Missão Gaia
3 Gaia
O Comandante Todoroki não estava nada contente com a resolução do concílio que determinou o piloto que voaria na Fase 1 da Missão Gaia. Não duvidava das habilidades do voluntário, já que confiava cegamente no Tenente Hawks e em seus métodos de ensino, mas a verdade é que tinha grande expectativa em Shoto. Apesar de um pequeno receio inicial, Enji queria que o filho tivesse se voluntariado à missão, deleitava-se na ideia do nome Todoroki entrar para a história sob diferentes perspectivas, pois assim ninguém jamais os esqueceriam. Pai e filho, líderes da missão que salvaria a humanidade da extinção total. Seria uma história épica! Digna dos monumentos aos deuses gregos. Porém, Shoto não compareceu ao concílio, mostrando-se ser uma completa decepção.
E não tinha nada que o Comandante pudesse fazer a respeito. Devido aos riscos da missão e o grau de importância, apenas um voluntário poderia tripular a nave teste; além disso, nenhum cientista ou engenheiro em toda estação espacial podia garantir o sucesso dessa empreitada, muito menos afirmar que poderiam trazer o piloto de volta caso a Terra não fosse de fato habitável. Contudo, Enji achava que valia a pena correr o risco, e pela prontidão do candidato, chutaria que ele pensava da mesma forma.
Diria mais: parecia que esperava justamente por essa oportunidade, pois não houve um segundo sequer de hesitação. O voluntário apenas ponderou rapidamente os perigos, ao mesmo tempo em que os conectava ao treinamento das últimas rotações; o olhar felino aceitou o desafio e não cedeu espaço a dúvidas. A sala de comando ficou pequena diante de tanta determinação, e tal atitude fez com que o Comandante Todoroki simpatizasse minimamente com o sujeito. Não estava nem um pouco contente e ainda queria que Shouto fosse o piloto, mas a Missão Gaia parecia estar em boas mãos; como Comandante e responsável pela missão de regresso, Enji poderia dizer que estava ao menos satisfeito com a situação.
— Tenente, quero que fique de olho nele — disse o Comandante, enquanto observava de longe Moe passar todos os detalhes ao voluntário.
— Positivo — afirmou Hawks —, mas eu entraria em qualquer nave pilotada por qualquer um dos meus recrutas.
— Não tenho dúvidas disso — respondeu ríspido. — Só que por enquanto esta é uma missão sigilosa, não quero nenhum tipo de alvoroço desnecessário ou antes do tempo. E qualquer comportamento indevido deverá ser reportado imediatamente. Positivo, Tenente?
— Positivo, Comandante. — Ele nunca entenderia de onde vinha tanta desconfiança, mas como já desistira de compreender o que se passava na mente de um Tododroki, Hawks apenas confirmou e esboçou um sorriso ladino.
— Como a Tenente Yaoyorozu não está disponível no momento, pode dar uma rotação de folga pros outros recrutas e mostre o complexo de lançamento pro piloto, a nave e… e o que achar pertinente. — Respirou fundo e sentiu a cabeça, antes latejante, finalmente lhe dando uma trégua. — Tenho outros assuntos para tratar...
— Certo. — Hawks assentiu em concordância e, já se distanciando, provocou: — Talvez ‘afastamento médico’ seja um termo melhor para relatar a indisponibilidade da Tenente, mas como é um assunto de urgência farei o meu melhor, Comandante.
Enji quase grunhiu em resposta. Queria poder dizer que a presença da Yaoyorozu não era necessária, mas a verdade é que tivera muita sorte de não precisar da sua melhor engenheira e encarregada de todos os pormenores técnicos de segurança da nave, para convencer um dos pilotos experimentais. Foi pura sorte! E ele odiava contar com o acaso, bem como odiava não ter tudo sob seu controle.
Assim que Hawks e o piloto saíram da sala, o Comandante Todoroki levantou-se e foi em direção a Moe Kamiji. Sentiu uma leve vertigem lhe atingir e a cabeça voltar a martelar. Estava exausto, porém, a Ártemis e a Missão Gaia ainda precisavam ser protegidas. Custe o que custasse, ele cumpriria seu papel na história com louvor.
