Mission
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Notas iniciais
– Matar a Sarah, Carine?! — perguntou Clarah
– Sarah é um risco para todos nós, e eu jamais a mataria, eu fui enviada para contê-la.
Camila surgiu com o livo de Elizabeth, o mesmo que ela havia nos concedido para efetuar a missão.
– Talvez no livro encontremos uma maneira de curá-la.
– Alguém pensa aqui, parece. — disse Clarah
Assim que Clarah terminou de dizer, todas sentiram uma espécie de fumaça branca e
Sebastian, um serafim extraordinário, entrou pela porta do porão.
– Tsc. Tsc. O que Camila acha disso?
Carine não respondeu, estava nervosa e tê-lo perto sempre piorava.
– Eu sei que foi minha responsabilidade. Me desculpe, eu sinto muito.
– Mais uma dessas e você será rebaixada, Carine. Não posso mais tolerar esse tipo de...
– Cala a boca! – gritou Camila para a surpresa de todos – Quer rebaixar minha irmã? Ótimo, mas faz melhor comigo, me devolva minha humanidade!
Sebastian se calou e olhou fixamente para Camila.
– Você sabe que estou perdendo muito se seguir.
– Então por que não cala a porra da boca e deixa minha irmã trabalhar. Eu mesma já quis muito matar essa garota, mas se Carine acredita que ela tem jeito, ela sabe o que está fazendo?
– Não é o que parece?
– Não é o que parece?! – gritou Camila – Vou te falar o que não é o que parece! O que não é, é que você não parece em nada com um superior. Você selecionou quatro querubins para terminar uma guerra, sabe quantos vampiros, quantas coisas Carine enfrentou por causa de esse sua economia patética de pessoal?
Sebastian se calou.
– Sabe, Sebastian? Você sabe? Nos últimos vinte anos, ela não tem descanso, e eu também não, então basta! Faça o que tem de ser feito.
Sebastian olhou fixamente para Sarah e começou a rezar com a voz baixíssima, muito mansa, e era uma oração extensa e cansativa para ambos.
A marca no pescoço de Sarah se tornou cinza claro, quase imperceptível, e seus olhos brancos, sem nenhuma outra cor. De sua boca saía uma espécie de voz dupla, e suas mãos seguraram na grade com força, suas unhas ficaram negras e pingavam uma espécie de lama negra, a mesma das aranhas da alucinação.
– Quem está aí? – perguntou Sebastian
A voz virou para o lado afim de estender o ouvido para Sebastian.
– Quem? – ela gargalhou – Sarah. Sarah Lee. A Vedma que vocês tanto temem.
– É mesmo você?
– Sim. Sou eu. Não se incomode com essa aparência.
– O que você quer?
– Matar Runo, e qualquer prova de sua existência.
– Runo também é uma Vedma?
– Me liberte, e eu descobrirei, Sebastian. – Sarah de um risinho – Por até 48 horas o sangue humano mantido em meu sangue é o suficiente para acabar com qualquer outra Vedma.
– Há mais alguma outra Vedma em Wilmont, ou nas redondezas?
– O que quer, Sebastian? Que eu encontre outras Vedmas para você? – Sarah gargalhou – E logo depois que eu terminar, pensa que eu não sei que vai me matar?
– Não precisamos matar você, Sarah.
– Sim. Vocês precisam. E é por isso que estão aqui. Porém, Camila, Alison e Carine. Quem é o quarto querubim? Quem é a sua carta na manga, Sebastian?
[ Algumas horas mais tarde, estrada principal de Wilmont]
– Vamos fazer o seguinte, Runo! Agora eu dito as regras! — eu gritei. — Eu não sei quem eu era, mas você não manda mais em mim! Agora você vai fazer do meu jeito. Estou cansada de suas ameaças, se isso é verdade, não se preocupe, eu vou descobrir quem matou e nós vamos capturá-lo juntas!
– Eu não confio em você.
– Que se foda. Não faço por você, vou fazer isso para ter paz e voltar a minha vida antiga de volta. Sem lobisomens, vampiros, anjos e aparições. Só quero uma vida normal. Eu não sou uma super heroína de uma história em quadrinhos nem como esses caçadores, só quero ser quem eu era.
– Okay.
– Promete que vai sumir da minha vida, assim que tudo isso acabar?!
– Se é o que quer, perfeito.
Ficamos em silêncio por alguns segundos e em seguida depois de um riso abafado ela desligou. Eu continuei dirigindo até Wilmont, sem nenhuma pausa para descanso, sem me incomodar com a chuva interminável que enchia o vidro e o para-brisa do carro. Me olhei no retrovisor interno, e tive um dejavu que o meu olho esquerdo não estava lá, invés disso, um grande buraco ocupava seu lugar.
