Mistérios de Dezembro
29 Bárbaro
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO XII – MISTÉRIOS DE DEZEMBRO
CAPÍTULO XXVIII – BÁRBARO
— O quê? Minha mãe conhece Taskmaster? – Questiona Damon, encarando Clint completamente atônito. – Como pode ter tanta certeza disso? Aaron poderia estar mentindo.
— E ainda que seja verdade, como pode ser possível a gente ser a peça chave? Quer dizer, nem passamos muito tempo com a tia Lilly. Nós não passamos muito tempo com ela e duvido muito que ela teria nos contado quem seria o Taskmaster. Ainda mais sabendo que imediatamente diríamos para você e tia Tasha. – Complementa Elena, duvidando das palavras do tio.
Clint sorri e passa a encarar as fotos que ganhou de Jeanne. Eu não sabia bem o que se passava em sua mente, mas permaneço em silêncio. Peggy e Steve me encaram como se esperassem alguma explicação e eu apenas dou de ombros. Depois de anos convivendo com ele, eu sabia que Clint deveria ter bons motivos para acreditar que Damon e Elena poderiam ter a resposta que ele tanto tem procurado.
— Aaron dizia a verdade. Eu conheço cada um de vocês bem o bastante para saber quando estão mentindo para mim e vocês sabem muito bem disso. Não foi à toa que eu conseguia lidar com doze crianças elétricas ao mesmo tempo. – Afirma Clint, encarando os sobrinhos. – E não acho que Lillian saiba que ele é o Taskmaster. Ele já teria a matado se ela soubesse. Taskmaster é o tipo de homem que não se arriscaria tanto assim ao ponto de permitir que alguém como Lillian soubesse a sua verdadeira identidade. Na primeira oportunidade, ela o chantagearia para conseguir o que queria, ainda mais tendo o poder que ele tem.
— Eu não estou conseguido entender aonde quer chegar, tio Clint. Se minha mãe não sabe que ele é o Taskmaster e se levarmos em consideração que então seria impossível ela nos contado sobre a identidade dele, como espera que a gente te ajude? – Indaga Damon, encarando o tio em confusão. Clint parece pensar no assunto e dá mais um sorriso brando.
— Na verdade, estou apenas seguindo a minha intuição. Não nenhuma prova de que eu esteja certo. Em meio a falta de recursos que possam me ajudar a solucionar esse mistério, tudo o que me resta é arriscar. Não estou afirmando que vocês saibam a identidade de Taskmaster e não quero que se sintam pressionados a me darem uma resposta correta, uma vez que não temos nada concreto ainda. Mas se existir alguma possibilidade, eu quero tentar. – Responde Clint, estendendo uma foto a Damon, que a pega e assente, concordando.
— Tudo bem. – Concorda Damon, encarando a foto. Ele a observa por um tempo e parece não saber bem o que dizer, passando-a para que Elena a analisasse. – Desculpa, tio Clint. Eu não reconheço nenhum dos homens na foto.
— Eu também não conheço ninguém aqui, tio Clint. – Afirma Elena, suspirando decepcionada. – Desculpa.
— Está tudo bem. Imaginei mesmo que não reconheceriam. – Comenta Clint com sinceridade. – Na verdade, esse foi o primeiro descarte de possibilidades que eu precisava fazer. E sendo sincero, essa é apenas uma teoria. Aparentemente, um dos homens nessa foto pode ser o Taskmaster.
— Mesmo? – Questiona Steve, surpreso. – Eu posso ver a foto?
— Aqui. – Elena estende a foto ao agente da CIA, que a pega e analisa com cuidado. – Tem um homem aqui que é bastante familiar, mas não tenho certeza se eu realmente o conheço.
— Quem? – Pergunta Peggy, aproximando-se mais do marido.
— Esse rapaz loiro de óculos de sol vermelho. – Responde Steve, encarando a foto com intensidade.