— Moe — chamou-a ao se aproximar —, quero que verifique mais uma vez as imagens do acidente, as coordenadas dos meteoritos 24 horas antes do impacto, e o nome de todos os astrônomos que emitem os relatórios de segurança. Quando terminar convoque o irresponsável que publicou as coordenadas erradas, vou interrogá-lo pessoalmente desta vez — ordenou, massageando levemente as têmporas.
— Comandante, não poderia ter esperado eu terminar de dar as explicações ao piloto? — perguntou, enquanto arrumava sua mesa.
— Espero que não esteja questionando minhas ordens — Sentou-se em uma das cadeiras perto da cientista, precisava manter-se inabalável; não podia perder seu tempo com algumas horas de repouso ou licenças médicas.
— Não, senhor. — Moe suspirou desanimada. — Mas a perícia já concluiu que, por causa dos picos de energia, a trajetória da Ártemis ficou irregular, por isso as coordenadas dos meteoritos não foram precisas… Não tinha como saber... Foi um acidente inevitável! — finalizou, um pouco exaltada e irritada pelo Comandante insistir no assunto.
— Srta. Kamiji — falou, com uma falsa calma, encarando a cientista —, não acha estranho não ter nenhuma vítima nesse suposto acidente? Ou a perícia ter emitido um laudo tão rápido? E qual foi o motivo de não me informarem sobre a existência dos malditos meteoritos?
— Senhor, a equipe de segurança lida com isso constantemente. Talvez tivessem pensado que os meteoritos não nos prejudicariam. E acho que devíamos nos concentrar...
— Não tenho tempo para achismos, quero respostas concretas, Moe! — interrompeu-a, colérico, e socou a mesa da assistente; mas ao sentir uma pontada forte na cabeça, arrependeu-se.
Enji tinha certeza que algo de muito errado acontecera horas antes do acidente no módulo agrícola. Havia anos que a Ártemis não se chocava com resíduos espaciais, e o comando de bordo sempre assumia o controle manual quando manobras de desvio eram vitais para a sobrevivência dos remanescentes. Todos os movimentos eram friamente calculados.
Então, de repente, enquanto planejavam a missão mais importante da história da humanidade, a Ártemis sofre terríveis baixas, colocando em perigo não só a vida de seus tripulantes, como a própria missão de regresso. E o Comandante Todoroki não acreditava em coincidências, muito menos nos tais relatórios da perícia. Moe era a única que poderia lhe ajudar, uma das poucas pessoas em quem mantinha a confiança.
Porém, Kamiji detestava sua nova função policial, afinal era uma cientista, não uma detetive. Não havia nascido para correr atrás de pistas, verificar informações sobre falhas mecânicas e acompanhar interrogatórios. Moe gostava de fazer ciência! Analisar as amostras da Terra, comparar com a pesquisa dos seus antepassados, observar a natureza, desenvolver novas tecnologias... Definitivamente, não era uma espécie de delegada investigativa. Mas como negar um pedido do Comandante sem que parecesse suspeita ou insubordinada? Suspirou frustrada. Estava encurralada e cansada ter que exercer duas funções.
— Senhor, não há nada de errado nos relatórios… E já fizemos tudo que podíamos — Moe disse, estendendo-lhe comprimidos e um copo de água. Ele aceitou, em seguida retomou a postura imperativa.
— Se não alcançamos o resultado desejado, então não fizemos o suficiente, Srta. Kamiji — retrucou confiante. — Quero os novos relatórios antes da próxima rotação.
— Positivo, Comandante — concordou, percebendo que ficaria sem ver sua família mais uma vez. Sempre achara que tivera sorte por tê-los, mesmo depois da Grande Divisão, mas agora não fazia mais diferença. Estava sozinha. Só esperava que todo sacrifício fosse um dia recompensado.
Contente por finalmente a assistente ter consentido às novas incumbências, Enji saiu da sala de comando e foi em direção ao módulo agrícola. Havia decidido que verificaria por si próprio o progresso e a produção do módulo; não acreditaria mais em relatos escritos ou na narrativa de engenheiros incompetentes, e delegaria algumas funções somente para aqueles em quem confiava. Investigaria, analisaria e apuraria cada mísero detalhe sobre a Ártemis sem intermediários. Nada mais aconteceria sem que ele soubesse. E assim, mais cedo ou mais tarde, o Comandante Todoroki tinha certeza que descobriria quem era o impostor da sua estação espacial.
