Mistérios de Dezembro
24 Walkie-Talkie
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO XII – MISTÉRIOS DE DEZEMBRO
CAPÍTULO XXIII – WALKIE-TALKIE
Desde que descobri sobre o meu passado quando eu tinha apenas quinze anos, eu soube que nunca seria uma pessoa normal. Não que eu já fosse uma pessoa normal. Eu tinha consciência de que ser alguém com o QI elevado e personalidade marcante me tornavam alguém que geralmente afastava as pessoas ou atraía aqueles mais curiosos. Mas o fato de ser filho de uma relação proibida entre o líder da mafia russa e a concubina preferida do líder da Yakuza não colaborava para a minha segurança.
A Yakuza é um grupo criminoso dedicado à extorsão, tráfico, lavagem de dinheiro e a inúmeras outras atividades criminosas ligada ao crime organizado. O grupo tem origem japonesa, mas se estabeleceu ao redor do mundo e hoje possui atividades em alguns países da Europa, mas principalmente nos Estados Unidos.
Dividida em inúmeros clãs e tenho destaque quatro principais famílias, a Yamaguchi-gumi, a Sumiyoshi-Rengo, a Inagawa-ka e a Toua Yuai Jigyo Kumiaim, para muitos japoneses, os membros da Yakuza são como heróis que ajudam o país a se manter vivo mesmo em meio a tantas catástrofes naturais que eles enfrentam.
Quando adolescente, eu precisei lidar com todo tipo de pessoa pelo fato de ser filho tanto do líder da máfia russa quanto por ter ligação direta com o maior e mais temido líder da Yamaguchi-gumi, a maior família da Yakuza. Conhecido como urso assassino, Kazuo Taoka, continua sendo respeitado até hoje mesmo depois de sua morte.
Por causa disso, os membros da mafia japonesa nunca aceitaram a minha existência. Assim, eu tive que aprender desde muito cedo a me defender. Mesmo antes de saber o motivo de sofrer tantos ataques, o que só ocorreu quando eu conheci meu pai biológico. No entanto, isso foi o bastante para entender que minha família e eu nunca teríamos paz.
Meu senso de proteção a minha família se tornou ainda mais forte quando conheci minha mãe aos dezoito anos. Conversar com ela e entender o motivo de ter sido abandonado no orfanato católico de sua cidade natal serviu tanto para aliviar todas as angustia que eu carregava por ter sido deixado quanto para entender que eu sempre estaria em perigo. Fosse pela Yakuza ou pelos inimigos da máfia russa, minha vida seria resumida a lutar para sobreviver.
Criar a família Barton foi a minha forma de nunca me sentir sozinho, ao mesmo tempo em que, ciente dos perigos que todos ao meu redor corriam, eu precisei preparar meus sobrinhos para se defenderem de qualquer tipo de ataque poderiam sofrer por apenas me conhecerem. Por esse motivo, eu os ensinei todo tipo de luta, desenvolvi a melhor habilidade de cada um de meus sobrinhos e os dei recursos que os protegesse de qualquer tipo de perigo que eles pudessem enfrentar, como o walkie-talkie de emergência.
Por isso, eu fui atrás de poder e dinheiro. Investi em ações poderosas, desenvolvi contatos úteis e criei parcerias importantes com todo tipo de pessoa. Mas era em momentos como esse, enquanto ouvia pelo walkie-talkie Thea descrever o ataque que havia sofrido na casa do namorado é que eu entendia que nenhum dinheiro, poder e conhecimento seriam o bastante para proteger por completo a minha família.
Tomado pela fúria, soco volante sentindo a dor insuportável de cabeça volta. Respiro fundo tentando manter a calma. Thea é a minha sobrinha mais nova a ter passado pelo meu treinamento. Ela é capaz de se defender. No entanto, como eu poderia me acalmar sabendo que minha família está sendo perseguida mais uma vez, apenas porque um maldito egocêntrico deseja fazer um jogo comigo?
Eu não me importo de ser desafiado ou receber ataques diretos. É algo que eu tenho lidado desde que era criança por ser quem eu sou. Entretanto, a história muda de figura quando usam a minha família para me atingir. Isso é completamente imperdoável para mim. Ultrapassa todos os limites das ações aceitáveis de alguém paciente como eu.
E é por esse motivo que não me importo nenhum pouco em quebrar todas as leis de trânsito e saio de casa a toda velocidade em direção a localização de Thea e Roy. Eu não permitiria que o desgraçado que ousou os atacar saísse impune. Isso era uma questão de honra e eu faria o que fosse necessário para que ele sofresse o máximo possível até a morte.
Deslizando pelos carros e utilizando os atalhos conhecidos, não demoro mais do que dez minutos para me aproximar do carro de Thea que circulava em alta velocidade ao tentar escapar do carro que vinha logo atrás em uma intensa perseguição. Sem perder tempo, acelero mais e ao ficar ao lado do maldito carro, jogo-o para o lado com toda força e no ponto que eu sabia que surtiria um efeito brutal.