Olhei de novo e suspirei assustada. Que susto horrível.
Logo cheguei ao apartamento de Malina, para procurar por ela, quando vi uma das cenas que mais me doeu em toda a vida.
Denny estava com o corpo imóvel de Malina no tapete. Ela tinha diversos ossos quebrados, seu rosto estava irreconhecível. A casa estava destruída, uma verdadeira bagunça, e Apsu não estava ali, menos pior, ele poderia ter se machucado também.
– Ela ainda está respirando? – perguntei
– Muito pouco. Consigo leva-la ao hospital. Me ajude.
– Não posso. Essa noite acaba. Runo morre hoje. – eu terminei de dizer e soquei a parede.
Desci as escadas correndo, e com lágrimas nos olhos, uma pulsação forte, e um desejo de ódio, pensei que eu poderia me transformar a qualquer momento. Mas não. Liguei desesperada para Karol, que era especialista em transformações, e conseguiria me ajudar, com o pouco que fosse.
[ x ]
Parei num posto 24 horas para comprar cigarro e tomar um café, quando eu vejo uma miniaturinha entrando. Ele não devia ter mais de seis anos, ele era pequeno e parecia fofo, e fisicamente se parecia comigo.
Não consegui tirar os olhos dele.
O garotinho sentou-se no balcão perto de mim, e pegava pequenas moedas do seu casaco, mas era óbvio que ele não teria como pagar nada.
Sentei-me do lado dele.
– Posso ficar aqui com você?
Ele não olhou para lado nenhum e somente confirmou de leve com a cabeça. Eu parei para pensar, eu estava indo matar algo, fazer uma atitude tão medonha, e uma criança inocente do meu lado tão indefesa.
– Onde estão seus pais? — perguntei
Ele fez uma cara de dúvida, mas sempre olhando para frente, sem nunca me olhar.
Eu pedi dois X-Bacons com Coca-Cola, e estendi um para ele. Ele olhou nos meus olhos e agradeceu. Os olhos dele eram lindos, mas logo depois ele se virou para o lanche e comeu como se não comesse há dias. Ele nem mastigava, comia rapidamente como se o fosse arrancar dali para qualquer momento.
– Para onde você vai? Eu te levo, é perigoso sair essa hora.
Ele fez um rosto de dúvida novamente. Ele era como eu, não tinha mãe, nem pai, e certamente não teria como sobreviver sozinho. Meus olhos se encheram de lágrimas.
Eu o coloquei no carro, e primeiramente pensei em levá-lo de volta para a aldeia, em Orleans, era isso o que eu iria fazer. Ou não.
Meu instinto de lobo gritava para que eu o levasse para Orleans, com La Loba, as meninas, e cuidasse dele para sempre. Mas o meu instinto assassino me fez lembrar o meu motivo de estar ali, a minha missão, e eu comecei a olhá-lo de um jeito totalmente diferente.
Sangue fresco, infantil, doce. Ninguém iria dar falta dele, nenhuma família para recordar, corpo pequeno, fácil de esconder.
Percebi meus olhos ficarem dourados, e uma fome imensa, algo incontrolável dentro de mim. Não tirei a razão de quando disseram que eu era uma aberração perigosa demais. Disquei para Karol, duas, três vezes.
E a puta da Karol não atendia o telefone. Que ódio. Freei bruscamente, próximo da floresta.
– Isaac, sai do carro. – eu disse com raiva
– Mas eu to com medo. Tá escuro lá fora!
– Que se dane! Não foi isso que você queria quando saiu de casa? Então agora tem que ser homem e ir embora.
Ele começou a correr chorando em qualquer direção. Meu coração se partiu mil vezes, mas eu teria que fazê-lo. Sem controle, meu corpo começou a se transformar, eu tentei parar, mas era impossível. Então tirei minhas roupas e deixei perder o controle, fui atrás do garotinho na floresta.
Ele ainda chorava, e ainda corria, o que facilitou muito para que eu o encontrasse. Em menos de um minuto, correndo nas quatro patas, eu o vi, e ele estava apavorado. O prensei no chão com somente uma pata e mordi seu bracinho, sentindo o sangue encher minha boca.
Aos poucos senti seu coraçãozinho parando, as batidas eram mais fraquinhas e a respiração mais lenta. Me joguei no chão e voltei à forma humana.
Chorei. Chorei como uma criança, por me sentir fraca, inútil. Cruel, assassina, o que fosse. O peguei nos braços, e permaneci abraçada com Isaac, não sei por quanto tempo.
[ x ]
Karol jogou sua moto de qualquer jeito no chão, e correu na minha direção.
– Sarah, eu pedi para você não fazer isso! – ela disse gritando.