[...]
Quando Ochako abriu os olhos, quase não reconheceu o lugar em que estava. A luz branca do módulo hospitalar doía em sua vista, sentia o corpo pesado, um formigamento esquisito nas pernas e dor no seu braço direito. Parecia que tinha sido esmagada pela lua e atropelada por asteroides. Sua cabeça estava uma confusão, era como se girasse na velocidade da luz. Lembrava-se de estar com o braço preso e depois de ouvir as estrelas cantando, enquanto era abduzida por alienígenas. Mas isso não fazia sentido nenhum.
Olhou ao redor e percebeu um burburinho no final do módulo, focou os olhos para identificar as pessoas, mas a única que reconheceu foi a médica chefe do módulo: Fuyumi Todoroki. Já estava familiarizada com os cabelos brancos e presença agradável de Fuyumi, apesar de odiar a enfermaria tanto quanto os motivos que a levavam até lá, Ochako era meio que uma paciente vip. E perto da médica, tinham um homem muito preocupado e uma mulher desacordada, sendo hidratada via intravenosa. A situação não aparentava estar muito boa.
Só que isso não era da sua conta!
Logo, tratou de desviar o olhar e cuidar da própria vida.
Determinada a se preocupar consigo mesma, ela inclinou um pouco a cama e tentou se sentar, porém imediatamente sentiu-se enjoada. Fechou os olhos e respirou fundo. É... dessa vez havia se superado. Não queria nem imaginar o sermão que receberia de Katsuki e de Mina. A amiga, sem sombra de dúvidas, ficaria furiosa e diria um grande: eu te avisei, Ochako! Só esperava não ter danificado o sistema de acoplagem ou algum dos painéis solares, não suportaria ter todo seu trabalho perdido.
— Como está se sentindo, querida? — Fuyumi perguntou ao se aproximar, depois de perceber que a paciente acordara.
— Péssima — respondeu rouca, ainda de olhos fechados. — Parece que a Ártemis passou por cima de mim.
— Uau... Essa é nova! — disse descontraída, sabendo que não havia gravidade nos ferimentos dela. — Vou te dar mais uma dose de analgésicos, em alguns instantes deve se sentir melhor.
— Como eu vim parar aqui, Yumi? — perguntou, abrindo os olhos e vendo-a de costas preparar o medicamento.
— Bom… Mina apareceu com você inconsciente e com um ferimento. Ela disse que seu traje sofreu uma descompressão enquanto vocês faziam um reparo, não disse muitos detalhes… só que te mataria quando acordasse. — Fuyumi virou-se para Ochako e riu da cara feia que a garota fazia. Ficava impressionada com a capacidade que a mecânica tinha de se meter em problemas, bem como tinha para resolvê-los. — Tive que suturar seu braço, e como você tinha sinais de desidratação, te coloquei no soro também.
E só depois do comentário que Uraraka reparou no curativo do braço direito. Não era um ferimento muito grande, mas teria um cicatriz legal para mostrar quando contasse a história.
— E… há quanto tempo tô aqui?
— Acho que você dormiu por umas quatro horas — disse, dando umas batidinhas na seringa antes de colocar no cateter. — E a Mina saiu faz meia hora para relatar o acidente.
Ochako choramingou, e Fuyumi até achou a cena bem fofa. Mas a verdade é que Gunhed ficaria uma fera quando soubesse da confusão que ela causara, na melhor das hipóteses lhe daria uma suspensão, na pior, a história pararia nos ouvidos do Comandante, ela seria impossibilitada de exercer sua função e acusada de crime de irresponsabilidade no trabalho. Estava ferrada!
— Não se preocupa, 'Chako, vai ficar tudo bem. — Fuyumi disse convicta, enquanto descartava a seringa e as luvas usadas.
Talvez Uraraka pudesse acreditar naquelas palavras. Ser esposa de um dos homens de confiança do Comandante e filha do mesmo, com certeza lhe dava algum tipo de crédito e acesso a informações privilegiadas. Por ora, tentaria ficar calma e se recuperar do susto.
