Missão Gaia
2 Ártemis
Ochako acordou antes que o despertador pudesse soar. Conferiu a hora no relógio digital da cabine e percebeu que tinha alguns minutos antes de voltar ao trabalho. Amava ser mecânica aspirante a engenheira, mas desde o acidente no módulo agrícola, todos estavam ensandecidos com a quantidade de tarefas, e desanimados pela falta de notícias sobre o Regresso. Para dificultar ainda mais o cenário caótico, o Comandante exigia medidas cada vez mais severas de racionamento de suprimentos e de energia; módulos inteiros foram desocupados para não sobrecarregar o sistema de suporte à vida — responsável por manter a pressão atmosférica, nível de oxigênio, água, prevenção de incêndios e coleta de resíduos. Até a gravidade se tornara um luxo que só havia nas áreas de vivência da estação, em algumas cabines particulares e na sala de comando. Por sorte, podia dormir incrivelmente bem, sob os efeitos da gravidade, na cabine que dividia com Katsuki, seu namorado.
Aconchegou-se um pouco mais na cama que compartilhavam e encarou o loiro ainda mergulhado nos braços de Morfeu; podia sentir as mãos firmes dele em sua cintura, bem como a respiração leve de quem dormia tranquilamente. Ele normalmente acordava primeiro, porém o programa de pilotos havia intensificado nas últimas rotações. Hawks fazia simulações atrás de simulações, exigia todo o fôlego e vigor dos pilotos experimentais; apesar de não saber o que estaria por vir, Ochako sabia que isso era presságio de algo grande que afetaria o futuro de todos os remanescentes.
Mas, enquanto esse momento não chegava, ela aproveitava cada minuto que tinha ao lado de Katsuki. Ao vê-lo dormir tão sereno, muito diferente de seu comportamento durante as horas acordado, não resistiu em acariciar os cabelos loiros do namorado. Embora não tomassem uma chuveirada há duas rotações — por causa do racionamento de água — e estivesse ligeiramente oleoso, o cabelo curto permanecia macio. Desceu o carinho para o rosto, depositou um beijo delicado nas bochechas dele e, como se agradecesse o afago, sentiu Bakugou apertar o abraço, acomodando-se na curva do seu pescoço.
Se Mitsuki pudesse ver tal cena, diria que estavam presos em uma realidade paralela, na qual seu filho sofrera uma lavagem cerebral e fora dominado pelos encantos femininos de Uraraka. Sem dúvidas, ela riria do comentário, ele xingaria todos os palavrões conhecidos e iniciaria uma briga com a Sra. Bakugou, enquanto Masaru tentaria acalmar os ânimos. Ochako, aos vinte três anos, nunca imaginou que poderia amar tanto aquela dinâmica familiar, assim como amava o próprio esquentadinho com quem dividia, além da cama, o sonho de regressar à Terra.
Sonhava em pôr os pés em solo terrestre desde menininha. Adorava quando os pais liam os livros antigos sobre a história da humanidade; gostava de imaginar como seria viver nas diferentes épocas, da Expansão Marítima até a Idade Moderna, às vezes nas civilizações mais antigas também. Achava engraçado o empenho dos seus antepassados em tentar explorar o universo e desvendar os mistérios de outras galáxias, enquanto tudo o que ela queria era poder viver no planeta Terra.
Ela sonhava com o Regresso, porém seus pais não tinham o mesmo anseio. Nas histórias, eles sempre resaltavam o que de pior havia na raça humana: guerras, desastres, epidemias e a própria crise nuclear. Contudo, nada a fazia desejar menos o planeta, na verdade, acabou acreditando no que seu antigo comandante, All Might, pregava: eles poderiam fazer diferente. Por essa razão, durante a Grande Divisão, contrariando seus pais e parte de seus amigos mais próximos, mas com apoio dos Bakugou e de Mina — a única amiga de infância que lhe restava —, Ochako escolheu ficar.
