“Chloe sentiu seu corpo se arrepiar assim que Stan colocou o braço sobre suas costas, e os dois começaram uma dança lenta sobre o som de uma música romântica. Sobre os ombros dele, pôde ver sua irmã mais nova que era a mulher mais feliz daquele salão. Usava o vestido de noiva mais lindo que a ruiva já viu e só de olhar nela e em seu marido, podia ver toda a história dos dois passando pelos olhos deles. De início, não queria ir ao casamento dela. Afinal, é irmã de Stan, e isso significava que a família dele também estaria ali, tornando o relacionamento deles um pouquinho mais sério. E talvez ela não estivesse preparada para aquilo, ou achasse que não fosse certo. Respirou fundo, aspirando o perfume dele enquanto o puxava para mais perto, sem deixar de observar os noivos que dançavam a sua frente.

— Você tem ideia do quanto está linda nesse vestido creme? – Sussurrou Stan em seu ouvido e ela ousou sorrir, beijando suavemente seu pescoço. – Meus pais te adoraram.

— Eu também gostei muito deles. – Ela diz baixinho.

— Aposto que os seus pais iriam me adorar também! – Exclama ele jogando a indireta de que quer conhecer sua família mais uma vez.

— Stan...

— Já falamos sobre isso, eu sei. Eles são reservados... Mas sinceramente, não consigo entender o motivo disso. Por acaso são vampiros ou algo assim? – Perguntou Stan tentando quebrar o clima e Chloe dá uma de suas risadas estridentes.

— Mais ou menos isso. – Disse entrando na brincadeira.

— O que acha de irmos a um lugar reservado? – Pergunta se afastando dela apenas por alguns segundos, apenas para lhe dar um selinho.

Stan não espera por resposta alguma, apenas segura as mãos da ruiva com delicadeza, puxando ela para fora do salão e atraindo olhares da família que estava encantada com a garota, apesar de acharem que ela era muito areia para seu caminhão. Ele era do tipo que se desapegava muito rápido e ver ela se magoar doía até mesmo neles que não tinham absolutamente vínculo algum com ela. Os dois foram até a dispensa que havia na cozinha. Os funcionários estavam servindo o pessoal do lado de fora depois que toda a comida estava pronta. Chloe mal teve tempo de dizer algo, pois ele a prensou em uma das prateleiras depois de fechar a porta, puxando seu rosto para um beijo. Ela ri durante ele, mas trava imediatamente assim que as mãos dele puxam suas pernas e acariciam suas coxas.

— Espera... Stan... – Ao ouvir a relutância dela, se separou respirando fundo, quase que bufando alto. Era a terceira vez que tentava algo e lá estava a ruiva travando.

— Ah não, Chloe! – Resmunga alto.

— Eu quero isso... Juro! É só que esse lugar não é bem o que eu esperava! – Diz observando o local que fedia a mofo.

— Olha... Eu sou homem! Tenho minhas necessidades.

— Eu sei... Entendo! É que...

— Quer saber? Esquece. – Stan diz dando um murro na parede e saindo da dispensa.

A ruiva respira fundo, se sentindo um completo fracasso. Sabia que isso era o que ele queria há um tempo, mas se tivesse que fazer algo, mesmo sentindo todo esse medo sobre suas costas, queria que fosse ao menos em um lugar especial. E não no banco de trás do carro dele, no beco ao lado de seu prédio ou naquela dispensa moribunda. Arrumou seus cabelos e o vestido desarrumado, saindo daquele lugar e voltando para o salão enquanto recuperava sua confiança. Mas perdeu ela por completo ao ver Stan conversando com uma garota e a arrastando para fora dali. Os olhos dos dois se encontram por alguns segundos e ele sorri puxando a garota para mais perto.”

Emily respirava fundo antes de finalmente criar coragem para entrar em seu apartamento depois do dia cheio que teve. Enfrentar cara a cara aquilo que mais te perturbou esses últimos dias foi no mínimo como travar uma nova batalha sem ao menos ter armamento para isso. E ainda teve que reunir todas as forças que lhe restavam para o último treinamento para Julieta. Enxugou as lágrimas com rapidez antes de abrir a porta e deu de cara com uma Chloe pensativa na janela.

— Ei... Achei que chegaria mais tarde! – A ruiva murmura se virando para a prima.

— Eu também achei, mas os rachas tiveram um participante inesperado. – Emily resmunga cabisbaixa, mas nota que Chloe estava diferente. Seu rosto estava um pouco vermelho, denunciando o choro recente. – Está tudo bem?

— Está sim! É só que... – A voz dela vacila. – Marquei de me encontrar com Lorenzo hoje para contar sobre a volta para o Brasil.