— Obrigada, Yumi — agradeceu com um sorriso sincero.
— Disponha, querida — disse, devolvendo o sorriso. Fuyumi pegou o prontuário médico de Ochako e sentou-se, com certa dificuldade, em uma cadeira próxima para fazer algumas observações. — Mas queria que me visitasse em circunstâncias menos emergenciais.
— Claro — Riu, sentindo-se um pouco melhor. — Quem sabe eu não vá no seu chá de bêbe?! Pra quando é mesmo?
— Daqui a quarenta rotações — Fuyumi suspirou, massageando a barriga e deixando o prontuário de lado. — Keigo quer que nosso filho nasça na Terra. Disse que adoraria ouvir um choro de bebe ecoando na atmosfera terrestre, mas não sei se posso esperar até lá…
— Uhum... — assentiu, compreensiva. — As coisas ficaram mais complicadas depois do acidente com os meteoritos.
— Sim… Mas você sabe como um piloto pode ser obstinado quando põe uma coisa na cabeça, né?! — Viu Ochako concordar e rir cúmplice. — Ele conversa o tempo todo com o Tenshi, e o danadinho parece entender… Algumas vezes fica tão quietinho que eu fico até preocupada. — Deu uma risadinha, mas logo ficou séria. — E também… o Keigo tem se dedicado muito para que o Regresso realmente aconteça... E eu... eu me sinto no dever de ao menos tentar não apressar as coisas.
— Então você não deveria estar trabalhando, Sra. Takami — repreendeu-a, em um tom brincalhão. — Acho que vou ter que fazer uma denúncia...
— Ei! — Fuyumi exclamou divertida e entrando na brincadeira. — Eu não podia deixar de atender minha paciente favorita. Mas se é assim... Não se esqueça que tenho acesso a todos os pilotos e sou esposa do Tenente.
— Isso foi uma ameaça? — Ochako perguntou, fingindo incredulidade.
— Pode ter certeza que sim — respondeu firme.
As duas se encararam por três segundos e, em seguida, começaram a rir da pequena encenação. Era ótimo poder escapar, mesmo que por alguns instantes, da aura escura em que a Ártemis havia mergulhado nas últimas rotações, principalmente para Fuyumi. Todos tentavam poupá-la do estresse das notícias ruins, por causa da sua condição; o único que lhe contava alguma coisa era o marido, de maneira bem superficial e resumida. Ela até entendia a preocupação deles, mas isso a fazia se sentir cada vez mais excluída e sufocada. Por isso, contra a vontade de todos, resolveu continuar o trabalho no módulo hospitalar. E era em momentos como esse, com Ochako, que Fuyumi agradecia a si mesma por ter tomado tal decisão.
— Acho que o Tenshi também está rindo — disse Fuyumi, acomodando-se melhor na cadeira enquanto o filho chutava seu ventre.
— Posso? — pediu com os olhos brilhando, a médica permitiu e Ochako colocou a mão esquerda no barrigão de Fuyumi. Ela não conteve o sorriso maravilhado ao sentir o pézinho do bêbe. — Vocês formam uma família linda, Yumi!
— Obrigada, 'Chako — agradeceu, emocionada com o elogio. — Você também devia pensar em fabricar um.
— Não! — negou imediatamente, recolhendo a mão. — Quer dizer… Não sei… Nunca conversamos sobre isso.
— Bom… — Fuyumi suspirou e levantou-se. — Vocês são novos, podem ter “essa conversa” a qualquer momento, mas agora, acho que seu piloto vai querer ter outro tipo de conversa.
A médica indicou com a cabeça para a entrada do módulo, e Ochako quis se fingir de morta ao ver a expressão transtornada de Katsuki enquanto vinha em sua direção; com certeza Mina já tinha caguetado absolutamente tudo a ele. Dessa vez, teria que caprichar no charme para tentar aliviar o sermão.
— Oi, amor! — cumprimentou, usando o tom mais meigo e debilitado que possuía.
— Amor é o caralho, Ochako! — retrucou rude. — Mas que porra de ideia foi essa?! Tava tentando se matar, cacete?!
— Katsuki! — repreendeu-o, tentando desviar o assunto. — A doutora tá aqui.
