Mon Petit Prince
3 Parte 3
-Jesse...-chamou John baixinho. –Jesse. –chamou novamente sendo ignorado pelo garotinho na sua frente. –Jesse Lacey! –falou mais alto.Olhos azuis o encararam algum tempo, ele sério, encolhido, caminhando pela parede exterior da sala de aula da quinta série.-Oi? –perguntou baixinho.-Essa é a janela da quinta série. –John resmungou apreensivo. Jesse abriu um sorriso largo, feliz.-Eu sei. Vamos observar o Cooper. –disse baixinho, se erguendo na ponta dos pés, colocando a cara no vidro da janela da sala, sendo acompanhado por John. A sala toda copiava algo que a professora estava colocando na lousa. Sentado mais ou menos no meio da sala – porque sentar na frente é nerd e no fundo vagal – estava Cooper. Shaun Cooper. O filhinho da diretora, o terrível, que mandava até nos mais velhos.
Criança infernal.Ele escrevia, concentrado em seu caderno, olhava pra lousa, depois pro caderno, lousa, caderno. Ninguém os estava vendo ali.Ainda bem.-Jesse, por que estamos fazendo isso? –perguntou John. Jesse ficou quieto, aquela expressão séria que estava no rosto um pouco antes, quieto demais. Na verdade John desconfiava que cabular aula para observar o Cooper era só mais um jeito que Jesse havia criado para os mandar pra diretoria. A demora com a resposta só confirmava o que John temia: Jesse não tinha idéia do porque estarem fazendo aquilo.-Vamos! –exclamou se abaixando e correndo dali, com John em seu encalço. -Você não me respondeu! –exclamou John o seguindo. Nunca abdicava da resposta de uma pergunta, nunca.-Já explico! –exclamou Jesse correndo pelo extenso jardim da South Shore, indo na direção do segundo prédio do terreno.John congelou.-Jesse, esse é o prédio do colegial! –exclamou apreensivo ao ver o pequeno empurrar a porta com a força do corpinho diminuto.-Eu... sei... John! –resmungou conseguindo abrir a porta. John sacudiu a cabeça, entrando com ele. Estava tentando acreditar que Jesse tinha algum plano mirabolante e que os tiraria da encrenca, mas a cada passo que davam John só conseguia os ver metidos em uma encrenca ainda maior.Não estava a fim de levar mais bronca em casa, não estava.-Onde estamos indo? –não conseguiu deixar de perguntar enquanto corriam pelos corredores, dois ratinhos intrusos. Mas Jesse não o respondeu novamente, apenas corriam, muito. Quando finalmente atravessaram o prédio, chegaram à quadra de futebol, vazia naquele momento. Jesse correu pelas arquibancadas, até chegar na última, lá no topo, onde se sentou, sorrindo.-Por que estamos aqui? –John perguntou, se sentando ao lado dele. Jesse apontou, não muito longe dali o prédio do ensino fundamental para John.-Daqui podemos ver a escola e quando todos começarem a sair pro intervalo, mas eles não podem nos ver. –respondeu com simplicidade.-É esse o seu plano? Seu plano é ficarmos aqui em cima fugindo pra sempre? –John não acreditava, estava pronto para voltar pra diretoria e contar que Jesse era um maníaco apaixonado por ele, e que não queria ficar ao lado daquele doente nem mais um minuto, quando Jesse riu.-Meu plano é simples. Já vi qual é a carteira do Cooper, e qual é o estojo dele. Quando der o sinal, e todos saírem, nós vamos voltar pra sala da quinta série, e vamos pegar o estojo do Cooper, porque, se foi ele quem escreveu, então a caneta está lá. É só levarmos o estojo e mostrarmos pra mãe dele. –sorriu triunfante.-Jesse... –John disse desanimado. -...a sua caneta é igual.Jesse riu.-Minha caneta sumiu depois que eu escrevi no balanço.A velocidade do carro passava dos 100k/h na estrada escura. O motorista ria e gritava de forma maníaca com a música no rádio, e o passageiro engolia o conteúdo de uma garrafa de vinho enquanto tentava ler o um guia no meio da noite, com a luz do carro acesa.-Pra que lado? – o motorista perguntou, acelerando mais. Agora definitivamente estavam a 120k/h.-Direita. Não, não! Esquerda... ahhh não! Direita! –exclamava o passageiro, que nessa altura se irritou e jogou o mapa no banco de trás, virando o resto da garrafa de vinho, a jogando pela janela.-Se não decidir logo não vai dar tempo! –riu o motorista.-Ah, olha, vai em frente. Não estamos indo a lugar nenhum mesmo, é só pra foder com essa porra de motor!-Se você diz... –ele trocou a marcha, acelerando mais ainda. O farol estava alto, iluminando as árvores da estrada, quebrando a escuridão. De repente o som parou, o passageiro estava tentando colocar uma fita cassete no rádio.-Eu não enxergo o buraco. –resmungou divertido. O motorista riu, se abaixou para o ajudar quando o carro deu um tranco forte. Ele brecou.O vidro estava todo trincado, e havia sangue por todo lado. Os dois estavam estáticos, olhando fixamente para frente, se concentrando na estrada....all by myself, don’t wanna be…O rádio começou a tocar alto, e com um soco o motorista o fez parar.-Merda, Jess. –disse John se segurando no volante.-Porra, você matou alguma coisa! Você matou alguma coisa! –gritou Jesse sem se mexer. Não queria sair do carro e ter o risco de ver um braço enroscado na roda dianteira.
