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-Quem pegou o laxante? – perguntou Moe, cara fechada, mãos na cintura. Kath segurava nas mãos o pote vazio de laxante, encontrado no canteiro da janela do refeitório. Era quase noite, e as atividades haviam sido suspensas por conta da diarréia generalizada no acampamento. John podia ver pequenos pontos brilhantes pela janela, começando a despontar no céu, enquanto eles estavam presos – todos – no salão de festas, sentados, sendo interrogados. Shaun, sentado na cadeira bem à frente de John ergueu o bracinho roliço.

-Sim, Cooper? –disse Kath, notando a criança.

-O que acontece se não encontrarem o culpado? –perguntou abaixando o bracinho. Ah, ele sabia quem eram os culpados e não estava muito feliz com isso.

-Bom, nós vamos encontrar o culpado porque ficaremos aqui a noite todinha se for preciso, criança. –foi Bill quem se deu ao trabalho de responder, enquanto Jack soltava risinhos abafados atrás deles. –E isso não tem graça, Jack.

-Achei espirituoso da parte de quem fez. Como vamos punir o culpado? –perguntou.

-A equipe de quem fez isso perderá alguns pontos. –disse Kath os olhando, e depois voltando a fitar as crianças. –Mais uma vez: quem foi?

Vinnie se inclinou pro lado de Jesse – estava sentado à sua esquerda — a boina cobrindo parte do rosto.

-Você vai se entregar? –murmurou. John podia ouvir tudo, sentado ao lado direito de Jesse. O loirinho riu baixo, e voltou os olhos azuis para John, sorrindo seguro:

-Vou. – se inclinou, falando baixo no ouvido de John. –E você e a Sherri, não falem nada.

John teria replicado que isso não era justo, que estava junto e que iria se entregar também, e que a Sherri deveria ir junto, mas antes que dissesse tudo isso, Jesse se levantou, exclamando em alto e bom som:

-Fui eu!

Todos os olhares do cômodo se voltaram para ele, alguns com raiva, outros admirados, alguns até divertidos, e Bill parecia estar querendo cravar um buraco na cabeça do pequeno. John procurou Sherri com os olhos, a encontrando do outro lado com suas irmãs, o olhando chocada. Rapidamente, fez sinal para que ela ficasse em silêncio e não se entregasse.

Afinal, ela foi só um instrumento que eles usaram.

-Lacey, eu estou realmente decep --...-Bill foi interrompido quando ao lado de Jesse, um outro menino, de cabelos castanhos, se levantou.

-Eu estava junto. –exclamou ele, para todos os outros, sentindo o olhar surpreso de Jesse em cima dele.

Bill soltou um longo suspiro.

-Lacey e Nolan, venham comigo.

Enterrou o pé em mais uma poça que começava a se formar nas calçadas, gritando – não porque achava divertido – enquanto corria, tentando se proteger a todo custo das gotas pesadas que caíam em cima dele. Não estava vendo graça algumas na situação, ao contrário de seu melhor amigos, que só não estava cantando “Singing In The Rain” porque provavelmente não havia lembrado disso ainda. Ainda! Mas, correndo na sua frente, Jesse se pendurava e girava em postes, ria e deixava a chuva gelada da primavera cair sobre ele, se divertindo bastante com tudo aquilo.

John não estava gostando.

Definitivamente.

-Vem John! –gritou parado à sua frente, apontando para um beco. –Tem um lugar coberto ali. – nem terminou de falar, correu para a coberta, se encostando à uma porta. Era um puxadinho de concreto, que cobria dois degraus de uma escadinha de uma porta. Em cada lado da escadinha havia um vazo branco com boca-de-leão rosa e branca. A porta era de um verde escuro desgastado, e era a entrada de um pequeno prédio residencial. John chegou pouco depois, parando na frente de Jesse, irritado com as gotinhas que caíam de seu cabelo em seu rosto.

-Nossa, que bom que você achou esse lugar! Eu teria ficado ensopado. –sarcasmo e John Nolan nunca andavam separados. Jesse riu, vendo seu amigo tirar os óculos cheios de gotas d’água, os limpando com a manga da jaqueta para os posicionar sobre o nariz novamente.

