Mirrors
27 Where Are You Now?
A luz da manhã ultrapassava as cortinas claras do quarto de Joe acompanhada da risada das crianças da vizinhança que brincavam do lado de fora. Foi a primeira noite de sono que teve depois dele ter ido embora, e finalmente as coisas pareciam estar em seu devido lugar. Emily estava novamente voltando a ser quem sempre foi: ela.
Ela sem ele. Mas isso ainda não mudava a saudade que sentia de Ian. Respirou fundo se enrolando nos lençóis e indo em direção ao banheiro do amigo, onde tomou um banho relaxante e colocou uma das camisetas que encontrou no armário depois de ver que a sua era impossível ser usada novamente. Pelo menos não enquanto não for bem lavada.
Tomou uma aspirina que encontrou em uma das gavetas do criado mudo e organizou a cama deixando ela exatamente como estava quando se deitou nela. Sua cabeça latejava, mas não se importava. Apesar da bebedeira, se lembrava de cada detalhe do que ocorreu noite passada, inclusive das suas intenções com o primeiro e único amigo que tinha em Chicago, além de sua prima, claro.
E sinceramente, não se arrependeria. Talvez sentisse uma pontada de raiva de si mesma pela maneira idiota que encontrou de tirar aquilo que mais estava grudado em sua cabeça. Mas ainda assim, não se arrependeria.
Depois de organizar basicamente toda a bagunça do quarto, saiu em direção a cozinha, dando de cara com Joe fazendo um belo café – sua única especiaria. Na verdade, todo mundo odiava o café dele porque era forte e sem açúcar, mas era o favorito de Emily. Era impossível não gostar. Ela se senta no balcão e ele apenas sorri ao vê-la ali, de pé, sem reclamar dos prováveis sintomas de sua ressaca.
— Bom dia. – Murmurou ela enquanto balançava seus pés suspensos no ar.
— Bom... Está com minha camiseta? – Perguntou ao lhe estender um copo cheio de café, que a morena aceitou de bom grado, bebericando em grandes goles.
— A minha está suja. Mas, prometo te devolver essa depois. Nem vai sentir falta, tem várias outras iguais a essa... – Comentou dando de ombros.
— Desculpe se não sou rico igual a uma certa garota que ficou bêbada ontem e provavelmente não se lembra de absolutamente nada! – Ironizou jogando uma pergunta de modo indireto, que não queria calar em seu inconsciente. Emily o olhou de maneira descrente, mas acabou rindo ao notar a expressão de dúvida que surgia em seu rosto.
— Eu me lembro de absolutamente tudo. Cada detalhe... – Ousou encará-lo arqueando a sobrancelha. – E cada beijo que dei ontem.
Joe estava prestes a respondê-la quando vê Katherine saindo de seu quarto e coçando os olhos, demonstrando o sono que ainda sentia. Era um milagre ver ela de pé à uma da tarde.
— Alguém acordou cedo hoje... – Sussurrou Joe sorrindo e a loira retribui, mas para no meio da sala (separada da cozinha apenas por um balcão de mármore) ao se deparar com Emily ali.
As duas se encaram quase que ao mesmo tempo e seus olhares se prendem uma na outra. Era a primeira vez que via Katherine desde o episódio que viu alguns dias atrás. Não era culpa da garota. Tinha que admitir. Não era nem mesmo culpa de Ian aquele beijo. Os dois não tinham nenhum tipo de compromisso, então a morena ainda não tinha motivos para odiá-la. Mas isso também não significava que eram melhores amigas. Não chegavam nem perto disso. Os olhos da loira pousam imediatamente nas vestes de Emily e é quase impossível não esconder a surpresa, apesar dela já ter posado na casa de Joe diversas vezes. Usava a própria roupa, não a dele. A não ser que algo a mais tenha acontecido aquela noite.
— Parece que temos visitas hoje... – Disse ela entrando na brincadeira para quebrar o gelo. A morena sorriu, pegando uma caneca limpa que estava ao seu lado e oferecendo a Katherine. – Não entendo como você consegue tomar isso sem colocar uma quantidade exagerada de açúcar.
— Alguns tem um paladar apurado para bebidas deliciosas. – Joe diz mostrando a língua para a loira, que sempre criticava seu café.
