Mission
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Notas iniciais
Meu telefone tocou no meio da madrugada.
– Leon? – eu atendi preocupada.
– Eu preciso da sua ajuda.
– Diz.
– Agora que terminamos com Elizabeth, eu preciso que você me ajude com meu caso.
– Por que está me ligando agora? E por que eu?
– É sobre um caçador de lobisomens. E um grande lobo branco
Eu suspirei pesadamente. Aquele caso teria valor sentimental para mim.
– O lobo branco vive atormentando os descendentes do caçador, e costuma roubar noivos e noivas por aí em dias de casamento.
– Eu vou te ajudar. Prometo.
Pude sentir ele sorrir.
– Obrigado.
– Por que me ligou no meio da madrugada?
– É que eu sou vampiro, e que eu saiba, vampiros trabalham de noite.
– Ah. – eu fiz uma cara de nojo. – Boa tarde pra você.
– Okay. Até mais. – ele desligou.
Carine estendeu o braço por cima do meu corpo, e eu voltei para junto dela. Fiquei pensando no grande lobo branco, e porque ele fazia aquilo, e quando percebi eu estava dormindo.
Eu tive um sonho muito confuso. Onde eu estava me arrumando para me casar, e o noivo, ou a noiva sei lá havia desaparecido. Eu acordei, estava sorrindo pela noite passada, mas Carine não estava ali. Seu celular estava na cômoda, e suas coisas também, então era sinal de que ela não deveria demorar muito.
Aguardei umas duas horas da tarde, então vi no celular dela oito chamadas perdidas de sua irmã gêmea. Liguei para Camila.
– Até que enfim, ONDE VOCÊ ESTÁ? – perguntou Camila.
– Aqui é Sarah? Sabe onde ela está?
– Não. E ela não costuma sumir assim.
– Eu acordei e ela não estava mais aqui. Ela não está com Leon, Denny, ou alguém?
– Não. Leon está comigo e Denny está em São Paulo.
– Malina está comigo, nenhum sinal dela aí?
– Nada.
Meu coração apertou. Carine não era descuidada, e se ela não deu notícias era porque poderia estar em perigo.
[ X ]
Leon e eu nos dividimos na floresta, era uma noite clara, pois a lua estava imensa nos céus de Wilmont. Precisávamos resolver o caso de seu amigo, era mais que um trabalho, Leon foi fiel a mim para me ajudar com Runo, e esse era o mínimo que eu poderia fazer por ele. Eu estava equipada com o material necessário, mas eu ainda tinha um pouco de medo de procurar um espírito na madrugada.
Senti um vulto correndo pela floresta depois do grito, parecia uma moça loira, muito magra e rápida. Não tinha cheiro, não tinha cor, nada que pudesse confirmar que ela era uma pessoa viva. Eu parei de andar, e me abaixei na margem do rio, de certa forma, agachada, procurando meu celular na mochila.
Aquele vulto surgiu na minha frente. Seus olhos estavam completamente negros, porém os cabelos e o vestido branco continuavam impecáveis. Sua boca não falava, porém ela tinha uma beleza macabra e um silêncio mais macabro ainda. Tocou no meu rosto, eu somente senti uma leve brisa e então perdi a consciência.
[WILMONT — SÉC XVIII]
Duas ladys conversavam cochichando em uma mesa de chá, enquanto abanavam seus leques. Homens em uma taverna em outro canto da cidade, estudantes do convento, homens em uma banca de jornal, um padre na igreja... Em todos os lugares de Wilmont, o assunto era o mesmo, um lobo branco que sempre atacava algum bêbado, ou morador de rua, que parecia não ter muita importância.
Alguns atribuíam o lobo à algum justiceiro, pois muitas dessas pessoas eram péssimos cidadãos, pais agressivos, adúlteros, ladrões, assassinos e criminosos. Mas o incrível, era que existiam diversos, mas somente este caçava, como se fosse uma mãe alimentando os seus filhotes.
Viktor era sapateiro, um rapaz simples, que morava sozinho em um cortiço em Wilmont. Ele era apaixonado por Karina, filha de um conde importante da região, e era correspondido pela mesma, que era uma das moças mais cobiçadas da cidade.
Ele sabia que não tinha condições nenhumas de se casar com a moça, na verdade, ele não tinha condições de ser um bom partido para alguém. Porém enxergou no caos que se passava em Wilmont uma saída para a sua pobreza.