-Não seja mal agradecido. –retrucou, vendo que as costas de John ainda estavam sendo atingidas pela chuva forte. Esticou os braços, o puxando pela cintura para perto de si, ignorando os protestos de John sobre ele estar molhado. A chuva não parecia querer ir embora logo, e em breve o céu cinzento ficaria escuro.

John deitou a cabeça no ombro de Jesse, deixando as mãos “descansar” em volta da cintura do mais baixo – que agora estava da sua altura por estar em um degrau mais alto.

O silêncio entre os dois era confortável, e John estava achando entretenimento em ver as gotinhas de água descer pelos cachos claros do cabelo de Jesse, escorrendo pela pele alva, deslizando até seu maxilar para cair perdida entre os corpos dos dois. John se ajeitou melhor em Jesse, que ajustou os braços na cintura do moreno, colando mais seus corpos. Outra gotinha veio caindo pelo cachinho, descendo devagar pela linha do maxilar de Jesse, e dessa vez John não a deixou cair entre seus corpos. Ergueu um pouco o rosto, tirando uma das mãos da cintura de Jesse, limpando do rosto angelical de seu amigo a gotinha que quase havia despencado entre eles novamente. Jesse virou o rosto em sua direção, surpreso com o toque, e sorriu, o puxando – como se fosse possível – para mais perto ainda. Ainda com um sorriso, Jesse aproximou o rosto do de John, apoiando sua testa na dele.

-Oi, J.No. –disse baixinho. John riu fraco, sem se afastar.

-Oi, J.La. –respondeu, fechando os olhos assim que os lábios de Jesse cobriram os seus, se movimentando sobre eles devagar. Jesse deslizou a pontinha da língua sobre o lábio inferior do outro, trocando os dois de posição, o pressionando contra a porta enquanto sua língua massageava a dele, e suas mãos tocavam a pele quente do abdômen do rapaz.

-John... a chuva passou. –a voz aveludada murmurou em ouvido. John abriu os olhos, vendo a camisa branca de Jesse na sua frente, ao invés dos olhos azuis. E não estava em pé, estava sentado entre as pernas de Jesse, que o abraçava, o protegendo da chuva. Se sentou direito, ajeitando o óculos no rosto, tentando se lembrar do que havia acontecido. Ah, claro!

Jesse cansou de ficar em pé, porque a chuva estava demorando a passar, e se sentaram abraçados pela falta da espaço na escadinha seca, e Jesse encarnou o Gene Kelly, cantando “Singing In The Rain”, e John acabou pegando no sono.

Sem beijo.

Aliás, que merda de sonho havia sido aquele?

-John, vamos! –riu Jesse já de pé no meio do beco escuro: como previu, havia anoitecido.

-Vamos. –disse se levantando entre bocejos, seguindo seu amigo. Havia sido um sonho bem realista.

Isso era ruim, muito ruim. Ele não era gay, nem Jesse.

Aliás, Jesse se casaria em menos de duas semanas, e ele estava noivo.

Andaram por mais ou menos dois quarteirões, quando alguns pingos d’água acharam seu caminho até a cabeça de John.

-Ah não... –resmungou diminuindo o passo. Jesse olhou para o alto, e riu quando a chuva despencou sobre ele. –Mas que merda! –gritou John parado no meio da rua, vendo Jesse gargalhar.

-Vem, John! ”I’m singin’ in the rain, just singin’ in the rain! What a glorious feeling I’m happy again. I’m laughing at clouds, so dark up above. The sun’s in my heart and I’m ready for love!” -ele exclamava pulando em poças e se pendurando em postes. John só caminhava, já havia desistido de chegar seco na casa de sua noiva e da futura esposa de Jesse.

Era um babaca mesmo.

E que tipo de sonho havia sido aquele?

A última noite no acampamento estava sendo um inferno. Apesar da perda de pontos, a Equipe Verde acabou na final de baseball com a Equipe Vermelha, o que não poderia ter deixado Bill mais orgulhoso. E insuportável.