-Cala a boca! Você ta bêbado! –gritou John de volta.-Você também! –revidou ele tomando coragem e abrindo a porta enquanto John começava a chorar. Saiu do carro irritado, tonto. Mais cedo ou mais tarde teriam que encarar o que mataram, e teriam que se livrar daquilo antes que amanhecesse. Se virou para a estrada, olhando o carro coberto de sangue, e a trilha de sangue na estrada. Foi caminhando tonto, meio sem direção fixa, até que viu aquilo......e começou a rir.Alto.Descontrolado.John saiu do carro, caminhando tão torto quanto, gritando alguma coisa sobre não ter graça nenhuma terem matado alguém, ao mesmo tempo em que chorava. Jesse, em algum momento da crise de risos se sentou na estrada, apontando alce caído na estrada. John soltou uma risada aliviada, e em segundos estava sentado com Jesse, o acompanhando no ataque bêbado de riso. -É só um alce! -riu mais.Quando o sinal do intervalo bateu, e as crianças começaram a se reunir no playground, Jesse e John saíram correndo, atravessando o corredor do colegial cheio de pessoas enormes e estranhas, os olhando torto e gritando algo sobre voltarem pro jardim de infância. Coisas pras quais não estavam dando a menor atenção, tinham um caso a resolver.Entraram na escola, evitando encontrar a Sra.Prescott, sua professora, indo direto para o corredor da sala da quinta série. Seria simples, era só entrarem e pegarem o estojo de Cooper e...John segurou Jesse pelo braço.-Ele pode dizer que pegamos o estojo e colocamos a caneta lá dentro! –disse John. Jesse o encarou sério, franziu a testa e assentiu.-Verdade. Temos então que fazer com que chamem ele na diretoria também! E pedir pra ele mostrar o estojo. –John assentiu.-Exato. Vamos pra diretoria encontrar nossas mães. –disse, e Jesse assentiu, o seguindo. Os dois bateram na porta simultaneamente, sendo recebidos direto pela Sra.Nolan, que os olhava com frieza, muito irritada. Ambos entraram quietos, um pouco ofegantes.-Ainda bem que já chegaram. Já coloquei as mães de vocês a par do que está acontecendo, e... –a Sra.Cooper começava, mas foi interrompida pela Sra.Lacey, que árecia bem irritada em estar ali.-Meu filho só tem nove anos, eu não vou deixar que ele faça tratamento psicológico com a psicóloga da escola só porque ele pode estar gostando do coleguinha dele. Se ele tiver que ser viado só vai saber que é aos quinze anos, até lá ainda temos seis anos. –disse ríspida, e Jesse sorriu. Tinha um orgulho danado da sua mãe.-Mas o meu filho não vai ser vítima do seu pequeno pervertido! – a Sra.Nolan disse, irritada.-Não fui eu quem escreveu aquilo. –Jesse se defendeu, falando baixinho. –Foi o Cooper.As três adultas o olharam firme.-O Shaun? –perguntou a diretora. Jesse assentiu.-Ele ficou bravo porque eu defendi o John, ficou irritado porque escrevi o nome do John no balanço que ele julgava ser dele, e fez aquilo pra me envergonhar. Tanto é que a minha caneta sumiu, e eu não a perdi, eu nunca perco as minhas coisas. –Jesse respondeu. –Pode chamar o Cooper e ver, minha caneta está no estojo dele.As três mulheres se entreolharam. A grávida bocejou.-Vou chamar o Shaun, só um minuto. –A diretora se levantou e saiu.-Jesse, não foi mesmo você quem escreveu? – foi a Sra.Nolan quem perguntou. Jesse sacudiu a cabeça negativamente.