Em hipótese nenhuma se arrependia da sua decisão, porém não podia negar que em alguns momentos a saudade doía. Suspirou triste com as memórias. Bom… no final das contas havia feito a escolha certa, porque ao escolher a Terra também escolheu ficar com Katsuki. Melancólica, mas contente, Uraraka depositou um beijo na testa dele e tentou se mexer um pouco na cama; queria afastar a respiração masculina de seu pescoço já que sentia cócegas, entretanto foi interrompida pelo som agudo do despertador.
Droga!
Devia ter desativado o alarme, ele não precisava acordar agora.
— Desliga a porra do relógio, Cara de Lua — resmungou, já irritado.
— Você precisa me soltar primeiro, Katsu. — Sorriu diante do mau humor, acentuado pelo barulho do despertador.
— Tsk… Se eu te soltar — disse, trazendo-a ainda mais para si e olhando-a nos olhos —, você vai escapar pra aqueles malditos consertos de novo.
Ochako achava impressionante como, mesmo de cara amassada e mau humorado, Katsuki conseguia ser extremamente lindo quando acordava. Ele era igualmente bonito nas outras horas, mas amava o fato de só ela ter acesso à beleza do ato de acordar. Ou talvez estivesse só delirando e sentindo falta daquele carinho, afinal essa era a primeira vez em semanas que seus horários de descanso coincidiam.
— Eu nunca faria isso com você! — mentiu descaradamente.
— Me engana, Bochechas. — retrucou sarcástico, finalmente virando-se para desligar o despertador e gerando a oportunidade perfeita para Ochako sair da cama. Ela estava vestida apenas com a camiseta do namorado, uma que não cobria nem metade de suas coxas grossas, muito menos disfarçava seus volumosos seios livres. E como Katsuki não pode ignorar toda a sensualidade da cena, sentou-se rapidamente na cama, antes que ela se afastasse, a agarrou, fez com que se sentasse em seu colo e, entre os beijinhos que distribuía em sua mandíbula, perguntou: — Tem que ir mesmo?
Por um instante Ochako esqueceu como falar coerentemente. Faltava pouco para ceder à atração, quase gravitacional, que sentia pelo homem a sua frente; pois senti-lo tão perto, em um lugar acolhedor, e desprovida de algumas de suas peças de roupa, era como entrar em um buraco negro: um caminho sem volta. E como resistir a um pedido daqueles olhos cansados? Ele estava se dedicando tanto ao programa de pilotos, desgastando-se para um dia poder fazer parte da realização do sonho de todos os remanescentes, e ela não tinha palavras para dizer o quanto o admirava por causa disso. Então, talvez, se retribuísse só um dos beijos…
Não!
Não podia ceder àqueles olhos pidões, não podia chegar atrasada de novo e não queria que Gunhead chamasse sua atenção por não conseguir cumprir seus horários. E tem mais, as placas solares não se instalariam sozinhas!
Então, mesmo hesitante, ela respondeu:
— Sabe que sim…
— Mas você nem dormiu seis horas completas! — argumentou, com a melhor cara de preocupação que tinha. — Como vai fazer a porra do seu trabalho direto assim, Cara de Lua?
— Se estivesse realmente preocupado com meu sono, Katsuki, teria deixado eu dormir ao invés de ficar me seduzindo.
— Cacete, Ochako, a gente tinha que comemorar o solstício de verão. — defendeu-se, debochado e com um sorriso travesso nos lábios.
— Me engana, Katsu. — Revirou os olhos e riu da desculpa fajuta. — Mas como você foi um menino bonzinho...
E só para não ficar ardendo no desejo que também sentia, Ochako o puxou para um beijo molhado e demorado. Não havia novidade alguma em beijar os lábios quentes de Katsuki, eles dividiam a cabine desde o Dia do Adeus, conheciam-se suficientemente bem e sabiam exatamente o que o outro gostava. Porém, Uraraka ainda tinha a sensação de estar vivendo algo singular todas as vezes que os lábios e as línguas se encontravam; era como se pudesse sentir o universo se expandindo ao seu redor. Amava a intimidade que tinham, tanto quanto amava deliciar-se lentamente naquelas sensações libidinosas.
Ainda estava apaixonada, e isso era simplesmente incrível!