O jogo começaria logo após o intervalo do jantar, onde todos deveriam ir para o alojamento colocar o uniforme e os equipamentos de baseball. Nem a Equipe Azul nem a Equipe Amarela estavam muito preocupados em comer logo, deixando o intervalo livro para as outras equipes se arrumar, mesmo porque queria pegar os melhores lugares na arquibancada.

-Nós temos que ganhar daqueles idiotas. Murmurou Shaun, olhando de soslaio a Equipe Vermelha se aprontando. Eles resmungavam o tempo todo, e olhavam feio a Equipe Verde.

-Chegamos até aqui, não chegamos? –revidou Vinnie.

-O que não é grande coisa, já chegamos na final antes, lembra? – relembrou Will. –E perdemos.

-E vão perder de novo. –soou uma voz aguda ao lado dele, e o pequeno Rubano sorria para eles, inocente, enquanto os outros da Equipe Vermelha se aproximavam. –Quem vai ser o batedor de vocês? –perguntou apoiando o taco sobre o ombro pequeno.

-O Jesse. –respondeu John, os olhando feio.

-Oh... –exclamou Adam rindo. –Que coisa.

A Equipe Vermelha toda riu, confidente, e saíam do alojamento sem dizer mais nada.

-Qual é o problema deles? –perguntou Vinnie terminando de se calçar.

Saíram do alojamento logo depois carregando os tacos de baseball, os equipamentos e rindo despreocupados com o que seria do jogo.

-Hey, Lacey. –alguém chamou. Matt Rubano estava encostado na parede do alojamento, mãozinhas nos bolsos, sorrindo meigo. Jesse o encarou por um momento, e depois se virou para os outros. –Eu só queria dar uma palavrinha com você.

-Vão indo, eu já chego lá. –disse Jesse sorrindo seguro para eles, se afastando na direção do menor. Matt, estranhamente, continuava sorrindo enquanto ele se aproximava. –Fala. –ordenou Jesse.

-Eu estava pensando... você não me parece ser um idiota como o Cooper, então que tal resolvermos o resultado desse jogo de modo amigável? –perguntou cruzando os bracinhos.

-Como assim, Rubano? –perguntou Jesse.

-Oras, você erra as bolas, nós ganhamos e fica tudo bem. Ninguém se machuca. –respondeu erguendo os braços de modo comemorativo.

Jesse quase não acreditava que estava ouvindo aquilo. Mesmo.

-Você é louco? Eu não vou fazer isso. –respondeu Jesse.

-Certeza? –perguntou Rubano.

-Absoluta. –revidou Jesse, sem perder tempo, girou nos calcanhares, voltando a andar na direção do campo de baseball. Escutou alguns passos atrás dele, se virando para encontrar Ed, Adam, Mark e Matt o encarando.

-Uma pena, Lacey. Uma pena... – disse Adam parando ao lado de Matt, vendo Ed o segurar pelos braços enquanto Mark o amordaçava.

-Eu realmente odeio fazer isso. –disse Matt indo na direção dele com rapidez, lhe dando um soco no estômago. Mark segurou um dos braços dele, o apoiando para que ficasse em pé, deixando que Ed fizesse o mesmo com o outro lado. Jesse sentiu as pernas amolecerem quando Matt dobrou a perna, colidindo o joelho contra sua costela. Matt e Ed o puxaram pelos braços para o colocar de pé novamente. Adam olhava ao redor, atento para a presença de qualquer adulto que pudesse estragar os planos deles, assistindo de vez em quando, quando ouvia Jesse tentando gritar atrás da mordaça, sendo covardemente espancado por Matt.

Viu o exato momento que Matt deixou de piedade e começou a acertar socos no rosto do loiro, acertando seus olhos, nariz e boca, deixando que um pouco de sangue manchasse a mordaça branca.

-Matt, acho que já chega. –disse Mark arrancando a mordaça de Jesse, o soltando ao mesmo tempo em que Ed, vendo o corpo pequeno se estatelar na grama, tossindo.

