Misery
4 Despedidas
Notas iniciais
“Porque ela está morta.” Meu rosto estampava surpresa, enquanto as palavras de Eloise ecoavam na minha cabeça. Ela poderia ter dito isso com uma pitada de eufemismo, para que eu não me sentisse tão atingido. Fitei a vizinha por alguns segundos antes de poder dizer algo.
– Morta? Como isso ocorreu?
– Ela... – Ela parou e me observou por um instante antes de continuar – Ela cometeu suicídio. Não sei se deveria te dizer isso, mas agora eu já disse.
– Por quê? O que aconteceu com ela? – Perguntei, sem conseguir conter o choque que ainda expressava na face.
– Eu não sei, tá? Eu não sei o que aconteceu. – Ela suspirou – Eu só cheguei um dia da escola e encontrei policiais e paramédicos em frente à casa. Fui até a mãe dela, que chorava na porta e perguntei o que havia acontecido e foi aí que... – Eloise fez uma pausa, respirou fundo e só então continuou – Eu vi ela. Não ela, mas um saco preto cobrindo o corpo dela. Mesmo não vendo o rosto, eu sabia que era a Kate. Eu senti isso.
– Kate? Era assim que se chamava?
– O nome dela era Catheryn. Ela tinha vários apelidos. – Sorriu, entre lágrimas, aparentemente recordando bons momentos com a amiga – O namorado dela eu a chamávamos de Kate, a mãe a chamava de Cat e o pai dela, de Kitty. Cada um tinha um apelido carinhoso pra ela.
– Entendo. E... Vocês não sabem o motivo pelo qual ela cometeu suicídio? – Perguntei, atraído pela história.
– Não. Ela não deixou cartas. Mas pode ser que esteja escrito... No diário. – Ela apontou para o baú.
– Vocês não leram o diário depois que ela morreu?
– Não. Ninguém sabia onde estava. A mãe dela procurou pelas coisas dela pela casa toda, mas ninguém nunca achou. Onde você achou isso?
– No sótão.
– E o que vai fazer com essas coisas?
– Devolver à mãe dela.
– Não! Você não pode! – Ela se exaltou.
– E por que não? – Indaguei, em tom curioso.
– Digo, a mãe dela já sofreu muito. E agora que finalmente aceitou a morte da filha, você aparece com um baú com as coisas dela? Não parece certo.
– Então o que devo fazer com isso?
– Dê para mim. Eu lerei o diário. Eu descobrirei a causa da morte da minha amiga.
– Não acho que seja um problema. Pode levar, então.
Ela se aproximou do baú com as mãos estendidas, na intenção de pegá-lo e levá-lo para casa. Antes que pudesse tocar o objeto, seu celular tocou e ela atendeu.
– O quê? Ah, sei. Desculpe-me, senhor. Houve um imprevisto e eu realmente me atrasei. Não vai acontecer novamente. Desculpe-me. – Ela desligou o telefone, onde aparentemente falava com seu chefe. Arrumou o casaco e foi se dirigindo à saída. – Desculpa, William. Eu tenho que ir agora.
– E o baú? – Pergunto, descendo as escadas atrás dela.
– Eu busco assim que chegar do trabalho. Ok?
– Ok, então. – Dei de ombros. Espiei a rua lá fora, preocupado que a nevasca ainda persistisse e que ela pudesse se acidentar no caminho, mas não havia indícios de tempestade alguma. Esperei que ela desaparecesse na rua antes de fechar a porta.
Voltei ao meu quarto no andar de cima. Sentei na cama e observei o baú por um tempo. “Devo ler mais uma página do diário e procurar alguma pista?”. Um perfume adocicado invadiu o ambiente e, como se estivesse sob a influência de uma espécie de feitiço, apanhei o diário sem pensar mais. Abri nas últimas páginas escritas.
