Notas iniciais
~Karyash: Alteramos de primeira pessoa para terceira. Em alguns casos, será necessário o uso da terceira pessoa. Repartimos os personagens entre nós e estamos notificando vocês disso. Levy - Karyash | Erza - Karyash | Gajeel - Karyash | Jellal - Karyash Lucy - Annie | Gray - Annie | Juvia - Annie | Natsu - Annie. Boa leitura! ~le eu sendo seca e grossa lá em cima q

Levy

Acordei num sobressalto. Eu não sabia que aquela história toda do Gajeel fosse me enlouquecer. Sim, eu estou preocupada demais...

“Mas você sabe que tem um motivo.”

— Tem um motivo, claro. Gostar de uma pessoa é, sobretudo, preocupar-se demasiadamente com ela, sem restrições.

“E você é assim com o Gajeel.”

— Sim... Eu sei que sou assim com ele, mas...

“Ele não te dá bola.”

— Você acha que eu não sei disso?! Acha que é fácil suportar essa... Dor? Dá vontade de se matar... De queimar no inferno. Se eu não o amasse tanto, isso não aconteceria. E por que eu fui me apaixonar mesmo? Talvez tenha sido aqueles olhos escuros como a noite, aquele cabelo enorme e desajeitado... Aquela risada estranha... Aquelas piadas...

“Tudo isso e mais um pouco.”

— Exato. Eu não conseguiria viver sem ele... Mesmo que ele me rejeite, ele ainda é a alegria das minhas manhãs. Esses meses que ele está ausente me...

“Preocupam e me deixam vazia...”.

— Se eu pudesse fazer algo para mudar isso...

“Não pense nisso, Levy! Não pense!”.

— Levy? Você está falando sozinha?

Corei.

— M-Mãe?! Você chegou cedo...

— E você vai chegar atrasada na faculdade. Já era para estar lá faz tempo. Nem o pijama retirou ainda. Vamos, Levy?!

Assenti com a cabeça. Não era momento de ficar lamentando o fato de que o Gajeel não gostava de mim, muito menos nada relacionado a ele.


***

A faculdade estava mais deserta do que de costume. Toda a bagunça quem fazia era ele. Sem ele, o lugar não parecia ter mais sentido... Mais vida. E o pior disso tudo é que eu não posso fazer nada. Suspirei cansada.

“Já não está na hora de você voltar, Gajeel?”.

E saí caminhando lentamente arrastando os pertences pelo chão; cabisbaixa. Não era mais a mesma coisa e eu não conseguia viver normalmente daquele jeito.

“Você é melhor do que isso, Levy!”.

Era minha cabeça novamente? Eu estava falando sozinha como mais cedo? Eu estou louca... Quase literalmente.

Arrepiei-me de leve quando senti alguém cutucar meu braço.

Era Lucy.

— Oi, Levy! — Ela disse acenando com as mãos.

— Oi, Lu-chan... — Respondi desanimada. Eu não estava apta a tanta conversa. Hoje são daqueles tipos de dia nos quais eu só quero ficar sozinha... Onde eu só quero ficar na minha.

Ela me encarou com relutância. Era como se... Não soubesse o que dizer para mim.

— Você ainda está preocupada com o Gajeel?

Não. Claro que não. Eu só estou morrendo de preocupação por dentro.

— O que você acha, Lu-chan? Eu estou... Para me suicidar aqui.

A loira estreitou os olhos.

— Levy, você tem que acreditar que onde ele estiver, ele está bem. Não que eu esteja mentindo para você... — Suspirou antes de prosseguir — É que, às vezes, é melhor acreditar no melhor estado de quem você ama...

As palavras dela sempre me reconfortavam... Mas... O “sempre” virou “geralmente” ou “provavelmente”. Os conselhos da Lu-chan não me pareciam mais certos como antes. Desde quando eu passei a achar isso, me perguntava o porquê... Eu não queria tirar conclusões precipitadas disso, mas...

“Eu acho que nossa amizade está para sucumbir...”.