Se alistou no quartel para entrar na guerra nde independência. Quando estava longe havia algumas semanas, fugiu pelo mato, deu um tiro no próprio ombro e tentou voltar para casa como herói. O plano era perfeito, exceto que pelo caminho de volta, ele se encontrou com o tal perigoso lobo. Era um lobo imenso, pouco menor que um cavalo, se aproximou e parecia rosnar para ele. Viktor poderia ter vários defeitos, e um deles é que não tinha medo de nada, nem de um lobisomem, nem de um bando deles.
Viktor conseguiu fugir, pois os lobos logo ouviram o barulho de uma carruagem pela estrada, e foram atrás dela. Ele seguiu os animais, disfarçando e conseguiu salvar o proprietário num golpe de sorte. Ele soltou um dos cavalos da carruagem, colocou o senhor na garupa e montou também, o levando em segurança para Wilmont.
E para melhorar sua sorte, o proprietário era Solomon, um grande conde de Wilmont e importante proprietário de terras, que em sua gratidão apadrinhou o jovem.
Ele narrou toda a história para os principais condes e barões da cidade, e ambos se encantaram com a bravura do herói de guerra baleado que protegeu um estranho na estrada. As jovens estavam aos seus pés, e ele foi convidado para os clubes da alta sociedade, dos jogos de baralho e os bailes. Estava agora à altura de Karina e deixou seus interesses claros à família da moça.
Solomon e os condes contrataram Viktor para exterminar as criaturas da cidade. E o garoto era bom! Tinha talento, comandava armas, aprendeu a ouvir no escuro, a sentir cheiro.
Pouco tempo depois, ele descobriu que os crimes estavam piorando, antes era somente o primeiro, o justiceiro, mas o segundo e ainda pior, parecia muito mais implacável, com muito mais fome, e matava exclusivamente meninas.
O primeiro somente pessoas cruéis, e era cuidadoso e o segundo parecia zombar, escolhia meninas novas com pretendentes ou até mesmo grávidas. Nesse tempo, Viktor conheceu oficialmente a razão de tudo isso: Karina.
[ x ]
Eu acordei do flashback, mas as imagens da história ainda me atordoavam. Aquele espírito na minha frente era Karina. Ela pareceu sorrir para mim, e eu sorri de volta.
– Não vou te fazer mal. Vim te ajudar. Por favor, me conte mais.
Ela consentiu com a cabeça e encostou em mim novamente.
[ x ]
A loura de feições pálidas, o sorriso contagiante. Ela tinha o olhar mais calmo e mais doce que alguém poderia ter conhecido. Viktor dizia que se ela olhasse para o céu com o seu olhar meigo, as nuvens se afastariam e o sol surgiria só para olhar para ela também. Eram felizes, tinham a vida toda pela frente e o casamento seria o maior e mais deslumbrante que Wilmont teria visto.
Porém, o que ele menos esperava, aconteceu. Viktor estava no altar, esperando ansiosamente pela chegada de sua amada, mas as horas se estenderam, e depois de três horas de atraso, lhe disseram que não adiantaria mais esperar.
Ele chegou furioso à casa de Karina, mas não a encontrou. A casa da moça estava devastada, móveis e louças jogados para todos os lados, cortinas rasgadas e um pedaço da janela estava faltando. No banheiro, vários vidros estilhaçados e todo o cabelo de Karina estava jogado no chão, mas nenhum sinal dela.
Descendo a cozinha, e saindo pela porta dos fundos, ele viu pegadas de lama e poucos passos depois, as pegadas eram caninas.
[ x ]
Karina se arrastava, andava deslizando, e se afastou de mim, como se não quisesse terminar de contar a história, e como teve fim.
– Quem machucou você? — eu perguntei
Ela me olhou triste, com aqueles olhos totalmente negros e não tinha expressão. Meu celular tocou, e era Leon.
– Sarah! – ele parecia muito desesperado
– Diz.
– Carine. Eu achei um pouco do cheiro dela por essas árvores, e tem várias marcas de batalha aqui. Parece que ela foi capturada.
Oh merda.
– Leon. Eu achei o espírito da garota e ela está me contando o que está acontecendo.
– Você ouviu oque eu disse? Carine sumiu!
– Eu ouvi. Me escuta.
– Ela pode ter capturado ela pra chamar minha atenção. Por algum motivo, só eu enxergo o espírito da garota e ela precisa conversar comigo, talvez ela me conte o que aconteceu.
– Tá. Me mantenha informado.
Desliguei o celular e olhei para ela.
– Karina?
Ela não respondeu. Aliás, ela não falava.
– Eu não sei se só eu te enxergo. Parece que sim. Você pode me contar qualquer coisa.
Ela continuou muda.