Instantes depois, Yul chegou, e me ajudou com o corpo. Isso era o que Isaac era, um corpo. Karol segurou o menino e fez o inimaginável.
– Você fez a merda. Você paga! – gritou
Karol pegou uma agulha, e puxou meu braço com força, mas a inconsciência não deixava eu perceber o que era aquilo. Ela chupou a ponta da agulha e retirou sangue do meu braço, fazendo uma pequena transfusão de sangue pela seringa. Repôs um pouco do sangue que eu havia tirado.
– Seu sangue tem uma cura ágil, vai salvar ele. – disse.
Eu consenti com a cabeça e apaguei. Acordei no caminho de um hospital de emergência em uma cidade vizinha, notei que eu estava no carro com as duas.
Saímos correndo e levamos o moleque. Meus instintos estavam totalmente aguçados e mais fiéis a minha natureza. Meus olhos estavam cinza e avermelhados e minha roupa suja de sangue. Aos poucos “A Fera” estava tomando conta de mim e um monstro novo e pior do que eu já fui estava chegando.
Karol correu com o menino nos braços para dentro do hospital, e eu me limitei a bons tropeços e cambaleadas, exatamente como um bêbado. Não aguentei chegar à recepção. Caí no chão antes.
– Moça você precisa de ajuda? – perguntou um médico olhando para mim
Todas as pessoas olhavam para mim.
– Ela consumiu entorpecente? – cochichavam, mas para mim soava como grito
– Moça, por favor, compareça, você tem que nos dar algumas respostas! – disse o médico – Vou colocar você no soro.
– Não. Só cuida dele – eu disse.
Meus sentidos foram voltando e o efeito do sangue humano começou a se consolidar. O impacto era demorado e os benefícios eram ilimitados.
Voltei para Wilmont, em uma boate onde eu sabia que provavelmente Evelyn e ela me levaria até Runo.
Entrei pela porta da frente, normalmente e logo vi Evelyn que se divertia com um garoto. Não sabia quase nada sobre minhas memórias antigas, mas algumas delas me diziam que Evelyn já tentou me matar mais de uma vez. E outras me ajudavam a me lembrar da personalidade dela. Droga! Por que isso não acontecia com Runo?
Assim que a morena me viu, eu me aproximei dela, mas era tarde demais para que ela fugisse. Foi burra o bastante para caminhar em direção ao banheiro, onde sabia que estaríamos à sós. Não tive paciência, e a enforquei contra a parede.
Eu estrangulava Evelyn com uma única mão, mas a vadia só fez gargalhar e me indicou o centro da pista de dança. Jamais me esqueço daquele momento, foi a cena mais confusa e mais odiosa que eu já vi em toda a minha vida.
Denny dançava com Runo e elas quase se beijavam. Eu achei que havia algo errado ali, alguém havia traído alguém. E por desencargo de consciência eu decidi ir até elas.
Denny me viu primeiro e deu um sinal para Runo correr pelos fundos. Então Denny havia nos traído? Corri em direção à Runo que saiu pela porta dos fundos da boate, mas Denny me puxou pelas costas.
– Sarah, não. – ela disse
Eu me desvencilhei dela, e corri na direção que vi o carro de Runo, saltei no ar, estendi o meu braço direito para trás e fui para frente, para dar o maior soco da minha vida.
Runo segurou meu braço e com sua mão livre me deu um soco no rosto, de modo que caí no chão.
Alguns fumantes, seguranças e outras pessoas estavam próximas ao local, e um grito de um policial fez com que Runo se distraísse. Eu levantei e lhe dei uma joelhada na barriga e em seguida um soco em seu queixo.
Runo deu uma rosnada feroz e fugiu, de volta para dentro da boate. Sua hiper velocidade me impediu de conseguir alcançá-la ou ver para onde ela tinha ido. Senti uma vibração próxima ao meu rosto, e quando notei o que era, era uma flecha de carbono, uma idêntica às do meu arco.
E a flecha acertou o meu olho, e ido até fundo, ultrapassando meu crânio e deixando escorrer em altas quantidades um sangue espesso e muito rubro. Aquilo doeu perversamente. Eu tentei quebrar a flecha, enquanto berrava de dor, mas era inútil, a dor não passava e aumentava cada vez mais. Se eu não fizesse algo eu iria morrer.
A flecha era de carbono, praticamente impossível quebrá-la. Com muita força, eu quebrei a ponta da seta, e empurrei ela para a frente, voltando do lugar de onde veio. Mal pude ver ela sair minha cabeça afora e meu olho ter caído junto. Com o pouco de energia que restava, eu tampei o “buraco” para o sangue parar de cair, e tentei andar em direção à estrada.
Dois faróis altos e fortes. Desmaiei no chão.
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