— Ele reagiu mal? – Perguntou a morena curiosa e Chloe sorri negando.

— Não contei nada. Na verdade, ele já sabe que vamos voltar, só não sabe que é amanhã, depois da peça.

— Então precisa se encontrar com ele. Já avisei nosso avô e ele está preparando tudo para assumirmos a máfia... – Emily informa, pegando a prima de surpresa.

— Eu sei que a gente pode continuar com o relacionamento, mas eu tenho medo. Todo cuidado é pouco e qualquer erro nosso no Rio pode plantar um alvo nas costas dele. E não me perdoaria se algo acontecesse com ele. Não quero envolve-lo nisso. Mas também não quero dizer adeus. – Sussurra Chloe abrindo espaço para que Emily se sentasse ao seu lado.

— Espera aí... Deixa eu ver se entendi. Vai embora amanhã sem dar uma explicação para ele? Sabe que Lorenzo vai atrás de você, certo?

— Não. Lorenzo tem mais o que fazer. Provavelmente vai procurar por outra diversão e... Se estiver certa, ele mal sabe onde moro.

— Se eu estiver certa, ele vai revirar todo o Rio de Janeiro até encontrar nossa casa. E não acho que seja uma ótima maneira dele conhecer o tio Logan. – Emily arqueia a sobrancelha e só de imaginar a cena, Chloe ri. – Você o ama não é?

— Amo. – A ruiva admitiu tão rápido que nem se deu conta disso, e quando percebeu, nem mesmo se importou. Era a verdade, então por que não esconder? Já tinha segredos demais para aguentar segurar mais um. Talvez Lorenzo merecesse saber disso também, mas ainda não se sentia preparada o suficiente para isso. Emily sorri de lado. — Como esses dois conseguiram?

— É o que eu me pergunto todos os dias... – As duas acabam rindo da situação toda que as levaram até aquele exato momento. – Chloe. Eu sei que disse a você desde o início que a queria como minha conselheira... Mas, se quer continuar aqui, em Chicago, com Lorenzo... Se quer continuar construindo a carreira que tem... Eu não quero te impedir disso. Você merece ser feliz. Quer dizer... É lógico que vou sentir sua falta no Brasil, mas estarei bem sabendo que também está.

— Ei... Sabe que eu jamais te abandonaria! – Exclamou a ruiva, impedindo que Emily dissesse mais alguma coisa. – Além do mais, eu nasci pra máfia. Você está começando a seguir em frente, e eu também posso fazer isso.

— Mas, se quiser...

— Eu. Não. Quero. – Chloe faz questão de dizer aquilo com todas as letras. Mal suportava a ideia de ouvir que ficaria longe da prima.

As duas cresceram juntas e era estranho pensar em ficar em Chicago e não ter a morena ali perto para ouvi-la se algo não estivesse bem. A verdade é que as duas precisavam uma da outra de maneira quase desesperada.

— Obrigada. – Emily agradece a puxando para um abraço. – Por tudo.

— O que acha de um filme de comédia? – Pergunta Chloe depois de se afastarem, a fim de mudar de assunto.

— Eu preparo a pipoca! – A morena pula em direção a cozinha enquanto sua prima procurava por algum filme que fosse o mais engraçado possível.

As duas precisavam disso. Passaram o resto da noite fazendo maratonas e assistindo a milhares de filmes juntas. Perderam até a conta de quantos foram. Acabaram dormindo no sofá mesmo e nem mesmo se lembravam do exato momento em que dormiram.

************

Katherine estava sentada no balcão de sua casa e comia um resto de comida tailandesa que achara na geladeira com gosto. Estava faminta. Eram 10:45 da manhã e lá estava ela comendo algo nada tradicional para o horário. Mas o horário da loira era totalmente diferente dos demais — assim dizia Joe.

— Acordada a essa hora? — Exclama Joe ao adentrar a cozinha e dar de cara com Kate.

— Fome. — Balbucia ela com a boca cheia.

Joe sorri da amiga e se aproxima dela, lhe dando um beijo carinhoso no topo da cabeça.

— Me impressiona não engordar. — Resmunga ele ao se virar.

Joe começa a preparar seu café e Katherine observa cada movimento seu, repreendendo mentalmente a quantidade reduzida de açúcar, deixando o café ainda mais forte. Porém era assim que ele gostava e assim seria.

— Eu não te vi no final do racha, aonde foi? — Perguntou ela.

Joe dá de ombros.

— Estava pegando alguns produtos. — Respondeu, se referindo as drogas que revende.