Entretanto, como não tinha a intenção e tampouco tempo para continuar com as carícias, Uraraka interrompeu bruscamente o beijo ao sentir as mãos do homem subindo pela sua cintura. Era uma pena, mas o dever a chamava.
— Puta merda, Bochechas! — disse, quando se separarem. — Você é uma péssima namorada.
Ochako riu do comentário, sem desmenti-lo. Não caia mais naquelas provocações, mas era inegável que havia sim um pouco de malvadeza da sua parte em provocá-lo minimamente e não satisfazê-lo por completo. Pensando bem, funcionava mais como uma pequena vingança por todas as vezes que ele propositalmente a atrasava.
— Vou te lembrar disso na próxima ‘comemoração’... — afirmou, levantando-se antes que ele arranjasse outra desculpa para mantê-la ali. E ao entrar no banheiro ressaltou: — Não tem água hoje, então não me segue.
Ela pôde ouvir os palavrões mesmo com a porta fechada e acabou sorrindo como uma adolescente boba, totalmente apaixonada. Maldito cupido! Havia lhe presenteado com o melhor dos sentimentos no meio das piores crises que já enfrentara. E o mais engraçado é que era exatamente nesse doce contraste que ela recarregava suas energias e vivia rotação após rotação.
Como não havia água, a higiene era à base de: lenços umedecidos, enxaguantes bucais, desodorantes e shampoos a seco. Olhou-se no espelho e suspirou frustrada. Aquela não era a sua melhor aparência; suas bochechas estavam pálidas e tinha olheiras azuladas ‘enfeitando’ seus olhos. Estava um caco! Mas os farmacêuticos ainda não tinham descoberto a fórmula da beleza instantânea, então Ochako apenas concluiu todo o processo ajeitando o cabelo curto ao estilo Pixie ou, como chamavam antigamente na Terra, estilo Joãozinho; e passando o perfume que simulava morangos silvestres.
Quando enfim saiu do banheiro para vestir o uniforme, ouviu Katsuki falando no iplus — dispositivo de comunicação que usava o sistema operacional da Ártemis — e pela seriedade de sua expressão facial, a conversa não era com a Dª Mitsuki.
— Puta merda! — Bakugou exclamou, desligando o aparelho.
— O que foi?! — perguntou, aos tropeços enquanto vestia o macacão azul com listras brancas que usava para trabalhar.
— Era o Tenente Frango. — respondeu, jogando o iplus em cima da cama e esfregando as duas mãos no cabelo.
— Hawks? O que ele queria? — questionou, vestindo as mangas compridas e fechando o zíper da roupa.
— O Tenente Frango disse que...
— Que não vai ter simulação hoje. — Tentou adivinhar.
— Não, cacete! Disse que o Comandante…
— Que o Comandante quer fazer uma simulação de voo!
— Mas que porra, Ochako! Você não me deixa falar!
— Então fala logo, tá me deixando nervosa!
— Tsk… Disse que o Comandante convocou todos os pilotos do programa pra um tipo de concílio — revelou, dando de ombro, como se a notícia não fosse nada de mais. — Vai ser daqui a 2 horas.
Uraraka aproximou-se imediatamente da pequena escotilha que tinham na cabine, todos que moravam na ala sul podiam vislumbrar a imensidão do universo sem sair de ‘casa’. Da posição que estavam, podia ver parte do Hemisfério Norte da Terra e contemplar toda a calmaria em que repousava o planeta natal. E em menos de um segundo, Ochako foi tomada pelos sentimentos de esperança que cuidadosamente cultivava a cada rotação, foi arrebatada e não pôde evitar que os olhos ficassem marejados.
— Katsuki… — chamou-o, extasiada com a notícia. — Isso significa o que eu tô pensando?
— Não sei, Cara de Lua — confessou, abraçando-a por trás e espiando a vista da escotilha também. — Mas espero que sim.
— Katsuki — Ela ficou de frente para ele e fungou, na tentativa de esconder a emoção. — O Regresso pode mesmo estar…
— Tsk... Você faz uma cara ridícula quando chora — disse, levantando o queixo dela.
