Misery
1 Quem foi que disse que mudanças são fáceis?
Notas iniciais
Respirei fundo antes de estacionar o carro e dirigir-me vagarosamente à porta da frente. A casa era realmente linda, apesar de um pouco mal-cuidada. Apanhei as chaves no bolso e procurei a que se encaixava na fechadura da entrada. “Por que tantas chaves?” Pensava comigo mesmo até que achei a correta. Encaixei-a na fechadura, girei a maçaneta e adentrei a casa – com o pé direito, pra dar sorte – vagarosamente.
– Enfim, lar doce lar. – Disse alto, para mim mesmo. Mudei-me procurando paz, não aguentava a barulheira de Nova York. Não se pode escrever num lugar onde ninguém dorme e nem te deixam dormir... Por isso vim para a fria cidade de International Falls, em Minnesota. O frio é constante e neva praticamente o ano inteiro, o que me dá uma bela desculpa para não sair de casa.
Dirigi-me ao carro estacionado na frente da casa, acenei para um vizinho curioso que me espionava e comecei a tirar algumas caixas do porta-malas. Mal deixei-as no hall de entrada e escutei a buzina estridente do caminhão de mudanças.
...
Quando chegou o fim da tarde, todos os móveis estavam mal arrumados cada um em seu devido lugar e as caixas estavam empilhadas precariamente na sala de estar. Despedi-me dos carregadores, dei-lhes uma gorjeta e subi para o cômodo onde seria meu quarto. Observei-o por um tempo, procurando as melhores posições para meus móveis. Logo desisti, não era mesmo bom com isso. Curioso, explorei os outros cômodos. Já tinha visitado a casa, mas não mobiliada. Depois de olhar praticamente tudo, vi que já estava ficando tarde. Subi, acendi a luz do corredor que dava acesso aos quartos e ao banheiro no andar de cima e percebi o único quarto que eu nunca tinha visitado: o sótão.
Puxei a cordinha que abria a portinha de entrada. Uma escada deslizou, dando-me passagem. Subi e fiquei parado por um tempo, observando. Havia muitas caixas empilhadas, móveis velhos, fotos, livros... Tateei no escuro até encontrar um interruptor. Depois que acendi a luz trêmula do cômodo, vi um ou dois ratinhos correrem, assustados com a repentina claridade. Andejei, passando a mão nas caixas e nos livros que encontrava em meu caminho. Um baú de madeira pequeno e simples, escondido atrás de uma estante de livros didáticos chamou minha atenção. Era trancado por um cadeado enferrujado. Levei o baú pro quarto, sem saber realmente o motivo. Deixei-o em cima da cama e desci pra tomar um banho.
...
Depois do banho fui até a cozinha, abri a geladeira e só então me lembrei que não tinha comprado comida ainda. Peguei as chaves do carro, desci a escada de madeira que rangia levemente e segui até o veículo. Dirigi até o mercado mais próximo. Após estacionar, entrei no estabelecimento e segui até a melhor seção: guloseimas.
Após encher o carrinho com besteiras e colocar alguns outros itens essenciais, dirigi-me ao caixa. A atendente me olhou dos pés á cabeça enquanto passava meus produtos. Por fim, disse:
– Não sabia que o novo morador era tão jovem. – Sorriu-me de modo simpático.
– Ah, é... Nem tanto. – Sorri de volta, constrangido.
– Claro que é. Quantos anos tem? 19, 20?
– 21.
– E qual o seu nome, se me permite saber?
– Chamo-me William. William Johnson. E você, Srta. Curiosidade, como se chama?
– Haha, desculpe-me se fiz perguntas demais. Sou Eloise Cullen. E tenho também 21 anos. – Ela sorriu novamente – Seu total é de $79,85.
Tirei da carteira o cartão de crédito recém adquirido e entreguei à moça. Peguei minhas coisas já empacotadas e antes de ir embora, virei-me e respondi, de modo simpático:
– Prazer em conhecê-la, Srta. Cullen.
...
Chegando em casa, depositei cada alimento na sua seção da cozinha e peguei um pacote de bolinhas de queijo. Segui para o sofá, cansado, e joguei-me nele. Comi metade do pacote enquanto observava a bagunça ao redor e decidia o que fazer com cada coisa. Acabei pegando no sono.
...
Acordei no outro dia, dolorido por ter dormido de mau jeito no sofá desconfortável. Levantei-me preguiçosamente, segui até o banheiro que tinha no andar de baixo e olhei meu rosto no espelho: estava amassado e parecia cansado. Não me importava. Voltei à sala para desempacotar as coisas. Antes de sair, minha amiga, Annie, tinha me ajudado a organizar tudo, escrevendo em cada caixa qual era o conteúdo e o cômodo a que pertencia. Isso facilitou muito e não demorou pra que cada caixa estivesse no lugar correto.
– Aaah – Arfei. – Agora é só desempacotar tudo. Não sei nada sobre decoração. Nessas horas é que precisaria de An.
Mal terminei a frase e ouvi batidas na porta. Olhei para o relógio no pulso e marcava exatamente 10 da manhã. Quem poderia ser? Algum vizinho pra me dar boas-vindas? Duvido muito. Desci as escadas e parei em frente á porta no hall. Olhei pelo olho mágico. Quando vi quem era, mal pude acreditar. Abri a porta rapidamente.
– Annie! O que faz aqui? – Disse, abraçando-a com força.
– Eu não disse que ia pro Alasca? Passei aqui pra ver como andava a mudança! – Ela retribuiu o abraço.
Entramos na casa e a primeira coisa que ela olhou foi a mesinha de canto vazia perto da escada.