— Essa é a porra do hospital, Ochako! — exclamou, mais revoltado. — Ainda bem que a doutora tá aqui, mas não muda de assunto, merda! A Alien disse que você ficou o caralho de dois minutos com o traje violado e sem receber oxigênio. Então se por acaso estiver pensando em explodir a porra do cérebro, eu conheço umas cinco maneiras bem mais rápidas de estourourar miolos, merda!
— Katsuki, não foi tão grave assim… — disse, tentando se justificar e buscando apoio de Fuyumi, que só assistia ao espetáculo, segurando-se para não rir. — Eu já estou bem melhor!
— O seu braço todo estragado me diz exatamente o contrário, cacete! Você tá toda fudida, Ochako!
Ok! Ela não queria admitir, porém, analisando bem — além do curativo que escondia os seis pontos que levara —, seu braço direito estava bastante inchado, um pouco dolorido e com uma coloração esquisita. Estava enjoada e com uma leve dor de cabeça, o analgésico ajudou a aliviar a dor muscular, mas não se sentia capaz de usar as próprias pernas. Portanto, a contragosto, tinha que reconhecer que estava fudida mesmo.
— É… — Ela encolheu os ombros, envergonhada. — Acho que você tem razão.
— Mas que merda… — Bakugou de braços cruzados, balançou a cabeça em sinal de negação. — A porrada foi forte mesmo… — Suspirou cansado e perguntou à médica: — Então, eu posso levar essa idiota ou ela vai ter que ficar internada na ala psiquiátrica?
— Pode levar, mas ela tem que ficar de repouso — respondeu Fuyumi, voltando a sua postura profissional. Escreveu rapidamente em um papel e o estendeu a Katsuki. — E tem que tomar esse remédio de seis em seis horas por três rotações… É só passar no módulo farmacêutico e entregar a receita.
— Obrigada, Yumi — agradeceu Ochako, ansiosa para ir embora.
— Disponha, querida! Mas nada de gracinhas, é pra ficar em repouso — orientou mais uma vez e se despediu do casal.
Uraraka observou a médica indo em direção a outra paciente e, agora que sua visão estava mais nítida, percebeu que o homem era na verdade o irmão caçula de Fuyumi. Viu que ela se sentou ao lado dele, e que a mulher na cama permanecia desacordada. Não sabia o que havia acontecido, mas poderia apostar que tinha alguma coisa a ver com o Comandante, apesar de Shoto ser muito reservado, todos na Ártemis sabiam que a família Todoroki tinha sérios problemas de relacionamento.
— Para de bisbilhotar, cacete.
— Não tô bisbilhotando, Katsu.
— Tá bom… E eu não tô puto — falou, pegando Ochako no colo.
— O que tá fazendo?
— Te tirando daqui, Cara de Lua.
— Eu consigo andar, Katsuki.
— Consegue porra nenhuma.
E ele mais uma vez tinha razão. O corpo de Ochako continuava exausto, por causa disso não reclamou de ser carregada feito uma princesa pelos corredores da estação espacial; como Bakugou não fazia o tipo romântico, apenas conchegou-se e aproveitou a sensação de estar nos braços fortes de seu piloto.
Ao chegaram em frente à cabine residencial, ela pôs a digital no leitor de entrada e a porta se abriu. Tinha a impressão que se passaram anos desde a hora que saira para o trabalho, embora tudo estivesse no mesmo lugar. Enquanto Katsuki a colocava o mais delicadamente possível na cama, ela olhou a pequena escotilha e sentiu um aperto no coração.
Bom… Isso era normal, certo?
Havia sido protagonista de vários acidentes, mas nunca em uma spacewalker. Sentiu um calafrio só de lembrar do ocorrido. Tentara de todas as formas minimizar o acidente, porém, se Mina não tivesse agido rapidamente poderia estar morta. Mais um arrepio. É... teria que lidar com isso, só que não agora. Agora, apenas descansaria.
— Onde vai? — questionou Ochako, vendo o namorado se afastar.
— Na porra da farmácia, Cara de Lua — respondeu e em seguida saiu.
