ROMANCES MENSAIS

LIVRO XII – MISTÉRIOS DE DEZEMBRO

CAPÍTULO XXII – VANTAGEM

O dia já havia amanhecido quando eu finalmente sou liberada por Fury para ir para casa. Eu estava exausta. Não havia sido fácil conseguir um depoimento do rapaz que havia sido responsável por um esquema de tráfico internacional de animais raros, mas depois de muita persuasão, negociação e ameaças, eu finalmente consegui uma confissão e o nome de todos os envolvidos no esquema.

Espreguiço-me assim que entro em minha sala e me jogo sobre o sofá. Pego meu celular e encontro uma mensagem de Clint pedindo para eu avisar quando saísse que ele viria me buscar. Sorrio e balanço a cabeça em negação. Mesmo que eu estivesse com seu carro e ele soubesse que eu sou perfeitamente capaz de me defender sozinha, Clint continuava a se preocupar e a cuidar de mim.

Eram detalhes como esse que me faziam sentir amada e entender o motivo de amar Clint. Apesar de sua excentricidade, o homem era sempre amoroso, cuidadoso, atento aos mínimos detalhes e é o tipo de pessoa que está sempre me incentivando a sonhar e tornar meus desejos realidade. De alguma forma, ao seu lado, nada parecia impossível para mim.

Suspiro como uma idiota apaixonada e disco o número de Clint, acomodando-me melhor no sofá. De olhos fechados, levo o celular a orelha. Eu precisava descansar um pouco, mas ao mesmo tempo, desejava ouvir a voz de Clint.

— O que eu deveria fazer com Fury por liberar minha amada e preciosa namorada apenas as seis horas da manhã? – A voz carregada de humor de Clint soa de forma suave do outro lado da linha.

— A culpa não foi dele. O criminoso era osso duro. – Admito e ele dá uma fraca risada anasalada. – Desculpa. Eu te acordei?

— Dormir não é algo que tenho feito muito nos últimos dez anos. Eu estava estudando, então não se preocupe. – Responde Clint e consigo imaginar perfeitamente o seu sorriso nesse momento.

— Não deveria se esforçar tanto. – Comento e ele ri.

— Estudos nunca é demais. Você sabe. Eu tenho a sede de conhecimento. Então, ao invés de perder tempo revirando na cama sem conseguir dormir, é melhor aproveitar o tempo livre para aprender mais. – Responde e eu suspiro com preocupação. Clint parece nunca saber os seus limites. – Além disso, preciso conversar com você.

— O que aconteceu? – Questiono, sentando-me ao notar o tom preocupado de Clint. Ouço um suspiro e isso só faz com que eu me preocupasse ainda mais com o que ele tinha a dizer.

— Beth me contou que ela e Daryl estão sendo seguidos nos últimos dias. A princípio ela pensou que fosse mais uma vez os capangas de Hugh, mas como eles nunca chegaram a atacar nenhum dos dois e nem esmo se aproximavam deles, ela descartou a possibilidade. Em seguida, ela imaginou que fossem paparazzis, já que tem dias que estão os seguindo, mas novamente, eles pareciam estar sendo discretos, como se estivessem apenas observando. Ontem, enquanto saía do hospital, Beth finalmente conseguiu tirar uma foto do perseguidor e me mostrou. — Conta Clint, demonstrando uma seriedade quase nunca usada pelo homem.

— E você reconheceu o homem. – Afirmo e ele suspira, parecendo não saber como contar. O suspense começa a me deixar ainda mais ansiosa. – Quem é ele, Clint?

— O nome Arthur Edgell é familiar para você? – Pergunta Clint e eu preciso de alguns instantes para me recordar sobre quem ele se referia.

— Espere um pouco. Arthur Edgell? Você está falando do mesmo Arthur Edgell que prendemos quando nos encontramos pela primeira vez em Budapeste? O mesmo Sargento Edgell? – Questiono, incrédula.