Katherine fica em silêncio e seu semblante muda. Era fato que Joe usava drogas, mas não era um usuário viciado, apenas gostava de experimentar. Porém Katherine odiava quando ele se drogava, repudiava aquilo até a alma. E por ele ser tão importante para ela, ela odiava ainda mais.

— O que foi? Por que ficou tão séria? — Indagou Joe, fitando a loira.

Ela deu de ombros, se concentrando no resto de comida na caixinha e Joe logo percebeu do que se tratava. Ele caminhou até a amiga, pegou o seu pé e a puxou até a ponta do balcão, onde ela desdobrou as pernas, de modo que rodeou a cintura de Joe com elas. Ela fitava os lados, tentando não encará-lo, a fim de não deixá-lo ver sua irritação, mas já era tarde demais. Joe colocou sua mão sobre o rosto da loira e gentilmente a fez olhar para ele.

— Não precisa ficar assim. — Diz ele, acariciando seu rosto. — Eu estou bem. Sempre fico bem. — Argumentou.

— E quando não ficar? — Protesta ela. — E se algo der errado, o que vai ser de mim sem você, Joe? — As palavras saem sem que ela tenha um poder sobre elas e quando se deu conta, Joe já estava com um sorriso convencido no rosto. Mas o que poderia fazer? Era a verdade, afinal.

— Uau, que linda declaração de amor! — Brinca ele, arrancando um sorriso tímido da loira.

— Eu estou falando sério, eu me preocupo com você. — Reforça ela. — Promete que vai sempre tomar cuidado?

Joe sorri. Como pode alguém se preocupar com um cara como ele? Só Katherine mesmo.

— Por você eu faço tudo. — Diz ele, de coração aberto.

Joe fita os olhos claros de Katherine e ela sorri. Eram anos de amizade e eles nunca ultrapassaram os limites dessa. Não que isso significasse que nenhum deles queriam algo mais, porém o medo de fracassar e eles acabarem se separando era maior do que qualquer desejo, vontade ou sentimento.

— Amo você. — Sussurra ela.

— Todas amam. — Brinca ele, recebendo um revirar de olhos e um tapa em consequência. — Brincadeira. Eu também te amo e prometo tomar cuidado. — diz ele. — Agora vá escovar os dentes porque esse cheiro de comida tailandesa na sua boca afasta qualquer um! — Zoa ele, recebendo outro tapa da loira, que pula do balcão e corre para o banheiro, a fim de se livrar do mau hálito.

Joe ri do desespero da amiga e volta a fazer seu café. O som de um carro estacionando em frente à sua casa chama a sua atenção e ele caminha até a janela da sala, espiando lá fora.

— Aquele seu namoradinho acabou de chegar. — Exclama ele, voltando para a cozinha.

Katherine surge com uma expressão confusa no rosto.

— Quem? Ian? — Indaga ela, e Joe confirma com um aceno. — Que estranho, ele geralmente aparece depois do almoço...

— Vai ver ele ficou com saudades. — Procova ele é Katherine sorri, indo até o amigo e o abraçando por trás.

— Sem crise de ciúmes, por favor. Ou se não terei que colocar Emily na parada e eu tenho certeza que ganharei essa. — Comenta ela, lembrado da noite anterior, onde a morena vestia a camiseta de Joe e os detalhes diziam por si só.

Joe demorou um pouco para compreender as palavras da amiga.

— Oh, por favor, não aconteceu nada entre nós dois. Emily é só uma antiga amiga. — Diz ele, ocultando a parte do beijo.

— Pois então, Ian é apenas um amigo e só. — Disse ela, também ocultando a parte em que já dormiu com Ian.

Joe dá de ombros, tentando não se importar muito e Katherine caminha em direção à porta, onde Ian já a esperava. Porém ela parou no meio do caminho ao se lembrar da noite anterior, algo que tirou boa parte do seu sono na madrugada.

Ela se virou para Joe.

— Joe, você sabe que Ian e Emily já tiveram alguma coisa? — Perguntou.

Joe se revirou para ela, rindo.

— Claro que não. Eles mal se conhecem. Por quê?

Katherine não diz nada, apenas dá de ombros e volta a caminhar em direção a porta, encontrando um Ian bem diferente daquele que conhecia. Um Ian com olheiras profundas e de coração vazio.

************

Ian e Katherine caminham pelas ruas do bairro da loira em silêncio, observando a movimentação dos carros, as crianças brincando, os adultos tomando cerveja na varanda da casa... Ian não havia dormido nada na noite anterior e dava para se notar a quilômetros de distância. Katherine até tentou conversar com ele mais cedo, mas ele sempre a cortava. Queria apenas sua companhia. Porém a ideia de ser Emily a tal garota misteriosa estava a deixando de cabelos em pé e precisava tirar isso a limpo.