Não tem um motivo... Só não está como antes. Eu, ela e a Er-chan... Sinto falta disso e não se pode imaginar o quanto.

“Talvez essa sua paixão pelo Gajeel tenha acabado com tudo.”.

Tem uma probabilidade enorme de ser isso. Quando me apaixonei pelo tatuado eu só conseguia enxergá-lo na minha vida... Eu pus o amor em primeiro plano e esqueci-me do resto. Minhas conversas com as meninas são supérfluas... São um bando de besteira. Eu sinto falta de compartilhar segredos, de tentar roubar um pedaço de bolo de morango da Er-chan, de ouvir os conselhos da Lu-chan... Sinto falta de quando eu não estava apaixonada por ele. Não é que isso seja ruim... Só atrapalhou em muita coisa e eu não sei o que fazer para mudar isso.

“Você escolhe: Gajeel ou suas amigas. Amor ou amizade.”.

Exato. Daqui até um relativo período de tempo, eu decidirei. Nunca é tarde demais para decidir o que é certo.

“Isso quer dizer que você voltará atrás depois de vacilar?”

— Eeeer, Levy... Você tá ai?! — Perguntou Lucy fazendo gestos com as mãos.

Foi quando eu recordei que ela estava aqui o tempo todo e... Não pareceu estar.

— Lu-chan... Você pode me dar licença?

Ela me encarou desconfiada e antes que eu pudesse ameaçar um passo, a loira me segurou pelo braço.

— Levy... O que aconteceu com a gente? Por que não é mais a mesma coisa? Você se distanciou...

Então eu estava certa. Ela percebeu que houve uma distância.

Segurei uma lágrima ousada... Não, eu não choraria ali... Não na frente dela. Ficaria óbvio que eu estava passando por uma fase complicada... Ela me perguntaria e eu não saberia responder.

“Já é tarde demais, Levy.” — Minha própria voz ecoou na minha mente como uma flecha ardente... Eu estava com mais medo do que nunca. E se eu tomasse uma decisão errada? E se eu perdesse os meus bens mais preciosos?

E então eu chorei como nunca havia chorado antes. Expulsando todas as impurezas, todo o rancor e mágoa que eu escondia das pessoas. Eu estava com raiva da Lucy... Raiva por ela sempre encontrar o que eu escondo... Raiva por ela ter me feito chorar. E eu ainda ficava chateada quando diziam que eu era muito frágil... Por que diabos eu tenho que fingir que sou forte?

— L-Levy... — Vislumbrei sua cara de pena o que me deu mais nojo de mim mesma.

— Por que você tem pena de mim, Lu-chan? Por que você e a Erza sempre acham que eu sou frágil e que não sei me defender sozinha?

O que foi isso agora? Eu nunca soube fingir tão bem.

— Nós nunca pensaríamos isso de você, Levy. — Seu semblante de agora a pouco ficou mais intenso. Definitivamente ela não saberia dizer algo a mais que isso. Mentiras.

— Por que esconde de mim toda a verdade? É por medo de me ver triste? Ou por que você acha que sou frágil demais para aguentar a realidade? Por que isso, afinal? O que eu sou para vocês? Eu pensei que amigas fossem sinceras umas com as outras, mas vejo que me enganei durante esse tempo todo. Não me pergunte o que aconteceu entre nós... Você não sabe o quanto dói ter que responder isso. É como se estivessem pondo uma culpa em algo que não posso controlar. Diga-me se é possível controlar o amor! Hein? Quando ele chega e quando vai... Isso tudo vai me corroer aos poucos e vai me machucar... Se você tem tanta pena de mim, verá o quanto eu prefiro que não pergunte isso.

— Sinto muito que pense isso de nós. — Abaixou a cabeça, continuando com a mesma expressão de sempre. Não valia à pena ficar ali quando na verdade ela não tinha o que me dizer.

“Desculpe, Lu-chan...”.

Foi o que eu quis dizer antes de afastar-me de seus orbes cor de chocolate.