— Ele mesmo. — Responde Clint, surpreendendo-me.

— Não vai me dizer que o perseguidor era o sargento Edgell. – Comento com ironia. A falta de resposta de Clint é a minha resposta. – Isso é impossível, Clint. Ele está morto.

— Eu também pensei isso, mas a foto tirada por Beth mostra o rosto dele perfeitamente. Até cogitei a possibilidade de Arthur ter um irmão gêmeo, mas ele não tem irmãos. Vivos ou mortos. – Afirma meu namorado, suspirando em seguida.

— Mas... como isso é possível? Eu vi com os meus próprios olhos quando o carro onde ele estava explodiu. – Sussurro, atordoada. – Não tem como ele ter sobrevivido.

— Eu ainda não sei como isso é possível, mas definitivamente eu vou descobrir. Por enquanto, tudo o que eu sei é que Aaron estava certo. Taskmaster está procurando formas de me atingir e ele vai fazer de tudo para que isso aconteça, nem que tenha que usar mortos para estudar a rotina das crianças e escolher o melhor momento para atacar. – Responde o homem, deixando evidente toda a sua preocupação e fúria.

— Acha que Taskmaster está por trás da suposta ressurreição de Arthur Edgell? – Indago, pensando na possibilidade que não era tão absurda assim.

— Eu não tenho dúvidas. Ele é o único capaz de elaborar algo tão complexo quanto forjar uma morte. Nós dois somos a prova viva de que isso não é tão impossível assim. – Relembra Clint e eu suspiro, ciente de que ele estava certo. Clint foi capaz de ajudar Sara a forjar a própria morte para entrar na S.H.I.E.L.D. e receber o soro Mirakuru, também conhecido como o soro que pode transformar as pessoas em super-humanos.

— O que você tem em mente? – Pergunto, temerosa com a resposta que receberia de meu namorado.

— Eu vou te buscar agora e a gente conversa no caminho. Você quer que eu leve o seu café da manhã? Aposto que você ainda não comeu nada. – Comenta Clint e eu acabo dando uma risada anasalada.

— Por favor. Estou morrendo de fome. – Respondo, suspirando pelo cansaço que dominava todo o meu corpo. Meus ombros pareciam carregar uma tonelada, os olhos estavam arenosos e minhas pernas doíam pelas horas em pé que passei rodeando o criminoso.

— Certo. Eu chego entre trinta e quarenta minutos. Pode deixar o carro aí. Depois eu peço para Shawn ou Mon-El buscar para mim. – Avisa Clint, enquanto ouço a movimentação do outro lado da linha.

— Está bem. Estou te esperando. Mande uma mensagem quando chegar que eu vou para a portaria. Enquanto você não chega, irei tirar uma soneca. – Informo, voltando a me deitar.

— Bons sonhos, Bela Adormecida. Eu te amo.

— Eu também te amo. – Respondo, sorrindo ao ouvir aquelas palavras que tanto mexem com o meu coração. Encerro a ligação em seguida, sentindo-me nas nuvens.

Suspiro e coloco o celular de lado no sofá. Apesar da preocupação desse aparecimento inexplicável do sargento Edgell, que deveria estar morto, e a perseguição a Beth, eu estava realmente cansada. Por isso, ignorando completamente todos os meus problemas, encolho-me no sofá, buscando a posição mais confortável para dormir, e uso uma das almofadas como travesseiro. No entanto, meu desejo de tirar um cochilo é bruscamente interrompido por um alarme alto no vindo de minha bolsa.

Ao notar que se tratava do walkie-talkie criado por Clint para os sobrinhos em caso de emergência, qualquer resquício de sono que existia em mim evapora por completo. Esperando que as crianças se envolvessem em problemas e somente ele pudesse os ajudar, Clint criou um celular walkie-talkie, que não pode ser rastreado por ninguém além do próprio Clint e por mim. Ele deu um celular como esse para cada um dos sobrinhos e todos foram orientados a usá-lo em casos de vida e morte e quando seus celulares normais não funcionam. Todos adquiriram o costume de sempre andar com esse celular para o caso de emergência e todas as vezes que ele foi acionado, algo muito sério estava acontecendo.