— É… Eu sei que tô sendo precipitada. — Apertou os lábios a fim de conter as lágrimas. — Desculpa, é só que eu…
Ochako não sabia traduzir o que estava sentindo. Era um misto de euforia, realização e gratificação por todo o esforço que fizera até ali; ao mesmo tempo, pesar e saudade de seus pais e dos amigos que se foram. Sentia-se triste por aqueles que perderam a fé com o passar do tempo, mas feliz pela mera possibilidade de o dia de finalmente poder pisar em solo terrestre está se aproximando. Enquanto orbitava naquele emaranhado de sentimentos, encarou os olhos carmesim de seu namorado e soube que nenhuma palavra precisava ser pronunciada.
— Porra, não precisa se desculpar — Bakugou falou ameno, secando as lágrimas que não combinavam com o rosto fofo dela. — Em breve daremos adeus à Ártemis e você, Ochako, vai ser a única deusa da Lua que eu vou adorar.
Uraraka sorriu com a declaração e soube que tudo ficaria bem.
É… não tinha maneira melhor de iniciar uma rotação.
[...]
Depois de ter superado a chuva de emoções, Ochako acelerou os passos e dirigiu-se ao antigo módulo agrícola. O lugar havia se transformado no novo QG da equipe de manutenção. De lá, Gunhead — engenheiro responsável pelo setor de manutenção da estação espacial — comandava todos os reparos que deviam ser feito na Ártemis. Desde pequenas ocorrências do cotidiano até os estragos causados pelos meteoritos. Os maiores problemas já haviam sido resolvidos: a área do acidente estava isolada, os buracos estavam vedados, o sistema de ventilação foi restaurado, assim como as câmaras de descompressão que os separavam do vácuo do espaço. A única questão que ainda necessitava urgência era a produção de energia.
Por isso Uraraka corria, quase literalmente, contra o tempo. Conforme andava pela estação até seu destino, percebia a gravidade perdendo seu peso e seu ritmo ficando cada vez mais leve. Ela gostava muito dos efeitos da gravidade perto de zero, mas se pudesse concluir a instalação dos novos painéis solares nesse turno, o sistema de suporte à vida voltaria a funcionar com 100% da capacidade, e todos na Ártemis poderiam voltar a pôr os pés no ‘chão’. Além disso, agora, queria dar seu melhor para ajudar no Regresso, pois, independente do plano, a equipe de comando precisaria de toda energia possível para levar os remanescentes de volta ao seu verdadeiro lar.
Esse seria um turno longo e cansativo, no entanto, graças ao descanso relaxante e às últimas notícias, Ochako sentia-se motivadíssima a trabalhar mais do que nunca.
— Está atrasada. — Ouviu Mina exclamar, assim que entrou no módulo.
— Oi pra você também, Mina — cumprimentou a amiga, que estava sentada e presa com cinto de segurança. Ela não gostava nem um pouco da ausência da gravidade. — Como foi seu descanso?
— Foi ótimo! Mas eu não vou perguntar como foi o seu. Pelo brilho dos seus olhos, já vi que o Esquentadinho deu um trato em você.
— Mina! — repreendeu-a, enquanto a mesma ria do seu constrangimento. — Shh… Alguém pode ouvir.
— Estamos sozinhas, ‘Chako. — Mina revirou os olhos. — O Hanta e a Yui meteram o pé quando o turno acabou, o resto pessoal tá em mini reparos ou descansando; e o Gunhead não aguentou te esperar, mas deixou uns brinquedinhos pra você.
— Chegaram mais Painéis Uravity? — perguntou, eufórica.
— Sim! São os últimos — confirmou. — Mas o chefe disse pra não se empolgar muito.
Ashido conhecia Uraraka o bastante para saber que aquelas palavras não tinham efeito nenhum, porque ou ela se dedicava totalmente ao que se propunha a fazer, ou simplesmente não fazia nada. Isso ficou ainda mais claro logo após o acidente com os meteoritos, quando, sob a mentoria de Gunhead, ela esforçou-se rotação a rotação com objetivo de concluir o desenvolvimento de uma tecnologia capaz de gerar mais energia; e como todo trabalho bem feito sempre gera bons resultados, os Painéis Uravity nasceram.