Erza

“Ele posicionou-se sobre mim com apetência. Meus olhos não despregavam-se dos seus. O coração batendo num ritmo vertiginoso. Ele ousou um toque... Perdi-me num choque corporal. Aquilo, definitivamente, não poderia ser somente lascívia.”.

— E eu esperava mesmo que não fosse. — Eu disse a mim mesma, após acordar do sonho anterior, numa tentativa de esquecer-me de uma relação improvável.

Aquele azulado nunca notaria uma ruiva idiota como eu. Mas... Por que não? Isso mesmo... A questão é essa. Eu tenho tudo. Boa autoestima, corpo, cabelos ruivos, boas notas, autoconfiança, beleza... Tudo isso e mais um pouco. Porém... Eu sei que sou pouco para ele. E isso nunca vai mudar.

“Erza... Ainda falta muito para conseguir chamar minha atenção.”.

Recordei-me do nosso mini encontro na sexta-feira passada. Como ele pôde me dispensar daquela maneira? Eu não sou qualquer uma. E ele devia compreender isso.

— Quer saber? Eu cansei de você.

Por mais que eu queira desistir dele, eu não consigo. Provavelmente muitos saibam o quanto é difícil esquecer alguém que... Você nem sabe se ama.

— PORRA! MERDA! INFERNO!

Estou tendo um ataque explosivo. Sou uma bomba que pode estourar a qualquer momento. Ele é lindo, perfeito, maravilhoso, tenho sonhos eróticos com ele, mas... Caralho, por que eu disse isso?

— Eu odeio o jeito que ele me trata. O-D-E-I-O!! — Falei pausadamente para que minha mente nunca mais tenha amnésia e torne a ferrar tudo novamente.

Estapeei-me.

Força, Erza. Ninguém vai te derrubar assim... Aquele azulado não vai te tirar do sério.

***

Sabe o que mais me incomoda na faculdade que estudo? Aqueles grupinhos populares ridículos que ficam num canto tagarelando. Sem contar àqueles antissociais que ficam esfregando o orifício anal nas árvores... E as professoras com uma séria falta de bunda rebolando os ossos...

Sinceramente, eu tenho vergonha da minha faculdade.

Trinquei o maxilar em busca de algo interessante para fazer, enquanto percorria os olhos por toda a extensão do local.

Realmente... Estar aqui é mais monótono do que visitar um velório no qual a pessoa que morreu você nem conhecia.

— Oi, Er-chan. — Virei o rosto procurando quem me chamava tendo uma visão desgastante de uma cobra miserável em extinção.

— Ah, oi, Lisanna!

Quanta falsidade. Quem vê de longe diz que somos amigas mesmo, mas quem conhece minha personalidade... Ah, riria da minha cara. Aquela vadia branquela estava a minha frente com um semblante impassível de quem não liga para porra alguma e eu? Bem, estou lá... “Vangloriando” a presença da bicha.

— Como foi o final de semana?

“Ótimo, sem ter que encarar essa tua cara mal lavada.”.

— Foi bom, Lisanna. E o seu?

— Legal até eu chegar aqui.

— Como assim?

— Eu vi aquela baixinha azulada... Eeer, Levy Mcgarden acho que era o nome, chorando pelos cantos.

Fiquei pasma. Será que... Foi o Gajeel novamente?

Saí caminhando por aí sem nem me dar conta de que me esqueci de perguntar a Liscobra sobre onde a Levy estava. Desde que ela conheceu aquele tatuado idiota está sim... Descontrolada e apaixonada. E eu sei como é isso... Porque eu acho que amo o Jellal.

É um sentimento confuso mesmo, Le-chan. E ele dói... Principalmente quando você não recebe o tratamento que esperava. Eu detesto quando caio no mundo das melações, fugindo da realidade. E também odeio quando me finjo de conselheira para os outros quando na verdade nem sei o que fazer da própria vida. E, acima de tudo, eu tenho nojo de mim mesma... Por ser quem eu sou.