Ele continuava chateado e preocupado, então não contestou a sua atitude. Sabia que por baixo da carranca impetuosa de Bakugou, tinha um coração generoso, mais humano do que o da maioria das pessoas. Mas não era qualquer um que podia acessá-lo, muito menos desfrutar dos seus cuidados e atenção. Ochako sentia-se abençoada por ser alvo dos sentimentos de Katsuki, assim como por toda a reciprocidade que havia sido construída no relacionamento deles.
E com tais pensamentos doces, Uraraka acabou adormecendo.
Quando enfim acordou, sentiu o corpo mais leve, ainda que certos músculos permanecessem doloridos, a cabeça parou de doer e seu braço parecia um pouco menos inchado. Virou-se e viu o namorado de roupas casuais, sentado no chão, com as costas apoiadas na cama e jogando no iplus. Céus, quanto tempo ela dormiu?
— Oi, amor… — disse Ochako, acariciando o cabelo de Katsuki com o braço bom.
— Oi — Desligou o dispositivo e a encarou. Ela parecia estar bem melhor. — Tá com fome?
— Muita fome!
Ele assentiu e foi em direção à minúscula dispensa de emergência que tinham, separou alguns cereais, frutas secas, cristalizadas, água e o remédio que Ochako tinha que tomar. Levou todos os saquinhos para a cama e quase riu ao ver a cara abobalhada que a namorada fez. Era uma tonta mesmo!
— Tudo isso?! — exclamou, enquanto se sentava, com os olhos brilhando diante de tanta fartura. Não era sempre que tinham diversas opções de comida.
— A merda do remédio primeiro, Cara de Lua. — Ela fez uma careta, mas obedeceu. Depois, animadamente, abriu o saco de frutas cristalizadas e começou a comer. Eram suas favoritas, tão doces que pareciam derreter na boca. E claro que ele sabia disso. — Tá se sentindo melhor?
— Uhum… — resmungou de boca cheia. — Como conseguiu isso tudo?
— Eu pedi por favor. — Ochako quase se engasgou com a afirmação e ele prontamente lhe deu água. — Cacete, você quer mesmo morrer.
— Ei, a culpa foi toda sua! — Ochako riu, mas Katsuki não achou graça nenhuma. Fitou-o e notou que o olhar do namorado estava distante, a cabeça parecia ferver em mil pensamentos, tantos que ela não saberia dizer qual o afligia. Afastou-se da beirada da cama e deu dois tapinhas no colchão. — Vem cá, amor.
Bakugou sorriu de lado. Não tinha como esconder nada de Uraraka Ochako. Só não imaginava que em um das rotações mais importantes da sua vida e de sua carreira como piloto, ela quase morrera e quase transformara o desejo de suas vidas em um terrível pesadelo; porque viver na Terra sem Ochako seria como não poder respirar. Ele pretendia deixar esse assunto para depois, quando estivesse totalmente recuperada, mas já que ela o lia tão também…
— Como foi a reunião com o Comandante? — perguntou, depois que ele sentou-se ao seu lado.
— Produtiva. — Katsuki pegou um saquinho de cereais salgados e começou a comer também.
— Defina: produtiva. Por favor. — pediu, tendo a certeza que algo realmente precisava ser dito.
Bakugou virou uma quantidade generosa de cereais na boca. Estavam super crocantes, podiam estar um pouco mais apimentados, mas a namorada não compartilhava de todos seus gostos culinários. Ficou alguns minutos mastigando os cereais e organizando as ideias, por fim disse:
— Essa porra é secreta… Ninguem pode ficar sabendo disso, entendeu? — Ela concordou, atenta, enquanto comia suas frutas. — Os planos para o Regresso nunca pararam, na verdade, já estão planejando isso há muito tempo, a equipe de comando chama de Missão Gaia.
— Missão Gaia soa muito bem — disse Ochako, entusiasmada com o rumo da conversa.
— É… — Katsuki assentiu e esfregou o cabelo com uma das mãos. — Os meteoritos de merda atrapalharam o andamento da missão, pensaram em abortar a porra toda, adiar o Regresso e o diabo a quatro... No final das contas resolveram dividir a missão em duas fases. E na Fase 1 vão enviar uma nave de pequeno porte à Terra, e… — Encarou a namorada, que comia as frutinhas cada vez mais ansiosa, e concluindo de uma vez falou: — Eu vou ser o primeiro piloto da Missão Gaia.
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