O som dos sapatos altos de Valentina ecoava pelos corredores da casa. A expressão fechada fazia com que os empregados recuassem sem pensar duas vezes. Os punhos fechados prestes a atacar o primeiro que visse pela frente. Como pôde ser tão tola? Ser enganada assim tão facilmente por aquela garota? Abriu a porta da sua casa para uma inimiga e nem se deu conta disso! Mas, agora ela sabe. E vai agir.

Ninguém rouba sua coroa.

Vitor sobressalta na cadeira quando Valentina invade seu escritório, quase arrombando a porta.

— Pelo amor de Deus, Valentina, o que é isso? – Indaga ele, olhando assustado para a esposa.

Valentina se aproxima vagarosamente.

— Vitor, nós fomos traídos. – Diz convicta.

****

A luz do Sol batia nas cortinas quase transparentes do quarto, deixando o cômodo completamente claro, enquanto o mar parecia estar bastante agitado naquela manhã. Emily estava deitada sobre o peito de Ian, que continuava com o braço firme em volta de seu corpo, temendo a cada segundo que ela fugisse dali. Seus olhos acinzentados se abriram aos poucos, se acostumando com toda aquela claridade. Sua cabeça estava uma verdadeira bagunça, mas aos poucos se organizava em ordem cronológica e um sorriso surgiu em seu rosto ao se lembrar da noite passada... As mãos sobre ele era prova o suficiente de que não havia delirado. Estava prestes a aproveitar que ainda sentia sono para continuar dormindo quando ouviu batidas incessantes na porta.

— Ian. Emily. – O grito infantil e estridente de Alicia fez com que ela se levantasse imediatamente temendo que a pequena o acordasse. Quando estava prestes a abrir a porta, se deu conta que estava nua e então pegou uma das camisetas de Ian que estava jogada nos pés da cama.

— O que aconteceu? Está tudo bem? – Perguntou assim que abriu a porta se deparando com um projeto de gente usando um pijama. O coque bagunçado em seu cabelo demonstrava que havia acabado de acordar.

— Claro que está. O céu está lindo! A água do mar está uma delícia e mamãe não quer me levar para passear na praia.

— Seu irmão está dormindo querida, mas aposto que ele não irá se incomodar em levar você quando acordar. – Sussurrou Emily tomando muito cuidado com as palavras. A garota está começando a gostar dela agora, não podia escorregar.

— Você não pode ir com a gente também? – Aquilo pegou a morena de surpresa, mas ela não perdeu a compostura, sorrindo abertamente, agradecida pelo convite.

— Claro. O que acha de me mostrar sua coleção de bonecas agora? Está de dia, então sua babá não deve se incomodar.

— Não mesmo! – Exclamou Alicia, que mal a deixou terminar o que dizia, arrastando Emily para seu quarto antes que ela pudesse trocar de roupa. Sentiu suas bochechas queimarem quando os funcionários passavam pelos corredores, entretanto eles pareciam não se importar com as vestes da moça. Pelo contrário, sequer a olhavam do pescoço para baixo. Parecia haver um respeito imenso diante das visitas ali. – Entra. Entra.

O quarto da pequena parecia mais organizado do que a última vez que entrou, algo que achava completamente impossível. A morena se senta em um pequeno banquinho lilás enquanto Alicia caminhava entre as bonecas, completamente indecisa sobre quais apresentar a Emily.

— Essa é a Willow, Fiona e Tracy. São as minhas favoritas porque eram da mamãe, que disse que essas são especiais porque foram feitas para ela. Eu ganhei duas assim também, mas ainda prefiro as dela.

— De fato são as bonecas mais lindas que eu já vi. E os nomes são uma graça. Imagino quem teve tamanha criatividade...

— Eu mesma! – Interrompeu ela com um sorriso orgulhoso no rosto, já pegando outras bonecas. – Essa é a Maru.