-Ele não escreveria aquilo. Ele é meu amigo. –John confirmou. As duas mulheres se olharam e sorriram.A diretora voltou trazendo o próprio filho, sendo arrastado pela mão, chorando.-Agora, Shaun, o que você tem a dizer? –a diretora exclamou irritada, agindo mais como mãe do que profissional.-M-me desculpa. –ele disse a contra gosto. John e Jesse se olharam e sorriram.-Por enquanto vamos perdoar, mas na próxima a gente não perdoa. –disse John cruzando os braços.-Ótimo. Shaun, você está levando uma advertência. –a diretora disse, e depois voltou a olhar os dois menores ao lado das mães. –E vocês, onde estiveram a manhã toda?Na semana seguinte as duas crianças saíram juntas de dentro da escola, sorridentes e saltitantes, ignorando que haviam levado detenção na semana anterior e uma bronca extensa em casa por cabularem aula há apenas alguns dias, segurando felizes entre os dedos um papel branco.-Mãe, posso ir? Posso? –pediu Jesse puxando a calça da mãe.-Jesse, se acalme, ta? –ela pediu tentando tomar o papel da mão dele, que não percebia, empolgado, tanto quanto John que praticamente já implorava.-Por favor, mãe! Vai ser muito legal! –John dizia. A Sra.Lacey havia conseguido – naquele exato instante – tirar o papel da mão de Jesse, enquanto ele, Rory e Carly trocavam xingamentos nada bonitos.-Acampamento de Halloween, Tracy. Vai deixar o John ir? –perguntou.-Vai deixar o Jesse ir, Sandy? –perguntou a Nolan em dúvida. Sandy Lacey olhou o papel, e depois para baixo, onde pequenos olhos azuis a encaravam marejados, pedintes, implorando. Ela queria muito achar coragem pra dizer não, mas quatro dias livre um filho fariam um bem danado pra sua beleza.-Se conseguir ficar duas semanas sem ir pra diretoria eu deixo. –respondeu ela séria. Jesse olhou para John, e depois para Tracy Nolan.-O mesmo pra você, John. –respondeu ela. –Fiquem longe de problemas e mandamos os dois pro acampamento. Aliás, onde vai ser isso? –perguntou olhando o papel que John a entregou.-Em Hempstead esse ano. –disse Sandy Lacey. –Acho que seria legal se fossem.-Seria ótimo se fossemos pra nos enturmar..enturmar..mos com o resto das crianças da nossa idade, virá gente do país todo. –John repetiu o que a diretora disse.As duas mães se entreolharam e riram. Era o único meio de os manter longe de encrenca.-Seria ótimo mesmo. Sem o babaca do Jesse em casa por...quatro dias?! –exclamou Rory esticado, lendo o papel na mão da própria mãe.-Seria ótimo quatro dias sem ouvir a sua voz. –revidou Jesse sério, levando um peteleco de sua mãe, vendo Rory levar um beliscão.-Mas já sabem, sem bagunça até lá! –disse Tracy Nolan.-Mãe, isso não é justo. –resmungou John. Ela o olhou brava, e ia responder, mas Jesse interrompeu.-Nós vamos conseguir, duas semanas sem reclamações sobre nós. –sorriu meigo para as duas mães. John o olhou incrédulo: era óbvio que não conseguiriam. Tinha certeza que tentando os manter longe de problemas Jesse os colocaria em um problema maior ainda.-Ótimo! –Tracy Nolan disse, se virando para a Sra.Lacey -Então, Sandy, quer passar lá em casa pegar aquela receita de bolo que me pediu? –perguntou vendo John, Jesse, Rory, Carly e a pequena Michelle saírem correndo na frente, gritando sobre o acampamento, e como Carly pagava para ver eles livres da diretoria por duas semanas.-Claro, mas, posso usar o banheiro antes de ver a receita? Sabe como é essa gravidez...
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