— Deixa-me ver. Pode ser que eu o reconheça se for alguém com quem você teve contato na infância. – A foto então é passada para Peggy, que balança a cabeça em negação. – Não. Definitivamente não tivemos contato com ele.
— Esse... esse homem. Ele é muito parecido com o homem que vi. É a versão mais nova, cabeluda e magra do homem que tirou a máscara no beco da Jordan Road. – Afirma Kayla com os olhos arregalados.
— Você tem certeza disso, querida? – Pergunto, aproximando-me da adolescente que havia tomado a foto da mão da mãe para a encarar. Ela assente freneticamente.
— Eu tenho. Tenho sim, tia Tasha. Esse homem é o Taskmaster. – Responde a adolescente, encarando-me de forma ansiosa. – Eu tenho certeza disso.
Assinto e pego a foto para observar melhor o homem que Steve havia destacado e que Kayla havia reconhecido. Arfo ao reconhecer quem se tratava aquele homem, que realmente carregava os traços de um velho conhecido meu e de Clint.
— Esse é... ele é... – Balbucio, surpresa.
— Anthony Masters? – Completa Clint, atraindo a atenção de todos. Balanço a cabeça concordando e ele dá uma breve risada anasalada. – Sim. É ele.
— Espere um pouco. Esse nome é bastante familiar. – Comenta Elena, pensativa. Ela se vira para Damon que se encontrava tenso ao seu lado. – Damon, esse não é o mesmo nome que a tia Lilly disse?
— Sim. – Resmunga Damon, levantando-se do sofá e anda até o piano que havia na sala de Clint, ficando de costas para nós. O assunto “mãe” ainda era muito delicado para Damon, que foi abandonado quando ainda era muito novo. Mesmo com Lillian de volta, nada saiu como ele planejava.
— O que ela disse, Damon? – Questiona Clint, chamando a atenção de Damon. Bufo e encaro meu namorado com repreensão.
— Dê um tempo para ele. – Sussurro irritada com a falta de sensibilidade com o sobrinho naquele momento.
— Está tudo bem, tia Tasha. – Responde Damon, voltando a encarar Clint. – Eu não sei até que parte dessa história é verdade. E nós dois sabemos que não dá para confiar no que minha mãe diz.
— Bom, lembra-se do que eu ensinei a vocês quando criança sobre mentiras? – Pergunta Clint, alternando o olhar entre Elena e Damon.
— Não minta, mas caso seja necessário, o segredo é usar um pouco de verdade para tornar a mentira mais verídica. – Relembra Elena e Clint assente, concordando.
— Sua mãe é uma mentirosa nata, Damon. E como uma profissional em mentir, eu tenho certeza de que alguma parte do discurso dela deve ser verdade. Conte-me o que ela disse e eu vou avaliar o que pode se encaixar em nossa história. – Responde meu namorado, encarando-me pelo canto do olho.
— Segundo minha mãe, ela não estava preparada para ter um filho e uma casa para cuidar com dezoito anos. Para ela, a rotina era como uma prisão e ela só foi capaz de suportar meu pai e a mim por seis anos, que foi quando ela conheceu Anthony Masters. Eu não sei como eles se conheceram, mas minha mãe disse que se apaixonou por ele e não pensou duas vezes antes de aceitar a proposta dele de ir para Londres. Então, depois de deixar os papéis do divórcio na cama do meu pai e nos abandonar, ela partiu.
“Em Londres, ela assumiu uma nova identidade e passou a viver com esse homem. Aparentemente, o relacionamento não durou muito, mas ela iniciou a carreira dela como atriz por lá, onde conseguiu inúmeros papéis em séries e filmes. E depois de se tornar famosa, ela não poderia revelar ao mundo sobre a existência de um filho que ela abandonou e por isso nunca mais voltou.” – Damon termina de narrar e se senta ao lado de Elena. – Que parte da história é verdade?