— Uau, ela é muito parecida com você!

— Mamãe exigiu exatamente isso. – A pequena riu ao lembrar do quanto Valentina trabalhou duro para realizar seu sonho de ter uma boneca exatamente igual a ela.

— Ela com certeza é uma das melhores mães do mundo, não é? – Emily perguntou sem esperar por resposta. Alicia assentiu mais vezes do que podia contar e voltou a procurar por mais delas. Eram tantas, que mal sabia por onde começar e, admitia, estava adorando ver a morena tão atenta a tudo. A maioria sempre se mostrou entediado, mas ela não se importava, afinal, queria mesmo era mostrar e explicar cada detalhe de seus brinquedos.

— Vejo que acordou cedo, Emily! Esqueci de mencionar que tínhamos um despertador ambulante... – Sussurrou Marilou, a babá de Alicia que acabara de adentrar o quarto. – O café da manhã já está posto, vamos pequena? Emily, se quiser nos acompanhar...

— Eu agradeço, mas acho que irei esperar Ian acor...

— Emily! – A voz grossa de Ian ecoava pelos corredores e logo a visão dele ao fim do corredor, desesperado, aparece. Seus olhos se encontram com os dela em uma fração de segundos assim que a mesma para no batente da porta, deixando as bonecas de lado. – Você está aqui!

— Estou. Para onde mais eu iria? – Perguntou a morena, apesar de saber a resposta. A babá deu apenas um olhar a criança que entendeu o recado e a seguiu para o andar de baixo. Assim que as duas desaparecem do segundo andar, Emily faz questão de puxar Ian para um beijo lento e demorado, já se acostumando com os funcionários discretos. – Bom dia.

— Ótimo dia. Por que saiu da cama? Poderia ficar o dia todo ali.

— Poderia, mas temos compromisso.

— Como assim? – Ele pareceu confuso.

— Alicia quer companhia em seu passeio pela praia, mas acho que preciso de um banho antes. – Comentou, já vendo o brilho malicioso que surgia no olhar de Ian.

— Talvez eu possa ajudar minha namorada com isso.

— Sua namorada? – Emily ficou surpresa com aquela palavra.

— Estou disposto a fazer direito dessa vez, morena. Não quero te perder de vista. – Murmurou colando suas testas enquanto acariciava o rosto macio dela.

— Eu percebi. – Ela disse rindo se lembrando de como ele apareceu ali. – Namorado. Gosto de como isso soa. Talvez eu me acostume com isso.

— Não é tão difícil assim. – Foi a vez dele sorrir.

Os dois voltam para o quarto sem tirar o sorriso do rosto, ao contrário das roupas que foram para o chão enquanto iam em direção ao banheiro. Até demorariam mais tempo ali se não ouvisse Alicia gritando por eles no andar de baixo. E o dia estava só começando.

****

Emily e Ian caminham de mãos dadas na praia enquanto Alicia corre e brinca com suas bonecas ao lado de sua babá, sendo vigiada de longe por seu irmão. Depois que colocou a pequena para dormir, Emily e ela se tornaram bem mais próximas do que podia imaginar. Agora a morena já podia se permitir a se sentir em casa.

— E então, o que está achando? – Indaga Ian, abraçando a amada de lado e caminhando a beira do mar, onde agora as ondas batiam em seus pés, fazendo Emily se arrepiar vez ou outra. O clima estava esfriando em Sicília.

— Eu estou adorando. – Respondeu ela. – Vou adorar voltar aqui mais vezes.

Ian sorri.

— Esse é o meu maior desejo. – Confessa, beijando o topo da cabeça de Emily.

Eles continuaram caminhando por mais alguns minutos até ouvirem a voz de Alicia gritar para eles, apontando para a entrada da casa, onde seu pai estava disposto ao lado de dois seguranças e acenava para que eles voltassem.

— Parece que aconteceu algo. Devíamos entrar. – Diz Emily.

