Mission
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Notas iniciais
Não tenho muito o que dizer de mim. Eu sou uma escritora normal. Meu nome é Sarah Lee, vou fazer 20 anos.
Estudo jornalismo, e escrevo profissionalmente. Não classifico meus padrões de beleza como altos ou baixos. Sou o que sou. Moreno-clara, lábios um pouco carnudos, e deixei meus cabelos crescerem até o meio das costas, mas não gosto muito de cabelos compridos, eu acho que já está na hora de cortar.
Minha história começou de um jeito estranho. Eu acordei numa floresta depois de ter tomado uma surra, com várias pessoas estranhas ao redor de mim. Eu tirei a venda dos meus olhos e saí correndo até chegar numa estrada. Quando cheguei à estrada eu conheci uma garota, que dizia estar me procurando. Ela era meio loura, uns cabelos cacheados imensos, e um sotaque forte de São Paulo. Dizia se chamar Denny e disse que tinha vindo me ajudar. Fugi dela também, e parei no posto de polícia mais perto.
“Isso é tudo o que eu me lembro.”
Desde então, eu fiz boletim de ocorrência de todos os meus documentos, e comecei a fazer uma vida do zero. Primeiro com um emprego qualquer de garçonete, e uma boa bolsa numa faculdade qualquer. Um dia, uma cliente largou um livro: “Mulheres que correm com os Lobos™”. Quando eu fui a procurar para devolver, eu não a vi mais.
Nele relatavam histórias de mulheres que eram comparadas a lobos ao redor de todo o mundo. México, EUA, África, Brasil. Eu comecei a pesquisar sobre o assunto, e escrever sobre coisas que vinham em minha mente. Aos poucos vivi numa república, e um dia me fizeram uma proposta com os produtores do website do livro e ganhei um certo dinheiro, e agora tenho o meu próprio canto. Não tive muito interesse por namorados ou companheiros. Mesmo que eu sempre soubesse que eu era de alguém. Ou melhor, a Sarah que existia antes de mim.
Iria ter um festival de música, a Tomorrowland™, qual sou apaixonada. Comprei minhas passagens, e estava indo para a rodoviária, para ir para Florianópolis pegar um avião para a Bélgica e aproveitar 4 dias do festival. Cheguei na rodoviária e percebi que havia uma velha me seguindo. Uma velha de um jeito muito macabro, que parecia para as pessoas e perguntar se elas haviam visto uma pessoa. Não dei importância. Esperei pacientemente meu lugar na fila e comprei as passagens.
Entreguei os documentos necessários. E paguei em débito, Visa. Ela pediu para esperar, e em seguida saiu da salinha e foi chamar um homem.
A velha continuava gritando ali atrás. Eu me senti nervosa. Peguei um canivete que eu guardava na minha mochila, na verdade era um pouco grande demais para ser um canivete. Eu suava frio e estava a ponto de ter um ataque de nervos.
Um policial que estava me observando segurou a mão por cima da faca.
– Tudo bem? – me dispersou de meus pensamentos.
– Ah sim, estou. É um presente. Acabei de ganhar, estava vendo.
– A senhorita é Sarah Lee?
– Sim, sou eu.
– Por favor, me acompanhe. – e eu o segui
Tive um problema com o meu passaporte e foi até o consulado refazer os documentos. Sentei-me de frente para uma moça numa cabine e ela pediu para eu gravar minhas impressões digitais, após sujar meus dedos numa tinta preta.
– Senhora, já existe uma pessoa com essas impressões digitais. – me disse atendente – Por favor, queira nos acompanhar, seus documentos aparentam ser falsos.
Um policial veio me puxar pelo braço.
– Espera. De quem são estes documentos?
Ela virou o monitor pra mim, e ficamos as duas incrédulas. A garota da imagem era eu, era exatamente eu. Com os cabelos mais curtos e incrivelmente mais nova. Eu havia envelhecido demais.
– Sarah Miller. Nascida em Wilmont, os documentos expiraram em 2011. Aqui consta que está desaparecida, desde maio de 2011.
– Não. Eu dei um depoimento na polícia, eu havia perdido a memória.
– Senhora, perdendo a memória ou não. Você precisa vir conosco.
Eu me esquivei dele.
Sem querer com o braço eu o empurrei e ele voou na parede, quebrando um pouco dela. Outro homem veio a minha frente eu o empurrei de volta, e o mesmo aconteceu, ele voou há uma distância e caiu sobre uma mesa e um computador, quebrando tudo.