— Então... Me conte mais sobre essa tal garota. Parece que passou mais uma noite a limpo por conta dela. — Começou ela, puxando papo.

Mais uma noite... Ian já havia perdido as contas de quantas noites em claro já passou por conta de Emily.

— Eu não quero falar dela. — Respondeu ele.

— Mas eu quero. — Rebateu Kate. — Vamos lá, Ian, você precisa colocar pra fora o que sente, fala comigo, eu posso ajudar você...

— Katherine, eu adoro você, mas eu não estou a fim de papo agora. Por favor. — Cortou ele, o mais calmo possível.

Indignada, Katherine parou de andar assim que o ouviu. Encarou a nuca de Ian com tanta raiva que ele poderia jurar que sentiu uma certa queimação ali. Ela deu meia volta e começou a andar em direção a sua casa. Ian logo percebeu que ela de distanciava e gritou por ela, perguntando o que diabos ela estava fazendo.

— Voltando pra casa! — Gritou ela, parando no meio da rua. — Porque eu não vou sair andando por aí com um cara que não sabe lidar com os próprios sentimentos e ainda por cima não me deixa ajudá-lo. Eu achei que podia Ian, sério. Mas você não colabora nem um pouco!

Ian engole em seco e passa as mãos pelos cabelos. Era verdade, ele não sabia lidar com o que sentia e pedir ajuda só piorava. E só de pensar na possibilidade de Emily estar com outro, com Joe... Ah, ele prefere nem pensar! Mas, afinal, o ele poderia fazer?

— Katherine. Katherine! — Gritou ele, indo atrás da loira. — Me espera, eu preciso falar com você.

Katherine revira os olhos antes de se virar para ele.

— Eu sou toda sua. — Disse ela, e só pelo fato de Ian não esboçar nenhum sorriso malicioso por conta de sua frase mal colocada, ela sabia que ele não estava nada bem. Nada bem mesmo!

— Eu vi ela ontem... — Começou ele. — E acho que ela estava com outro.

O sorriso de Katherine foi aumentando a medida que se lembrava da situação que presenciou ontem de manhã. Emily na casa de Joe, usando as roupas de Joe... E Ian todo distante depois que buscou ela para passear... Agora tudo fazia sentido.

— A garota especial é a Emily! — Concluiu ela, quase que em um grito.

Ian parou de falar assim que a ouviu.

— O que? Mas como você... Quando você? — Gaguejou, confuso.

Katherine sorriu.

— Eu percebi o seu olhar para ela ontem a noite, quando estávamos no racha. E claro, eu vi o jeito que ela te olhava. O nervosismo que a tomou quando você se aproximou. — Contou ela. — Uau, agora tudo faz sentido... — Disse, mais para si mesma do que para ele.

Ian deu de ombros.

— É, mas nada importa agora. Você sabe da nossa situação. Ela me ama, mas não me quer mais.

— Porque ela acha que você não a quer! — Exclama. — Ela acha que você é incapaz de sentir algo por ela que seja mais do que um sentimento carnal.

— Mas isso é mentira! — Rebate ele, começando a se irritar. — Eu a... Eu a...

— Você o que, Ian? Hãn? Diz!

— Eu a adoro. Adoro cada pedacinho daquela garota. — Confessa ele com os olhos brilhando.

Katherine sorri com a declaração feita por ele, mesmo que "adoro" não fosse a palavra e sentimento que ela procurava, já estava de bom tamanho.

— Bom, então é hora de mostrar a ela.

Ian assentiu. Mas o que? O que ele poderia fazer para provar a Emily que ela pode sim confiar seus sentimentos a ele? Depois de alguns minutos pensando, Ian logo teve a sua resposta. E ela era tão brilhante quanto ridícula.

— Eu já sei o que fazer.

************

— Tá legal, qual é o plano mesmo? — Indaga Lorenzo, pela milésima vez.

— Ian invade a apresentação de Emily e se declara. — Repete Katherine, contente com a ideia.

— Mas ele vai invadir como? Vai entrar na hora em que Romeu e Julieta estiverem se casando e dizer que a ama? — Caçoou ele.

— Romeu e Julieta se casam? — Indagou curiosa. — Achei que eles morriam.

— Bom parece que vamos ter que assistir a peça para descobrir. — Comentou ele, sorrindo de orelha a orelha e fazendo Katherine cair nas gargalhadas.

— Parem com isso vocês dois! — Exclamou Ian, adentrando na sala com peças de roupas nas mãos. — Chamei vocês para me ajudar e não atrapalhar.