Ian concorda e começam a caminhada de volta. Quando chegam no deck Ian pode perceber a rigidez do corpo de seu pai e isso o preocupa.

— O que foi? – Pergunta ele logo de cara.

— É melhor entrarmos e Emily, por favor, siga-nos. É importante que participe dessa reunião.

Emily olhou confusa para Ian que lhe retribuiu o olhar. Seu estômago se abriu e teve medo que eles tenham descoberto a verdade sobre ela, sobre sua Máfia. Ela quase decide sair correndo dali, pegando uma das armas na cintura de um dos brutamontes ao lado de Vitor e fugir para longe. Mas ela se mantém calma. Foi bem treinada. Não é como se a família de Ian fosse lhe fazer mal.

— Claro, eu vou. – Diz ela, demonstrando um sorriso nervoso.

Ela agarrou a mão de Ian e a apertou com força. Alicia continuou a brincar na praia por ordem do pai. Quando entraram na sala de estar, Valentina andava de um lado para o outro e, bem, estava muito brava. Dessa vez ela usa um vestido que bate acima do seu joelho. Um vestido branco com um decote singelo. Por ser um vestido justo, a barriga de Valentina fica marcada, deixando claro para quem quisesse ver que ela estava grávida de mais um herdeiro. Ian havia dito a Emily a preocupação de sua mãe por conta do crescimento de sua barriga, e agora que parece crescer a cada dia, ela fazia questão de mostrar e melhor, de sentir.

— Mãe, o que está acontecendo? – Pergunta Ian, se aproximando.

Valentina para e encara o jovem casal. Seus olhos parecem que vão saltar a qualquer momento.

— O problema Ian, é essa inútil! – Gritou, apontando na direção de Emily.

A morena estremece com o insulto. Pronto, eles descobriram. É o fim. Quando ela abre a boca para tentar começar a explicar, uma moça atrás dela se adianta.

— Por favor, dona Valentina, eu não fiz por mal, eu juro. Eu juro! – Choramingou. Emily se vira e percebe que a mãe de Ian havia apontado para a jovem atrás de si e não para ela. Emily nunca respirou tão tranquila depois desse instante.

— O que você fez?

Valentina dá uma risada fria.

— Ela simplesmente contou aos Bergamo onde pretendíamos fazer o aniversário de Alicia e hoje de manhã, quando fui ligar para a nossa organizadora e dizer que podia fechar o negócio com o dono do lugar, ela simplesmente me diz que ele já foi alugado! – Valentina grita a última palavra. – E agora eu não posso mais fazer a festa da minha filha!

Vitor, que estava atrás do balcão de bebidas sacode a cabeça pensando porque sua mulher tinha que ser tão dramática. Emily estava confusa demais para perguntar a Ian quem era esses tais de Bergamo.

— E-e-e-eu não sabia que eles iriam fazer isso, minha senhora. – Defendeu-se uma das babás de Alicia, que, há uns dias atrás, ao levar a menina para brincar na praça, acabou encontrando com a babá dos Bergamo e em uma conversa casual contou onde seria o local do tão esperado aniversário da neta dos Baldocchi.

Claro que ela não sabia da rixa de Valentina com Sandra Bergamo, mãe de Juscelina, coleguinha de Alicia.

— Mentira! – Gritou ela de volta. – Foi de propósito! Quanto foi que aquela vaca da Sandra te pagou, hein?

— Valentina! – Repreendeu Vitor, farto de toda aquela gritaria. – Chega, a babá não fez de propósito e você sabe, se acalme.

Valentina virou-se para o marido. Os olhos ainda pareciam que iam saltar a qualquer instante, fazendo Vitor se recuar alguns passos.

— Calma? Calma? Aquela disgraziata roubou o local onde seria a festa de Alicia e ainda fez de propósito porque ela me odeia.