– Essa menina – eu mostrei uma foto de Cah no celular para ela – Ela sumiu, e eu amo ela, você pode me dizer, ou sabe onde ela está.
Karina olhou para uma direção na floresta e ficou com o olhar preso lá.
– Eu quero te ajudar. Mas eu preciso dela. Por favor. Ela está com você?
Ela confirmou com a cabeça e eu dei um sorriso seco.
– Você roubou o meu amor, mas não matou, isso significa que você quer me dizer algo. Não é uma assassina.
O espírito tocou em minha testa.
[ x ]
As imagens agora eram borrões, embaçados e amarelados.
Um imenso lobo branco corria ferozmente pela floresta enquanto outros surgiam atrás para caçá-la. Outra cena embaçada surgiu em minha mente.
– A alfa do grupo está se apaixonando por um humano e vai se casar com ele. – um homem disse
– Um humano? — gargalhou uma pessoa do outro lado da sala — Ele é um caçador, ele matou Angelo e Damião, e vai nos caçar logo também.
Os outros olharam boquiabertos.
– Todos sabem como a lei funciona. A Alfa deve ser substituída.
– Mas o casamento dela é em algumas horas.
– O QUE TEM O MEU CASAMENTO? — perguntou Karina, surgindo na sala
– Peguem a traidora. — um deles disse
Karine olhou com horror para aquelas pessoas e saiu correndo. A loira se transformou e foi para casa o mais rápido que pôde, cada pisada no chão era um segundo de vida que se esvaía. Ela estava apavorada, mas conseguiu chegar a tempo em casa. Procurou por seu pai e seus irmão, mas todos já estavam a caminho do seu casamento, viu que a carruagem não estava no choche. A cidade estava deserta, toda reunida na igreja, e não havia a quem pedir ajuda.
Então saiu pela porta dos fundos e correu ainda mais rápido por outra floresta. Quando parou à margem de um rio para beber água, sentiu um zumbido de uma flecha passar por seu ouvido.
– O QUE VOCÊ FEZ COM ELA?! — perguntou Viktor
O lobo branco fez um choramingo e deu alguns passos para trás. Ela não queria morrer, não daquela forma. Ela sentiu que uma dúzia de lobos da sua matilha se aproximavam do local, prontos para assassiná-la. Ela não tinha saída.
Viktor tirou uma espada de prata da sua cintura e se aproximou. Ela ficou deitada no chão, como um cão doméstico, colocando o focinho no meio das patas, numa cena que seria meiga se ela fosse um cachorro.
– Não adianta me pedir desculpas. Você vai me pagar pelo que fez à ela.
O restante da matilha chegou, e um deles latiu para Viktor, que gritou em resposta. Nesse susto, Karina saltou para o outro lado do rio, para tentar fugir, mas neste movimento, Viktor deu um pulo no ar, segurou a espada como se fosse uma lança e jogou em suas costas.
Com a faca de prata perfurando seu ombro, ele continuou a transformação e voltou ao estado normal, mas Viktor já estava longe. Os outros lobos recuaram e foram embora, claro, para que o caçador levasse a culpa pelo assassinato. A matilha estava vingada.
Karina chorou de dor, e tentou se levantar, mas foi em vão. Estava lavada de sangue, e a espada que trespassou as suas costas e clavícula parecia enorme demais e pesada demais.
Fim do flashback
[ x ]
– Foi ele quem te matou? Você só queria que alguém te escutasse e que entendesse o amor que tinha por ele. Por isso você está aqui. Você quer paz.
Ela confirmou com a cabeça.
– Onde você morreu?
Ela apontou para uma direção, seguindo a margem do rio. Eu corri na direção que ela me indicou, para procurar os seus vestígios. Logo vi o que procurava, então eu parei, e o pontinho brilhante era a mesma espada da visão. Próximo à espada havia o resto de um crânio, e de alguns ossos, mas várias raízes e folhas cobriam a maior parte deles.
– Leon, onde você está? — liguei para ele
– Estou na floresta, alguns quilômetros a nordeste.
– Eu estou na margem de um rio, no local onde a garota morreu. Vou ver se acho todos os ossos dela.
– Estou indo para aí.
– Eu vou dar um tiro para o alto, veja se escuta.
– Okay.
Eu disparei para o alto.
– Ouvi. Chego em alguns minutos.
Eu desliguei e fui pegando os ossos, tendo cuidado para não tocar na espada. Quando meu dedo tocou sem querer no cabo, o espírito de Viktor surgiu.
