– Ela está viva? – eu ouvi um garotinho falar e ele estava me encarando.

– Eu estava sem roupas, mas enrolada por um lençol branco que mais parecia uma toalha de hospital. Pelo cenário parecia um quarto de motel de beira de estrada vagabundo.

– Isaac. – eu murmurei feliz – Desculpa.

– Desculpa pelo quê? – ele perguntou

– Nada Isaac. Sarah está bêbada ainda. Continue na sala assistindo desenhos que já vamos sair para almoçar.

Olhei meu rosto no espelho, meu rosto estava enfaixado e eu não tive coragem de tirar a venda.

– Seu olho foi estraçalhado demais para poder se recuperar.

Com o outro olho que me restava, percebi uma lágrima caindo. A dor ainda passava, mas a minha vaidade estava ferida, e que se dane! Tirei a faixa, e aquele buraco macabro ainda estava ali.

– Você tem um Kit de primeiros socorros? – perguntei

– Tenho. Está aqui.

– Esteriliza uma agulha pra mim. – eu pedi

– Tem certeza de quer mesmo isso?

– Sim.

As minhas mãos tremiam demais para que eu pudesse me costurar, então ela mesma costurou o meu olho esquerdo, fazendo o estrago ficar menos pior.* (Daí em diante, ou eu estava com óculos escuros ou com um tapa olho, Isaac sempre diz que eu ou eu estou pirata ou de ciclope.)

– Yul consertou o seu "deslize". Ele não sabe de você.

– Poxa, eu não tenho como agradecer ela.

– E como foi com Runo?

– Ela matou Malina, e Denny é uma traidora.

– Denny? Ela sempre te ajudou!

– E ajudou Runo também. Mas não importa.

Isaac chegou alegre, interrompendo a conversa.

– Você está melhor?

– Estou sim, meu amor, obrigada.

– O que vamos fazer hoje?

– Vamos procurar sua família.

– Minha mãe está morta. — seus olhinhos se encheram de água — Eles mataram ela. Os homens do carro preto. E eu não conheço meu pai.

Eu suspirei. Karol suspirou.

– Vamos fazer o correto.

– Você é a mulher da Alpha, não me dá ordens diretas.

Karol me olhou com um olhar que se ela fosse um lobo no momento, aquele olhar seria uma mordida fatal.

– Vem Isaac, eu vou te arrumar uma casa nova.

– Sério?

Ele me abraçou tão carinhosamente. Parecia feliz como não era há dias.

– Karol, leva ele pra La Loba, por mim. Eu volto amanhã de noite.

– O que vai fazer?

– Tenho que aproveitar o efeito e terminar o trabalho.

*"Menos pior" está absurdamente incorreto, mas é um bordão meu. Sempre que minha mãe pergunta: — Tá melhor fia? Eu respondo: — Menos pior.

[ Horas depois, Wilmont]

Eu estava pronta. Eu havia dado tudo de mim. Mas ainda não era o bastante. Então somente restava contar com o que o sangue humano fazia em meu corpo.

Abri a porta da manão de Runo com um só pé e gritei por ela. Logo Runo estava diante de mim. Estava rindo no piano aonde Yul ficava, enquanto não percebeu que eu havia chego. O poder do meu murro fez com que seu maxilar se quebrasse, mas ela o recuperasse em segundos. Runo gargalhou:

– O que é isso?!

– O que você acha? – eu sorri

– E você acha que pode vir aqui e me enfrentar, menina-lobo?

– Por tudo. Venha, querida. – eu sorri mais debochada ainda

Runo perdeu o fundo do olhar.

– Ao que parece você se recuperou. – sorriu

– Eu te prometo que somente uma das duas vai sair viva daqui hoje.

– Vai matar a mim, querida? – Runo fechou os punhos

Foi a batalha mais dura, e mais violenta que eu já tinha vivido. Não que perder um olho tivesse me feito ficar em desvantagem, mas eu realmente não estava tão preparada para enfrenta-la.