— Talvez, se você não tivesse falido a boutique dela no centro... – Sussurrou Ian, se sentando largado no sofá, irritando ainda mais a mãe.

— Eu não fali negócio algum. Apenas espalhei certos boatos... – Mencionou a patriarca, fazendo careta e aos poucos começando a se acalmar.

— Que boatos? – Perguntou Emily a Ian.

— Nem queira saber. – Respondeu ele, sorrindo.

— O ponto é que levei Alicia mês passado lá no local e ela adorou, sempre comenta dele perguntando quando vai ser a festa. E agora vou ter que dizer que não vamos mais porque uma figlia di una cagna...

— Valentina... – Repreendeu Vitor mais uma vez.

— Certo, me desculpa, porque aquela velha tem inveja de mim e da minha filha.

Emily ficou um pouco assustada com a reação de Valentina. Nunca a imaginou xingando daquela maneira, ou agindo daquela maneira... Para ela, a mãe de seu amado estava sempre no salto alto e resolvia as coisas com muita calma e sabedoria. Do mesmo modo que sua mãe, Sophie, fazia. Mas ao se lembrar de como sua mãe reagia quando mexiam com ela na escola, achou a reação de Valentina bem normal para uma mãe.

— Alicia é uma menina esperta, vai entender. – Disse Vitor, se aproximando da esposa e a abraçando. – Se quiser posso colocar nossos homens para resolver esse problema, eles não vão negar um favor a Cosa Nostra.— Diz ele em italiano.

— Eu sei que sim, a cidade toda faria. Mas tenho medo que Alicia descubra isso de alguma forma. Baldocchi rouba local de festa para sua filha por conta de favores mafiosos. Não é desse jeito que quero que ela descubra. – Respondeu ela, também em italiano por conta de Emily.

Vitor aconchegou Valentina em seus braços e ela se acalmou por alguns instantes. Mas claro, só por alguns instantes.

— Vou até o evento e conversar com eles pessoalmente, não vou deixar que eles aluguem o espaço da minha filha para outra pessoa tão facilmente. – Disse.

Vitor jogou a cabeça para trás, respirando fundo. Ele sorri e apenas agradece mentalmente por Valentina estar ocupada com essas coisas fúteis. A Cosa Nostra está com alguns problemas sérios e ele não quer que a esposa se envolva por conta do estresse que pode causar a ela e prejudicar o bebê. Ainda mais agora que, após uma consulta feita ainda ontem, o médico disse que a criança estava se formando sem nenhum problema, mas ainda assim ela teria que tomar certos cuidados durante a gestação. Pelo menos esse estresse por conta da festa da filha não se compara ao estresse que ela passaria com assuntos mafiosos. Mas mesmo assim Vitor se preocupa, Valentina leva as coisas tão à flor da pele...

— Eu posso ir com você, caso queira companhia, Valentina. – Emily se ofereceu, pegando todos de surpresa. Até mesmo Vitor, que já estava pensando em cancelar seus compromissos de hoje para acompanhar a esposa.

— Seria ótimo, Emily. Desde que você não se assuste caso eu precise estourar a cabeça de alguém naquele lugar, por mim tudo bem.

Emily dá risada da piada de mãe de Ian, mas quando ela percebe que todos permaneceram sérios, ela se calou. Valentina não teria coragem, teria? Ian puxou Emily e riu da cara de espanto da amada, a confortando dizendo que Valentina no máximo manda botar fogo no local quando todos já tivessem saído.

E mais uma vez Emily riu e Ian permaneceu sério. Emily se perguntou se havia se metido em uma enrascada antes de entrar no carro com a sogra a caminho do local do evento. Porém durante o trajeto, Valentina de alguma forma se acalmou e conversou tranquilamente com a morena. Contou a ela sobre a rixa com a família Bergamo e porque ficou tão furiosa. Disse também que ela sempre foi muito emotiva, mas piora na gestação.