Quando cheguei numa zona qualquer, avistei a baixinha exatamente do jeito que aquela Liscobra indagou. Eu esperava que a branquela estivesse tirando uma com a minha cara, mas estava mais do que enganada. O pior de ver uma situação dessas é que eu não sei o que fazer. Eu posso até adorar a pessoa, contudo não sei reconfortá-la. Eu não sei reconfortar nem a mim mesma para fazer isso com alguém.

Porra, Levy... Por que diabos você tinha que estar triste?

E foi aí que eu vi que não tinha outra maneira. Era sentir o coração pútrido ao observar aquela cena ou ir e fazer uma boa merda. Se é que isso é possível.

Levy... — Sussurrei melancolicamente. Queria ver um sorriso na minha amiga, porque é para isso que eu sirvo.

Ela não me respondeu.

Argh. Não. Vamos lá, Erza. Faça alguma coisa...

E então eu chutei a parede. Vi o choque nos olhos da azulada.

— LEVY! EU ESTOU FALANDO COM VOCÊ! — Apelei para os berros. Ou ela me escutava ou me escutava. Não tem outra opção.

— Ah, Er-chan. Desculpe... Eu só...

— Cala a boca, Levy. Por que você estava chorando?

— Eeer... Nada.

Sério que você acha que esse papo funciona comigo, Levy?

— Se não é nada, não chore. Você vive reclamando dizendo que não é frágil e olha só o que temos aqui!

A baixinha me encarou com raiva.

— Você acha que chorar é um defeito, Erza? Acha que você é tão perfeita a ponto de não chorar? Eu tenho nojo de você.

Sabe, eu nunca fui vítima de lâminas que atingem o emocional, mas acho que este é o dia.

— E eu acho que sou ímã para amigas falsas e fracas.

Doeu, Levy? Desculpe, mas eu não pego leve com quem quer brincar de machucar emocionalmente.

Senti os nervos à flor da pele. A raiva cada vez mais tomando conta de mim. Meus passos passaram a ficar esguios e pesados, enquanto a cabeça acompanhava incansavelmente os meus orbes visualizando o chão. Andei por ai; cabisbaixa. Até que, brutalmente, constatei alguém puxar minha cabeça para cima.

Jellal.

— O que quer, Fernandes? — Eu disse com frieza quando os meus olhos encontraram-se com os dele.

— Saber qual é o seu problema.

— Eu não sou um enigma para você desvendar mistérios.

— Eu gostaria que fosse.

— Pena que não lhe dei livre arbítrio.

— Você gosta de se fazer de difícil.

— E você acha que eu sou fácil. — Quis dar um fim naquilo tudo. Ele não pareceu entender.

Pegou-me e empurrou-me contra a parede. Minha respiração descompassada. Meu coração alertando um sinal vermelho. Minha pele arrepiando. Perto demais. Fechei os olhos pronta para o que viesse. Um silêncio mortal pairou no local como se ele fosse mesmo fazer aquilo.

Não. Você não vai fazer isso.

Joguei-o para trás; para bem longe de mim.

— Eu lhe mostrarei que não sou seu brinquedinho e que você não faz o que quer. — Apontei o dedo na sua cara determinando um limite. — A partir de hoje, fique longe de mim.

Juvia

Meu dia já começou mal quando cheguei ao Campus e vi que ele já estava aqui antes de mim. Jogo a bolsa agressivamente num dos bancos, retirando o moletom e a calça de algodão que usava por cima do maiô de banho.

Quando estou colocando a touca e os óculos de proteção, vejo-o sair da piscina com a respiração ofegante. Ele também me vê, mas como sempre, não parece ligar para a minha existência. Por isso volta a se posicionar e respira fundo antes de mergulhar de novo. Caminho pela lateral da piscina, aquecendo braços e pernas enquanto observo sua destreza na água.

Gray Fullbuster, o aluno mais veloz na natação de todo o banco de atletas da Universidade.

Não é pelo fato de ele ser melhor que eu que não gosto dele. Mas sim porque o cara simplesmente se acha. Tem poucos amigos, e não fala com mais ninguém fora estes. É o primeiro a chegar à piscina e o último a sair, sempre tira boas notas e jamais faltou a um dia de aula sequer.