Afastei-me, sai correndo, e pulei pela janela. Alguns policiais se moveram para vir atrás de mim. Quando eu saltei, eu me dei conta de que eu estava caindo do terceiro andar, rolei no asfalto e continuei correndo.
Como eu havia feito aquilo? Como eu havia derrubado aquelas pessoas e saltado de tão alto?
Saí do meio da rua, e a velha de repente parou na minha frente.
– Sarah??
Eu tentei a evitar.
– Eu desgracei a sua vida. – disse a velha, e segurava meus ombros – Por favor, me perdoa, me perdoa eu desgracei a sua vida.
Eu a olhei como se fosse louca. Afastei-me ligeiramente.
– Me solte. Isso é um engano.
– Eu vi o que você fez, menina-lobo. – disse ela
Eu dei um passo atrás em direção à rua, mas de repente alguém apareceu, uma figura um pouco baixa, e pele moreno-clara também segurou minha mão. Eu olhei no fundo dos olhos dela, de um amarelo, meio dourado. Num instante menor que um segundo, eu vi os olhos daquela pessoa, como se eu já a conhecesse a tempos. Mas no segundo seguinte, eu estava sendo arremessada longe por um carro que vinha.
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Tudo o que eu vi quando acordei eram luzes brancas e um quarto de hospital. Um hospital particular que a editora me fornecia no contrato, era um local muito bom. Quando terminei de olhar o teto, que perdi alguns segundos
– Eu sou sua irmã, Sarah! – a moça parecia me olhar e ser sincera. – Eu sou Malina Avbrutt, meus pais criaram você, eles eram músicos em Wilmont. Eu encontrei você no meu portão quando você ainda era um bebê.
A minha cabeça não se lembrava de nada daquilo, parecia tão aleatório.
– Seu nome é Sarah Miller, você tem 20 anos.
– Não, meu nome é Sarah Lee.
A moça dos olhos amarelos (foi assim que eu a chamei por um certo tempo) continuou:
– Você tem 20 anos. O seu sangue é A+, você tem medo de alturas, você nasceu em Wilmont, você e um lobisomem, por isso come muito.
– Um lobisomem? – eu ri
Ela tirou as ataduras dos meus braços. Minha pele estava intacta, sem sequer manchas de sangue. Se levantou e pegou uma pequena cruz de prata que estava num crucifixo na janela do quarto. Ela tirou o objeto e arranhou minha pele. Aquilo parecia queimar.
– Você é alérgica a prata e fogo. Você tem uma pelagem rubro, vinho escuro. Não sei como nunca percebeu antes.
– Não. Não pode ser.
Eu me soltei daqueles cabos, me senti estranha.
– Eu só me lembro de correr, e correr e correr. Estar numa floresta de madrugada, era uma selva escura e alguém havia me batido muito. Eu acordei amarrada e. . .
– Eu soltei você. – ela continuou
Sim, era ela, vagamente me lembrei.
– Carine, é esse seu nome, não?
– Sim.
– E o que aconteceu depois?
– Você somente fugiu e saiu correndo. — disse Carine – E eu nunca mais te vi. – me olhou de uma forma triste, com se esperasse resposta por algo.
Carine segurou o choro como se não quisesse se lembrar. Malina pediu licença, mas ela então se sentou do meu lado na cama e começou a chorar. Meu instinto mais básico foi abraçar ela até que ela se acalmasse.
– Eu magoei você antigamente? – ela negou com a cabeça – Me fala, Carine, o que aconteceu?
Ela pegou uma mochila, parecia um pouco antiga e bem suja.
– É sua, pega.
Eu peguei o celular. Haviam várias mensagens com ela, vários “eu te amo” e “sinto sua falta”. Captei a gravidade das coisas. Carine e eu tínhamos tido algo. Ela me contou algumas coisas de que eu não me dava muito com a família dela, principalmente com a irmã dela, Camila. Já era um pouco demais para mim saber que eu era um lobisomem, e que eu era apaixonada por outra mulher. Minha cabeça começou a doer um pouco mais e eu me deitei.
– Desculpa, mas eu acho que eu não quero me lembrar. – e me deitei – Ao menos não agora.
– Eu te entendo.