Contou detalhes de como planejava fazer a festa da filha naquele espaço – um antigo castelo usado para eventos – e que iria ficar lindo. Ela em nenhuma vez supôs que não iria fazer a festa naquele lugar, o que preocupa Emily de certo modo, já que Valentina parecia determinada. Quando chegaram à recepção da empresa de eventos, Valentina com um sorriso sereno no rosto pediu para falar com a organizadora com quem vinha tratando.

— A senhorita Amabile não está no momento.— Respondeu a secretária com desdém.

Valentina respira fundo e sorri, afastando vários pensamentos mórbidos de sua cabeça.

— Então me deixe falar com o seu chefe.— Disse.

Emily olhava de Valentina para a secretária, da secretária para Valentina sem entender uma só palavra.

— Você tem hora marcada?

— Não.

— Então infelizmente não posso coloca-la em contato com ele. São normas da empresa.— Explicou.

Valentina analisa a secretária. Quanta petulância... Se ela pudesse simplesmente gritar que ela é Valentina Baldocchi e exigir que o dono daquele lugar a atenda com champanhe e morangos ela iria mostrar o que são normas de verdade. Mas com Emily ao seu lado, teria que se segurar... Emily, por sua vez, sente seu estômago se embrulhar só de pensar em Valentina se envolvendo em confusão ainda mais com ela grávida. Porém Emily se pegava em dúvida sobre quem teria que socorrer: a mãe de Ian ou a pobre secretária. Mesmo sem entender uma só palavra do que elas conversavam, sabia que não estava do jeito que Valentina queria.

Valentina demorou alguns minutos para voltar a falar.

— Diga a seu chefe que Valentina está aqui. Ele saberá quem é.

A secretária olhou para ela já de saco cheio, mas antes que protestasse, Valentina completou:

— Isso não é um pedido.— Mesmo que tenha falado com calma, a secretária engoliu em seco e bem lentamente se levantou e foi até a sala do chefe. Alguns minutos depois ela voltou com a cara de espanto, isso fez o rosto de Valentina se iluminar.

— Oh Senhora Valentina, me desculpe, não sabia que era a senhora. Por favor, entre. Meu chefe irá atende-la.

O sorriso de Valentina foi satisfatório e Emily se esforçava para entender o que estava acontecendo ali. A esposa de Vitor pediu que a morena a esperasse na recepção enquanto ela resolvia o assunto lá dentro, e mesmo relutante Emily concordou em esperar. Mas, não ficou menos de 20 minutos aguardando que Valentina já saiu do escritório com um sorriso de canto, toda satisfeita. Ajeitou a bolsa e chamou por Emily e começaram a caminhar — seguidas por dois seguranças – de volta para o carro.

— Então, como foi? Vão te pagar de volta o dinheiro da festa? – Perguntou a morena, curiosa.

— A mim não, mas com certeza irão pagar a família Bergamo pelo inconveniente de terem que cancelar a festa da filha deles. – Respondeu ela com tranquilidade e com o senso de dever cumprido.

Emily piscou os olhos confusas.

— Está dizendo que conseguiu a data para a festa de Alicia? – Indagou.

Valentina se acomodou no banco do carro e esperou que Emily fizesse o mesmo antes de respondê-la. Ela retirou os óculos escuros e a fitou.

— Emily, preciso que você entenda algo simples e rápido sobre minha família: nós sempre conseguimos o que queremos. Não importa o que seja, nós conseguimos.

Emily meio boquiaberta apenas assentiu. No caminho de volta, as duas voltaram conversando sobre um pouco de tudo, rindo e se divertindo. Mas ora, se as duas soubessem o que estavam por vir, nem uma nem outra se tratariam tão bem e trocariam confidencias.

E, pobre Emily, queria ela que Valentina nunca desejasse sua cabeça em uma bandeja, já que dizem por aí que o que Valentina quer, ela tem.

