Misery
3 Alucinações
Notas iniciais
Entrei em desespero. Como algo pode simplesmente sumir? Haveria alguém dentro da casa? A janela estava fechada, trancada por dentro, seria impossível alguém ter entrado por ali e... Será que dormi com a porta aberta? Corri até o hall de entrada e verifiquei a fechadura. Estava trancada. O que teria acontecido naquele quarto? Quem pegou a caixinha de música? Destranquei a porta e saí de casa para procurar alguém correndo pelas ruas, mas... Não havia ninguém. Corri pela direita até o final da rua. Estava muito frio, o que já dificultava para que alguém saísse de casa e ainda era a hora do almoço, então a rua estava duas vezes mais deserta e silenciosa. Corri de volta para casa e tentei ir pela esquerda, mas já não tinha fôlego. Voltei todo o caminho que percorri e me sentei na calçada, cabisbaixo, com as mãos cobrindo o rosto.
Fiquei ali por algum tempo e, quando finalmente me levantei a rua continuava vazia, exceto por uma pessoa: Eloise, que estava saindo de sua própria casa com o uniforme de trabalho. "Deve ter acabado seu horário de almoço e ela está voltando para o trabalho." Pensei. Ela me avistou e ficou parada me olhando por um tempo, como se decidisse se deve ou não vir conversar comigo. Por fim, suspirou e atravessou a rua, vindo em minha direção.
– Me desculpe por ontem... Eu precisava mesmo descansar, então posso ter sido um pouco rude. Também fiquei preocupada quando me perguntou da família... A corretora nos disse que você não quis saber da família que morou aqui anteriormente. Mas sobre isso... Sim, eu os conheci. Aliás, eu era a melhor amiga da garota que morava aí. Você disse que achou um baú?
Meu rosto estava pálido, pingando suor, mas a respiração estava fraca. Ainda desesperado, mas agora contendo-me ao máximo para não o parecer, olhei de um lado para o outro da rua, ignorando-a sem intenção, ainda procurando algum vestígio do invasor.
– Você está bem?
– Não! Alguém invadiu minha casa!
– O quê? Não! Não existe esse tipo de coisa aqui... – Ela observava meu rosto, sua própria expressão com um tom de dúvida.
– Estou te dizendo! – Fitei-a, com uma expressão zangada. Como ela podia duvidar de mim?
– O que levaram? – Ela me olhou de volta, agora com preocupação.
– Uma caixinha de música...
– Quem iria querer algo assim? Com certeza você perdeu por aí...
– Não! Eu ouvi um barulho, subi correndo e quando cheguei tudo estava espalhado no quarto e a caixa sumiu!
– Você procurou?
– Sim... Eu olhei no baú que tinha deixado.
– Tinha algo mais no baú?
– Um livro, uma pelúcia e uma flor.
– Levaram algo mais?
– Não, tudo estava lá, menos a caixinha
– Estava tudo no baú? Você disse que estava tudo espalhado...
– Não, eu disse que tudo que estava no baú estava no quarto. Não no baú, mas jogados pelo quarto.
– Você deve ter deixado assim.
– Eu posso não ser a pessoa mais organizada do mundo, mas não deixaria meu quarto naquele estado e...
– Então vamos procurar. – Ela me interrompeu. Pegou-me pelo braço e me arrastou para dentro de minha própria casa. Subiu as escadas e então olhou para mim – Onde é seu quarto?
Apontei o quarto no fim do corredor. Andamos até lá. Ao chegarmos, as coisas estavam todas no lugar novamente. Abri o baú e encontrei ali a flor, o diário, o ursinho e até a caixinha.
– Viu? Está tudo aqui. – Ela olhou dentro do baú, com curiosidade.
– M-mas... Não estava assim antes! Eu não menti. – Gaguejei.
– Pode ter alucinado... Tem bebido muito café? Tem dormido mal?
– Eu... Não. Nada disso. Eu sei o que vi.
– Tudo bem... – Ela olhou mais uma vez o baú e retirou o ursinho de pelúcia. O sorriso gentil que estava em seu rosto desapareceu quase instantaneamente. – Foram essas as coisas que achou?
– Sim. – Respondi, seco. Estava extremamente incomodado com o tom de dúvida que ouvi antes e agora com essa suposição de que eu estava alucinando.
Ela pegou o baú e se sentou na cama, retirando tudo de dentro. Observou o diário por alguns segundos. – Eu me lembro... Era o diário dela. Ela não largava isso. – Sorriu e percebi uma lágrima escorregar por sua bochecha. Pegou o ursinho. – E isso... Ela também não o largava. Foi um presente do pai. – Ela pegou a caixinha de música, mas não parecia conhecer aquele objeto. – Eu não me lembro disso... Posso abrir?
– Bem... Sim, já que a conhece, acho que ela não se importaria.
Ela retirou o colar do pescoço do urso e enfiou a chave na pequena fechadura. No momento em que ela ia girar a chave, uma forte ventania começou. A janela, fechada, se abriu e começou a bater. A porta também. Nos assustamos e ela acabou deixando a caixinha cair. Corri até a janela e a fechei, fechando também a cortina. Fitei-a, surpreso.
– Uau... O que foi isso?
– É uma nevasca!
– Uma nevasca? Mas estamos no final do inverno!
– Ainda é inverno. – Ela abaixou-se, procurando a caixinha de música, que estava embaixo da cama. Apanhou-a e guardou-a no baú novamente, com os outros pertences. – Então... Por que queria que eu visse isso?
– Para que talvez pudesse devolver a ela.
– Devolver? – Ela riu, tentando enxugar algumas lágrimas insistentes que rolavam por suas bochechas. – Bem que eu queria.
– E por que não pode?
– Ela já não está mais aqui para que eu possa devolver.
– Faça uma visita ou algo assim. Se eram melhores amigas, ela com certeza te receberá.
– Você não entendeu...
– Vocês brigaram ou algo assim?
– Por que diz isso? Leu o diário? – Ela perguntou, parecendo assustada.
– Não... Digo isso porque se for esse o caso, podem fazer as pazes...
– Fazer as pazes? Você só pode estar brincando...
– A briga foi tão ruim assim?
– Will...
– Eu só não quero ser responsável por privar alguém de suas lembranças.
– Não posso fazer as pazes com ela.
– Por quê?
– Porque ela está morta.
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