Lorenzo e Katherine seguravam o riso e observaram curiosos as peças que estavam nas mãos de Ian. Katherine se levantou da mesa — onde estava sentada ao lado de Lorenzo. — e caminhou até ele, pegando as roupas de sua mão.

— O que é isso? — Perguntou, analisando as peças.

— O figurino de Romeu. — Respondeu Ian.

— E o que você vai fazer com isso? — Questionou ela.

— Eu vou invadir a peça teatral. — Respondeu ele, certo que aquilo iria dar certo.

Porém, Katherine e Lorenzo caíram na gargalhada. Riram até a barriga doer. Ian revirou os olhos e pegou o script de Romeu e Julieta que imprimiu da internet e jogou uma outra cópia no colo de Kate — que estava caída no chão rindo horrores.

— Levanta daí, você vai me ajudar. — Disse ele.

Katherine respirou fundo e tentou se concentrar. Levantou do chão e arrumou suas roupas. Pegou sua cópia do script e deu uma breve lida nas páginas.

— Oh, céus. — Murmurou ela.

— O que foi?

— Você nunca vai decorar isso aqui. Ian, olha bem essas falas e... E esse texto. O pessoal da faculdade está a meses se preparando, e você só tem algumas horas. — Apontou.

— Eu vou conseguir. — Afirmou ele.

— A, é? Então tá. — Disse ela, folheando o roteiro. — Página quinze, ato dois, cena um.

Ian a obedeceu. A cena escolhida pela loira é a cena da varanda, onde Romeu procura por sua amada e eles se declaram um ao outro. Ian lê as falas mentalmente e se prepara para interpretar o personagem. A primeira fala é de Katherine, que lê com a voz melosa, arrancando risos de Lorenzo. Ian revira os olhos para os dois. Olha para o roteiro e interpreta uma ou duas falas com dificuldade.

— Você é péssimo nisso. — Exclama Lorenzo, fazendo Katherine rir. — Você vai fazer a Emily te odiar ainda mais se subir naquele palco. Você está patético.

— Por que você não interpreta o papel daquele que morre logo no final? Assim você não precisa pagar um mico muito longo e acho que dá tempo pra se declarar para a Emily. — completa a loira.

— Ma che diavolo!— Exclama ele em italiano. — Quer saber? Eu desisto!

Ian joga a roupa de Romeu no sofá e da meia volta, se dirigindo para a porta. Katherine e Lorenzo param de rir assim que percebem o quão irritado Ian havia ficado. Lorenzo corre atrás do primo, que caminhava a passos largos e decisivos até seu quarto.

— Hei, se acalma, nós só estávamos brincando. Mas se você quiser mesmo fazer isso, a gente te ajuda... — Começa Lorenzo, porém Ian dá de ombros.

— Eu tenho uma ideia melhor. — Anuncia ele, chamando sua governanta logo em seguida. — Por favor, faça minhas malas, irei ficar algumas semanas fora. Roupas de inverno e calor. — Pede ele.

— O que vai fazer? Desistir da Emy e ir tirar férias? — Indaga seu primo.

Ian olha para o primo e sorri.

— Tem como você levar Katherine para casa? — Pede ele, mudando de assunto.

— Ian... – Adverte Lorenzo, achando que o primo havia desistido de reatar com a morena.

— Confia em mim, Lorenzo. Só faça o que eu te peço, por favor.

Lorenzo encarou o primo e respirou fundo. Não tinha nada que ele pudesse fazer por ele agora, a não ser fazer o que lhe foi pedido. Lorenzo deu meia volta e Ian pode ouvi-lo gritando o nome de Katherine pela casa, a sua procura.

Ian sorriu e tateou os bolsos a procura de seu celular. Procurou o nome dela em sua lista de contatos e ligou.

— Alô, mãe?

*************

— Ei mãe, só liguei para avisar que a apresentação será em dez minutos e não irá durar menos de duas horas. Provavelmente chegaremos ao Brasil no início da manhã. Eu amo vocês. – A morena sussurrou ao ligar para Sophie e o telefonema cair na caixa postal.

Emily caminha em direção ao cômodo que seria o seu camarim depois de cumprimentar todos que passaram por ela, lhe desejando boa sorte com a apresentação. Certificou que a porta estava trancada antes de tirar a roupa e ir em direção ao chuveiro que havia ali. A ideia de que finalmente voltaria para seu país fazia seu coração saltar pela boca, incapaz de conter a alegria de estar novamente ao lado daqueles que mais ama. Mas, ao mesmo tempo, sentia como se estivesse sendo apunhalada pelas costas pelas pessoas que estava deixando para trás.