Se Ochako já tinha a admiração e o respeito dos colegas e do chefe, passou a ser ovacionada por todos os engenheiros da Ártemis; até o Tenente Nishiya, que havia se tornado super antipático e ranzinza, pedira um painel de emergência para o novo setor agrícola. Chamavam de painel, só que a aparência assemelhava-se mais com algum tipo de malha, podia ser produzido sob qualquer medida já que era retrátil e dobrável. A nova tecnologia era 20% mais leve e ocupava 400% menos espaço; podia ser instalada em qualquer lugar e por causa da sua estrutura fina aquecia rapidamente, gerando muito mais energia. Os Painéis Uravity era o motivo do orgulho de Ochako.
— É uma pena que nunca vão aprovar a cor do design original. — Ochako falou, admirando os seis painéis enrolados, do lado de fora da escotilha, e prontos para serem instalados.
— É uma pena mesmo — Mina concordou. — A Ártemis ficaria linda com painéis cor-de-rosa.
As duas riam só de imaginar a hipótese sendo concretizada. Óbvio que nem o Chefe, e muito menos o Comandante, aprovariam o design rosado, mesmo assim nada a impediu de esboçar as primeiras ideias na cor rosa.
— Já que os painéis estão na escotilha... — Ochako sentou-se do lado de Mina. — Estamos prontas para começar a instalação.
Mina assentiu e esperou Ochako posicionar-se corretamente na mesa de comando. Seus colegas do turno anterior haviam feito todas as modificações necessárias no sistema de acoplagem da Ártemis para receber os novos painéis, pois nova tecnologia exigia novas instalações e novas conexões. O que as garotas fariam nesse turno era teoricamente mais simples, elas apenas acoplariam os painéis, com ajuda de braços robóticos, e os colocariam em funcionamento.
Uraraka era a responsável por manusear os braços robóticos e o fazia com maestria. Gostava de imaginar que a tarefa era um simples jogo de videogame, mesmo que o controle remoto fosse bem mais complexo de se manejar, com movimentos mais lentos e friamente calculados. Enquanto ela manipulava os braços robóticos, Mina monitorava todo progresso pelo painel principal, lhe fornecia todas as coordenadas e, depois dos painéis serem acoplados, acionava-os. Então, ambas assistiam o painel solar se desenrolando e em perfeito funcionamento.
Era um trabalho longo e extenuante, visto que demandava muita concentração, vigor físico e mental. As costas doíam, as pernas ficavam dormentes e quase no final do serviço a cabeça já estava latejando; mesmo assim Ochako só cedia ao cansaço quando todo o trabalho era concluído.
E horas depois do início das instalações, no momento em que o último painel foi supostamente acoplado, Mina exclamou:
— Oh, oh, ‘Chako…
— O que houve? — perguntou preocupada.
— Não sei exatamente, mas o painel U-16 não acoplou corretamente à Ártemis — disse, mostrando o alerta no controle de navegação.
— Tem corrente elétrica passando?
— Não. É como se a U-16 ainda não estivesse lá.
— Então pode ter sido só uma falha mecânica — concluiu, levantando-se e alongando os membros. — Desconecta o painel solar que eu vou lá dá uma olhada.
— Não, ‘Chako! — repreendeu a amiga. — Não tem ninguém pra servir de âncora, você não pode ir lá fora sozinha! É muito perigoso!
— Eu só vou dar uma olhadinha, Mina — disse, tentando acalmá-la.
— Essa é uma péssima ideia, ‘Chako — Mina choramingou, sabendo que não venceria. — E se...
— Não vai acontecer nada — cortou a amiga. — Prometo que não vou fazer nada arriscado e vou usar duas cordas de segurança.
— Acho que a gente devia esperar…
— Poxa, Mina! Não confia em mim? — questionou-a, com a melhor carinha triste que tinha. A amiga olhou bem a expressão triste, mas meiga de Ochako, e amaldiçoou-se por não conseguir dizer um simples não.
— Mas que merda! — exclamou vencida. — Tirando a cara fofa, faltou só um palavrão pra ficar igual ao idiota do seu namorado.
