O alojamento não era grande, não era bem iluminado, e não era confortável. John estava muito feliz que não dormiria mais de três noites no colchão duro, e estava feliz que a cama de Jesse era logo acima da sua, e que ao seu lado não tinha ninguém da Equipe Vermelha. Para alívio de todos da equipe verde, o responsável pelo alojamento deles era Moe, e não Bill. E Moe era engraçado, e tinha um livro enorme de contos típicos da região, com histórias de terror e lendas de Halloween.

Ninguém sabia se o livro era bom, nas primeiras duas páginas que Moe leu, todos pegaram no sono, o cansaço tomando conta dos corpinhos pequenos.

Não parecia que haviam dormido quando a sirene tocou despertando todos de uma vez, assustados, alguns – Fred – caindo do beliche com o susto. O ritual da manhã era mais ou menos sincronizado: acordar, arrumar a cama, escovar os dentes, colocar uma roupa confortável e correr para a quadra. Lá ficavam pelo menos meia hora cantando e relembrando as regras do acampamento, e depois, só depois é que podiam tomar o café da manhã e tirar meia hora de descanso.

John estava começando a acreditar na teoria de Sherri de que se não ficasse parado não sentiria o cansaço, porque era exatamente o que pareciam fazer: não os deixar parar para não perceberem o quanto estavam quebrados do dia anterior.

-...e à noite teremos outro jogo do campeonato de baseball! –anunciou Jack sendo aplaudido por todo o refeitório, menos Vinnie, que dormia debaixo de sua boina.

-Isso é tentativa de assassinato. –resmungou Will olhando os monitores felizes lá na frente.

-No meu caso e o do John, é tentativa de suicídio mesmo. –suspirou Jesse tomando seu suco, com o prato vazio.

-Não vai comer nada, Jesse? –perguntou Cooper apontando o prato vazio. O garotinho apenas sacudiu a cabeça negativamente.

-Ele é vegetariano, e tudo aqui tem carne. –respondeu John.

-Tem ovo... –exclamou Shaun erguendo o bracinho, levando um peteleco na cabeça de seu irmão.

-Duh! Ovo igual a pintinho, e pintinho igual uma futura galinha ou galo, idiota!

-Mas por que não come carne? –perguntou Will o olhando estranho. Jesse sorriu, pronto para repetir o discurso de sua mãe:

-Você não come seu cachorro, ou seu gato, ou o peixe que está no seu aquário, então por que comer uma vaca, uma galinha ou um porco? Não é porque eles não estão na sua sala de estar, na sua estante ou ronronando no seu sofá que você tem o direito de os comer.

Os outros se entreolharam, e John sorriu orgulhoso. Jesse o havia convencido a não comer mais carne há muito tempo, ele só precisava da coragem para parar.

-Eu acho que eu quero mais suco. –pediu Brian.

John e Jesse saíram assim que acabaram de comer, para aproveitar melhor os seus trinta minutos de liberdade. Estavam andando em silêncio na direção oposta ao refeitório, pra ver se conseguiam um pouco de paz antes do dia infernal que eles imaginavam que teriam, ouvindo ficar longe as vozes de Weston e Garron (mais DuPree) cantando para Sherri pular corda. Dobraram para trás do refeitório, e estacaram no lugar: Rubano e Lazzara estavam sentados ali, de costas para eles, conversando pacificamente. Sem combinar os dois se esconderam, observando o que eles faziam.

Rubano gesticulava enquanto falava, e Lazzara apenas o olhava, sorrindo, atento a cada movimento, comendo calmamente seu sanduíche.

-Hoje provavelmente vai ter brincadeira noturna depois da janta, antes do jogo. –contou Rubano abraçando as pernas com um bracinho, arrancando grama com a mão livre. –É divertido, alguém sempre cai do barranco. –riu. O outro riu junto, achando divertido.

-Você já caiu? –perguntou ele mordendo o sanduíche. Rubano coçou a cabeça, rindo.

-Umas duas vezes. Uma vez arrastei o Eddie comigo, e ele acabou em cima de mim. –gargalhou junto com Lazzara.

-Deve ter machucado. –comentou o mais novo.

-Machucou sim. Aliás, como você está? –perguntou erguendo a franja do cabelo do mais novinho, enquanto ele erguia os ombros.

-Tá doendo bastante quando encosta. –comentou tristonho. Rubano suspirou, sacudindo a cabeça, parecendo envergonhado.

-Eu não queria te machucar, mas eles acham que eu sei bater.

-E não sabe? –perguntou Adam chocado.

-Não sei. Eu só usei o que eu sabia pra me defender quando o Mark tentou me bater uma vez, e acabei deixando ele no chão. Então me adotaram como o cara da equipe que soca quem for preciso. –encolheu os ombros falando simplesmente. Lazzara o fitou, terminando o sanduíche e se colocando de pé.

-Me ensina? –pediu. Rubano o olhou e riu.

-O que? –perguntou se fazendo de bobo.

-A me defender. Eu vivo apanhando... me ensina a me defender. –mais ordenou do que pediu, e com um meio sorriso Rubano se levantou.