“Um sorriso surgia nos lábios de Ian ao se deparar com ela já no apartamento dos dois, nadando na piscina que havia na sacada do local. O corpo dela se movia com facilidade dentro d’água e quando estava prestes a entrar ali também para pegá-la de surpresa, Emily volta a superfície e sai caminhando até ele.

— Você nunca me espera para a diversão... – Resmungou para ela que riu ao notar sua careta.

— A diversão só está começando... Mas, enquanto resmunga eu vou procurar algo para comer. – Sussurra a morena caminhando para dentro do apartamento sem se importar em molhar o chão. Ela para abruptamente na porta da cozinha apenas para ver Ian de esguelha. – Você não vem?”

“Joe caminhava até Emily, afastando a multidão que se aglomerava diante dela depois de ter ganhado a corrida. Ainda não acreditava que havia encontrado rachas ilegais em Chicago depois de tanto procurar. Aquilo era a única coisa que fazia se sentir viva: estar sobre quatro rodas. Ele estende a mão, segurando o monte de dinheiro que ela havia conseguindo em apenas uma única rodada.

— Você é bastante boa nisso, sabia? – Questionou arqueando as sobrancelhas e ela ri.

— É, já me disseram isso.

— Eu sou Joe, você é...? – A morena pega o dinheiro e conta as notas antes de se virar para ele de novo.

— Bem... Eu acho que terá que descobrir. – Ela murmurou.

— Então acredito que descobri. – Sussurrou ele e foi a vez dela arquear as sobrancelhas curiosa. – Você é minha nova melhor amiga. Mas, se um dia quiser ultrapassar essa barreira, eu não me importo com essas amizades modernas.

— Sei... – Emily reúne todas as forças que tem para não rir dele, e por alguns minutos imaginou que ele pudesse estar certo. Sabia que eventualmente teria que arrumar algum amigo na cidade. Não dava para viver de fachada por anos. E ele parecia ser alguém legal. – Foi um prazer conhecer você, Joe.”

Sentiu seu peito arder ao notar o quanto sentiria falta de tudo aquilo, talvez até mais do que a falta que sentiu de casa nos primeiros dias. Deu uma risada ao notar que sentiria falta até mesmo do professor Thomas, que sempre foi tão rígido com ela, mas lembrava de seus pais e avós, tornando tudo o mais confortável possível – o que não era a intenção dele, mas acabou se tornando eventualmente.

“ – De novo. – Thomas murmura ainda encarando suas folhas. Era a milésima vez que ele dizia aquilo e Emily interpretava mais uma vez o seu papel mesmo que ele não tenha prestado a mínima atenção.

Ela respirou fundo algumas vezes, sem acreditar que estava passando por aquela situação. Não precisava daquilo, mas sentia no seu íntimo que devia provar a ele que era melhor do que isso. Rasgou o papel do roteiro pelo simples fato de já ter decorado e jogou no lixo à distância antes de voltar a posição do papel.

— Olha, eu estou tentando. De verdade, mas não posso competir com ela. – Emily murmura interpretando o mais perfeito que conseguia. – Você nota o quanto me esforço para chamar a sua atenção, simplesmente ignora e depois vem buscar alguma satisfação comigo como se eu não estivesse movendo um dedo por nós quando é você que nem mesmo se levantou para fazer alguma coisa.

Não aguentava mais ver o professor Thomas lendo seu jornal sem se voltar para ela, então decidiu abusar do improviso, caminhando com delicadeza até chegar próxima dele e arrancar o jornal de suas mãos. Ainda interpretando o papel da personagem, se fingiu de irritada, rasgando o papel em pedaços.

— Eu tenho sua atenção agora? – Perguntou ela irritada o suficiente para pegar a sua bolsa e sair dali.

— Senhorita Hamswere? – Emily para ao ouvir seu nome nos lábios do velho ranzinza. – Primeira lição do curso: Nem sempre terá a atenção de todos os espectadores. Não importa o quanto se esforce ou tente parecer perfeita. Alguns deles apenas estão lá por estar e não por admirarem de fato o teatro. Se esforce para ser a personagem por aqueles que estão lá por ela. O resto é só... O resto.

A morena respirou fundo e abriu a porta indo para fora do teatro que havia na universidade. E ela pode não ter visto, mas o professor sorriu com a determinação dela.”

Emily se enrola na toalha depois do banho mais demorado que já tomou, indo em direção a arara onde o vestido de Julieta estava. Era vermelho com mangas compridas e cheias, repleto de fitas que laceavam toda sua barriga até o início dos quadris, demarcando perfeitamente a parte de cima de seu corpo. Fez uma tiara de tranças com o próprio cabelo, deixando vários fios soltos com ondas caindo como cascatas sobre seu busto. Passou uma maquiagem bem leve, que vista a uma certa distância dava uma impressão extremamente natural, como se não estivesse usando absolutamente nada.