— Tudo o que você me disse é verdade. – Responde Clint, levantando-se. Ele anda pela sala e Damon parece surpreso. – A única parte da história que sua mãe contou que é mentira foi sobre ela ter se arrependido.
— Você sabia de tudo isso, Clint? – Pergunto e ele assente, vagarosamente. – Então você desconfiava desde o início que Anthony é o Taskmaster?
— Não. Mas comecei a desconfiar quando vi essa foto. – Responde meu namorado, parando no centro da sala para nos encarar. – Mas levando em consideração a quantidade de inimigos que tenho e que eu tive contato, não dava para ter certeza. No entanto, os detalhes que me fizeram confirmar que ele era o Taskmaster foi a revelação de Kayla e o ponto levantado por Damon.
— Que seriam? – Questiono, confusa.
— A prisão por culpa do senador Clancy Brown e o fato de Lilly ter sido seduzida por Anthony a fugir com ele. – Explica Clint e isso me surpreende.
— Pensei que a culpa de Anthony ter sido preso fosse sua. – Comento, encarando-o com seriedade.
— Eu jamais teria descoberto a localização dele se não fosse pelo senador Clancy Brown. – Conta meu namorado, dando um sorriso discreto.
— Afinal, quem é esse Anthony Masters? – Pergunta Elena com curiosidade.
— Ele é um bárbaro. Não. Ele é um demônio desgraçado que destrói a vida das pessoas sem qualquer remorso. – Respondo, sentindo-me a fúria percorrer minhas veias. – Eu não acredito que esse maldito esteve na minha casa e agiu como se fosse a primeira que nos encontrássemos.
— Ele não se lembrava de você, Natasha. Se esqueceu da amnésia global transitória dele? – Questiona Clint e eu bufo irritada. – Vocês nunca lutaram, então para ele era como se fosse a primeira vez que vocês se encontravam mesmo.
— Pessoal! Quem é Anthony Masters? – Insiste Peggy, chamando nossa atenção. – Eu realmente estou curiosa. Finalmente sei o nome de Taskmaster, mas não faço ideia de quem é esse homem.
— Anthony foi o responsável por matar os pais biológicos de Natasha e a sequestrar quando ela era criança, entregando-a para o Tentáculo. – Responde Clint, surpreendendo Peggy, Steve e meus sobrinhos que nunca haviam escutado sobre essa parte da história. – E você o acha familiar, Steve, porque esse maldito foi responsável por sabotar o freio da moto de Adam Florian, o pai de meu afilhado, que o levou ao acidente onde ele ficou em coma por quatro semanas. Como se não bastasse o que fez, Anthony ainda tentou ir ao hospital terminar o serviço. Felizmente, eu estava presente e consegui o impedir, mas ele acabou escapando.
— O quê? Ben nos disse que foram os inimigos de tio Adam que sabotaram os freios da moto dele. Anthony estudava com ele e tia Bela? – Questiona Damon, confuso.
— Não. Ben não sabe toda a história. Adam e Bela preferiram não contar toda a verdade para não manchar a imagem já ruim da família paterna dele. Em resumo, os pais de Adam trabalhavam ao lado da família de Mon-El com a venda de armas, mas eles atuavam de forma mais ilegal e construíram um império. Em determinado momento, eles acabaram despertando a fúria do Tentáculo com a expansão do comércio pelos países europeus e asiáticos. Então o objetivo de matar Adam era atingir Margot e Terrence. – Explico, suspirando cansada.
— Eu me lembro disso. A minha primeira missão foi acompanhar a Naty na captura desse homem. Clint havia informado a CIA sobre a localização dele. – Relembra Steve, surpreso. – Ele era estranho. Não pareceu surpreso quando foi pego e ainda colaborou com todos quando ele foi levado para a prisão. Mas também me lembro que meses depois ele fugiu. Eu nunca poderia imaginar que ele era o líder da HYDRA.