– O que vai colocar ali?
– Não faço ideia.
– Pois eu sei muito bem. Sabe aquele vaso que compramos em Chinatown? Então, coloque ele ali. Com plantas dentro, lógico. Compre alguns narcisos. – Ela andou até a sala. – AH MEU DEUS, O QUE HOUVE COM SUA SALA? E o sofá branco? Não me diga que você VENDEU o sofá branco? Ele era perfeito! Combinava com tudo, Will! – Abri a boca pra me defender, ela me interrompeu. – Quero ele, AGORA.
“Isso que dá ter uma melhor amiga formada em design de interiores.” Pensei.
– Ei, An, não se preocupe com a decoração. Eu cuido disso depois.
– Mas Will, você não entende de decoração.
– Eu não preciso entender, faço do jeito que achar melhor e você não vai estar aqui para aprovar ou desaprovar. – Ela sorriu melancolicamente e me abraçou de novo.
– Vou sentir saudades dessa sua teimosia. Não posso demorar, então me conta tudo.
– Contar o quê? Não tem nem 24 horas que estou aqui.
– Mas já foi ao supermercado, pelo visto. – Disse ela, apanhando o saco de bolinhas de queijo inacabado do chão. – Como foi? E os vizinhos? Te deram boas-vindas?
– Foi bem... Normal. Acho que conheci uma menina, ela parece ser legal. Acho que é minha vizinha, já que sabia onde eu morava. E ninguém veio aqui ainda, mas gosto disso.
Annie recebeu uma ligação repentina. Apanhou o telefone na bolsa e saiu correndo. No hall de entrada, parou na porta, me olhou e soltou um murmúrio quase inaudível. Descobri o que ela disse fazendo leitura labial. Era algo como “Te mando mensagem depois, desculpa, preciso ir.” E ela foi. Saiu apressada, deixando a porta aberta. Fechei a porta com cuidado e realmente não estranhei a atitude dela. Desde que começou a trabalhar numa revista famosa, não parava de receber esse tipo de ligação e sempre saía correndo... Ao que tudo indica, o chefe dela não gosta muito de esperar.
Comecei a arrumação pela sala: um sofá preto de couro no meio, por cima de um tapete felpudo de cor caramelo. Uma mesinha de centro de mogno e uma estante do mesmo material. A estante repleta de livros, dos mais diversos autores. Uma televisão razoavelmente grande no centro, um reprodutor de vídeo, um aparelho de som, vários CDs e alguns filmes. Tinha acabado de me formar em Artes na NYU, por isso a casa estava repleta de esculturas, desenhos e pinturas espalhadas.
Tinha até um vaso de cerâmica que eu fiz no primeiro ano do primário. Coloquei-o em uma prateleira da estante, rindo de mim mesmo. O vaso era ridículo, mas me trazia boas lembranças. Depois de terminada a sala, subi para o quarto onde seria meu escritório. Organizei tudo rapidamente, já que só tinha uma escrivaninha com uma cadeira confortável, alguns livros e meu laptop. O quarto era grande demais pra ter apenas aquilo, mas não liguei. Mais tarde, talvez, quando voltasse a pintar, desenhar e esculpir, colocaria algo mais. Por enquanto, só precisa do que tinha ali.
Segui para o quarto onde dormiria e notei que o papel de parede descascava em certo ponto. Puxei um pouco mais, revelando um papel de parede rosa. Seria uma menina a antiga dona do quarto? Não que isso fosse importante. Não naquele momento.
A pior parte na hora de arrumar o quarto foi o armário. Foi chato colocar todas as roupas e todos os sapatos. Dobrar tudo, desdobrar, trocar de gaveta... Colocar lençóis na cama tampouco foi divertido. Quando acabei, deitei na cama, exausto. Lembrei-me que ainda tinha a cozinha desorganizada. Levantei com preguiça e praticamente me arrastei até lá, quase caindo de cara no chão em alguns momentos. Tentei ser rápido, mas os talheres e os pratos não facilitaram.
Ouvi batidas apressadas na porta e fui ver o que era dessa vez. Ao abrir, não vi ninguém, apenas uma torta caseira (com um cheiro muito bom) no tapete da entrada. Tinha um bilhete em cima que dizia:
“Teria vindo mais cedo, mas vi uma garota ruiva na porta e não quis atrapalhar vocês. Pareciam não se ver a bastante tempo. Depois tive que ajudar minha avó com algumas coisas na cozinha e acabei assando essa torta pra você. É de maçã. Espero que goste. Aliás, bem-vindo à vizinhança. Te entregaria a torta pessoalmente, mas estou atrasada para o trabalho. Se quiser conversar, é só chamar na casa diretamente à frente. Saio do trabalho às 21h.
Com carinho,
Eloise”
Deixei o bilhete na mesa de canto e levei a torta para a cozinha. Guardei-a no forno, sem fome, e subi direto pro banheiro. Precisava de um banho, urgentemente. “Depois do banho eu arrumo o que falta.” Entrei na banheira e acabei cochilando, sabe-se lá por quanto tempo.
...
Terminei de organizar as coisas, cada uma em seu lugar. Subi pro quarto e me joguei na cama, já de pijamas. Observei o baú em cima da escrivaninha por um tempo, cogitando a possibilidade de abri-lo. Seria invasão de privacidade? E se os donos viessem buscar? Não resisti. Morrendo de curiosidade, corri até o sótão onde peguei uma marreta. Voltei para o quarto e sentei-me na cama colocando-o na minha frente. Bati no cadeado enferrujado até ele se partir. Abri o recipiente e observei seu conteúdo.
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