Estava pronta, mas não tinha certeza se estava preparada para mais drama em sua vida. Mas antes Julieta do que ela. E com essa linha de pensamento a morena se levanta, saindo do camarim e indo até o professor Thomas, que reunia todos os atores atrás das cortinas. Ele estava mais ansioso que todos ali, e ninguém jamais havia o visto tão feliz. Já interpretaram aquela peça milhares de vezes, mas parecia ser um dia importante para ele. Com vários olheiros na plateia, a ideia de ter um de seus alunos se tornando grandes atores o fazia vibrar. Principalmente porque isso lhe daria renome.

— Todos vocês sabem que eu detesto bancar o sentimental, mas o dia de hoje provavelmente irá marcar a vida de vocês para sempre. É ela quem irá traçar o futuro de cada um. Eu não sei exatamente quem os olheiros irão escolher, mas se nada der certo, saibam que não é porque não têm talento. Porque isso vocês tem e ainda sobra para todo mundo dentro desse teatro. E eu tenho mais e mais certeza disso todos os dias que entro pela porta daquela sala de aula. Estou orgulhoso de vocês, meus meninos. Talvez a escolha que farão hoje pode afetar o seu amanhã então peço que escolham sabiamente... E interpretem com toda a sinceridade que conseguirem. – Ele diz recebendo aplausos logo em seguida.

Emily se afastou da multidão e deu uma olhada entre as cortinas, procurando o rosto de Chloe em meio a todas aquelas pessoas, entretanto, viu um rosto do qual não esperava. Ian estava ali, em pé, ao fundo do teatro, como se tentasse se esconder no escuro, mas era impossível não encontrar seu rosto. Sentiu seu estômago revirar e seu coração disparar. Como se concentrar no Romeu de Julieta se o seu estava bem ali, sem nenhum motivo aparente? Queria fugir. Não aguentaria ficar mais um segundo próximo a ele de novo. Mas que droga! Queria se afastar e ele simplesmente aparece ali.

— Preparada Julieta? – Perguntou o professor Thomas com um sorriso iluminado e Emily negou quase que imediatamente, sem nem mesmo se dar conta disso. – Como assim?

— Eu sinto muito professor... Não consigo.

— Emily...

— Simplesmente não consigo. – A morena diz descendo do palco ainda por trás das cortinas e quando estava prestes a ir em direção a porta da saída, Ian a viu. E seus olhos se arregalaram ao vê-la sair dali, quando a apresentação estava prestes a começar.

Ela correu como se estivesse fugindo do seu maior medo, indo em direção ao seu camarim e fechando a porta sentindo seus pulmões se inflarem rapidamente quase explodindo dentro de si. Caminha até a sua bolsa e retira dali um demaquilante, onde tira cuidadosamente sua maquiagem, se arrumando mais uma vez ali dentro, mas dessa vez para ir embora de vez. Pega o celular deixando uma mensagem para Chloe avisando que iriam imediatamente para o aeroporto. Haviam passado o dia inteiro organizando tudo para irem embora ainda durante a noite e agora que aquilo estava mais perto, tornava tudo ainda mais real.

— O que pensa que está fazendo? – Ian surge ali atordoado. Definitivamente não esperava aquilo.

— O que você pensa que está fazendo? – Ela devolve a pergunta, continuando o que estava fazendo em uma tentativa fajuta de não encará-lo. Parecia mais um dos vários sonhos que teve nas últimas noites em que estava sem ele.

— Eu vim ver você! Depois de todos esses meses treinando para ser Julieta... Conseguiu o papel e agora vai abandoná-lo? Aliás, eu nem vim para dizer exatamente isso,...

— Ian...

— Não! Agora você quem vai me ouvir. – Ele grita fazendo ela se calar imediatamente. Se arrependeu por alguns segundos imaginando que ela houvesse se irritado. Mas, Emily estava tão absorta diante daquela situação que nem mesmo sabia o que estava sentindo naquele momento. –Tem ideia de como foram esses dias sem você? Eu não preguei o olho um segundo, mal comia e meu humor que já não era lá essas coisas fez a vida de todos com quem convivo um inferno. Eu descobri que me importo com você, morena. Mais do que me importo comigo mesmo. E foi exatamente por esse motivo que eu não fui atrás de você, não peguei a droga do meu telefone e apertei em ligar cada vez que disquei seu número quando a saudade batia. Realmente foi muito egoísmo da sua parte ter ido embora, então decidi ser egoísta também e vim atrás de você. Eu gosto de você... Eu...