Despreparado para o ataque surpresa e por estar em muito acima da velocidade recomendada na pista coberta pela fina camada de gelo, o carro perde o controle e rodopia pela pista até bater com brutalidade em um poste de energia. Devido a intensidade do impacto, o poste cai sobre o carro, amassando-o quase que por completo.
Seguro o meu volante com força e aperto o freio, quando começo a perder o controle da direção. Por sorte, consigo parar o carro que deslizava pela pista antes que ele atingisse um segundo carro que vinha na pista oposta. Respiro fundo e estaciono o meu carro no acostamento para evitar que mais um acidente acontecesse.
Vendo que Thea havia seguido para a sede da CIA como a orientação de Natasha, aproximo-me do carro destruído, sentindo o meu sangue ferver. Devido o horário, poucos carros passavam pelo local e os curiosos que estavam próximos, apenas observavam a tudo com expressões horrorizadas. Ignoro tudo e desço do carro, pronto para descontar todo o ódio que sentia daquele que ousou machucar minha amada sobrinha.
Usando a força que eu nem mesmo sabia ter naquele momento, abro a porta amassada do carro e me abaixo, pronto para retirar o desgraçado que gemia de dor do lado de dentro. No entanto, antes que eu completasse o meu objetivo, meu braço é puxado com brutalidade e encontro os olhos verdes arregalados de Natasha.
— Clint, não! Há testemunhas aqui. Você não vai conseguir sair impune se o machucar na frente de tantas pessoas. – Alerta Natasha, apertando o meu pulso. – Sei que está furioso, mas precisa se controlar.
— Não até fazer esse infame sofra as consequências de mexer com a minha família. – Respondo, tentando me soltar de Natasha sem que a machucasse. – Esse maldito vai experimentar a fúria Barton.
— Nós precisamos de você para pegar Taskmaster. Como iremos fazer isso se você estiver preso? – Pergunta Natasha, suspirando frustrada.
— Eu posso pagar um advogado. Posso usar a influência que tenho para sair da prisão e você sabe disso. – Respondo, determinado a acabar com o desgraçado que continuava a gemer de dor.
— Clint, nós precisamos dele para descobrir o que está acontecendo. Eu te conheço. Você vai torturar e matar esse cara. Antes que faça isso, eu preciso de respostas. Prometo que depois você pode descontar toda a sua fúria nele, mas agora, precisa se acalmar. Vamos esperar ele receber o atendimento médico e ser interrogado. – Negocia minha namorada, mas eu ainda não estava satisfeito com a situação. – Assim como você, eu também quero fazer esse canalha sofrer, mas você precisa ser racional. Se ele morrer agora, não iremos descobrir quem enviou ele e o porquê.
— Nós dois sabemos quem enviou esse desgraçado e o porquê, Natasha. É óbvio que foi Taskmaster e assim como Aaron havia dito, ele está tentando machucar minha família de forma que eu não consiga salvá-los para me desestabilizar. – Respondo, furioso.
— E parece que ele conseguiu. Olha para você, Clint. Está até mesmo querendo usar o seu poder para intimidar. – Natasha suspira inconformada. – Deixe-me interrogá-lo primeiro. Eu preciso de respostas.
— Eu posso interrogar ele enquanto eu o torturo. – Retruco e Natasha bufa, irritada. – Eu garanto que vou obter todas as respostas que você precisa. Ele não vai...
Antes que eu continuasse, meu celular começa a tocar. Natasha me encara com intensidade, quase como se me dissesse que aquilo era um aviso. Suspiro e pego o aparelho de meu bolso. Pelo toque, nós dois sabíamos que era um dos meus sobrinhos. Observo o nome de Thea na tela e encaro Natasha, dando-me por vencido.
— Tudo bem. Ele pode ir para o hospital. Mas quero que ele vá para o IU Health. Após receber os primeiros socorros, eu mesmo irei interrogá-lo da minha maneira. Avise a Malévola que não permita que ele acorde e que assim que ele estiver fora de perigo, eu irei buscá-lo para levar ao hospital. – Informo e Natasha suspira.
— Claro. Mas eu irei acompanhar. – Retruca Natasha, aproximando-se do carro para olhar quem era o motorista.
— Contanto que não interfira, eu não me importo. – Afirmo e ela dá de ombros. Natasha conhecia os métodos nada convencionais que eu usava para interrogar meus inimigos.
— Eu apenas preciso das minhas respostas. Eu não me importo os métodos que você irá usar. De qualquer forma, ele já deveria estar morto mesmo. – Comenta minha namorada, olhando pela janela do carro destruído. – Arthur Edgell. Ainda é difícil de acreditar que ele está vivo.
