As vielas de Pi-Ramessés eram um labirinto de poeira e segredos. Anrão seguia o estranho com os pulmões ainda ardendo pela corrida.

— Vai falar ou vou ter que adivinhar? — perguntou Renan, parando bruscamente sob a sombra de um arco de pedra.

— Estou fugindo do feitor... — ofegou Anrão. — Ele ia me matar.

Renan deu um sorriso de canto, amargo.

— Entendi. Eles são todos iguais, cães raivosos servindo a um dono de ouro. Venha comigo, você não pode ficar na rua.

— Aonde vamos? — Anrão hesitou.

— Para um lugar onde o chicote não alcança. Chega de perguntas e siga-me.

Mesmo desconfiado, Anrão o seguiu. Renan o conduziu até uma entrada camuflada que levava a uma passagem subterrânea, escavada no silêncio das noites. Quando as tochas foram acesas, Anrão ficou boquiaberto.

— Que lugar é esse? — sussurrou o jovem hebreu.

— Meu esconderijo. Meu santuário — respondeu Renan. — Aqui é o lar dos que não aguentam mais a escravidão. Aqueles que buscam justiça com as próprias mãos.

— Está falando de rebeldes? — Anrão recuou um passo.

— Eu diria "revoltados". Mas o nome não importa. O que importa é que não temos espadas ainda, mas temos fúria. E logo, Anrão, teremos o armamento necessário para deter os egípcios e libertar nosso povo.

— Você é louco... — murmurou Anrão, mas algo naquela promessa de liberdade brilhava em seus olhos.

Enquanto isso, no esplendor do Palácio Real...

O Faraó Seti I fechava os olhos, saboreando uma iguaria de tâmaras e mel.

— Que delícia, meu jovem. Qual é o seu nome?

— Gahiji, soberano — respondeu o cozinheiro, curvando-se profundamente.

— Pois eu decreto: a partir de hoje, você é meu novo cozinheiro real. Vá e aprenda as tradições da cozinha de palácio.

Gahiji saiu radiante, cruzando com a Rainha Tuya, que entrava na sala do trono com a elegância de uma deusa. Ela se aproximou de Seti, beijando-o com afeto.

— Que bom receber seus beijos logo cedo, meu amor — sorriu o Faraó. — Diga-me, o que deseja?

— Quero saber quando escolherá um marido para nossa filha Henutmire. Ela não pode se casar com qualquer um.

— Serei cauteloso, Tuya. Precisa ser alguém de minha extrema confiança. O Egito está cercado de hienas.

Seti não sabia o quanto estava certo. Naquele momento, ele pensava em convocar seu general Menkaure para fortalecer o exército contra a ameaça Hitita, ignorando que o general estava em Cadexe, apertando a mão do rei inimigo, Muwatalli.

— Finalmente, minha vingança — sibilou Menkaure ao rei Hitita. — Os egípcios destruíram minha terra na Núbia. Agora, eu destruirei o mundo deles por dentro.

O Treinamento e a Fúria

No campo de Marte, Disebek lutava contra seu pai, Kamose. O suor escorria enquanto as espadas de madeira batiam com força.

— Chega por hoje, filho! Suas habilidades são boas — disse Kamose, recuperando o fôlego.

— Acha que serei selecionado para o exército pessoal do Faraó? — Disebek estava ansioso.

— Você é dedicado. Eu consegui, por que você não conseguiria?

Mas a seleção trouxe um resultado amargo. O general Khnum anunciou os nomes e, para o choque de Disebek, o escolhido foi Akhmim, seu maior rival.

— É uma honra servir ao rei! — exclamou Akhmim, tripudiando. Ao passar por Disebek, ele sussurrou: — Não chore, fracassado. Quem sabe ano que vem você consegue?

O sangue de Disebek ferveu. Sem pensar, ele desferiu um soco potente no rosto de Akhmim. Os dois rolaram pelo chão em uma briga selvagem até serem arrancados um do outro pelo general.

— São homens ou pirralhos? — rugiu Khnum. — Que vergonha, Disebek! Achei que fosse sensato.

Na Taberna de Benu

À noite, Akhmim foi comemorar sua entrada no exército na Casa de Senet. Entre canecas de cerveja e o som de cítaras, ele encontrou Yunet.

— Agora sou um soldado do rei, linda! O mais poderoso de todos — gabou-se Akhmim.

— Então pague uma noite comigo, soldado — riu Yunet, provocante.

— Estou sem prata hoje... vamos comemorar de graça? — brincou ele.

— Nada disso. Meu serviço é pago — Yunet deu as costas, mas Akhmim a segurou, olhando-a nos olhos com uma intensidade que a fez parar. — Eu te amo, Yunet. Desde o primeiro dia.

Ela riu, mas permitiu um beijo. O momento foi quebrado quando Disebek entrou na taberna, com o rosto marcado pela derrota e pela raiva.

— O que o fracassado faz aqui? — provocou Akhmim. — Veio ver como um vencedor se diverte?

Benu, o dono do estabelecimento, tentou intervir, mas as ofensas subiram de tom.

— Parem! Se querem brigar, saiam da minha taberna!

Mas o ódio era mais forte. Disebek partiu para cima de Akhmim mais uma vez, ignorando as regras e o bom senso.

Longe dali, nas sombras das muralhas da cidade, o silêncio da noite foi cortado pelo som de lâminas reais. Um grupo de rebeldes com rostos cobertos saltou sobre dois oficiais egípcios de vigília.

— Quem são vocês? — gritou o guarda.

— Somos o pesadelo do Egito! — rugiu o rebelde, antes do ataque fatal.

CONTINUA NO PRÓXIMO CAPÍTULO.