— Gosta como, Ian?

— Emily, isso não vem...

— Gosta. Como? – Ela pergunta mais uma vez, pausadamente, e ele respira fundo.

— Eu não sei explicar isso nem mesmo para mim. Ainda estou confuso com toda essa situação e sou péssimo com palavras. Me dê os créditos.

— Então desenhe... Ou pelo menos se esforce pra explicar por que... Eu não quero me magoar.

— Queria poder responder isso a você, mas nenhum de nós sabe o amanhã. Tudo que eu sei é o agora e que estou disposto a me esforçar o máximo para que você sinta que possa confiar seus sentimentos a mim. E é por isso que quero te levar a um lugar...

— Ian... – Ele sorri ao ver os olhos dela brilhando em curiosidade apesar da sua expressão irritada mostrar o completo oposto.

— Confia em mim? – Ian estende uma das mãos para Emily, pronto para lutar para ela, o que foi impossível não segurar.

— Sabe que sim. – A morena sussurrou em resposta.

Ela vai até o banheiro e coloca sua roupa, deixando o vestido de Julieta sobre um sofá que havia ali, e junto de Ian, sai do teatro e ele a leva até o carro dele. Assim que chegou ao aeroporto, Emily ficava ainda mais curiosa com tudo aquilo, mas decidiu se arriscar pela primeira vez e entrar de cabeça no que estava prestes a acontecer. Ele apertou a mão dela sobre a sua, lhe transmitindo confiança o suficiente para que ela entrasse no jatinho que os esperava.

Se Emily já não estava segura ao estar na cama com o inimigo, a situação pioraria. A morena agora ia em direção a um campo minado. Um passo em falso e tudo pode vir a tona.

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Sicília, Itália

Vitor chega em casa exausto depois de passar a tarde toda brincando com sua filha, Alícia. Haviam brincado na praia em frente sua casa, no parquinho do centro da cidade e também na casa dos avós da pequena, Augustos e Catarina. O dia foi corrido para ele. Valentina havia ficado em casa, estava cansada por conta do mal estar da gravidez. Ás vezes era assim, ela simplesmente não acordava disposta e Vitor sabe que ela precisa de um certo descanso. E com Alícia em casa, esse descanso nunca aconteceria.

Quando retornaram para casa, Alícia já dormia nos braços do pai em um sono profundo. Ele ia levando a pequena para seu quarto quando Valentina apareceu no corredor. Percebendo que sua filha dormia, ela sorriu e andou em passos silenciosos atrás do marido até o quarto da filha, onde, depois de Vitor a ter deixado sobre a cama, trocou suas roupas sujas por seu pijama de coelhos sem que a mesma acordasse.

Depois de beijar a filha, os dois se retiraram e caminharam abraçados até o quarto deles.

— Alícia me quebrou hoje! — Exclamou Vitor, sentando sobre a cama e retirando sua camisa, respirando fundo.

Valentina sorriu.

— Ainda não se acostumou com sua filha ligada no 320? — Zombou.

Vitor sorriu.

— Só quero ver quando meu filho mais novo nascer. Não vou ter tanta energia assim. — Comentou ele olhando a esposa com carinho.

Valentina sorriu, suas bochechas coraram e Vitor sorriu também, admirado com a beleza da mulher e como ela, mesmo depois de tantos anos, continuava a mesma garota apaixonada quando a conheceu.

— Nosso filho me ligou hoje. — Lembra ela. — Ele está vindo nos visitar.

— Sério? Que ótimo! Assim poderemos dividir a energia de Alicia ao meio. — Brincou ele.

Valentina sorriu.

— É, mas ele não está vindo sozinho...

— Lorenzo também vem?

Valentina negou com a cabeça. O sorriso dela se aumentando e mal cabendo no rosto, fez Vitor suspeitar profundamente de que algo estava acontecendo.

E estava.

A neta de Anthony Gavin Brian, inimigo declarado de seu sogro, Augustos Baldocchi, estava nesse momento em um jatinho junto de seu filho a caminho de sua casa, pronta para o conhecer. Ah! Como o destino gosta de brincar com a sorte das pessoas. Brinca e desafia até que uma hora a bomba tem de explodir. E que Deus tenha piedade das almas bondosas.

E os mafiosos? Para quem eles devem rogar? Será que o Diabo atende aos finais de semana?

E la guerra tra la famiglia, l'amore prevale sempre.

Será?

Notas finais
Ma che diavolo! = Mas que diabos! E la guerra tra la famiglia, l'amore prevale sempre. = E a guerra entre a família, o amor prevalece.