— Te amo, Sra. Alien Queen! — Abraçou e beijou Mina, que permanecia presa em sua cadeira e nada feliz. — Vou me trocar.
— Ok, Sra. Zero Gravity. — Suspirou cansada. Não tinha mesmo como convencer aquela cabeça dura. — Vou preparar a câmara de descompressão.
Ashido detestava quando o trabalho exigia uma spacewalk, embora soubesse que a tarefa fazia parte dos serviços do setor de manutenção, odiava se expor aos riscos e a gravidade zero. Por isso, sempre ficava dentro da estação espacial, onde era seguro e não havia a possibilidade de voar infinitamente pelo vácuo do espaço.
— Estou pronta, Mina — declarou, assim que terminou de se vestir.
— Positivo — concordou, indicando que a câmara também estava pronta. Assistiu a amiga entrar e fechar a porta que dava acesso à Ártemis. — Trinta minutos para a descompressão total.
Ochako, diferentemente da melhor amiga, amava os passeios espaciais e a sensação de nadar em um mar de estrelas. Ela não sabia como explicar, porém sentia-se plena em meio ao absoluto vazio do espaço; e podia dizer que sentia-se realizada todas as vezes que uma spacewalk era necessária, no final das contas esse também era um dos seus sonhos de criança. E não queria se gabar, mas era a melhor quando o assunto era gravidade zero.
— Descompressão concluída. — Ouviu Mina no canal de comunicação do seu traje. — Quando quiser pode abrir a escotilha. E… boa sorte.
Uraraka agradeceu, abriu a porta que dava acesso ao lado de fora, e não pôde conter o suspiro ao ver a imensidão vazia. Esse era um privilégio que fazia questão de ostentar. Vislumbrar o astro azul soberano em sua órbita, bem como parte da estação espacial que mais parecia uma lua minguante, ainda era a melhor visão de sua vida. Amava cada uma daquelas estrelas, todos os fenômenos astronômicos, e fazer parte desse capítulo da história da humanidade, sem dúvidas, era um motivo de enorme satisfação para ela.
Ochako nunca se acostumaria a tanta euforia. Não era a primeira vez, mas sentiu uma pontada de tristeza por imaginar que talvez essa fosse sua última caminhada espacial. Era melhor não ficar pensando nisso, afinal tinha que manter o foco e descobrir o motivo da U-16 não ter acoplado corretamente. Então, pegou sua corda com guincho e fixou em um dos suportes de ancoragem que haviam por toda a extensão da Ártemis.
— Cabo seguro — disse, tranquilizando Ashido.
— Positivo — respondeu, ainda tensa. — Quinze metros até a U-16, vai com calma ‘Chako.
A caminhada solitária era mais lenta do que com um companheiro de âncora. Uraraka não podia pular nenhum suporte, tinha que fixar seu segundo guincho gradativamente até seu objetivo final; e não podia fazer uma pirueta sequer, ou seja, a caminhada era bem mais sem graça também. Apesar de amar o lado de fora e as brincadeiras espaciais, reconhecia que precisava ser prática. Não podia demorar mais do que o necessário, pois a exaustão era uma realidade que nem o mais experiente astronauta poderia ludibriar.
— Acho que já vi o problema — revelou, arfando, ao chegar à base de acoplamento do painel solar. — Tem um resquício de meteorito dentro do cilindro de encaixe... Por isso a haste da U-16 não… não conseguiu se conectar a estação.
— Nem pense em meter a mão aí, Ochako! — repreendeu-a, sabendo exatamente o que se passava pela cabeça dela.
— Mina, eu não vou conseguir fazer outra viagem… — Respirou fundo. — Tenho que resolver esse problema aqui e agora… O resquício é... é um pouco menor que minha mão.
— ‘Chako, você prometeu que não faria nada arriscado. — Ashido tentou apelar.
— Eu sei — concordou pronta para contestar —, mas não tem corrente elétrica passando, então... não tem o risco de morte por eletrocução... E essa… essa pode ser a oportunidade perfeita de finalizar o serviço. Vai, Mina, por favor…
— Que inferno! — reclamou, mais uma vez derrotada em menos de 24 horas. — Quando você colocar os pés na Ártemis, eu vou matar você!
