Notas iniciais
Comentários são bem-vindos óò
Os pezinhos balançavam soltos no ar da muretinha que dava para o refeitório. Olhinhos azuis passavam por toda a multidão, procurando a sua vítima, o resto da maçã em mãos, e um sorriso comprimido nos lábios finos, umedecidos de suco de uva.

-Isso não vai dar certo. –comentou o menino ao seu lado, de cabelos e olhos castanhos, segurando a caixinha de suco vazia em uma mão, olhando apreensivo na mesma direção que seu amigo.

-Você é tão pessimista. Eu sou um gênio, Johnny! –sorriu pra si mesmo, e erguendo o bracinho magro, arremessou o resto da maçã. John viu a cena em câmera lenta: o resto de maçã voando, passando por cima dos alunos e indo parar bem em cima da cabeça de Shaun Cooper.

Estavam tão encrencados, tão encrencados que ele não queria nem pensar no assunto.

Shaun os olhou emburrado, pronto pra quebrar o nariz bonitinho de Jesse, e então Jesse acenou para ele, saltou da muretinha e começou a correr, arrastando John pela mão.

-Você é louco! Ele vai matar nós dois! –exclamou John, mas Jesse apenas riu.

-Ele não é louco de fazer isso. –saíram para o playground, e Jesse soltou a mão de John, subindo em um dos balanços – não o escrito porque aquele era de John – e de pé segurava as duas correntes que prendiam a tábua. John se jogou sentado em seu balanço, sabia que Shaun os pegaria de jeito ali.

Jesse tinha que estar louco.

Maldito Pequeno Príncipe.

Não demorou pra que Shaun Cooper surgisse na porta, irritado, querendo mesmo bater nos dois, os punhos cerrados e cara de poucos amigos.

-Lacey e Nolan, o casal feliz quer apanhar... –disse enquanto se aproximava, ao que Jesse adquiriu aquela expressão séria que assumia de vez em quando. John odiava a rapidez com que ele mudava de humor.

-Shaun, como é o acampamento de Halloween? –Jesse perguntou, se mexendo no balanço, em pé mesmo. Shaun parou de andar, pego de surpresa pela pergunta inocente do garotinho. Coçou a cabeça e olhou em volta, depois para John – que fez sinal de que não estava entendendo – e voltou a olhar Jesse.

-É um acampamento normal, que dura quatro dias. Nós chegamos lá na sexta por volta da hora do almoço, e cantamos, e comemos, e vamos pro quarto. E ficamos o dia todo fazendo gincanas. E tem as gincanas noturnas. E tem a equipe de baseball, cada equipe forma a sua, e disputamos um campeonato nos quatro dias. Minha equipe sempre ganhava, mas agora tem uns meninos mais velhos que sempre acabam ganhando, porque se ganharmos deles, eles batem na gente. E bom, na noite de Halloween a gente tem um baile, e é muito legal. –sorriu nostálgico.

Jesse continuava sério, em silêncio. O único barulho era as correntes do balanço de John, rangendo com o vai-e-vem leve que ele estava fazendo.

-Nós queremos ir, Shaun. –Jesse disse sério. –Mas nossas mães fizeram um trato com a gente.

-Qual trato? –perguntou Shaun, curioso.

-Não podemos ir pra diretoria nas próximas duas semanas. –John respondeu, vendo que Jesse estava pensativo demais. Shaun começou a rir.

-Estão tirando com a minha cara, não é? –perguntou. –Eu vim aqui justamente pra dar um jeito de levar vocês pra lá...

-Então chegamos onde eu queria. –Jesse exclamou sorrindo com ar superior. –Você vai nos ajudar.

-O que eu ganho com isso? –perguntou Shaun, já se aproximando do balanço onde Jesse estava em pé.

-Nós podemos nos livrar dos meninos que bateriam em vocês se ganhassem o jogo de baseball. –sorriu, sem medo quando Shaun se abaixou, segurando a tábua do balanço.

-Ah, é? –sorriu maldoso. –Acho que não, hein. –E virou a tábua, fazendo Jesse cair na grama com uma exclamação de dor.

John não soube explicar como ou quando, mas no instante que Jesse caiu se colocou de pé, desferindo um soco certeiro no rosto de Shaun.

-Seu idiota! –gritou, fazendo mais crianças ao redor os olharem. –Ele não te fez nada!

-John, pára! –pediu Jesse se levantando e indo pro lado dele em seguida. –Shaun, pense bem, mandar nós dois pra diretoria não vai ajudar em nada.

Shaun segurava o rosto dolorido do soco que levou de John, os encarando. Estava com raiva, mas realmente, mandar os dois pra diretoria não seria uma vingança decente.