— Nenhum de nós imaginava. – Afirma Clint, voltando a se sentar no sofá. – Para todos nós, ele continuava sendo um agente do Tentáculo. Nunca passou pela nossa cabeça que ele havia se tornado responsável por comandar a HYDRA.
— E o que vocês vão fazer agora? Sabem onde ele pode estar? – Pergunta Kayla, chamando a nossa atenção para algo importante.
— Ainda não sabemos, mas amanhã sem falta eu descubro. Por hoje, vamos descansar. Agora que sabemos a identidade de Taskmaster, será mais fácil de encontrar. Então não se preocupem. Amanhã sem falta, tudo isso chegará ao fim. – Responde Clint, dando um sorriso tranquilizador.
— Mas e se ele... – Elena começa a argumentar, mas é interrompida por Clint.
— Está tudo bem, querida. Eu vou informar a diretora da CIA sobre a identidade dele e fechar todas as rotas de fuga. Ele não vai fugir do país e eu conheço alguém que vai ser capaz de encontrá-lo. – Afirma meu namorado, dando um sorriso confiante.
— Vai pedir para a Fely encontrá-lo? – Pergunta Peggy e Clint balança a cabeça negativamente.
— Então vai pedir para o Freddie localizá-lo? – Indaga Steve e mais uma vez recebemos uma resposta negativa de meu namorado.
— Vai usar a CIA, então? – Chuto e o homem se aproxima de mim com um sorriso misterioso.
— Não. – Responde Clint, erguendo meu queixo. Ele deixa um beijo singelo em meus lábios e se afasta. – Irei usar adolescentes geniais de quinze e dezesseis anos.
— Como assim, tio Clint? – Questiona Damon, expondo a dúvida que todos possuíam naquele momento.
— Mike Wheeler, Max Mayfield, Lucas Sinclair, Will Byers, Dustin Henderson e é claro, minha adorável Eleven. – Responde Clint e eu o encaro com incredulidade.
— Você não pode estar falando sério. – Resmungo, indignada com a falta de noção de Clint. – Eles são crianças, Clint. Não pode os envolver nessa história. E como você acha que eles vão encontrar o Anthony? É melhor deixar isso para Felicity ou Freddie que são especialistas nisso. Eu posso os ajudar com isso e...
— Crianças gênios que criaram recentemente um aparelho capaz de localizar qualquer pessoa pelas câmeras de segurança da cidade a partir do banco de dados da CIA, que ironicamente eles conseguiram invadir e nunca foram pegos. – Responde Clint, ampliando ainda mais o seu sorriso. Ao olhar para os outros presentes na sala, posso ver que eles também pareciam surpresos. – Então, sim, nós usaremos Eleven, Mike e os amigos deles para localizar Anthony amanhã sem falta. Mas hoje, iremos descansar. Tivemos um dia cansativo e precisamos recuperar nossas energias físicas e mentais. Não estamos prontos para iniciar uma nova caçada depois de tudo o que passamos hoje e você sabe disso.
— Tudo bem – Concordo, dando-me por vencida. Viro-me para Damon, Elena, Peggy, Steve e Kayla. – Obrigada por terem vindo. Jamais encontraríamos a resposta desse enigma que tem durado vinte anos.
— Eu não tenho tanta certeza disso, Naty. – Comenta Peggy, levantando-se do sofá com um sorriso divertido. – No fim, foi a genialidade de Clint que desvendou o mistério.
— Eu concordo com a Peggy. – Afirma Elena, sorrindo com o orgulho para o tio. – Não era necessária à nossa presença, mas fico feliz de poder ver tio Clint em ação e observar vocês dois juntos de novo. Então obrigada por terem chamado a gente.
— Parabéns por estarem juntos de novo. – Parabeniza Damon, aproximando-se de nós. Ele e Elena nos abraçam com carinho e se afastam com grandes sorrisos em seus rostos. – Se precisarem mais uma vez de nós, já sabem como nos encontrar.