Dormi, e parecia que eu havia descansado por horas. Quando acordei eu já estava recuperada. Mas quando eu levantei, notei que haviam se passado apenas 4 ou 5 minutos desde o tempo que eu tinha ido dormir
– Está melhor? – Carine me perguntou sorrindo
– Nossa. Eu cochilei por apenas alguns minutos?
– Na verdade você dormiu por quase 1 dia exato. – sorriu
– Coisa de lobisomem. Deve ser – dei uma espreguiçada generosa — E você ainda está aqui? – perguntei
– Coisa de anjo da guarda. – ela sorriu
Me sentei na cama, e me senti melhor, estiquei e senti que todos os meus ossos quebrados estavam de volta ao lugar.
– Obrigada. – eu sorri de volta. – Eu realmente agradeço por você ter ficado esse tempo comigo.
– Eu nem esperei tanto tempo. Eu apenas acelerei o tempo.
– Sério? – eu perguntei dando uma risadinha discreta
– Coisa de anjo da guarda. Eu disse. – sorriu
Aquela mulher velha entrou no quarto de novo.
– Eu sinto muito. Há 3 anos, elas vieram me procurar para que eu pudesse trazer sua memória de volta e fazendo um ritual para que tivesse sua antiga vida de volta.
– Eu me lembro, mas o que aconteceu depois? – perguntou Carine segurando forte a minha mão
– Uma mulher, chamada Runo, me pagou para que quando vocês viessem me procurar, eu fizesse o contrário. Comprometesse sua memória de vez.
Senti o coração de Carine falhar uma batida ou duas.
– E não há mais jeito? – ela perguntou
– Talvez tenha. Há alguém em Wilmont que talvez consiga trazer a memória dela de volta. Mas ela vai precisar tentar com fé.
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Entramos em Wilmont, segundo Malina, em nossa casa. Depois de uma ou duas horas de trem, e uma viagem num dia cinza, chegamos. Wilmont era conhecida por ser uma cidade qual até mesmo o sol tinha medo de entrar sem permissão.Chegamos no prédio dela. Ela abriu a porta e acho que foi para a cozinha fazer um café e depois dando um pretexto de que iria sair para comprar cigarros, saiu de casa. E eu pedi que comprasse alguns para mim também.
Entrei no qual deveria ser meu quarto. Guarda roupa, roupas comuns, um violão de canto, um pequeno aparelho de rádio, um cinzeiro e um livro na cômoda. Carine estava no banheiro lavando o rosto.
– Você está com fome? — perguntei
– Não me sinto bem nessa cidade. Tem muitos espíritos ruins.
Abri a geladeira e havia cervejas, e muita carne. Aquilo apenas aumentou minha fome. Como uma boa anfitriã, eu fiz um chá para ela e pus a mesa, com frutas, pão, frios, eu sabia que ela também deveria estar com fome.
Mas eu voltei e olhei para aquela pilha de carne. Pedi licença. Mas eu comia, como se não tivesse comido por dias, eu fiz uma bagunça, lambia, mordia, se esbaldava naquele mar vermelho em minhas mãos. Me dei conta eu estava toda suja de sangue, e não me importei. Tirei minha jaqueta e minha camisa, e continuei a devorar aquele pedaço de carne imenso. Lavei meu rosto e meu peito na pia. Depois peguei a garrafa de vinho e tomava direto no gargalo, mas parei quando vi que ela me olhava de braços cruzados da porta da sala
– Sah. Eu sei que se você está com fome. – Carine gargalhou
– Agora não estou mais! – eu sorri, com a boca toda suja e ela gargalhou de novo
– Porquinha! – riu
Senti uma vontade imensa de correr. Senti febre, meu corpo quente e de repente eu havia me transformado. Era algo fora de controle, algo que eu só lia nos livros e via nos filmes. Patas enormes e peludas tomavam o meu corpo e eu podia sentir minha cauda, minha orelha. Andei até a sala, onde estava mais fresco.
Ainda assustada com aquilo, eu me deitei no chão, e coloquei o focinho entre as patas. Tudo parecia estar mais cinza, porém cheiros e sons vinte vezes mais apurados me atordoavam. Eu parecia um cachorro gigante e medroso.
Cah se sentou no sofá e começou a me acariciar.
– Eu estava com saudades de você. – ela disse baixinho.
Senti um choro, algo bem baixinho, vindo da rua. Depois um pequeno latido.
Alguns garotos estavam chutando uma caixa e outros dando paulada, com muita força.