— Como foi os rachas ontem? – Foi a vez de Emily entrar na conversa, se virando para ela, que pegava o pote de açúcar, colocando uma quantidade exorbitante.
— O mesmo de sempre... Todos parecem estar em crise porque os carros não têm sido muito potentes quanto aqueles da sua época. Aliás, você parou de ir.
— É por isso que estava perguntando... Para ser sincera, estou afim de ir hoje. Tem algum problema? – Perguntou e Katherine sorriu negando.
— Guardarei seu lugar. – Avisou bebericando do café e a morena a olhou agradecida.
— Parece que nossa velha Emily está de volta... – Murmurou Joe erguendo sua caneca cheia de café. – Não se sinta mal Katherine, no meu coração cabe bastante e eu sou um cara muito humilde. Não consigo dizer não para ninguém.
A loira riu da animação exagerada do amigo e levantou apressada quando todos ouviram o barulho de batidas na porta.
— Eu atendo. – Avisou ela correndo em direção a porta.
— O que deu nela? – Perguntou Emily entre risadas e Joe da de ombros.
— E então, o que faremos hoje? Pensei em visitarmos alguns traficantes para contratar alguns serviços e não há ninguém melhor que você para fazer isso. – Sussurrou se encostando no balcão próximo ao seu corpo.
— Entra... Eu só vou me trocar. — A voz de uma Katherine animada que havia ido abrir a porta é ouvida pelos dois que rapidamente se viram em busca da pessoa que entrava ali.
Emily desce imediatamente do balcão ao ver Ian entrando ali, dando seu famoso sorriso torto para a loira que corre em disparada para o quarto já segurando as chaves do carro dele. Ele fecha a porta e seus olhos rapidamente capturam a visão da morena ali. Não esperava ver ela ali. Não mesmo. Ainda mais naquela situação, onde ia buscar Katherine para um passeio. O que ela pensaria dos dois? Certamente acharia que estão juntos. Cacete. O que ela estava fazendo ali afinal? E por que usava uma das camisetas de Joe? Eles passaram a noite juntos? Era ele quem estava ocupando o seu lugar agora?
Ian estava de terno, indicando que havia acabado de sair da empresa. Ele costumava ir direto para a universidade, afim de busca-la. Droga! Por que Ian tinha que aparecer ali mesmo? Somente para estragar seu dia e fazer sua cabeça pensar nele mais uma vez. Será que isso iria embora em algum momento? Quantos anos demoram para esquecer um minuto? Ou melhor, cinco meses... Porque já estava cansada de se torturar. Principalmente ao imaginar Katherine no quarto se arrumando nesse exato momento somente para sair com ele. Ou dormir com ele. A última opção parecia ser a mais concreta e isso fazia Emily querer desabar ali mesmo, porque lá estava a droga da sua cabeça imaginando aquilo. Ele com outra. Tocando, abraçando e beijando outra. Respirou fundo e se virou para Joe sorrindo.
— Eu tenho que ir embora agora. Mas a gente se fala depois... – Murmurou depositando um beijo em sua bochecha e o abraçando forte. Precisava daquilo. Seu coração precisava parar de bater tão rápido e a maneira que Joe a acalmava era impressionante.
Não queria aquilo. Mas teria que caminhar até o quarto de seu amigo e, para isso, precisava passar na frente de Ian antes. Usava apenas uma camiseta, deixando suas pernas à mostra, então torcia internamente para que ele não notasse o quanto elas estavam bambas ao ter ele ali tão perto dela novamente. Moveu um de seus pés, e eles seguiram o seu curso enquanto seus olhos tentavam se desviar daqueles grandes diamantes azuis que a encarava sem expressão alguma... Às vezes se lembrando dela. Mas é claro que ele não se lembraria. Katherine já deve ter feito ele se esquecer de absolutamente tudo.
A mente de Ian faz um nó com tantas possibilidades. E ficar sentado na sala esperando por Katherine enquanto Emily se arrumava no outro cômodo, só piorava a situação. Joe continua na cozinha tomando seu café – que Ian achou horrível a propósito – e verifica algo em seu celular. A vontade de ir até ele e perguntar o que Emily fazia ali, era grande. Enorme. Mas ele não teve coragem. Porque ele tinha medo da resposta.