Jesse se ajoelhou, segurando o estômago, sentindo o sangue e o ardido do lábio cortado com a ponta da língua, tentando voltar a respirar normalmente. Matt se abaixou ao seu lado, apoiando a mão em seu ombro, falando baixinho:

-Conta quem te fez isso, e o Nolan recebe o triplo do que você recebeu. –se levantou e saiu na direção do campo com os outros três. –Te vejo no jogo, Lacey. –e olhou para os outros rindo. –Se você agüentar segurar o taco...

Jesse entrou no campo, irritado, tomando o taco de baseball nas mãos, ignorando a nos braços e nos lados do corpo. Não deixaria que ganhassem, tinha seu orgulho, e não deixaria que um bando de maus perdedores o ferissem.

-O que aconteceu com a sua cara? –perguntou Chauntelle vindo ao seu encontro.

-Nada. Vai pra sua posição. –sorriu ele fraco. Chauntelle continuou o olhando.

-Eles te bateram, não é? Por isso que se atrasou... –disse ela.

-Não, eu caí, eles me ajudaram. –riu Jesse. –Vai pro seu lugar, eu to bem.

Chauntelle abaixou a cabeça, correndo para a sua posição. Jesse sabia que havia um par de olhos castanhos fixos nele, mas não faria contato visual com John, não agora. O explicaria tudo pela manhã, quando voltassem pra casa.

O placar do jogo abriu com a pontuação boa para a Equipe Vermelha, já que Jesse errou uma bola: não conseguia erguer muito os bracinhos machucados por terem sido forçados para que ele ficasse de pé. Quando acertou uma, não conseguiu correr muito rápido para as bases, doía quando respirava. No entanto, Adam tropeçou nos próprios pés algumas vezes, perdendo algumas jogadas, chegando tarde demais em algumas bases, deixando o placar aumentar para a Equipe Verde, até que Kath apitou o final do jogo.

A festa no acampamento foi geral. Ninguém parecia estar incomodado com a vitória de uma Equipe que não era a Vermelha. Já os integrantes de dita equipe não se manifestaram enquanto os outros comemoravam.

Havia um bolo comemorativo no salão de festas, para onde todos foram levados.

Jesse estava sentado na arquibancada, o boné da equipe em mãos, o olhar triste, perdido por algum lugar do escuro do campo. Sentiu a madeira da arquibancada arquear, e um braço envolver delicadamente seus ombros doloridos.

-Foi um bom jogo. –John murmurou. –Apesar do que eles te fizeram.

-Eu sei. –respondeu Jesse, suspirando. –Dói tudo.

-Eu sei. –respondeu John. –Eu posso pedir gelo pro Bill.

-Eles não podem saber que mais alguém sabe, John. Amanhã já estarei melhor. –sorriu assegurando John disso. Ergueu a cabeça, olhando o céu estrelado, muito mais estrelado do que em Levittown ou Montauk Point – o fim de Long Island – pela falta total de poluição. John também ergueu o rosto, observando o céu. O silêncio era compreensivo.

Jesse sentia dor.

John se sentia estúpido por não ter estado lá.

No alto, de repente, despontou um pequeno brilho, mais forte que as estrelas. Ambos fitaram atentos enquanto, sem aviso algum, o brilho passou rápido cortando o céu, deixando um rastro bonito no azul escuro.

-Era uma estrela cadente...-sussurrou John. Jesse assentiu.

-É é muito difícil ver uma, a mamãe diz. É a primeira que vejo. –olhou John – Fez um pedido?

John assentiu rápido.

-Espero que eu tenha feito o pedido certo. Pode ser que eu nunca mais veja uma. –disse. Jesse abriu um sorriso largo, mesmo tendo os lábios cortados e doloridos, ignorava a dor.

-John, só as crianças sabem o que elas querem.* -disse simplesmente. John assentiu, impressionado como Jesse sabia onde colocar os pequenos trechos do seu livro favorito.

-Então acho que eu fiz um bom pedido. –sorriu. –Vamos comer bolo! –convidou. Jesse assentiu, se levantando com a ajuda de John, descendo da arquibancada, com ele seguindo até o salão de festas.

Notas finais
*frase de O Pequeno Príncipe, óbvio.