**

O Sol estava se pondo aos poucos e logo escureceu, fazendo com que as ondas do mar se acalmassem, além do barulho de alguns bichinhos que completavam perfeitamente bem a paisagem que Emily observava, próxima a lareira em função do frio e com a pequena Alicia em seu colo. Ela parecia cansada. Provavelmente brincou muito quando ela e Valentina foram resolver o pequeno problema em relação a sua festa. Ainda estava desconfiada com a maneira prática e rápida como tudo foi solucionado.

Sabia que a família Chiacchio era bastante famosa na cidade e a empresa deles produzia mais dinheiro do que podia contar – prova disso é aquela mansão enorme e a facilidade que tinham que tinham para viajar e ter imóveis em um piscar de olhos. Estariam eles envolvidos em algo ilegal? Nem a maior profissão do mundo traria tanta riqueza, a não ser que houvesse ilegalidade no meio.

Ou eles economizavam muito, teoria que era minada só de ver Valentina surtando com um lugar para o evento infantil. Ficou ali, observando o rosto sereno de Alicia, ao mesmo tempo em que observava Valentina em uma poltrona lendo algum livro banal. Ela tinha um ar superior, de fato, mas parecia impossível imaginar ela cometendo algo que não seja legal. Quem Emily quer enganar? A criminosa ali dentro era ela. E cada segundo ali era perigoso para aquela família. Mas, como ir embora? Se sentia egoísta por continuar ali. A imagem do segurança da Cosa Nostra observando a irmã de Ian brincar continuava na sua memória de maneira clara e fresca, como se ocorrera a poucos segundos atrás.

— Ian, meu filho. Espera! – O barulho ensurdecedor da porta se abrindo e fechando logo em seguida assustou a todos, inclusive Alicia, que levanta em um sobressalto. Ian subia as escadas praticamente cuspindo fogo. O rosto vermelho, pisando duro sobre os degraus. Emily e Valentina também levantaram assustadas. Nunca viram ele assim. Vitor entra logo em seguida a tempo de ver o filho desaparecer de sua vista. Augustos também acaba entrando ali.

Os olhos demonstrando um misto de raiva e arrependimento que a morena não conseguia avaliar corretamente. Ele já estava prestes a subir a escada também quando ela corre andar acima, deixando o pai de Valentina um tanto quanto perturbado por ter sido interrompido, mesmo sabendo que a garota saberia conversar melhor com o neto. Quando seus olhos pousaram na filha, ela soube: Seu pai havia feito alguma coisa para deixa-lo daquela maneira.

— Ian! – Exclamou Emily ao encontrar alguns objetos do quarto sendo estraçalhados na porta. Um deles quase havia a atingido se não tivesse desviado com maestria. Ele mal a olhava. – O que está acontecendo?

— Não estou afim de conversar, morena. Não quero que me veja assim, sai daqui, por favor.

— Me tire então! Só saio arrastada. Vai sonhando que te deixarei assim. – Falou como se aquilo fosse óbvio.

— Você já me deixou assim, se lembra? – Ele riu debochado, quebrando mais um objeto de vidro. Dessa vez, na parede. – Me abandonou como se eu não me importasse. Agiu como se o mundo girasse em torno de você e esqueceu que na amizade que tivemos, eu também estava no meio!

— Não quer dizer isso. – Ela sussurrou, sentindo como se levasse vários socos no estomago.

— Estou cansado de ser eu aquele que corre atrás de você. Emy, você deveria estar me levando para sua casa para conhecer seus pais. Você quem deveria estar se esforçando para mostrar que se importa porque, p.s., você quem desistiu de nós! Vir aqui foi um erro.

— Ian...

— Foi um erro. É verdade. O grande Augustos Baldocchi não entende que eu comando a organização agora. Eu estou no comando. Ele nunca me dará os créditos. Vocês dois são iguais.

— Sério que está nos comparando?