Ochako riu da histeria da amiga. Não havia com o que se preocupar, principalmente agora que faltava tão pouco para todos painéis estarem instalados. Não, ela não iria recuar. Completaria o serviço e voltaria sã e salva à estação.
— Ok — Inspirou e expirou profundamente. — Removendo o resquício de meteorito.
Com toda a tranquilidade, que a manobra demandava, Uraraka enfiou lentamente a mão e o antebraço dentro do cilindro. Havia espaço para seu braço, contudo isso não significava que devia ser descuidada, tinha conexões importantes em cada uma daquelas bases, não podia danificá-las, assim como não podia danificar seu próprio traje. Precisava manter-se concentrada, mesmo que o cansaço já tivesse lhe atingindo.
— Alcancei — narrou, sabendo que a amiga podia ver apenas parte da operação.
— Positivo — Mina respondeu, assim que lembrou de respirar.
A manobra estava sendo um verdadeiro sucesso. Ela já havia pegado o mini meteorito e começava a retirada. Pouco a pouco voltava com seu braço para fora do cilindro. Sem pressa, mesmo que seu corpo já mostrasse sinais de fadiga. Havia um zumbido fino e constante em seus ouvidos, seus membros doíam como se levantassem uma tonelada de meteoritos e suas pálpebras estavam tão pesadas quanto suas mãos. Estava ficando muito cansada. E por causa disso, em um piscar mais lento que o normal, deixou a pedra escorregar.
— Merda!
— O que aconteceu, ‘Chako? — perguntou, aflita. — Não brinca comigo!
— O meteorito escorregou… mas eu… eu consegui pegar... — disse, ofegante. — E… meu traje… prendeu em alguma… alguma coisa…
— Puta que pariu! — Mina exclamou nervosa. — Larga essa merda e volta já pra cá!
— Positivo — concordou, e isso não podia ser um bom indício. — Mas… acho que comprometi meu… meu traje…
— PUTA QUE PARIU! — Mina sentiu seu mundo virar ao avesso. Tinha que pensar rápido, a vida da sua melhor amiga estava em perigo. — Ok… Fica calma! — pediu, enquanto articulava as ideias. — Ao meu sinal, você vai tirar o braço do cilindro, soltar seu segundo guincho e eu vou te puxar pelo o que está ancorado na saída da escotilha. Positivo?
— P-positivo — falou, arrastadamente.
— Aguenta aí, ‘Chako!
Ela aguentaria o tempo necessário, resistiria na companhia das estrelas que tanto admirava; pois no momento em que tirasse o braço do cilindro seria questão de minutos até que seu traje cedesse ao vácuo do espaço, perdesse todo o oxigênio e ela, na melhor das hipóteses, só ficaria inconsciente por um tempinho.
Respirou fundo.
É… O oceano de estrelas era um bom lugar para morrer.
— Estou pronta, ‘Chako! — Ouviu a amiga consentir. — Em 1… 2… 3 e… Agora!
Reunindo todo vigor que ainda lhe restava, Uraraka retirou rapidamente o braço, trazendo consigo o resquício de meteorito; soltou sua segunda corda de segurança e tentou vedar de alguma maneira a fenda no seu traje; enquanto era puxada o mais depressa possível por Mina.
Ochako não tinha mais forças. Sentia os solavancos da corda, mas não conseguia ajudar a amiga na tarefa, portanto, apenas relaxou na vastidão do universo. E de repente o frio não parecia mais tão incômodo, Ashido parecia falar alguma coisa no canal de comunicação, só que as estrelas falavam mais alto.
Talvez estivessem cantando para ela. A escuridão também parecia dançar alegremente, nunca imaginara que o fim fosse tão atraente… tão infinitamente maravilhoso.
Talvez se fechasse os olhos poderia entender o que as estrelas tanto cantavam, talvez até conhecesse a música…
Então, após um suspiro prolongado, Ochako deixou-se ser levada pelo breu do universo.
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