— Não menosprezem tanto a participação de vocês. Como eu disse, vocês foram as peças chaves para desvendar o mistério. Talvez eu pudesse mesmo encontrar a resposta por conta própria, mas eu demoraria ainda um bom tempo para reunir as informações. Então, muito obrigado pela ajuda. – Clint agradece demonstrando toda a sua sinceridade. Ele se aproxima de Kayla e coloca as mãos nos ombros da garota. – E eu sou grato principalmente a você, Kayla. Obrigado por me contar algo tão traumático quanto os momentos que passou por causa de Anthony. Eu prometo que ele pagará pela morte de seu pai biológico e por colocar a sua vida e a de seus irmãos em perigo.
— Obrigada, tio Clint. – Kayla responde, dando um forte abraço em Clint, que corresponde com igual intensidade.
— Bom, está na hora de irmos. Vamos deixar vocês descansarem. Mas amanhã eu volto cedo para ajudar vocês com a busca a Taskmaster. – Avisa Steve, encarando-nos com seriedade. – Assim como vocês, eu não vejo a hora de colocar esse maldito atrás das grades para ele pagar por tudo o que ele fez a todos nós.
— Está bem. Obrigada, Steve. – Agradeço, levantando-me. – Definitivamente amanhã daremos um jeito em Anthony Masters. Custe o que custar.
[...]
Assim que saio do banheiro secando meus cabelos com a toalha, surpreendo-me ao notar que Clint não estava no quarto, como havia informado que ficaria. Suspiro e me sento na confortável cama, observando o cômodo que dividi com Clint por um pouco mais de um ano. Sorrio ao notar que nada mudou.
As paredes continuavam cheias de quadros e lembranças que o remetiam a suas viagens pelo mundo. Uma enorme estante exibia a grandiosa coleção de livros que Clint lia com frequência. Pela janela do quarto era possível ter a visão do rio White e de toda a floresta próxima a casa. Tudo excêntrico e ao mesmo tempo aconchegante.
Pego o porta-retrato ao lado da cama e sorrio ao ver a foto de toda a família Barton reunida com todos os sobrinhos, irmão e amigos de Clint. Passo a mão por cima da imagem de meu namorado sorrindo, enquanto me abraça apertado. Encaro minha expressão feliz por estar reunida com aquelas pessoas e sinto um aperto em meu coração ao pensar que meus filhos poderiam estar presentes nessa foto se não fosse pelos inúmeros erros que eu cometi em minha vida.
Suspiro e coloco o porta-retrato de volta no lugar. Deito-me na cama e observo o teto branco do quarto, refletindo sobre todos os acontecimentos do dia. Alexi finalmente estava morto, mas isso parecia tão surreal que a ficha ainda não havia caído totalmente para mim. E descobrir que a pessoa que eu mais odeio no mundo desde que eu tinha dez anos é também o ser humano que mais tenho desejado encontrar nos últimos anos não ajudava em nada a me manter mais calma.
Levanto-me e assim que termino de pentear o cabelo, sigo pela casa em direção ao cômodo que eu sabia que Clint estaria. Ao abrir a porta, encontro meu namorado usando óculos de grau, enquanto lia o que parecia ser uma enciclopédia e anotava algo em seu caderno. Sorrio e me aproximo de Clint com cuidado para não o assustar.
— Não deveria estar dormindo? – Comenta Clint, sem tirar os olhos do livro que lia. Suspiro e coloco as mãos sobre os ombros dele.
— Eu deveria estar fazendo essa mesma pergunta. O que está fazendo aqui? Por que não foi se deitar? – Pergunto, preocupada com o homem.
— E apenas decidi estudar um pouco. Não precisa se preocupar comigo. – Afirma, finalmente passando a me encarar. Ele retira os óculos e os coloca sobre a mesa que usava de apoio. Bufo e ele me puxa para sentar em seu colo. – O que foi?