— Não por muito tempo. – Respondo, atendendo a ligação de Thea. Levo o celular ao ouvido, enquanto observo Natasha ligar para a enfermeira chefe do IU Heath. – Oi querida.
— Finalmente, tio Clint. Por que a demora em atender? Você está bem? Se machucou? – Questiona Thea com preocupação.
— Não se preocupe comigo. Eu estou bem. E você? Está machucada? Como está Roy? – Pergunto e ela suspira.
— Está bem. Felizmente foi apenas um susto. – Conta Thea e já consigo ouvir o tom de humor em sua voz. – Roy é que foi dramático e me desesperou. Aparentemente, o corte foi apenas superficial. Ele deve levar seis pontos no braço e vão dar alguns anti-inflamatórios para que a dor diminua.
— E você? Está tudo bem mesmo? O desgraçado te machucou? Preciso de alguma coisa? – Pergunto e ela dá uma risada anasalada.
— Eu não estou machucada, mas acho que seria bom ter um abraço apertado do meu tio preferido. – Brinca, mas eu ainda conseguia sentir a fragilidade de minha sobrinha caçula. – Mesmo tendo a Eleven agora, eu ainda tenho direito aos mimos como sobrinha caçula ou isso seria pedir demais agora que eu tenho dezoito anos?
— Você sempre será um bebê para mim, Thea. A minha eterna menininha e doce Speedy. – Respondo e ouço sua risada mais sincera. – Eu sinto muito pelo que aconteceu. Por minha causa, você passou por uma situação traumática. Eu deveria ter sido mais cuidadoso com você. Deveria estar de olho em você e em seus primos. Perdão.
— Ah, para tio Clint. Você sabe que eu ou qualquer um dos meus primos jamais te culparia por algo assim. Nós sempre soubemos dos problemas que você enfrenta desde que era criança. Confesso que fiquei um pouco assustada, porque ao contrário de meu irmão e primos, essa é a primeira vez que passo por algo assim, mas eu jamais o culparia por isso. Eu sei que se pudesse, você nos protegeria de tudo e todos, mas sabemos que isso não é possível. — Responde Thea com doçura, surpreendendo-me. – Está realmente tudo bem. Não precisa se desculpar.
— Obrigado, querida. – Agradeço, comovido pela compreensão de minha sobrinha mais nova. – Eu te amo. Muito mesmo.
— Eu também amo você, tio Clint. E estou esperando o abraço apertado. – Relembra Thea e eu acabo rindo.
— Eu...
— Clint! Eu vou precisar da sua ajuda! Rápido! Precisamos tirar Edgell antes que o carro exploda! – Grita Natasha, interrompendo-me.
— Que ironia. – Resmungo, sorrindo com sarcasmo. Natasha bufa e me lança um olhar ameaçador. – Thea, eu chego ai em trinta minutos, mas agora preciso desligar.
— Tudo bem, tio Clint. Até mais tarde. — Despede-se Thea, encerrando a ligação.
— Clint! – Grita minha namorada, irritada com a minha falta de vontade de salvar a vida do desgraçado que eu definitivamente mataria em alguns dias.
— Estou indo. – Respondo, guardando o celular no bolso da calça no mesmo instante em que o veículo destruído começa a pegar fogo. – Sério mesmo, universo? Quantos babacas eu vou ter que salva antes de matar?
Corro até Natasha, vendo-a lutar para retirar Arthur Edgell do carro amassado. Faço sinal para que ela se afastasse, mas minha namorada não parece nada feliz com o meu pedido.
— Vai logo, Natasha! Saia daqui e se afaste o máximo possível. Esse carro vai explodir. – Peço, entrando com dificuldade no pequeno espaço na abertura do carro para tentar desfivelar o cinto de segurança que me impedia de tirar o Edgell do veículo.
— Ficou maluco? Eu não vou te deixar aqui sozinho. – Ouço minha namorada gritar, enquanto eu continuava a lutar contra o cinto. A fumaça estava começando a me incomodar e eu sabia que não aguentaria aquele ambiente por muito tempo.
— Merda. – Murmuro, irritado. Não adiantava perder tempo discutindo com Natasha naquele momento.
Volto a sair do carro e puxo o meu canivete suíço do bolso. Entro novamente no veículo que estava começando a pegar fogo. Começo a cortar o cinto de segurança com o máximo de agilidade que eu conseguia no mínimo espaço que eu tinha para me mover.
Quando finalmente livro o desgraçado do cinto, puxo-o sem qualquer cuidado para fora do carro. Assim que consigo soltar Edgell das ferragens do veículo, arrasto o homem para longe do carro com a ajuda de Natasha. No mesmo instante em que alcançamos um ponto seguro, o carro explode, levando-nos ao chão. Arfo dolorido e encaro o céu nublado, assim que recupero-me do forte impacto da explosão.
— Eu realmente farei esse desgraçado pagar caro por isso. – Resmungo e Natasha solta uma risada divertida.
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