençol.

E não conseguia se excitar.

Jane se inclinou, voltando a beijar e morder, e lamber seu pescoço, abrindo botão por botão de sua camisa.

-Sabe, você é bem bonitinho perto dos outros meninos pra quem já fiz isso... –ela murmurou em seu ouvido, tentando parecer sedutora.

-É, eu sei. –respondeu incerto. Ela riu, divertida, e o beijou novamente. Tentando não parecer um boneco inflável, Jesse começou a corresponder, levando a mão para a nuca dela, a beijando calmamente.

Estava começando a ganhar o controle da situação, e até a gostar de estar com uma mulher semi-nua em cima dele, até que Jane começou a descer os lábios pelo seu peito, seu abdômen, sua cintura, sua virilha...

John descartou a terceira lata de cerveja, já vendo as coisas um pouco tortas, as pessoas um pouco estranhas e a música um pouco distante, mesmo que na sala tudo parecesse ensurdecedor.

-Nosso amigo, a essa hora, deve ser um ex-virgem. –comentou Vinnie entregando outra cerveja para John, que aceitou.

-Eu quero que ele volte logo e conte como foi! –exclamou John. Continuaria a frase que começou, mas um grito vindo do alto da escada chamou atenção de pelo menos 80% das pessoas presentes na sala naquele instante. O DJ parou a música, e os olhos todos se voltaram para um garoto pequeno, de cabelo bagunçado, descendo as escadas correndo e gritando, muito.

-Aquilo foi o Jesse? –perguntou Vinnie. John assentiu.

-Foi... foi sim. –olharam para o alto da escada no mesmo instante, onde Jane se encontrava enrolada em um lençol, perplexa. –Eu vou ver o que aconteceu com ele. –John disse, largando a latinha ainda fechada na mão de Vinnie, e saindo, tonto, para procurar seu melhor amigo.

-Eu vou vomitar. –resmungou John, abraçando o próprio corpinho enquanto caminhava com Jesse na direção da quadra.

-Antes vomitar do que não sair do banheiro. Aliás, onde é que fica o mais próximo? – perguntou quase chorando. Provavelmente não agüentaria se segurar por muito tempo. Não conseguia acreditar que um plano tão bom havia dado tão errado. O pior era que eles não eram os únicos daquele jeito: pelo visto o que tomaram foi o que sobrou da mesa da Equipe Vermelha.

-O banheiro é... –John parou de falar quando o novato da Equipe Vermelha passou correndo por eles. -... pra onde ele ta indo.

-Eu acho muito válido nós irmos atrás, senão vamos ter que enfrentar uma bela... –Jesse parou de falar quando Mark correu, fazendo o mesmo caminho que Adam. -...fila. –completou, encarando John. –Eu realmente vou precisar ir ao banheiro.

-Tomara que dê tempo! –correu na direção dos outros dois, sendo seguido por Jesse.