Chato, resumindo em uma palavra. Eu nunca vi o cara sorrir, ao menos. E isso só contribui para o sentimento natural que tenho de não ter ido com a cara dele.

Outros atletas chegam junto com o professor responsável, para ocuparem os lugares vagos nas piscinas. Cumprimento várias pessoas enquanto ainda estou me aquecendo. A natação é onde mais se tem variedade de pessoal. Há desde Licenciatura em Matemática até Ciências Sociais, porém poucos participam das competições, como eu e o Fullbuster.

Mais uma vez vejo que o senhor não-me-toque não falou com ninguém, só que isso não é novidade. Nunca vi uma pessoa tão introvertida como ele fazer Bacharelado em Educação Física. As pessoas já se acostumaram com seu aparente desinteresse pelos colegas e sua falta de presença, exceto por mim. Eu não queria me incomodar com uma pessoa que nem ao menos sabe meu nome, mas simplesmente não consigo engolir esse jeito dele. O cara ultrapassou há muito tempo os limites da timidez e já está na área dos maus educados e arrogantes.

Estou me preparando para mergulhar quando ouço o professor dizer o que diz a ele todos os dias:

— Não se esforce demais, Gray.

Exibo um sorriso amargo. Talvez se o senhor dissesse o contrário, teria o efeito desejado.

Respiro fundo e pulo na água.

***

Meu horário acadêmico só se inicia de verdade depois do treinamento matinal. Estou me sentindo revigorada depois de nadar, que é uma das coisas que mais gosto de fazer.

Às vezes me pergunto se o Fullbuster gosta mesmo do que faz. Porque do jeito que ele age, virou mais uma obrigação que diversão, e eu odeio pessoas competitivas ao extremo. Tirar o próprio prazer de fazer as coisas, acaba tirando também o daqueles ao seu redor. Perdi a conta de quantas vezes vi a frustração no olhar de quem perdeu para ele. Inclusive, basta apenas eu me olhar no espelho para isso. Eu sempre fico entre os cinco, mas nunca em primeiro. Desde que o Fullbuster entrou no corpo de atletas, esse posto é apenas dele. E sabe o que dá mais raiva? Ele nem ao menos parece feliz quando ganha. É como se não se importasse com aquilo, ou estivesse entediado por sempre ser a mesma coisa.

Absolutamente desprezível.

Depois de trocar de roupa, saio do vestiário com o destino traçado para o Aquário das grandes espécies de Polvos. A junção de mar e biologia, as duas paixões da minha vida. E eu já estou atrasada para a aula.

Ando apressadamente pelos corredores, quando ouço uma voz e a reconheço de imediato. Antes de raciocinar para o que estou fazendo, retrocedo alguns passos e me escondo na parede. Porque estou escutando uma conversa alheia, ainda mais do Fullbuster?

Mas a curiosidade é maior.

— Eu sei, pai. — Ouço ele dizer. Foram raras as vezes que ouvi sua voz e admito que é bonita. — Vou treinar mais tarde, depois das aulas.

Ele fica em silêncio. Então consigo ouvir o som abafado que sai do celular. O pai dele parece estar gritando.

— Quarenta e dois segundos e meio. — Responde ele, e o que ouve em seguida não parece ser muito bom, já que ele diz: — Eu posso desmaiar de exaustão até o final do dia, mas diminuo pelo menos cinco segundos do tempo. Satisfeito?

Caraca! Esse cara só pode estar louco. Se é que já não é.

— Ótimo. — É tudo o que ele diz . Em seguida ouço passos e tudo fica no mais completo silêncio.

Fico um tempo ali, parada, absorvendo as informações. Que tipo de relação esse cara tem com o pai? Pelo visto, não muito boa. Talvez seja esse o motivo de seu mau humor natural, o que ainda assim não justifica.

Depois de esperar um tempo para garantir que ele já tenha ido embora, respiro fundo e me desencosto da parede, virando a esquina.

