A noite em Pi-Ramessés foi tingida de vermelho. Nas sombras das ruelas, o grupo de rebeldes avançou como fantasmas sobre a patrulha egípcia. O som do metal cortando a carne foi abafado pelos gritos de agonia dos oficiais.

— Vamos! Não tem como lutar contra o resto da guarda! — gritou um dos rebeldes, vendo tochas se aproximarem ao longe.

— Não podemos desistir! É pela nossa liberdade! — rugiu outro, a voz carregada de fúria.

— Não adianta, eles vão nos cercar! Recuar agora!

Os vultos mascarados desapareceram na escuridão segundos antes de o reforço egípcio chegar. No chão, os oficiais jaziam sem vida.

— Eles escaparam... — murmurou o soldado que chegou primeiro, horrorizado. — Quem eram eles?

— Não sabemos, senhor. Atacaram do nada. Amanhã, o Faraó terá que ser acionado. Isso é uma declaração de guerra dentro de nossos próprios muros.

O Embate no Esconderijo

No refúgio subterrâneo, a adrenalina ainda pulsava. Renan, o líder, limpava sua lâmina com um olhar de satisfação sombria.

— Quase conseguimos! Mais alguns oficiais e eles sentirão o medo que nós sentimos todos os dias — celebrou Renan.

— Nós não devíamos ter feito isso — rebateu Gael, com as mãos trêmulas. — Os egípcios são mais fortes. Quando revidarem, será contra todo o povo hebreu.

— Você não percebe? Somos a maioria! Se nos juntarmos, tomaremos este lugar!

— Não sabemos lutar, Renan! Só sabemos quebrar pedras! Sangue inocente será derramado por causa da sua sede de vingança.

Renan cravou a faca na parede de terra, os olhos marejados de ódio.

— Eles mataram minha família, Gael! Só vai parar quando eu quiser, e ninguém vai me deter!

Entre o Amor e a Fúria

Na Taberna de Benu, a briga entre Disebek e Akhmim finalmente cessou, mas o veneno permanecia no ar.

— Saia daqui, Disebek. Não quero sangue no meu chão — ordenou Benu.

Disebek saiu, cabisbaixo, sentindo o peso do fracasso. Foi seguido por Yunet, que o encontrou a poucos metros da Casa de Senet.

— O que faz aqui? — perguntou ele, amargo. — Não deveria estar dançando para os nobres?

— Acha que eu gosto do que faço? — retrucou Yunet, os olhos brilhando sob o luar. — Pensei que você fosse diferente, mas vejo que me enganei.

Ela fez menção de sair, mas Disebek a segurou.

— Espere... me desculpe. Eu não devia ter dito isso. Qual o seu nome?

— Yunet.

Disebek sorriu, um gesto raro naquela noite. — É um nome bonito. Você é linda... qualquer homem a elogiaria.

Yunet riu, surpresa com a sinceridade dele. — Estou impressionada. Mas não precisa ser modesto só porque estou na sua frente. Eu sei quem eu sou.

Disebek aproximou-se, olhando fixamente em seus olhos. — Para mim, não interessa o que você faz.

O Sacrifício na Pedreira

Na manhã seguinte, o sol nasceu como um carrasco sobre a vila dos hebreus. Coate e Anrão chegaram às obras, onde o feitor Panarazy já os aguardava com um sorriso cruel.

— Olhem só... o escravo fugitivo voltou — rosnou o feitor.

Coate, tremendo, tentou intervir: — Senhor Panarazy, Anrão está arrependido. Por favor, tenha piedade.

— Não peço desculpas a quem maltrata o meu pai! — interrompeu Anrão, a voz firme.

— Cale-se, Anrão! — implorou Coate, em um sussurro. — Deus enviará um libertador, mas agora precisamos sobreviver. Peça perdão!

— Eu nunca me curvarei a um egípcio — respondeu o jovem.

A paciência de Panarazy acabou. — Dez chibatadas! Agora!

Os soldados forçaram Anrão a se ajoelhar. O primeiro golpe do chicote rasgou o ar e a pele. Coate gritava, oferecendo-se para apanhar no lugar do filho, mas Panarazy não parou. O sangue escorria pelas costas de Anrão, que rangia os dentes para não gritar.

A tortura só parou com a chegada de Denays, o oficial-chefe.

— Por que este castigo? — perguntou Denays, com autoridade.

Panarazy tentou se justificar, mas Anrão, erguendo-se com dificuldade, apontou para o feitor: — Ele me castigou porque eu o impedi de bater no meu pai sem motivo!

Panarazy ergueu o chicote novamente, mas Denays segurou seu braço.

— Chega! — rugiu o oficial-chefe. — Este homem é idoso, Panarazy. Não há motivo para essa crueldade. Saia daqui agora!

Humilhado, o feitor retirou-se. Denays, em um gesto inesperado, estendeu a mão para ajudar Anrão a se levantar. O jovem, porém, recusou. O orgulho ardia mais que as feridas.

— Eu sei me levantar sozinho — disse Anrão, embora suas pernas fraquejassem.

Denays suspirou, vendo a força naquele rapaz. — Leve seu filho para casa, Coate. Não voltem até que ele esteja curado. Eu autorizo.

Com lágrimas de gratidão, Coate e seus filhos apoiaram Anrão e deixaram a pedreira, enquanto o jovem hebreu jurava em silêncio que o Egito ainda pagaria por cada gota de sangue derramada.

Continua No próximo Capítulo