Rosnei, fechando o beco, eu rosnei mais para assustá-los do que para matá-los. Rosnei alto demais, e avancei com força contra eles. Dois deles conseguiram quebrar uma janela qualquer e fugir, o outro eu puxei pela calça e o joguei na rua.
Nervosa demais, eu não conseguia voltar à minha forma natural, e então eu fui farejar a caixa. Senti ela se mexer, e capotar sozinha, e assim, saiu um filhotezinho, era um cachorro selvagem demais para ser um cachorro doméstico, e também não era um vira-lata. Era preto com um rajado marrom nas costas.
Eu dei uma lambida naquele filhote, que foi com tanta força que ele subiu ao ar e caiu depois. Me senti culpada, quase o machuquei, mas depois eu sorri, porque foi engraçado. O peguei nos braços assim que voltei, já estava calma o bastante para voltar.
Carine com sua teimosia tirou ele dos meus braços e o escondeu em sua jaqueta para poder fugir da chuva. Subimos ao apartamento e Malina já estava lá.
– Precisamos dar leite para ele. – ela disse
– Mas não tem leite na geladeira.
– Mas ele é um filhote. Filhotes tomam leite. – ela disse abrindo a porta e pondo ele no chão
– Vocês aprontaram muito na rua? – perguntou Malina, tomando um café na janela
– Não. – eu sorri
– Se veste, garota doida. – Malina gargalhou, e eu me lembrei que não estava vestida.
Em seguida tomei um banho decentemente e fiquei feliz por estar em tão boa companhia. Combinamos de que aquela noite Malina iria me levar até onde eu encontrasse a tal senhora que eu poderia recuperar minha memória.
Quando passou de meia noite chegamos até uma taverna quais mercenários, bruxos, caçadores de demônios e pessoas da pior espécie se reuniam. Motoqueiros estavam parados na frente e ouvindo música, fumando e passando mão em garotinhas colegiais.
– Carine, por favor, você fique do lado de fora, que alguns anjos caídos podem se sentir insultados de você estar aqui. – ela disse e Carine aceitou.
Entramos e nos aproximamos do bar.
Uma loira com calça de couro parou na nossa frente no balcão. Ela usava uma regata branca rasgada, que deixava seus seios um pouco mais para fora do que para dentro.
– O que vai querer? – perguntou ela
– Uma garrafa de absinto. – eu pedi
– E isso o que você quer? – perguntou, se aproximando mais
– É isso o que você ouviu! – eu disse, encarando-a sério
– O que você quer de verdade, menina lobo?- ela perguntou com um tom de voz mais persuassivo, servindo a bebida
– Eu quero matar um morcego. – disse para a loira.
– Que espécie de morcego? – ela respondeu
– Runo. – respondi em um tom alto
Homens pararam o jogo de sinuca, e algumas garotas olharam e comentando por nós.
– Você não era a garota que andava com ela.
– Sim, e aquela vadia vai me fazer pagar. – eu disse
Malina me olhou num sinal de “menos, Sarah, menos”.
– Vou procurar uma rede para o seu morcego.- a loira piscou e escreveu algo num guardanapo.
Ela empurrou o guardanapo para o segurança que ficava próximo ao banheiro. Ele pegou o papel e subiu em busca de alguém. A taverna era nojenta. Pedimos absinto, que era um costume de quem morasse em Wilmont, mas eu entreguei falando o nome de Runo alto demais. Ela nos mandou subir, e eu rapidamente espiei uma garota com uma guitarra nas costas puxar assunto com ela, e então me senti menos desconfortável.Era um moreno, um pouco mais escuro do que eu, cabelos curtos e com uma camisa preta social, com o paletó. Na parede dele tinham armas estendidas, flechas, quadros e certificados.
– Olá Sarinha! – ele sorriu – Quanto tempo! Veio pedir um emprego? – me perguntou
– Luan? – Carine perguntou quando subiu as escadas
– Não. Sou Leon Keller. Irmão mais velho dele.
– Ah, eu sinto muito pelo que aconteceu com ele.
– Você não foi muito justa com meu irmão. – ele comentou me olhando nos olhos – Ele morreu por você, sabia?
– Eu fiquei alguns dias dentro da floresta do esquecimento. – respondi
– Oh. Me desculpe. – e me estendeu a mão – Já sabe o que houve?
– Elas estão tentando me contar.