-Então, são duas semanas sem ir pra diretoria, e aí vocês fazem a South Shore ganhar a gincana no acampamento sem que os outros batam na gente? –perguntou encarando Jesse. O menor assentiu. Shaun tirou a mão do rosto, vendo John olhar confuso de um pra outro, e sorriu.

-Feito. –com isso saiu, os deixando ali.

-Você é louco? –um perguntou pro outro em uníssono, se olhando assustados. John ergueu a mão e começou a falar:

-Que tipo de trato é esse? Os meninos mais velhos do acampamento vão matar nós dois! –estava sim assustado. Já conseguia se ver chegando em casa cheio de esparadrapos.

-Vai dar tudo certo. Mas você quase colocou tudo a perder batendo nele, não devia! –disse Jesse esfregando o bracinho machucado do tombo. –E eu sei me defender.

John revirou os olhos, e o encarou.

-Duas semanas...

Puxou com força a mala de cima do armário, empolgado, pronto para guardar as coisas empilhadas em cima da cama e alcançar a estrada. Não via a hora de finalmente sair dali, ir embora, viver outra vez porque bem, nos últimos meses não era bem uma vida que andava tendo, não é? Quando a mala acertou o calchão molenga da cama de solteiro coberta de livros, roupas e cadernos, algo lá dentro fez barulho.

Ótimo.

Provavelmente havia um rato morto lá, que sairia fedendo a carniça assim que ele abrisse o fecho.

-Mas que inferno. –resmungou abrindo a mala de qualquer jeito.

O que encontrou lá não fedia, era menor que um rato – pelo menos menor que o rato que ele imaginou – e nem patas tinha. Era uma caixinha de plástico transparente, com uma fita K-7 dentro. Jesse franziu a testa, retirando receoso a fita de lá de dentro, a olhando com certa... culpa. Abriu a caixinha sem encarte, mas com um pedaço de folha de caderno amarelada enfiada onde deveria ficar a capinha, e retirou a fita, notando que por dentro ela estava meio mofada.

Acontece com fitas velhas.

Havia colada ao lado da fita uma etiqueta com um garrancho em tinta de caneta azul.

“Mix Tape”

Era sua fita K-7 de músicas. A fita que John fez para ele antes que se separassem em seus caminhos. Se sentou na cama, olhando a fita com carinho, meio nostálgico até. Não precisaria abrir o papel porque saberia dizer de cor e salteado tudo que estava escrito ali, quais eram as músicas e qual a ordem. Se lembrava de ter ouvido a fita por dias, semanas seguidas, até que por algum motivo que não lembrava qual era a jogou na mala, e guardou. Ainda hoje se ouvisse ”There’s A Light That Never Goes Out”, quando a música acabasse poderia ouvir em sua mente os primeiros acordes de ”I’ll Follow You” do Bowie.

Ainda assim pegou o papel amarelecido pelo tempo e seco e o abriu, vendo os garranchos de John, a tinta borrada, e o recado: ”will they ever believe us?”*

Sorriu consigo mesmo, fazendo uma nota mental de baixar todas as músicas da fita no iBook e gravar um CD para ouvir no caminho de volta pra casa, afinal, gostava desse tipo de recordação.

-“Just turn around and you know I’ll be waiting there...” –cantarolou jogando as roupas na mala aberta em cima da cama.

Os bracinhos pequenos jogaram a mochila no bagageiro do ônibus, e a perninhas compridas correram para dentro, seguindo seu melhor amigo, que agora estava sentado em um banco, o esperando ansioso para que começassem a longa viagem para o acampamento de halloween da escola. Estavam ansiosos pelo fato de poderem conhecer outras crianças e porque tinham uma missão: fazer a South Shore vencer o campeonato.

-Vai ser divertido ficar sem mãe quatro dias! –exclamou John se jogando ao lado de Jesse, sorrindo, deixando os pés balançarem no ar por não chegarem ao chão.

-Vai ser divertido ficar sem irmãos quatro dias! –corrigiu Jesse olhando pela janela e acenando para sua mãe – que estava sozinha por ter dado um jeito de se livrar dos outros dois e só não se livrara de Kerry porque ele ainda estava dentro de sua barriga. A Sra. Nolan estava ao lado dela, com a pequena Michelle no colo, acenando feliz e orgulhosa também.

John e Jesse retribuíam os acenos e sorrisos, falsos.

-Elas estão felizes em ficar sem a gente. –comentou John entre dentes.

-Devem estar comentando que só ficamos sem ir pra diretoria por interesse em ir pro acampamento. –respondeu Jesse se virando para frente quando o ônibus começou a andar. John seguiu seu exemplo, ficando sério em seguida.

-Com certeza. Mas vamos nos divertir, certo? –sorriu pegando um livro na mochila, abrindo e se colocando a ler.

Jesse o fitou alguns segundos, se depois se inclinou para o seu lado, lendo também.