Emily corre até o quarto assim que passa por ele e fecha a porta com força, fazendo questão de trancar ela. Estava arfante, como se tivesse acabado de correr uma maratona. O que de fato estava... Correndo incessantemente, fugindo de seus pensamentos mais profundos e escondidos. Colocou seu short jeans rasgado e as botas que usara na noite passada, guardando apenas sua blusa na bolsa já que estava suja. Ficou belos minutos ali se preparando para sair e ver ele ali mais uma vez. Tratou de sair do quarto e deu de cara com Katherine saindo do seu.
— Ué... Já está indo embora? – Perguntou a loira confusa.
— Tenho que fazer umas coisas na universidade. – Murmurou ela sorrindo abertamente em uma tentativa de esconder a grande confusão que havia dentro de si, junto com a saudade que a corroía mais uma vez. Katherine também sorriu e foi em direção a sala onde Ian a esperava.
— Estou pronta, vamos? – Katherine diz e Ian se levanta.
Emily passa por trás da loira como um vulto sem ao menos o olhá-lo e bate a porta quando sai. Katherine se assusta com o barulho e resmunga algo inaudível para Ian, que observou pela janela a morena caminhar a passos largos para bem longe da casa.
— Ian? – chamou Kate. – Vamos?
Ian desviou sua atenção da janela e assentiu para a loira, que sorriu satisfeita e foi se despedir do amigo com um beijo estalado na bochecha. Depois ela virou-se para Ian e o guiou para fora da casa. Depois de bater a porta, Katherine encara o carro e respira fundo, sorrindo de orelha a orelha. Ian suspira ao vê-la assim.
— Pode ao menos fingir que está contente por me ver? – Indaga ele. Katherine olha para ele e sorri.
— Mas eu estou contente por ver você! – Confessa ela. – Até porque, carros não andam por aí sozinhos, não é mesmo?
Ian engole em seco a provocação e Katherine ri dele, correndo até o carro com as chaves em mãos.
***********
Katherine se divertiu por horas dirigindo a Lamborghini de Ian pela cidade. Ela até se aventurou pelas estradas das cidades vizinhas. Ian não esboçava nenhuma reação, ao contrário da última vez, que, mesmo não confessando, ficou com certo medo da loira atrás do volante. Ian estava quieto, pensativo. O encontro repentino com Emily o pegou de surpresa e agir como se fossem completos desconhecidos o deixou incomodado. Aquele vazio em seu peito parece estar cada vez maior e ela parece ser a causa disso. E por mais que ele tentasse se distrair, por mais que Katherine e Lorenzo tentasse o distrair, ele não conseguia tirar Emily da cabeça. Muito menos amenizar o sentimento que crescia dentro de si.
Percebendo a quitação do amigo, Katherine decide voltar para o centro da cidade e estaciona em sua cafeteria preferida. Estava mais do que na cara que Ian precisava desabafar com alguém. E nada melhor do que um bom café como acompanhamento.
— Você ficou quieto a tarde inteira. — Katherine aponta, após se sentarem em uma mesa afastada da movimentação da loja. — Será a mesma garota de ontem que anda te perturbando?
Ian suspirou.
— É. — Respondeu ele. — O que vai pedir? — Mudou de assunto, apontando para o cardápio.
A garçonete os atendeu instantes depois e ambos fizeram seus pedidos. Quando ela se afastou, Katherine observou Ian atentamente se perguntando se devia ou não entrar no assunto novamente. Ao contrário de ontem, Ian parece estar mais seco e irritado do que o normal. Mal ela sabe que, ver Emily na casa de Joe, vestindo apenas uma camiseta dele, o deixou mais fora de si do que o normal.
— Está tudo bem com você? — Katherine perguntou com sinceridade, o fitando.
Ian a encarou de volta. Ele estava?
— Eu não sei. — Confessou ele, respirando fundo. — Gostar de uma pessoa parece ser mais complicado do que eu achava.
Katherine assentiu.
— Algo que eu possa fazer para se sentir melhor?
Ian exibiu um sorriso de lado.
— Já está fazendo. Sua companhia me faz bem, me distrai. — Disse ele.
Katherine sorriu contente ao ouvir aquilo, mas depois negou.