– Vocês eram muito. Hm. Próximos. E se ele morreu para te proteger, ele morreu feliz.
– Não adiantou muito. – disse Carine com um tom mais sério na voz – Runo conseguiu virar com carro, matá-lo e em seguida machucou muito à Sarah. Nós encontramos ela quase morta, amarrada numa árvore sabe Deus o por quê ela faria isso.
– Carine, né? – ele perguntou com os olhos meio fechados
– Sim.
– Sabia que você tem o cheiro da pessoa que a Runo mais quer encontrar? – ele perguntou e Malina se assustou.
Enquanto isso ele dava passos em direção a Carine olhando friamente nos olhos dela.
– Sabia que se ela vier aqui e sentir o seu rastro, ela pode me matar?
– Leon, e nós viemos aqui justamente para te contratar para isso. – Malina respondeu
Ele gargalhou.
– Isso é uma piada, não é?
– Nunca disse algo tão sério antes. — respondi
– Okay. E por que eu deveria trabalhar pra vocês?
– Eu posso pagar. – eu disse
– Sinto muito, mas eu abandonei essa carreira.
– Trabalho com Elizabeth Harper. – Respondeu Malina
Leon arregalou os olhos na hora.
– Sentem-se por favor. – ele pediu para sentarmos num jogo de sofás próximo a uma mesa ali – por favor, sentem-se. Desculpa por ser tão grosso com vocês.
– Ok.
Leon pegou um bloquinho, e uma caneta. Malina afastou sua mão delicadamente.
– Não faz cena, Leonardinho. Isso não combina com você. – ela debochou
– Leonardinho? – Carine gargalhou e isso o irritou
– No colégio. Você, Luan e os outros rapazes judiavam dele. Ele era triste, vocês o trancavam no armário, o chamavam de chorão e até chegaram a jogá-lo no lago de Wilmont.
Engoli seco.
– Eu sinto muito.
– Tudo bem. – ele respondeu pondo o bloco na mesa.
Ele deu um sorriso debochadinho.
– Mas eu somente um favor para pagar um preço tão caro. – respondeu e encostou a mão no queixo de Carine sacudindo de leve – De você, meu anjinho.
Ela ficou parada e a mão dele queimou.
– Aw! – ele grunhiu
Eu lhe dei um meio sorriso de canto, Carine o fez queimar de propósito.
– O que você quer?
– Tem um amigo meu. Que é caçador, ao que sabemos, a namorada dele foi morta por um demônio, só peço que nos ajude a encontrar.
Os planos com Leon não demoraram mais que 40 minutos. Foi bem claro como conseguiríamos achar essa tal alma e não nego que talvez eu já a conhecesse por pesquisar sobre lobos anteriormente. Era uma história triste, que o tempo ira lhes contar mais tarde. Encerramos a lenda e a parte sentimental, e coletamos pistas o suficiente para poder continuar.
Poucos minutos depois, estávamos do outro lado da rua, entrando em um táxi.
– Você realmente trabalha com Elizabeth Harper? – pergunteis
– Seria muito mais fácil se eu conseguisse uma hora com o próprio Lúcifer. – Malina respondeu tragando o cigarro, no banco da frente do táxi
– Então você mentiu?
– Não, só estamos pondo as peças no tabuleiro, meu amor.
Chegamos num prédio antigo de Wilmont, numa rua famosa. Entramos e no corredor havia um brutamontes careca e com tatuagens no rosto.
– Vocês não podem entrar. – ele disse empurrando Malina com força
Eu o segurei pelo pescoço e rosnei, fazendo muito barulho.
– Hey, calma, calma. – ele levantou as mãos na altura dos ombros — Quem são vocês?
– Convidadas especiais. – disse Malina – Viemos falar com Elizabeth.
– Tem hora marcada?
– Pelo que temos que conversar não precisamos. – eu disse e então subimos as escadas
Chegamos ao consultório dela.
– E quem vocês pensam que são? – perguntou Elizabeth
– Nos trabalhamos com o Leon Keller.
Ela ficou boa na hora. Foi completamente gentil e tinha um olhar ambicioso e suculento para cima de nós.
– Aquele garoto. Eu o conheço, sim eu sei. E se ele realmente está trabalhando com vocês, eu também o farei.
– Não. Nós somos o negócio número 1 dele. E ele vai caçar Runo.
– Ele realmente é muito corajoso.
