Moments
2 CADA SEGUNDO - Por Casketting Like a Boss
Notas iniciais
Um dia está aqui
E então se vai
Como você ainda aguenta?
Como você ainda aguenta?
Você tem se sentido desse jeito ha muito tempo
Esperando por uma mudança
Saiba, você não é o único
A vida passa
Não desperdice seu tempo
Consigo mesmo
Kodaline – One Day
.
As investigações não avançavam. Impossível saber, até aquele momento, quem era o assassino do homem encontrado dois dias antes.
Eles estavam desesperados. Não era mais uma questão de analisar as provas detalhadamente, divertir-se com teorias malucas e conjecturar por horas até encontrar a solução.
Não havia tempo para alcançar o quadro branco, nem ao menos dispor fotos ou ideias pelas paredes. Havia um inimigo a ser vencido imediatamente: O TEMPO.
Eles possuíam apenas duas horas para desvendar o assassinato ou, ao menos, encontrar pistas da exata localização da bomba.
Sim. Havia uma bomba em algum lugar de Manhattam, mas os últimos dois dias fora inúteis. As investigações não avançavam e o desgaste físico já cobrava seu preço.
Todos estavam cansados e irritados, especialmente ela. Apesar de ter se acostumado a ele e suas brincadeiras exageradas, naquele momento poderia esmurrá-lo se mais uma piada fosse proferida.
Curiosamente ele estava quieto, pensativo. Olhava pela janela do carro, mas não parecia prestar atenção a algo específico.
— Castle, você conseguiu falar com sua mãe e Alexis? Castle... CASTLE! – ela tentava dialogar com ele, mas não obtinha resposta.
Ele quase saltou do banco do passageiro do carro, quando Beckett repousou a mão em seu joelho, na tentativa de conseguir sua atenção.
— Você está bem? Quer parar um pouco? Acho melhor te levar para o Loft.
— Não... estou bem... está tudo bem. Eu falei com elas mais cedo. Estão a caminho de Hamptons. Ficarão por lá até que vá buscá-las quando tudo isso acabar. Estou certo que tudo terminará bem. Você verá, Beckett.
— Sinto muito, mas não possuo essa positividade sobre o mundo, Castle. No momento só consigo me concentrar nas evidências que temos, o que não é muito, ou melhor, é quase nada. Todas as pistas nos levaram a becos sem saída. Sabemos que há uma bomba em algum lugar nesta cidade, que está armada e preparada para disparar daqui a poucas horas. Além disso, só há migalhas, peças perdidas de um quebra-cabeça gigantesco.
— Rodar a esmo na cidade não nos ajudará muito, posso garantir. – disse ele apontando para um espaço vago. – Pare aqui, por favor. Não vou deixá-la sozinha perseguindo sei lá o quê, mas preciso de um café. Você precisa de uma pausa, te conheço o suficiente para saber que isso lhe fará bem.
Kate encarou Castle com um olhar de reprovação, mas preferiu não discutir. Um café seria reconfortante e, de qualquer forma, a ausência de novas pistas forneceu-lhes alguns minutos até que a equipe se reunisse próximo ao Central Park, local este onde seriam efetuadas buscas.
Castle retornou em minutos, repartindo o que tinha à mão, enquanto partilhava também um leve sorriso. Raspou a garganta, preparando o discurso que estava em sua mente desde o início do dia.
— Talvez seja hora de parar, Beckett. Uma vez ao menos você poderia não pensar nos demais e tentar se salvar. Deixe-me levá-la para algum lugar. Algum lugar seguro. Podemos alugar um helicóptero, fingir que faremos o reconhecimento aéreo da cidade e fugir para onde você quiser.
Kate fitava Castle, incrédula de suas palavras. Ela possuía uma força interior que mais parecia um fardo. Isso a impedia de desistir. Ela nunca havia priorizado a si mesma. Sempre havia o “bem maior”, o mais fraco a ser protegido; o injustiçado a ser socorrido; e o vil, cruel e inescrupuloso mal a ser combatido.
Curiosamente, talvez vencida pelo cansaço, aquela única vez ela pensou em aceitar o convite. Por um instante ela considerou a possibilidade de afastar-se dali e de tudo. Fugir com ele. Sim, dar um passo em sua direção. Aquele passo que, por inúmeras vezes e por situações diversas foi adiado e interrompido.
Permaneceram presos naquele olhar por alguns segundos que pareceram uma eternidade.
Ela queria dizer algo. Talvez confessar que o amava. Sim, que o amava há tempos, mesmo sem saber desde quando. Sentia uma dor no peito só de pensar em se afastar dele. Infelizmente ela não era exatamente uma pessoa maleável no plano sentimental. Falar sobre amor seria demonstrar fraqueza, fragilidade. Confessar o que sentia destruiria suas defesas mais arraigadas.
Não bastasse seus temores, ainda existia o proeminente perigo que assolava.
— É melhor retornarmos agora, a equipe está nos esperando.