— Você está cansado, mas ainda insiste em estudar. Aposto que não dorme há dias e ainda me pede para não me preocupar com você. – Resmungo, passando os braços por cima dos ombros de Clint. Ele ri e nega. Suspiro e encosto minha testa na dele. – Vamos dormir, Clint. Você pode estudar depois. De todos, você é a pessoa que mais precisa descansar.
— Eu já vou. Apenas preciso terminar de traduzir esse material. – Afirma, mas sinto que há algo de errado com meu namorado. Afasto-me e o encaro com atenção.
— Por que está tão relutante em ir para a cama? – Pergunto e Clint desvia o olhar, como se não soubesse o que responder. – Qual é o problema, Clint? Por acaso não quer que eu durma com você?
— De onde tirou essa loucura? – Questiona o homem, rindo. Continuo a encará-lo com seriedade e ele suspira. – Não é nada disso, amor. Eu apenas não tenho sido uma boa companhia para sono.
— Desde quando você tem problemas para dormir? – Pergunto, levantando-me de seu colo. Clint permanece em silêncio e noto uma certa sombra em seus olhos. – Por que não me conta o que está acontecendo?
Clint suspira e leva as mãos ao rosto, jogando o corpo para trás. Observo-o com os braços cruzados, enquanto me encostava na mesa de madeira. Meu namorado parece viver uma dura batalha interna, pois no momento em que suas mãos se abaixam, posso finalmente ver o cansaço que ele tem escondido de mim nas últimas semanas.
— Eu não consigo dormir. Todas as vezes que durmo, tenho pesadelos e lembranças do dia em que as crianças morreram. E então as minhas dores de cabeça se tornam ainda mais intensas. Geralmente eu conseguia apagar com os fortes remédios que o Bernard me dava, mas desde que ele morreu, parece que os remédios pararam de fazer efeito. – Conta, surpreendendo-me. – Então, ao invés de perder tempo sofrendo com memórias dolorosas que não vão mudar, eu prefiro me dedicar a estudar. É isso que tem me mantido são nesses últimos dez anos.
— Se você não dorme desde a morte de Bernard, isso significa que você está há mais de quinze dias sem dormir? – Questiono, surpresa.
Clint era o tipo de pessoa que conseguia dormir em qualquer lugar. Eu sempre o admirei por isso. Fosse no chão frio ou em camas confortáveis, bastava ele deitar e era questão de minutos para ele pegar no sono. Ele dizia que era porque sua mente trabalhava compulsivamente, então quando ele se deitava, a mente se desligava de todas as informações que repassavam em sua cabeça.
— Não precisa me olhar assim. Está tudo bem. – Afirma o homem, levantando-se para acariciar meu rosto. Afasto-me, inconformada com a situação e puxo o homem pelo pulso. – Natasha...
— Cala a boca, Clint. – Resmungo, conduzindo-o em direção ao quarto.
— Amor, por favor...
— Sem desculpas, Clint. Essa noite você vai dormir. Você precisa disso. – Digo, apertando ainda mais o seu pulso.
— Natasha, espere. Eu não...
— Não, Clint! – Interrompo-o mais uma vez, apressando nossos passos. Assim que chegamos ao quarto, empurro-o contra a cama e apago todos os abajures do cômodo. Puxo o cobertor para cobri-lo, mas quando tento me afastar, Clint me faz cair em cima dele. – Me solta, Clint. Você...
Clint acaricia meu rosto e pela luz fraca que entrava pela janela do quarto, posso ver a gentileza nos seus olhos. Somente nesse momento, noto que as lágrimas desciam com intensidade pela minha face. Clint me abraça apertado e acaricia meus cabelos, enquanto eu afundo meu rosto em seu pescoço. Eu não fazia ideia do motivo de estar chorando, mas meu peito doía e eu sentia como se tivesse um nó preso em minha garganta.
— A culpa foi minha. Eu sinto muito. – Sussurra Clint e eu ergo meus olhos para encarar a dor presente nas esmeraldas que eram os olhos do homem. – Eu deveria ter impedido Alexi. Isso é tudo o que eu penso todas as noites.