— Não queria dizer isso, morena. Não quero te magoar. Por favor, saia.

— Não.

— Vai embora, porra. – Gritou ele, dessa vez segurando Emily pelos braços, soltando ela ao se dar conta de que não foi isso que aprendeu. Precisava manter a calma. Caminhou em direção a sacada, procurando respirar como se tivesse corrido uma maratona. A morena estava surpresa, sem reação. Já viu o avô, Anthony, agir daquela maneira. Até mesmo seu pai e tios, em tempo de crise na máfia. Mas, Ian... Aquele homem ainda conseguia ser uma caixinha de surpresas. Estava completamente alheia, sem saber como ajudar, o que fazer...

Então ela deu o primeiro passo. As pernas ainda bambas desviando de alguns cacos de vidro. Quando finalmente chegou até a sacada, seus braços sutilmente envolveram o corpo de Ian. A respiração descompassada pareceu encontrar seu rumo e se encaixar como um quebra cabeça. O rosto dela grudou nas costas dele, não antes de depositar um beijo naquela região. Ele, espantado, mas sentindo a calmaria invadir seus pulmões tão rápido como se iniciou, se virou para ela, ainda com uma carranca estampada no rosto. Emily, ao contrário, sorria, como se sua mente apagasse o que ocorrera a poucos minutos.

— Não importa o que diga, não importa o que faça... Só irei embora quando ver em seus olhos que o pedido é verdadeiro. E, adivinha? Não vi verdade em nada disso... – Sussurrou ela, o puxando para o sofá que havia na varanda e se sentando ao seu lado. Suas mãos acariciaram sua cabeça com delicadeza, sem tirar o sorriso do rosto. Os olhos de Ian aos poucos perderam contra o sono e, na entrada do quarto, Vitor e Valentina observavam a cena pelo vidro e sorriram. Para eles é como se verem mais jovens nos dois. As brigas, as reconciliações após as brigas... Tudo. É como se Emily e Ian fossem uma versão mais jovem e adaptada deles. Eles só torciam para que o drama ficasse apenas ali, no amor jovem.

Ah, mal sabiam eles...

*****

Chicago, EUA.

Joe estava deitado no sofá assistindo um programa de TV qualquer enquanto bebia uma cerveja barata. Já passavam das três horas da manhã e Katherine ainda não havia chegado. A partir das duas e meia Joe se senta no sofá e conta os minutos para a chegada dela. É claro que, quase sempre, ele ia buscá-la, mas quando não, era assim que ficava. Ele já estava começando a ficar inquieto. Ele estava sem camisa, exibindo o físico – como dizia Katherine – e as tatuagens e uma calça jeans desbotada. Os cabelos pretos estavam desgrenhados e já estava na hora de cortar.

Joe roda o bracelete em seu pulso já nervoso com a demora da amiga. Decide levantar e ir ao banheiro e, assim que terminar, ir atrás dela. Lá dentro, ele ouve a porta se abrir. Suspira aliviado. Ela havia chegado. Quando sai do banheiro, acaba esbarrando na própria.

— Opa, vai com calma loirinha. — Brinca, a segurando pelo braço. Porém Katherine recua, escondendo o rosto.

— Agora não, Joe. – Diz, tentando se soltar. Joe logo percebe que algo estava errado. Katherine sempre voltava exausta dos rachas, mas sempre conversava com ele antes de finalmente ir dormir. Ela sempre chega elétrica! Exausta, mas elétrica. Já hoje...

— Calma aí, volta aqui... – Diz ele, voltando a segurar. Mas Katherine continua a recuar e os dois travam uma pequena briga. Joe tentando a todo custa a segurar e Katherine tentando a todo custo mantê-lo longe de si.

— Joe, me larga! Me solta! – Exclama a loira.