A viagem foi calma, pacata até. A maior parte das crianças ficou ouvindo os monitores que foram no ônibus com eles falando sobre as regras, perigos e cuidados que deveriam ter no acampamento. Depois cantaram e fizeram brincadeiras, exceto Jesse e John, que ficaram entretidos com o livro na maior parte do tempo.

Assim que chegaram foram levados para um salão grande, onde os informaram do sinal de alarme que era o que marcaria o tempo, desde a hora que acordavam até a hora que iam dormir. E então aprenderam algumas músicas e foram pro refeitório, comer qualquer coisa para começarem as atividades e a distribuição de equipes.

Havia muito mais crianças e monitores do que Jesse e John imaginaram. Havia alguns professores que os acompanharam, outras escolas e crianças que falavam diferente deles. Ao que parecia estavam na turma dos mais novos, mas havia gente de até uns treze anos, que Shaun mais tarde os informou que era a equipe dos meninos mais velhos que sempre ganhavam.

-Aquele maior é o Reyes, tem o O’Connell e o Rubano, que é o menor, mas que bate muito bem. –apontou para o outro lado. –Aqueles ali são do Texas, eles vem todo ano, e aquele grupinho misto nunca se desfaz, e fazem questão de ser sempre da mesma equipe: são os DuPree. –apontou para o outro lado, onde dois meninos de cabelos pretos e olheiras grandes estavam sentados, melancólicos, ali, mas parecendo bem longe. –O de cabelo mais comprido é de Nebraska, é o Oberst, o outro é de Levittown mesmo, Brandon Reilly, mas ele é da Saint Bernard's Parish School. –explicou Shaun na mesa do almoço, ao lado do garoto que estava sempre com ele, William.

-Então outras escolas de Levittown vem? –perguntou John. Nunca havia se interessado pelo acampamento. Shaun assentiu empolgado.

-Vem sim, e nós costumamos nos unir, menos o Reilly, ele não costuma se envolver em nada, assim como o Oberst. Eles só vêm pra cá porque seus pais não os agüentam em casa. –Shaun olhou ao redor, como se procurasse alguém, e acenou quando um grupo de quatro meninos entrou no refeitório.

-Quem são? –perguntou Jesse girando no banco para observar os quatro que corriam pra mesa em que estavam, tomando os assentos que sobravam ao lado dos outros quatro.

-Eles são da Saint Bernard’s também. –explicou Will erguendo os óculos no nariz. John e Jesse se inclinaram, observando os quatro.

Dois deles eram gêmeos, um sentado à frente do outro, cabelos castanhos, cacheados, olhos castanhos e grandes. Um usava boné, cabelo castanho, olhos cor de mel, e sorria, acenando para metade do refeitório, e o mais novinho, emburrado, moreno de cabelo na altura do queixo, usava uma boina maior que ele, que ficava caindo sobre seus olhos a todo instante.

-Esses são os Tierney, Garrett e Shaun. –apresentou Shaun, o Cooper. –Aquele distraído, — e quando disse isso o garoto o olhou – é o Brian Lane. O menor é o Vincent Accardi.

Os quatro acenaram, os gêmeos fazendo movimentos iguais, parecendo um espelho. Brian, o garoto de bane se esticou na mesa, olhando os dois novatos.

-E os dois aí, quem são, Coop? –perguntou.

-São o John Nolan e Jesse Lacey. O Lacey é novo na South Shore, e o Nolan nunca tinha vindo. –explicou enquanto William e Garrett olhavam a mesa ao lado, rindo baixo.

-Sejam bem vindos, tomara que fiquem na nossa equipe. –Shaun Tierney disse sorrindo. O garoto da boina gigante os olhou empolgado, se colocando de pé.

-Qual é a idade de vocês? Eu geralmente sou o mais novo aqui, mas parecemos ter mais ou menos a mesma idade. –perguntou dando espaço pra uma monitora os servir batata frita.

-Temos nove anos. –anunciou Jesse, e ele abriu um largo sorriso.

-Eu ainda sou o mais novo, tenho sete. –riu. John riu dele, sacudindo a cabeça. Olhou ao redor de si, percebendo os olhares frios da mesa do que poderia ser a equipe inimiga, e depois para a sua mesa, onde todos estavam enturmados, rindo e se divertindo.

-Eles parecem legais, não é? –perguntou Jesse. John se virou para frente, encontrando os olhos azuis de Jesse, que tinha os cotovelos apoiados na mesa, e o rosto apoiado nas mãos, o olhando com um sorriso fraco no rosto. Ele sabia o que Jesse estava pensando.

-Parecem sim. –comentou sorrindo para Jesse. De alguma forma, mesmo que quisessem, não pareciam se encaixar. Mas tudo bem, era só o primeiro dia, talvez as coisas ainda pudessem mudar nesse meio tempo.