— Parece que eu não consegui te distrair hoje. — disse ela.
Ian sacudiu a cabeça.
— É porque está de calça jeans. Prefiro quando vem de short. — Provocou ele, sorrindo.
Katherine sorriu.
— Já percebeu que você esconde seus sentimentos com essas provocações maliciosas? Sempre que estamos falando sobre algo que sente, você dá um jeito de desviar atenção. — Comentou ela, pegando Ian de surpresa.
Ela estava certa, mas nem Ian havia notado isso. Era algo natural, como uma autodefesa. Sentimentos não eram com ele e ele evitava isso a todo custo. As ironias, provocações foi apenas uma forma de ajudá-lo com isso.
— Não é de família. — Negou ele. — Meu pai é bem objetivo com seus sentimentos. Se ele sente algo, ele demonstra. Minha mãe também. Acho que sou o único que o reprimo. Talvez seja por conta do meu trabalho, eu não sei.
— Seu trabalho? Pensei que fosse empresário. O que isso tem haver? — Indaga Katherine curiosa.
Ian pensa rápido.
— É muito estressante. E eu não gosto de ficar misturando as coisas, entende? — Omitiu ele.
Katherine assente, mesmo com uma pulga atrás da orelha.
— Eu tenho uma irmã também. Na verdade, ela iria adorar te conhecer. Ela é louca por bonecas.
Katherine riu.
— Ela vai me adorar por que pareço com a Barbie? — Ironizou ela.
Ian assentiu.
— Ela iria te mostrar as centenas que ela tem!
Katherine torceu a boca.
— Odeio bonecas. — Admitiu baixinho, como se ela estivesse confessando um crime.
— Oh, então ela iria te odiar. — Riu Ian.
Katherine riu em concordância e logo seus pedidos chegaram.
Começaram a comer em silêncio e a cada minuto que se passava Ian ponderava se devia ou não perguntar sobre Joe e Emily para a loira. Se estivesse rolando algo, com certeza ela saberia. Depois de tanto pensar se ia ou não perguntar, ele resolveu tirar aquilo a limpo, ou não dormiria a noite.
— Aquela garota que estava na sua casa... — Começou Ian.
— A Emily. — Disse ela.
— Isso. É a nova namorada de Joe? — Questionou ele, casualmente.
Katherine negou com a cabeça e por um momento o coração de Ian parou.
— Não, eles são apenas amigos. Ela costumava passar algumas noites lá antigamente. De repente ela sumiu e voltou ontem à noite. Eu nem sabia que ela estava lá antes de acordar. — Explicou ela.
Ian suspirou baixinho e observou a movimentação do lado de fora da cafeteria. Um sorriso se formou nos cantos de seus lábios involuntariamente.
— Entendi. — Comentou ele. — Você e ela são amigas?
Katherine riu assim que ouviu a pergunta.
— A gente se atura. — Deu de ombros. — Eu não tenho nada contra ela e ela não tem nada contra mim. Mas além de Joe, não temos mais nenhum vínculo que nos una. Se bem que hoje ela foi bem gentil comigo, está até pensando em ir aos rachas correr hoje. E eu sempre ganho mais quando ela participa. Parece que os homens adoram apostar contra as mulheres e bem, elas sempre ganham. — Disse ela sorrindo abertamente.
Ian também o fez.
— Então hoje os rachas vão ser recheados? — Perguntou ele. Recheados quer dizer que haveria muita gente, e por isso, mais dinheiro estaria em jogo.
A loira assentiu.
— Aham. Está pensando em ir?
Ian sorriu.
— Acho que vou dar uma passada por lá.
***********
A noite já havia caído em Chicago e Lorenzo parte para o parque aonde sempre ia para se encontrar com Chloe. Ele gostava de vir ao parque encontrá-la. Ficar sozinho com ela o relaxava. E no entanto, ouvir a risada dela ecoar pelo lugar, sem mais nenhum outro som atrapalhando, era como ouvir sua música favorita. Ele andava muito sentimental em relação à ela, porém ele não ligava. Ele sempre disse que, se sentisse algo por alguma mulher, ele faria questão demonstrar. E o mais importante, de sentir. Diferente de seu primo, que tenta trancar o sentimento a sete chaves, Lorenzo fez várias cópias de seu coração para Chloe. Várias.