Meu coração falha uma batida. Puta merda, fui pega no ato. Fullbuster apenas fingiu que foi embora. Está com os braços fortes cruzados, o cabelo molhado caindo nos olhos faz com que seu olhar seja mais intimidador.

— Seus pais nunca te disseram que é feio escutar a conversa dos outros?

Engulo em seco. Merda.



Lucy

Após ficar paralisada com as crueldades que Levy me dissera, até mesmo depois que eu já a tinha perdido de vista, me permiti a respirar devagar, no intuito de aquietar meu coração.

Na verdade, sou tão chorona quanto ela, mesmo que a azulada negue-se a demonstrar isso em público. E quando estou à beira de lágrimas, como agora, faço isso para me acalmar.

Sentei-me no banco mais próximo, apoiando os cotovelos na mochila em meu colo, enquanto massageava a cabeça agora dolorida.

Ela nem ao menos me deu a chance de falar. Depois de Gajeel, Levy não é a mesma. Está certo que seu temperamento sempre foi instável, e não sei se por consequência disso, ela sempre teve um dedo podre para homens. Ou talvez seja o inverso. Mas saber que ela pensa isso de mim e da Erza, magoa mais que tudo.

Ao contrário do que pensa de si mesma, ela não é fraca. Levy aguentou muito da vida, e não é sua culpa tudo o que já lhe aconteceu. Só que ultimamente ela vem ficando mais... Perturbada com toda essa situação. Gajeel nunca, jamais, lhe deu a mínima atenção. O que nunca aconteceu com outros caras problemáticos que ela já investiu. Não sei se isso é bom ou ruim.

Preciso ter uma conversa decente com ela. Levy é minha amiga desde sempre, e nunca deixarei que ela se afaste assim.

— Bem, não é hora de ficar triste. — Dou leves tapinhas no rosto, levantando em seguida, sentido-me mais animada. — Para tudo se tem um jeito!

— Falando sozinha?

Meu corpo se contrai em susto quando ouço uma voz próxima ao meu ouvido. Encontro o sorriso caloroso de Natsu e me sinto aconchegada antes que ele me abrace.

— Que susto!

Bu. — Ele beija minha testa, fazendo com que eu risse de leve, já que sinto cócegas no local. — Está tudo bem? Vi você com uma carinha triste de longe.

— Hã? Ah, está sim. Nada que eu não possa resolver com uma boa conversa. Se bem que estou um pouco preocupada com meu projeto de Bioquímica.

Ele tira seu jaleco da bolsa antes de começarmos a andar até nossos respectivos blocos, que ficam na mesma direção.

— Tenho certeza de que vai conseguir, você é a melhor da sua turma.

Fico um pouco rubra.

— Não acho que isso seja verdade. E além do mais, o pessoal do último período também vai participar.

— Aposto que você vai gastar todo o dinheiro do prêmio em xerox até o fim do curso.

— Vida de universitário é assim. — Rio junto com ele. — E você, se preparando para as provas de residência?

— É, ainda falta mais ou menos um ano, mas... Fui ganancioso o suficiente para decidir que vou para o Hospital St. Louis, por isso tenho que estudar desde já.

— Você vai conseguir.

— Nós vamos.

Andamos lado a lado e eu me permito a sorrir de verdade agora. É sempre bom ter Natsu por perto. Mesmo que ele não faça nada, consigo me sentir melhor apenas com sua companhia. Prestes a se tornar um médico, ele não parece ter a seriedade que a profissão exige. Mas Natsu é uma das pessoas mais responsáveis e justas que conheço. É assim desde que éramos crianças. De certa forma somos parecidos, mas ele é bem mais espontâneo, o que faz com que seja popular em todo o lugar que vá.

O Campus aos poucos vai ficando mais cheio à medida que os estudantes seguem para as aulas do primeiro horário. Natsu está mexendo no celular quando chegamos num ponto de encontro de praticamente todo mundo. Aproveito para tirar o meu jaleco da mochila quando avisto Erza saindo de um dos corredores abertos do Bloco de Ciências Biológicas. A maneira como caminha a passos firmes com o rosto contorcido indica que está com raiva. E logo entendo o motivo de seu mau humor ao ver Jellal atrás dela, tomando um caminho oposto e vindo em nossa direção como se nada estivesse acontecido.