– Olha não viemos aqui para conversar. E se a senhora não quiser fazer, nós vamos embora. – disse Malina.
– Não, claro. Eu conseguirei recuperar a memória dela.
– Por quanto? – Malina perguntou seca
– Tenho uma dívida maior que isso. Vi que a amiga de Guinevere trouxe um lobisomem e um anjo em minha casa. E como eu sou uma boa pessoa, quero contratá-los com seus serviços.
– Por que não dinheiro? – eu perguntei
– Vocês farão os trabalhos por mim. Se vocês fizerem, eu aumento o meu número de trabalhos realizados e é claro a minha fama também.
– E se nós falharmos?
– E se não sobreviverem, os trabalhos serão ainda mais falados, como aqueles que nunca saíram vivos de lá, ou seja mais difíceis. E assim também aumenta a minha fama.
– Você é inteligente, Elizabeth. – Malina respondeu – Quantos trabalhos?
– Três.
– Mas estamos pedindo apenas um favor. – Malina respondeu
– Dou lhe uma. – a velha sorriu
Silêncio.
– Dou lhe duas. – ela olhou nos meus olhos – Agora são cinco!
– Eu faço. – respondi.
– Boa garota. Agora me deixe falar com sua irmã a sós.
Elizabeth me deu um caderno pequeno de capa de couro, amarelado e com folhas e jornais abarrotados em “anexo”. Examinei o objeto e esperei Malina me olhar.
– Vá para casa, Sarah. – Malina disse
Eu não discuti a ordem. Dei um olhar à Carine e ela veio segurar minha mão e descemos.
Cheguei em nossa casa, não sabia o que eu faria pra ela. Eu tomei um banho e fiz um sanduíche light, ela pareceu gostar e depois foi tomar o banho dela. Conversamos baixinho e ouvimos música na varanda.
– Olha isso.
Haviam várias coisas escritas. Coisas que eu imaginei que só existiriam em livros e filmes de ficção. Haviam succubus e Incubus, vampiros históricos, almas assassinas e espíritos atormentados, demônios mercadores, anjos revoltados, lobisomens e o que mais poderia se imaginar.
– Ela deixou separado o deveríamos fazer. – Carine disse.
Eu estava pensando que eu poderia estar a caminho da Bélgica, vivendo uma vida normal, mas não. Ali estava eu, um lobisomem, com um anjo da guarda, esperando uma vampira chegar. Céus, isso era absurdo demais e parecia um pesadelo. Acordei de meus pensamentos quando ouvi Malina e Denny chegarem. Fingimos nos esconder para ouvir a conversa.
– Tem uma grande guerra acontecendo, Malina. – disse Denny se sentando no sofá
– Que tipo de guerra?
– Alguns anjos no céu estão se recusando a fazer seus trabalhos corretamente, porque existem coisas erradas demais. Humanos demais vendendo a alma aos demônios, fazendo trabalhos e pactos.
– Isso sempre houve. E qual o problema deles?
– Uma pessoa não pode sequer saber que tem anjo da guarda, mas os demônios conversam, transam, compram e vendem com eles. Isso não é justo.
– E o que faremos? – perguntou Malina
– Primeiro temos que descobrir como resolver os problemas mais básicos. Vamos ajudar Sarah se bem que eu não acredite que ela sobreviva a Runo. Se eu fosse você mandaria ela embora o quanto antes.
– Eu vou estar aqui quando ela precisar. – Malina respondeu – E tenho que ir ajudá-la.
Elas continuaram conversando até Malina ir deitar. Carine sumiu no instante seguinte.
Eu me deitei também, mas estava quente demais. Era febril demais, os panos negros do quarto, as cortinas de tom médio e os móveis antigos, tudo me fazia ser como meu lar. Era frio, mas ao mesmo tempo era meu, era ali aonde Malina havia me criado, era ali aonde passava a maior parte do tempo. Tomei um banho suave. O dia tinha sido exausto. E então resolvi dormir e descansar.
Acordei com batidas na porta. Carine abriu de leve.
– Desculpa eu sempre estou observando se você dorme bem.
– Vem. – eu dei dois tapas na cama – Deita aqui.
Ela deitou no travesseiro do lado, por baixo da colcha e virou para o seu lado da cabeceira. E então o pequeno anjo dormiu do meu lado com uma paz no rosto que ninguém mais poderia tirar. Eu a desconhecia. Mas precisava dela.
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