Chloe estaciona em um lugar mais afastado, e desce do carro em direção ao parque. Lorenzo estava sentado embaixo de uma das árvores, olhando para o céu, tão absorto da realidade que nem notou a ruiva se aproximando e sentando ao seu lado. Ela sorriu observando ele por tempo suficiente até que finalmente retornou ao presente, puxando o corpo dela para perto do seu. Os dois até trocariam algumas palavras antes, mas a saudade que sentiam um do outro, mesmo tendo se visto há poucas horas, fazia com que seus lábios se colassem em um beijo longo e profundo. Ficaram ali um bom tempo até se afastarem e ela encostar sua cabeça em seus ombros largos.
— No que estava pensando? – Perguntou ela curiosa observando o vasto gramado sem nenhuma alma viva, além dos dois. Lorenzo beija o topo de sua cabeça e sorri.
— Estava pensando em você. – Ela ri, mesmo com ele falando sério.
— Achei que já tínhamos passado da fase das cantadas. – Brincou a ruiva.
— Não estou te cantando... Você já está completamente apaixonada por mim. – Lorenzo diz entrando na brincadeira, mas Chloe se cala imediatamente.
Ela estava mesmo? Era uma pergunta que se fazia todos os dias em frente ao espelho, mas nunca encontrava resposta. Ou talvez seja ela que não queira saber a verdade. As palavras de sua prima ainda estavam grudadas em sua cabeça e Emily não podia estar mais certa. Se ela realmente quiser levar o que tem com ele a diante, precisava ser mais cautelosa. E sinceramente não tem certeza se conseguiria. E a última coisa da qual precisava era ver ele sofrer nas mãos da máfia como sua família já sofreu tanto. Não se perdoaria.
— Convencido... – Murmurou ela, mesmo sabendo que talvez as palavras de Lorenzo tenham sido uma indireta para que finalmente discutissem sobre o que sentem e em que patamar estavam a essa altura. – Sabe que detesto cantadas fajutas...
— Se não fosse por elas não estaríamos aqui...
— Se não fosse por Emily e Ian não estaríamos aqui... – Chloe retrucou e um silêncio constrangedor reinou entre os dois. Emily e Ian. Depois desses últimos cinco meses, era impossível não pensar no quanto eles eram um casal bonito. Daqueles típicos filmes de contos de fada que te fazem suspirar, exceto pelo fato de não terem tido um relacionamento sério.
— Como ela está? – Lorenzo pergunta. Na verdade, era uma questão que tinha há dias, mas não queria uma resposta porque provavelmente diria a Ian. E não queria atormentar o primo com aquilo. Ele já estava completamente confuso... Ter notícias dela pioraria a situação.
— Fingindo que está bem... – Respondeu Chloe com sinceridade. – E ele?
— Não está muito diferente. Confesso que estou tentando fazer ele esquecer Emily... – Chloe o encara em reprovação. – Ele está sofrendo à toa. Não há nada que possamos fazer. Detesto ver ele daquela maneira. Pelo menos conversar com Katherine tem o ajudado um pouco.
— Katherine? – A ruiva questiona e ele dá de ombros Como assim Ian estava conversando com outra garota? Foi impossível não sentir vontade de ir até ele e lhe dar um belo murro, porque deu a entender que o que eles tinham eram bem maior que uma conversa e Lorenzo só escolheu as palavras mais curtas para não irritá-la.
— Katherine é apenas uma amiga dele. O que me impressiona, ela é linda! – Exclamou Lorenzo com tanta naturalidade que nem notou a cara amarrada de Chloe ao ouvir aquilo. Se sentiu mais confortável em saber que Ian e ela eram só amigos, mas foi impossível não sentir uma pontada de raiva ao ouvir suas últimas palavras.
— Linda? Aposto que é uma loira oxigenada que só tem peito e bunda. Mas quem sou eu pra julgar? É disso que os homens gostam mesmo... Deve ter um hárem deles. Todos babando por ela. – Diz aquilo tão rápido que acabou gaguejando entre as palavras. Lorenzo rapidamente nota o que estava acontecendo e começou a dar gargalhadas. – Por que está rindo? Lorenzo, pare.