— Beckett, eu... só queria dizer que admiro sua dedicação, mas realmente gostaria que considerasse minha proposta.
— Castle... agora não. Quem sabe mais tarde, quando tudo isso acabar e todos estiverem salvos, podemos conversar sobre isso com calma, agora realmente precisamos ir.
O trânsito havia sido desviado das principais vias da cidade. Nada que alarmasse a população, mas várias medidas foram adotadas para minimizar o desastre.
O raio de alcance do artefato havia sido estimado em algumas quadras. O risco de radiação havia sido descartado, mas a quantia de explosivos verificada nas fotos encontradas em um local abandonado no dia anterior, assustava a todos da equipe.
Algumas equipes utilizavam equipamentos modernos nas buscas. Kate lançou mão apenas do que possuía: seu instinto e seu parceiro “espertinho”.
Se ao menos ele tivesse respondido à ela naquele dia, meses atrás. Aquela pergunta ainda soava em sua mente. O silêncio dele também perturbava seu sono.
— Porque você continua voltando, Rick?
....
Ela precisava saber. Mais do que nunca, ela necessitava de uma resposta. E se aquele fosse seu último caso? E se aquela fosse a última chance deles? O que será que ele realmente sentia por ela?
Estacionou próximo ao parque e saiu apressadamente do veículo, seguida de perto por ele.
Desperdiçaram um tempo precioso nas imediações sem nada encontrar. O Parque havia sido evacuado desnecessariamente. Cada minuto perdido acrescentava um peso maior à angústia que sentiam.
Afastaram-se dali rumo ao próximo local indicado pelo chefe das investigações, mas Kate questionava, em seus pensamentos, as ordens lançadas. Algo lhe dizia que aquela linha de investigação era inútil.
Momentos depois seus pensamentos foram interrompidos pelo toque do telefone.
— Beckett! Encontramos uma pista! Siga até o endereço que estou lhe encaminhando por mensagem, e tente localizar o veículo da foto em anexo.
— Ok. Obrigada, Espo. Você é um grande amigo. Só quero que saiba que sou agradecida por ter trabalhado ao seu lado. Desculpe-me pelos erros cometidos, pelos elogios não ditos. Obrigada, Espo, por tudo.
— Sem problemas. – ele desligou franzindo a testa. Aquele não era o comportamento normal de Kate. Ela não era exatamente uma pessoa sentimental. Eles possuíam uma conexão maior que os demais parceiros de trabalho. Eram como irmãos, mas nunca falavam a respeito.
Esposito até pensou em retornar a ligação, mas dizer o quê? Sua mente estava voltada agora para o caso. Então, foi isso que decidiu fazer: retornar às investigações.
— É aqui, Beckett. Veja! Aquele veículo! Não é o mesmo da foto?
— Sim. Vamos até lá.
— Espere! – ele a puxou pelo braço – Não acha que é perigoso? Melhor chamar o esquadrão antibombas primeiro, para garantir que não existem armadilhas ou outro artefato posicionado.
Por alguns segundos a proximidade dos dois tornou-se constrangedora. Ela abriu e fechou seus lábios uma, duas vezes. As palavras simplesmente se recusavam a deixar sua mente e formar-se em sua boca.
— Castle... – ela sussurrou.
— Beckett... – ele aproximou-se dela um pouco mais.
— Eu preciso... – Kate respirou profundamente, sentindo descer em sua garganta um denso gole de sua própria saliva. Por um momento, sua respiração descompassada quase a denunciou. Controlou-se em um instante e desviou o olhar. – verificar o local. Venha, me ajude a abrir o porta-malas do veículo.
— Você não acha perigoso? – ele estava aflito, tanto pela possibilidade de estar próximo a uma bomba, quanto pela distância que ela impunha, mesmo quando estavam tão próximos.
— Não temos opção, Castle. Ou melhor, eu abri mão disto quando entrei para a Polícia, mas você realmente deveria partir, sua família está segura, mas você não está.
— De forma alguma te deixarei só, sou seu parceiro, seu amigo e, no mais, estou curioso para abrir aquele carro agora.
Aproximaram-se cuidadosamente. Ela ia à frente de arma em punho. Ele a seguia de perto e procurava por algo suspeito nas imediações.
Surpreenderam-se com a facilidade que o porta-malas do veículo se abriu, mas a maior surpresa veio a seguir. Ali estava o artefato, armado e aparelhado com um timer que encerraria, em minutos, sua contagem.
— Meu Deus, Castle! Nós a encontramos! Mas o que faremos agora?
— Onde está o esquadrão antibombas?
— A quilômetros daqui, acompanhando a outra equipe. Eu sabia que era inútil ir até lá. Eu pressenti que as demais pistas eram imprecisas e desconexas, deveria ter dito algo, deveria ter seguido meus instintos e os alertado.
— Beckett, você sabe que eles não mudariam as ordens com base num palpite.