— Cacete Katherine, para com isso! – Gritou mais alto, usando toda sua força e a prensando contra a parede. Ele pegou o rosto de Katherine com uma das mãos e a forçou olhá-lo. E quando o fez, o coração de Joe parou por um segundo. – O que diabos aconteceu com você?

O rosto de Katherine estava destruído. Um olho roxo inchado, outro com um corte superficial abaixo da sobrancelha. Um canto da boca estava inchado, junto com outro corte. Suas bochechas vermelhas e em uma delas, uma marca certinha de uma mão. Joe ficou sem o que falar, mas depois do choque inicial, seu sangue ferveu. Katherine começou a chorar baixinho. Joe relaxou sua mão sobre o rosto dela e com as ponta dos dedos a acariciou. Encostou sua testa na dela e fechou os olhos com força, tentando não imaginar no pior. Ficaram assim por alguns minutos.

— Quem fez isso com você? – Perguntou ele, com a voz firme.

— Não vamos falar sobre isso. – Disse ela, fungando o nariz e olhando para o lado.

— É lógico que vamos falar sobre isso! – Exclamou, irritado. – Katherine olhe para você, você está... – A voz dele falhou, Kat fechou os olhos e mais lagrimas escorreram, ela sabia como estava, havia levado uma boa surra, a dor a lembrava a cada segundo. Joe se esforça para manter os olhos apenas no rosto dela, não queria ter que ver o estrago no resto do corpo, ele não aguentaria... – Tentaram algo contra você? Eles... eles te...

Katherine sabia o que ele queria dizer. Estupro. Mas ela negou com a cabeça. E de certo modo, aquilo havia sido mil vezes mais dolorido do que um estupro.

— Não, não foi isso. – Apressou em dizer.

Joe permitiu suspirar aliviado. Ainda com o corpo colado ao da amiga, a forçou gentilmente a encará-lo novamente. Todos aqueles hematomas... Ele vai matar todos os envolvidos. Com certeza vai. Katherine é importante demais para ele e como pode alguém fazer mal a ela?

— Quem foi o desgraçado que fez isso contigo? Me diga Kat e eu vou até o infer...

— Foi meu pai, Joe. – Confessou ela, sorrindo de nervoso. – Meu próprio pai fez isso e acredite em mim, não há muito o que fazer contra ele.

Joe ficou vermelho de raiva, se afastou da loira apenas para socar uma das paredes. Sua mão latejou, e ficou tão vermelha quanto seu rosto. Respirou fundo. Uma, duas, três vezes. Depois voltou a olhá-la e se arrependeu. Ela estava ainda mais machucada. Voltou a abraça-lá.

— Me diz o que fazer, por favor.

— Um café seria ótimo. – Disse ela, esboçando um sorriso fraco.

Joe também sorriu. Até naquela situação Katherine conseguia suavizar a situação. Ser ela mesma e continuar... Linda. Joe observou o rosto da amiga agora com mais intensidade. Katherine percebe e sua respiração pesa. Joe acaricia novamente o rosto dela e ela fecha os olhos ao sentir seu toque. Ele fita sua boca. Tão perto da sua... Mas, ele se segura. Não pode aproveitar dela dessa maneira. Por mais que tenha sentimentos por ela, não pode abusar. Ela já sofreu demais. Sendo assim, ele levanta a cabeça e deposita um beijo em sua testa.

— Vou fazer um café e pegar a caixa de remédio. Vamos limpar esses ferimentos e você vai me contar essa história direito, me ouviu? – Disse ele.

Katherine apenas assentiu. Ela não poderia contar tudo, mas vai desabafar e contar o suficiente para deixar o amigo mais tranquilo. Ela entrou no quarto apenas para trocar de roupa, colocando apenas uma camiseta velha de Joe por cima do lingerie. Sozinha, ela chorou mais um pouco.

Maldito seja o seu pai e seus negócios!

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Quando for descuidado até mesmo com um simples cigarro, lembre-se que a mais simples das faíscas conseguem criar grandes incêndios.