A segurei pela barriga, e a joguei contra o piano, repartindo-o em vários pedaços. Runo levantou rosnando e correndo em minha direção, mas eu não me amedrontei.

– Se lembra? – ela perguntou raivosa– Se lembra a primeira vez que caçamos juntas, o que me disse?

– Você perdeu a caça por instantes? – eu respondi

Runo segurou meu braço direito, e com a sua mão direita desferiu um soco no meu rosto. Eu senti o golpe, mas não doeu tanto, e revidei, com a outra mão, a enfiando em seu ventre e segurei um pedaço da carne de sua costela, a jogando fora.

– Não. Porque é mais fácil quando não estamos sós.

Um lobo negro imenso estava parado na porta do salão. Olhei para ele, e em seguida olhei para ela.

– É só isso o que você tem? – eu gargalhei – Pois eu tenho uma surpresa maior para vocês.

Iniciei a transformação.

Quando eu me transformei, eu não era lobisomem, eu era um lycan. Eu tinha mãos humanas, garras, poucos pelos em cima de minha pele negra, sem cauda, e um focinho meio-humano.

Aquele lobo... Eu olhei nos olhos dele. Eu conhecia seu cheiro a vida inteira, mas eu não fazia idéia de quem era ele. Não importava. Era um traidor. De meu próprio bando e se juntando em uma batalha contra mim.

O garoto pulou em cima de mim para me morder, e conseguiu uma leve mordida em meu ombro, mas eu o atirei para o lado. E ele era feroz, mal caiu e já contra atacou, com mais rosnados e tentativas de me arranhar.

Eu estava tão forte, que eu segurei o lobo e o joguei para o alto, juntei meus dedos todos para cima e enfiei no maxilar do bicho quando ele caiu. Minhas unhas trespassaram sua lingua, rosto, e eu sentia o seu cérebro na ponta dos meus dedos. O tirei de minhas mãos e o joguei para longe, vendo o sangue e pedaços de sua massa cinzenta que se espalhavam pelo chão.

Morte instantânea.

Runo ainda segurava a lateral de sua barriga que não parava de sangrar, e sangrar. Eu peguei uma mesa que eu havia derrubado no combate contra o garoto, quebrei e fiz uma grande estaca de madeira. Ela suspirou e me atacou mais uma vez.

Runo deu uma sequência de golpes em meu rosto, socos bem treinados, e pra finalizar deu um salto com dois chutes em meu peito, me jogando para trás. Eu fingi perder a consciência, e quando ela se aproximou, eu fui muito rápida e finquei a madeira em seu peito. Ela respirou forte como se estivesse se afogando.

– Isso.. . – eu disse – Foi pelo meu olho. . .

Ela tossiu sangue e gargalhou baixo.

Eu retirei cuidadosamente a madeira do lugar de onde estava fincada e com a outra mão a segurei no alto, indo para a janela. O sol já saía com seus primeiros raios, e eu esperei até que ele começasse a queimar as costas da ruiva.

– SARAH, NÃO!!! — gritou Yul, surgindo no escritório

– O quê? — eu olhei para ela

– VOCÊ NÃO PODE MATÁ-LA. NÃO FAÇA ISSO.

Eu suspirei, e joguei Runo do outro lado da sala. Ela bateu com as costas na parede e caiu no chão. Eu terminei com uma pata daquele tamanho prensada nela, mas eu recuei e não fiz nada.

– Se eu te matar, eu vou ser igualzinha a você. E realmente disso eu não preciso. Eu venci você, e dê-se por satisfeita.

Saí de cima dela, e me controlei amargamente para me retornar à forma humana. Yul e eu corremos para a garagem da mansão.

– Por que me impediu?

– Você não é assim, Sarah.

Eu peguei a chave da Audi de Runo, mas o meu instinto me acionou um estado de emergência.

– O que está esperan- Yul abriu a porta

Assim que Yul abriu a porta, uma grande explosão tomou conta do lugar e voamos as duas em direções diferentes.