De qualquer forma, ela telefonou para a equipe responsável, mas nada podia ser feito. Eles estavam muito longe dali. A análise preliminar repassada indicava que, aparentemente, não havia dispositivo que desarmasse a bomba.
Nada podia ser feito e o implacável tempo passava.
5:00... 4:59... 4:58... 4:57... 4:56... 4:55...
— Beckett… Kate… — ele alcançou sua mão direita, postando-se defronte à ela. Acariciou o rosto dela com a outra mão, despindo-se de todo pudor e medo. Esta seria, possivelmente, sua última chance.
Aproximou-se então e a beijou. Seus lábios acariciavam os dela, em uma dança descompassada, mas perfeita.
Instintivamente ela se afastou. Desesperada com a situação do iminente perigo, agora lidava com um temor maior que a morte: entregar-se ao amor.
4:29... 4:28... 4:27... 4:26... 4:25...
Desta vez ela não resistiu, rendeu-se à paixão avassaladora e, num ímpeto, lançou seus lábios sobre os dele e o beijou apaixonadamente. Ambos suspiravam e entrelaçavam seus corpos, se procuravam e se achavam, um nos lábios do outro. Minutos depois se separaram.
2:59... 2:58... 2:57... 2:56... 2:55...
— Rick, você ainda pode se salvar. Vá embora!
— Só saio daqui com você.
— Não há salvação para mim, mas você precisa ir.
— Kate! Eu te amo! Porque que você não consegue ver isto? Eu te amo e nunca te deixei, nunca desejei estar em outro lugar que não ao seu lado.
— Eu sei – respondeu num sussurro. – Não quero que pense que direi isto em razão da situação que enfrentamos no momento, mas eu preciso confessar que te amo. Eu te amo, Rick. – uma lágrima desceu de seu rosto, não pelo perigo de suas palavras, mas por imaginar que talvez não conseguisse proferi-las novamente.
Confessar seu amor trouxe-lhe um alívio tão grande que, por um instante se esqueceu que iriam morrer ali, minutos depois.
1:59... 1:58... 1:57... 1:56... 1:55...
— Kate, eu amo seus olhos esverdeados, os traços de seu rosto, seu corpo e seus cabelos, mas, mais do que tudo isso, eu amo sua alma indomável.
Após mais um telefonema inútil e desesperado com as equipes que alegavam estar a caminho, mas nunca chegavam, voltaram novamente a travar uma batalha doce e quente de beijos e abraços descontrolados.
0:59... 0:58... 0:57... 0:56... 0:55...
— Rick, preciso que você saiba que nunca existiu outra pessoa que ocupou meu coração como você. Sempre foi você que amei, desde o princípio e, até mesmo quando você se afastou de mim. Não queria mais nada, mais ninguém. Só você.
— Eu te amo, Kate. — ele disse e abraçou.
Após a última palavra do escritor, os números zeraram no painel à frente.
A explosão foi ouvida a quilômetros dali.
A terra tremeu, paredes racharam e vidraças se partiram por quarteirões.
Sirenes e buzinas de carros anunciavam que a população estava apavorada e desnorteada. Nada pode ser feito desta vez.
O mal contido no artefato havia ceifado a existência deles e, junto disso, levado seu amor, sua esperança.
X
Antes que o relógio anunciasse a alvorada, ela saltou da cama, vestiu algo que estava sobre a cadeira e saiu. O objetivo não era parecer apresentável, mas somente sair dali. Ela precisava ir ao encontro dele.
Esta seria a última noite que aquele pesadelo a assolava. Toda aquela contagem de tempo finalmente fazia sentido em sua mente.
O tempo passa, o tempo urge. O implacável tempo poderia ceifar suas vidas a qualquer momento e ele nunca saberia. Naquela manhã ela finalmente decidiu que ele saberia.
Hesitou por um segundo, mas a contagem regressiva voltou à sua mente vividamente, então bateu à porta. Uma, duas, três vezes.
Minutos transcorreram em total silêncio, deixando-a ansiosa e receosa. E se ele não a aceitasse? E se não a recebesse? E se ele não estivesse ali?
Ergueu a mão para bater à porta novamente, mas antes que o fizesse, ela se abriu lentamente.
— Beckett? O que você quer? – seu semblante que inicialmente parecia doce, tornou-se amargo e desagradado.
— Você.
Ela caminhou em sua direção e, antes que ele a reprimisse, beijou-o com toda a paixão contida em seu ser. Com todo o amor e desejo dantes omitidos.
Antes que uma nova bomba explodisse em seus sonhos, antes que outro tiro a atingisse ou, antes que ele desistisse de esperar, ela agiu partindo ao encontro dele.
Seus corpos se entrelaçavam e, após umas poucas palavras proferidas, ela foi lançada contra a porta enquanto os lábios do escritor a tomavam, cobrindo cada centímetro daquele desejado corpo doce e macio.
Naquele mesmo dia se amaram, confessando um ao outro que nunca mais o tempo estaria contra eles. Naquele dia o tempo parou.
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