Ela lhe dá um belo tapa no braço, mas isso só o faz rir mais, a deixando irritada.
— Está com ciúmes! – Falou tentando recuperar o ar.
— De você? Vai sonhando.. – Falou cruzando os braços e se afastando dele.
— Tudo bem... – Ele sussurrou. – Sabia que ela gosta de história da arte? Talvez eu deva pedir algumas aulas para ela.. – Brincou Lorenzo, mas Chloe estava tão irritada que levou as palavras dele a sério.
— É, vai lá mesmo. – Disse já ficando vermelha de raiva e se levantando do gramado.
— Ei, eu estou brincando. – Lorenzo diz tentando segurar ela entre risadas.
— Vai brincar com ela, então... – Diz Chloe fazendo as risadas dele se aumentarem ainda mais.
Quando notou que a ruiva já estava caminhando a passos largos para fora do parque, ele se levanta correndo até ela e a puxando para o gramado. Chloe cai sobre ele com facilidade e ela sorriu ao ver a expressão de Lorenzo, ficando séria rapidamente ao se lembrar que estava irritada com ele.
— Você não tem ideia do quanto eu gosto de você, não é? – Perguntou ele tão baixinho que causou arrepios nela quase que imediatamente.
— Achei que gostasse da Katherine... – Falou com cinismo e Lorenzo ri.
— Eu disse que achava ela linda. Mas ela não é tão linda quanto você... – Murmurou beijando a bochecha dela e lhe arrancando uma risadinha. Como ele amava aquele sorriso.
Chloe segura o rosto dele e observa o quanto ele era bonito sobre a luz da lua, que era a única que deixava o parque claro... Por ser afastado de Chicago, não havia uma iluminação apropriada ali. Lorenzo estava tão absorto com o rosto dela próximo do seu, que nem notou a cara de bobo que fazia sempre que a olhava. Ela dá um último sorriso antes de beijá-lo ali mesmo, deitada no gramado. Ele retribuiu o beijo quase que imediatamente fazendo uma corrente elétrica percorrer o corpo da ruiva sempre que sentia o toque dele sobre sua pele. Suas mãos vão até as costas dela, a acariciando por cima da blusa, sempre temendo avançar o sinal e ela se assustar. Temia a todo custo que ela se fosse. O sistema de irrigação do parque é acionado e os dois sentem suas roupas se encharcarem, fazendo eles se afastarem subitamente diante do susto.
— Oh meu Deus! – Ela solta um grito entre risadas. Lorenzo também ri da situação que se encontravam.
— Vem cá... – Os dois se levantam e ele a puxa até uma árvore onde o irrigador não ia e prensa o corpo da ruiva no tronco, tomando seus lábios mais uma vez.
E Chloe se esqueceu completamente de dizer a ele a cruel realidade... Ela iria embora para o Brasil em menos de dois dias. Mas Lorenzo jamais seria capaz de deixa-la ir sem dizer a ela que a distância seria meramente relativa para os dois. E ele sempre estaria ao lado dela...
****
Era estranho e ao mesmo tempo surpreendente perceber que a presença de Ian em sua vida fez ela deixar de fazer o que fazia em seu tempo livre e dedicar todo o seu tempo somente a ele. Assim que deixou a universidade, correu para seu apartamento e se arrumou para ir aos rachas. Deixou seu carro mais próximo da saída e foi em direção a Katherine que contava pela milésima vez o dinheiro que havia recebido para a corrida.
— Se importa se contar mais algumas notas? – Pergunta Emily chamando a atenção da loira.
— Quanto mais, melhor. – Ela sorriu pegando o dinheiro de suas mãos.
— Onde está Joe?
— Cuidando de seu mais novo negócio. E quando digo cuidando, quero dizer que ele está testando o produto. – As duas começam a rir imaginando o estado do amigo nesse momento.
— Acho que vou usar um dos carros dele hoje... Alguma sugestão? – Pergunta apesar de já ter uma mente.
— Bugatti Veyron definitivamente combina com você. – Murmura sem nem precisar procurar um, já que conhecia todos os carros de Joe de cor.
— Boa escolha. Mas e você? Não corre mais?
— Essa é a parte ruim de ter que cuidar dos negócios... – Sussurrou se sentando no capô de um dos carros atrás de si.