— Ainda pensando isso? A culpa não foi sua, Clint. – Sussurro, virando-me para me deitar ao seu lado. Ele me encara com insegurança. – Eu nunca te culpei e nunca vou te culpar pelo que aconteceu com as crianças. Você fez o seu melhor. Fez tudo o que estava ao seu alcance.
— Eu sei. – Responde com a voz rouca. Ele estava com o choro preso em sua garganta. Eu podia ver isso. – Mas saber disso não faz com que a culpa desapareça. Porque todas as vezes que eu fecho os olhos, a cena volta a se repetir em minha mente. Eu corro pelo orfanato, gritando os nomes das crianças. Dois tiros são disparados. Ao chegar no quarto que vivi até os meus doze anos, vejo os corpos de Lila e Cooper no chão. Há sangue por toda parte. Alexi está na janela com a arma em mãos e um sorriso doentio em seus lábios. Corro até as crianças, mas é tarde demais.
As lágrimas finalmente aparecem. Clint chora em silêncio. Não há nada que eu possa dizer, porque me sinto da mesma forma. Abraço Clint e permito que ele chore em meu ombro, enquanto meu choro retorna. Perco a noção do tempo em que permanecemos nessa posição, mas quando voltamos a nos encarar, acaricio o rosto de Clint.
— A dor nunca vai desaparecer. Isso é algo que teremos que carregar para sempre. E eu também sei que não será fácil lidar com a culpa que carregamos dentro de nossos corações por todos esses anos, mas está na hora de nos reerguermos, Clint. Não apenas fingir que nada aconteceu. Precisamos enfrentar essa dor de frente, compartilhar a verdade com nossa família. Somente assim seremos capazes de viver e não apenas sobreviver, como nós temos feito nos últimos dez anos. – Sussurro, tentando me recompor. – E ao contrário do que fiz quando tudo aconteceu, dessa vez eu ficarei aqui. Ao seu lado. Enfrentaremos nossos passados dolorosos e construiremos um novo futuro juntos.
— Juntos? – Questiona Clint, erguendo o seu dedo mindinho. Rio e cruzo o meu no dele, como uma promessa.
— Juntos. – Sussurro em resposta, encostando minha testa na dele.
Esfregamos nossos narizes e nossos lábios se encontram com doçura e companheirismo. Há um sentimento envolvente que me aquecia e trazia uma espécie de paz que há muitos anos eu não sinto. Suas mãos deslizam pelas minhas costas, pressionando meu corpo contra si.
— Obrigado. – Ele sussurra, enquanto distribui beijos pelo meu queixo, bochecha, boca e pescoço.
— Pelo quê? – Indago, fincando minhas unhas em seus cabelos.
— Por ser o meu paraíso. – Responde, afastando-se para me encarar. Ele coloca uma mecha do meu cabelo atrás de minha orelha e acaricia meu rosto com delicadeza. – Eu te amo.
— Eu também te amo. – Sussurro, deixando um selo em seus lábios. Puxo o cobertor para nos cobrir e me acomodo em seu peito. – Agora feche os olhos e durma. Eu ficarei com você. E amanhã, quando você acordar, eu ainda estarei aqui, em seus braços, pronta para o acordar com um beijo de bom dia e as minhas constantes reclamações pelos seus roncos.
— Eu não ronco. – Murmura, sonolento. Sorrio e fecho os olhos, concentrando-me nas batidas do coração de Clint. Não demoro muito a ouvir o ressonar alto, que de alguma forma parecia ter um tipo de efeito sonífero sobre mim.
— Boa noite, Clint. – Sussurro, finalmente me entregando a noite de sono relaxante e calorosa que eu tenho buscado há dez anos, mas que nunca mais fui capaz de ter, afinal, nada e nem ninguém seria bom o bastante para substituir o calor do corpo de Clint e o aconchego de seus braços.
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