De todas as vezes que se encontram, ela é a única que sai abalada.

— E aí, cara. — Natsu se desliga do celular e o vê antes que ele chegue até nós. Eles se cumprimentam com aquela típica saudação masculina de apertar as mãos violentamente seguido de tapinhas calorosas nas costas. — Estudando muito esse final de semana?

— Você não imagina o quanto.

A expressão com segundas intenções de Jellal indica que ele fez tudo, menos estudar. Natsu sorri igualmente malicioso, o que faz com que eu me sinta completamente deslocada ali. Jellal é um dos maiores, senão o maior, pegador de toda a Universidade. E mesmo que ele e Natsu sejam amigos bem próximos, além de ambos cursarem medicina, fico feliz que meu amigo de infância não tenha a mesma fama.

— E você, Lucy? Também estudando muito? — Jellal me introduz no duplo sentido e Natsu ri quando me vê corar.

— Haha, muito engraçado.

— A Lucy não quer saber de namorar. — O rosado me abraça de lado. — Ela é muito lenta para isso.

— Ei!

— Na verdade, ela só é certinha demais. — Jellal pisca um olho para mim. — Tem que aprender a curtir mais as coisas boas da vida.

Por alguma razão, sinto o clima ficar desconfortável. Estou quase formulando uma frase daquelas que te salvam nesses momentos, quando ouço alguém chamar meu nome.

— Lucy!

É Lisanna. Natsu me solta para abraçá-la quando esta chega até nós e cumprimenta a todos.

— Bom dia.

— Oi, Lis.

— Nos vemos na hora do almoço. — Diz Natsu depois de me beijar na testa. Lisanna corre para beijá-lo na bochecha antes que ele se vire, o que faz com que ele fique sem jeito. — Até mais, Lis.

Jellal apenas acena para nós e os dois vão para o Hospital Universitário. Acho que ele não gosta muito da Lissana, talvez por ela ser dada demais.

Eu e Natsu estudamos com ela desde o ensino médio, e sempre foi assim. Lisanna adora conversar com as pessoas, mas digamos que as vezes ela força a barra. Talvez seja medo de não fazer amigos ou ser excluída. Mas eu gosto da Lis.

Chegamos no laboratório quase vazio, indo até o armário pegar o equipamento de segurança para a aula experimental. Estou prendendo meu cabelo em um rabo de cavalo quando Lisanna me chama a atenção:

— Lu, está tudo bem entre vocês e as meninas?

A pergunta me faz olhá-la de modo inquisitivo. Será que a Levy conversou com ela sobre nós? De certa forma, a ideia me deixa um pouco magoada. Porque ela não falou comigo, se o problema é nosso?

— Porque está me perguntando isso? — Indago, sem me preocupar se fui defensiva demais e entreguei o jogo.

Ela suspira antes de retirar a jaqueta que vestia por cima da blusa e colocar o jaleco.

— Nada demais. É que eu vi a Erza e a Levy discutindo, então fiquei preocupada.

Oh, droga. As duas se encontraram e com toda a certeza houve um explosão de coisas que não deveriam ser ditas. A Erza não é tão calma quanto eu e com certeza não conseguiu ficar calada quando ouviu as acusações de Levy. Não houve um equilíbrio e, nesse tipo de coisa, um lado tem de ser racional.

Infelizmente, as duas agem mais com a emoção do que com a razão.

— Se tiver algo em que eu possa ajudar...

— Não, Lis. — Fecho o armário com um suspiro. — Obrigada pela preocupação, mas isso eu resolvo sozinha.

Notas finais
~Karyash: E então? Gostaram? Esperamos que sim. Queremos ver os reviews hein?! MTK também é postada no Social Spirit: https://socialspirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-fairy-tail-mistake-3607107 Até mais! :*