-Eu vou te ensinar o básico...

Desligou o carro, ergueu os braços, se espreguiçando no banco do motorista, sorrindo abertamente enquanto emitia sons de prazer ao finalmente esticar os músculos cansados, ignorando a sua companhia.

-Você podia parecer menos um gato se esticando se não fizesse esses ruídos. –implicou a garota loira no banco do passageiro.

-Pelo menos ele está acordado! –riu Chauntelle no banco de trás, tentando enfiar um cadarço na boca de John que dormia pesado ao seu lado. Sherri se virou para trás, observando a irmã, rindo baixo.

-Ah, gente, qual é, tô com sono. –murmurou Jesse se virando pra trás também. –E ele também. –sorriu ao observar John dormindo. Parecia tão pacífico, tão calmo, tão preso em seus sonhos... merecia acordar.

-Tenta enfiar alguma coisa na orelha dele. –sugeriu Sherri observando atentamente o que Chauntelle fazia.

-Por que simplesmente não grita no ouvido dele? –sugeriu Jesse. –Traidor, ta dormindo super bem e eu tendo que dirigir.

-E eu tendo que te agüentar. –respondeu Sherri. Jesse a olhou torto.

-Me fala, por que foi mesmo que eu topei te levar junto? –perguntou irônico. Chauntelle ergueu o braço empolgada:

-Eu sei, eu sei, eu sei, Jesse! Porque se ela não fosse eu não podia ir, foi a condição da mamãe. –disse esquecendo temporariamente o amigo dorminhoco.

-Ah, é. Me lembre de mandar uma granada de presente pra ela no Natal. –respondeu Jesse girando os olhos. Sherri riu com desdém.

-Até onde eu sei você adorou o passeio no zoológico comigo enquanto o John e Chauntelle ficavam tentando empurrar o Vinnie pra dentro da jaula dos macacos.

Jesse a olhou, fingindo um sorriso feliz.

-Claro, conheci o resto da sua família, as antas!

-Oi, eu sou irmã dela! –protestou Chauntelle começando a se sentir ofendida com o rumo que o papo dos dois estava tomando. Era incrível como não conseguiam ficar nem vinte minutos sem trocar um insulto.

Até que a viagem de volta havia sido calma...

-Você deve ser adotada, ‘Telle. –sorriu Jesse meigo.

-Engraçadinho. –revidou Sherri antes que Chauntelle pudesse responder qualquer coisa. –Ainda tem água?

-Acho que tem um pouco, quer? –respondeu Jesse. Sherri assentiu.

-Vamos jogar nele! –riu maldosa, enquanto Jesse e Chauntelle concordavam com a cabeça.

-Eu to ouvindo tudo. –disse John de repente, sem abrir os olhos.

-Ah, que sem graça! –exclamou Chauntelle virando um tapa na cabeça de John, que abriu os olhos naquele instante, reclamando sobre como ela era grossa feito um garoto.

Jesse deu um salto, conseguindo escapar do galho seco que Mark jogou no chão, bem perto de seus pé, passando o bastão para Chauntelle, a pequena loirinha que corria desesperada, para passar o bastão para Vinnie.

Eram a pior equipe, fato.

Estavam tão atrás que a vontade que Jesse tinha era de sentar no meio da pista e ficar olhando, e rindo. E foi o que fez, eram tão patéticos.

-Se continuarmos assim, não precisaremos nos preocupar em apanhar da Equipe Vermelha, mas vamos apanhar do Bill. –disse John de pé ao seu lado, e Jesse disparou a rir. –Jesse, não é engraçado.

-É sim! –olhou John –Nem se conseguirmos sabotar a Equipe Vermelha vamos ganhar! E foi só pra isso que viemos aqui!

John o olhou, pensativo. Realmente, só foram lá para isso, foi só por isso que Shaun conseguiu os manter longe da diretoria, só pra que eles pudessem fazer a própria equipe ganhar, e o que estavam fazendo a respeito?

Olhando e rindo da situação.

-Jesse, temos que começar a fazer alguma coisa. –disse vendo a Equipe Azul ganhar. Jesse o fitou, e de repente o sorriso de sarro se tornou um sorriso sapeca.

-Eu tenho um monte de idéias, mas precisamos agir agora que todo mundo está distraído. –murmurou.

-Então... –começou John, mas Bill acenou para que eles se juntassem ao grupo. –Então vamos deixar isso pra depois.

-Depois? –perguntou Jesse se colocando de pé e seguindo com John para perto dos outros.

John assentiu.

-De madrugada. –murmurou antes de fazer a pose de sentido que Bill exigia deles. Provavelmente levariam outra bronca por serem tão ruins, era o que acontecia todo o dia depois de todas as brincadeiras.

Um saco.

Talvez fossem precisar de ajuda para fazer o que Jesse tinha em mente, e por algum motivo ele já sabia exatamente quem ele deveria chamar. Sorriu consigo mesmo, afinal, só havia uma pessoa que poderia os ajudar a se livrar dos meninos grandes...