“Querido diário e único amigo,
Esta é, com sorte, a última vez que escrevo aqui. Não suporto mais ir à escola ou ver qualquer colega em qualquer lugar. Ainda não entendo o que fiz para que me odeiem tanto. Ise, que achei que estaria ao meu lado nesses momentos, ri de mim junto aos outros. Aliás, esconderei as coisas que mais prezo muito bem escondidas para que ela não as encontre. Não quero que ela leia meu diário. Jamais. Se alguém encontrar isso e pensar em entregar à ela, não o faça. Ela não merece saber o quanto sofri e senti falta dela enquanto ela fazia piadas e ria de mim junto ao Adam. Agora escreverei minhas palavras de despedida àqueles que amo.
Primeiramente, mamãe, me desculpe. Me desculpe por todas as vezes nas quais você teve que me levar ao hospital de madrugada, teve que faltar o trabalho para me vigiar, teve que dar notícias ruins ao papai. Por todas as horas que passou chorando de medo, preocupação e decepção por ter uma filha tão idiota. Por todas as coisas que eu quebrei, por todas as vezes em que eu gritei, por todas as vezes em que não te ouvi. Me desculpe por tudo. E me desculpe por te deixar sozinha, mamãe. Eu amo você e sempre a amarei. E sei que sempre me amará, mesmo que eu não esteja mais aqui. Sei que sempre estarei em suas melhores – e nas piores também – memórias. E você nas minhas.
Ao meu pai, queria agradecer por ter cuidado de nós por tanto tempo. Por ter acalmado a mamãe enquanto ela chorava por horas no hospital, por ter se preocupado mesmo de longe, por ter nos auxiliado por tanto tempo, por me ajudar a sobreviver até o limite. Obrigada, papai, por me dar coragem para seguir em frente várias e várias vezes, por ter confiado em mim quando nem eu mesma confiava e por todos os feriados incríveis que passamos juntos. Nunca me esquecerei daquela semana na Califórnia. Foi o melhor verão da minha vida. Eu amo você e sempre o amarei. E sei que sempre me amará, mesmo que eu não esteja mais aqui. Sei que sempre estarei em seus sonhos – e pesadelos. Você sempre esteve nos meus.
Vovó! Encontrarei a senhora. Finalmente, estou mais próxima de rever uma pessoa que, ao mesmo tempo, era uma segunda mãe e uma irmã. As memórias mais divertidas que tenho são com a senhora. Senti muito sua falta desde que se foi e me culpei por muito tempo pela sua morte. Mas agora, pelo menos poderei pedir desculpas pessoalmente. Serei breve na sua despedida pois sei que a verei em daqui a pouco. Eu amo você e sempre a amarei. E sei que sempre me amará, pois estaremos mais uma vez reunidas. Teremos a eternidade juntas.
Eloise. É, a pequena que eu conheço desde que nasci. Apesar de tudo que tem me feito atualmente e apesar de eu não querer que você leia esse diário, expressarei como me sinto em relação a você. É, eu ainda sinto. Eu amo você, Ise. Somos amigas há tanto tempo que não tem como não te perdoar por qualquer coisa que me faça. E você me fez. Eu sofri, muito. Mas... Eu não te culpo. E devo admitir que o motivo pelo qual não quero que leia esse caderno é para não se sentir culpada, porque eu sei que vai. Quando encontrarem meu corpo inerte, você vai se culpar. Eu te conheço, Ise. Mas não é culpa sua. A culpa é e sempre foi inteiramente minha. Por isso, não se culpe. Não sinta minha falta. Não visite meu túmulo. Viva sua vida, como queria viver quando decidiu abandonar sua melhor amiga fracassada. Me esquece, Ise, e seja feliz. Eu amo você, apesar de tudo. E sempre a amarei. A observarei de onde quer que eu esteja e torcerei por você.
E essas são as pessoas mais importantes pra mim. Mesmo que elas não leiam isso, precisava tirar o peso dessas palavras do meu coração para que eu possa partir sem arrependimentos. Queria agradecer à você, também, fiel amigo, que me viu superar e não superar tudo e nada. Que me ouviu por todo esse tempo. Você, amigo silencioso, é o único que ficou ao meu lado não importasse o quê e eu sou grata por isso.
Com carinho,
Kitty.
16/03/2013.”
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