É por isso que eu imediatamente corro até minha bolsa em busca do walkie-talkie, desesperada para descobrir quais de meus sobrinhos estava em perigo. Assim que eu o encontro, arfo ao ver que o chamado vinha de Thea Queen, uma das sobrinhas mais novas de Clint. Respiro fundo e conecto o meu walkie-talkie com o de Thea.

— Thea, o que aconteceu? – Pergunto, assim que vejo que estou conectada a garota. Encaro a localização no radar do celular e ela estava em movimento. Provavelmente estava em um carro.

— Tia Tasha, eu estou com problemas. – Responde a garota em desespero. – Um homem estranho invadiu a casa de Roy com uma adaga afiada, enquanto eu e ele dormíamos e aparentemente tentou me sequestrar. Eu consegui me defender antes que ele tentasse me levar. Mas enquanto brigávamos, Roy entrou no meio e acabou se machucando. Eu usei uma das técnicas que tio Clint me ensinou para ganhar vantagem e fugir para o meu carro com a minha bolsa, mas esse maluco está me perseguindo pela cidade. Eu preciso cuidar do corte que Roy fez no braço. Eu tentei entrar em contato com o celular do tio Clint, mas a linha estava ocupada.

— Ele estava conversando comigo. – Respondo, preocupada. – Mas não se preocupe, querida. Eu já estou a caminho. Vire o carro na próxima rua a direita, siga em frente até encontrar um posto de gasolina. Vire depois a esquerda e continue indo pelo caminho da pista até encontrar um prédio espelhado. Entre na garagem nele. É o prédio da CIA. Vou avisar aos seguranças sobre o estado de Roy. Eles devem cuidar dele. Enquanto isso, eu vou dar um jeito nesse maldito que está atrás de você.

— Tudo bem. Mas tenha muito cuidado. Esse cara parecer ser perigoso. Acho que ele é um dos inimigos de tio Clint. Ele não parava de falar sobre se vingar dele pelo que aconteceu no passado. Não sei sobre o que ele estava falando, mas tenho certeza de que ele citou Gavião Arqueiro. Pelo histórico de tio Clint, esse cara deve ser bastante duro na queda. – Alerta Thea com preocupação. Suspiro e assinto, mesmo que eu soubesse que ela não estivesse me vendo.

— Eu vou ficar bem. Além disso, você acionou o canal de emergência, o seu tio também já deve estar a caminho e ouvido nossa conversa. Nós já estamos a caminho. Então apenas aguente firme e siga para onde eu a orientei. – Respondo, sentindo a adrenalina percorrer minhas veias ao pensar na possibilidade do perseguidor ser o sargento Edgell.

Encerro minha chamada de emergência, ciente de que Clint já devia ter visto o alerta e ouvido a nossa chamada. Informo os seguranças do prédio sobre a vinda de Thea e Roy para o estacionamento, onde eles precisariam dar os primeiros-socorros. Pego as minhas coisas, a chave do carro e com o celular walkie-talkie em mãos, sigo para o local onde deixei o carro de Clint estacionado.

Com o coração na mão, acelero e corro em direção a localização informada pelo GPS da espécie de walkie-talkie avançado que Clint inventou para se comunicar com os sobrinhos. Respiro fundo e tento manter a calma. Se eu realmente irei me encontrar o sargento Edgell, eu vou precisar manter a postura e me preparar para lidar com o erro de não ter verificado se o homem realmente estava morto e lembranças nada agradáveis.

Balanço a cabeça tentando espantar os pensamentos e me concentro na pista escorregadia pela final camada de gelo que tomava a cidade. Ao longe, vejo o carro de Thea vindo em minha direção e logo atrás o carro do perseguidor. Aperto o volante e inspiro. Estava na hora do show.