— Se quiser, fico de olho na próxima partida pra você... – Sugere e Katherine se mostra tentada a aceitar.
— Eu agradeço. – Ela sorri como uma criança quando recebe seu brinquedo favorito. — Acho melhor começarmos essa partida logo então...
Emily trata de entrar no carro sugerido por Katherine e leva o carro até a entrada onde a loira já segurava um revólver, o mirando para cima e atirando após a contagem. A morena pisa fundo no acelerador e em questão de segundos já está em alta velocidade e ultrapassa metade dos carros, cortando o caminho ao entrar por um atalho como sempre fazia, voltando a corrida rapidamente tendo que competir apenas com uma pessoa já perto da chegada.
O homem de cabelo esverdeado e sorriso sujo joga o carro contra o de Emily, que dá ré fazendo ele perder o controle do automóvel e capotar alguma vezes, parando em pé. Ela dá a volta, cantando pneu e ousa dar um tchauzinho para o cara antes de voltar a acelerar e finalmente ganhar a partida. Um monte de gente se amontoa sobre ela, que desce cumprimentando os conhecidos e vai até Katherine que lhe entrega o monte de grana.
— Definitivamente esses rachas são mais interessantes quando você compete. O cara tá no meio da pista resmungando até agora! – Exclama entre risadas.
— Nunca fui fã do monótono. – Ironizou acompanhando ela na risada.
— E então... Alguma sugestão sobre qual carro usar?
— Hannesey Venom definitivamente combina com você... – Comentou usando as mesmas palavras da loira, que sorriu ao notar isso.
— Sabe o que combina com nós duas? Cerveja.
— Nunca concordei tanto com você. – Murmurou a morena.
— Vou pegar enquanto recolhe o dinheiro do pessoal.
Emily se volta para o pessoal que já segurava montes e montes de notas e ela rapidamente pega o jeito, organizando tudo e guardando o dinheiro em uma caixa. Katherine rapidamente retorna com duas garrafas de cerveja, entregando uma para a morena que dá um grande gole. A bebida gelada lhe refresca, mas sua cabeça queima.
— Ainda tem lugar para mim? – Aquela voz destrava partes de seu cérebro que nem imaginava existir.
— Quem está no comando não sou eu Ian, mas será um prazer competir com você.
Seus olhos azuis pousam na morena assim que ela se vira em sua direção e seu sorriso desaparece por alguns segundos. Nunca se sentiu tão distante dela como estava agora.
— Sempre tem lugar para mais um. – Ela sussurra quebrando o silêncio e estendendo a mão para pegar o dinheiro. Ele sentiu uma súbita vontade de segurá-las e puxá-la para um beijo, antes e depois de contar como seu dia foi um tédio como tem sido desde que ela se foi.
Mas não. Ele não faz isso. Apenas lhe entrega a grana, sem tirar os olhos dela. Katherine observa a cena em silêncio e foi impossível não notar que havia “algo” muito estranho ali.
— Bem... Então já vou entrando em meu carro. – A loira se manifesta indo em direção ao carro sugerido por Emily.
— Acho melhor você ir também... – Sussurra a morena não estando tão surpresa em vê-lo ali, atrás de Katherine. E ele entendeu o que rondava a cabeça dela no momento em que seus olhos observam a loira ligando o carro. Como podia ser tão tola? Afinal, só o que ele tem conseguido fazer é pensar nela.
— Emily...
— Por favor. – Pediu finalmente encontrando coragem para olhar ele nos olhos de novo.
Ian não conseguiu desobedecer ela, se virando em direção ao seu carro e o levando até a entrada da pista. Ao ouvir o disparo do revólver, teve uma inspiração suficiente para acelerar e acabar logo a corrida, somente para poder falar com ela, mas quando ganhou e desceu do carro atrás da morena, somente Joe estava ali.
— E aí garoto? – Lhe cumprimentou entregando o dinheiro a ele.
— Cadê a Emily?
— Saiu assim que cheguei. Acho que é porque estou fedendo maconha... – Sussurrou enquanto se cheirava.
Ian olhou em direção a saída e a viu entrando no carro e já ia correr em direção a saída, mas a morena pisou fundo no acelerador desaparecendo dali.
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