– Karina! – eu chamei, mas ela parecia não estar lá
Ele sabia que eu era um lobo, e talvez por isso me olhou com tanto ódio.
– Viktor, eu vi Karina. Ela está perdida pela floresta, e ela precisa de você.
Ele permaneceu em silêncio.
Leon disparou no fantasma de Viktor, mas ele desviou e viria para cima dele com violência.
– Não. Não é uma armadilha. — eu disse para ele, enquanto fazia sinal para Leon se afastar com outra mão — Karina precisa de você.
O espírito consentiu com a cabeça e flutuoou para mais perto.
– Você a matou, Viktor. Ela era o lobo branco.
Ele negou com a cabeça e me olhou com ódio.
Eu me transformei na frente dele. Espinha quebrando, cabelo caindo, cauda surgindo do último osso da espinha, pelos nascendo. Ele me olhou espantado. Poucos instantes depois eu voltei ao normal.
– Viktor, ela era como eu, e você não fez por mal. Ela sabe.
Ele estava olhando para o chão, com um olhar de dúvida e desespero, negando com a cabeça.
– Ela te perdoou, e agora é hora de você ir embora e descansar com ela. Karina ama você, e eu sei que ela está aqui com você, está te esperando para partir. Vocês merecem isso.
Eu amontoei os ossos e chutei a espada para longe. Quando a espada saiu de perto, o espírito de Karina apareceu para todos. Ele assentiu com a cabeça. Eu caí de joelhos, e percebi que estava chorando. Karina olhou para mim, novamente sem expressão, e eu olhei de volta para ela, sem saber o que fazer.
– Por favor, devolve ela pra mim. Eu sei que você está com Carine. Eu a amo, e ela está esperando por mim também.
Ela não se manifestou.
– Eu trouxe Viktor para você. Veja.
Ela olhou para o espírito de Viktor, com tanta mágoa nos olhos, e ele olhou de volta tão assustado, ela estava tão diferente do que ele havia se apaixonado.
Numa fração de segundos, eu ouvi um barulho muito forte. Karina caiu para trás, e eu vi a mancha de sangue no vestido branco dela. Olhei para frente, e Denny engatilhava a arma para atirar pela segunda vez.
– Você está legal? — disse Denny, disparando novamente contra Karina
Karina deu um grito agudo e eu segurei seu corpo que caiu no chão. Ela tentou reagir levemente, mas tinha um rosto com paz e tranquilidade.
Quem é que havia dito para ela atirar? Avancei contra ela e ela se defendeu do meu pulo. Me jogou no chão, e eu segurei sua blusa, a jogando no chão também e a virei por baixo.
– Quem mandou você aparecer?! Você matou a mulher dele!
– O quê?!
– Ele está com Carine, e eu estava pedindo para ele trazer ela de volta. Por que você tinha que arruinar tudo?!
– Eu achei que Carine estava com você.
– O caçador sequestrou ela e vai matá-la se eu não fizer nada.
Larguei Denny e me aproximei do rio de novo. Viktor olhava em prantos para Karina, que não se movia mais.
– Por favor. Não me tira ela. Ela é tudo o que eu tenho. – suspirei — Eu sei que foi você quem matou Karina, mas ela te perdoou, e você tem que partir junto dela. Ela veio para te buscar.
Vitkor segurou o corpo dela com jeito, e num piscar de olhos, desapareceram. Leon ajudou Denny a levantar, e eu me transformei de novo.
Eu precisava encontrar Carine. Já tinha mais de 24 horas que ainda não havia aparecido e com isso minha aflição apenas aumentava. Procurei por horas, na minha pele de lobo, procurei gritando e uivando, qualquer cheiro, rastro e nada dela aparecer.
Desmaiei cansada.
[ x ]
Acordei sentindo o cheiro de Carine. Acordei no peito dela, eu ainda estava nua, mas coberta por uma boa colcha e sentia suas mãos em minhas costas. Não sabia se continuava dormindo, ou se gritava de alegria e alívio.
– Carine?
– Sim? — perguntou com uma voz um pouco sonolenta
– Você está bem? Onde você estava?
– Eu estou bem, calma. Eu perdi a consciência por muitas horas, eu não sei o que houve.
– Eu fiquei com medo de te perder. Eu estava desesperada, desculpe.
– Isso nunca vai acontecer. Você sabe disso.
Neste instante eu a apertei muito forte.
– O que foi?
– Eu sei que você veio atrás da menina que você conheceu.
– Sarah.- ela tentou falar, mas eu a interrompi
– Só que eu não sei se ela consegue te amar tanto quanto eu te amo agora. – terminei de dizer e a beijei
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