Mirrors

34 The Storm Is Coming...


Vitor levantou cedo, tomou um banho gelado para relaxar os músculos do corpo e acordar de uma vez. Saiu do banheiro, já entrando no closet e se vestiu com uma calça de linho preta, camisa social branca e um paletó do mesmo modelo que a calça. A casualidade de Vitor era essa. Parecer sempre o homem mais elegante da sala mesmo que não tenha a mínima intenção. Passou o perfume que Valentina tanto amava, e fazia isso apenas para agradá-la, adorava sentir sua esposa cafungando seu pescoço a procura da fragrância. E depois ouvi-la sussurrar “eu adoro esse cheiro” junto de um sorriso que era mais lindo do mundo. Alicia havia herdado o sorriso da mãe e também o costume de cafungar o pescoço do pai para sentir o cheiro do perfume. Vitor sorri só de se lembrar da esposa e de como sua filha lhe dará mil e uma toneladas de dores de cabeça quando crescer só por ter puxado a mãe.

Ah, Chiacchio, quem diria que aquela jovem moça que enganou tão friamente se tornaria uma das coisas mais valiosas que você teria?

Ao terminar de se arrumar, ele se vira em direção a saída do closet e dá de cara com sua esposa, vestindo uma lingerie azul marinho de renda encostada na batente da porta admirando seu marido.

— Por que você sempre tem que ser o cara mais elegante da sala? – Indaga ela, sorrindo.

— Porque sou casado com a mulher mais elegante da sala. – Respondeu, caminhando até ela e lhe beijando. Acariciou seu rosto e depois sua barriga, que já estava crescendo.

— Daqui a pouco são três meses completinhos. – Diz Valentina abobalhada.

— Vou lhe acompanhar ao médico hoje. Não se esqueça. – Avisa ele.

— Não vou. Que horas volta da reunião com Muriel?

— Não vamos demorar. Primeiro vamos revisar os contratos aqui mesmo, passar o nome de cada um que precisa da nossa atenção e depois vamos a casa de seu pai, finalizar o processo.

Valentina assentiu.

— Ah, não se esqueça de passar na vila e ir falar com a dona Flora, a filha dela ainda está em estado de choque. Precisamos resolver essa situação. Prometemos segurança a nosso povo.

Dona Flora é uma velha senhora moradora da Vila de Sicilia e dona de uma floricultura antiga passada de geração a geração. Teve uma filha a flor da idade, já muito velha, mas a menina nasceu com uma formosura sem igual, sempre chamou muita atenção. Nina, o nome da garota. Com dezessete anos, a caminho da escola foi sequestrada e molestada por um grupo de rapazes burgueses. Sobreviveu ao ataque, denunciou os garotos, porém a policia nada fez. E como já é tradição na Sicilia, o que se não pode esperar da policia, pede-se a Cosa Nostra.

— Pode deixar amore mio. Irei resolver este assunto. – Vitor depositou um beijo na testa da esposa e a deixou para que tomasse seu banho.

Desceu as escadas e deu de cara com Muriel já lhe esperando com um copo de bebida na mão.

— Não é muito cedo para isso? – Indagou Vitor, mesmo já sabendo de cor a resposta do amigo.

— Nunca é cedo para um copo de bebida. – Repetiu o que sempre dizia. – Trouxe os contratos. As armas chegarão em cerca de uma hora. A vistoria vai ser demorada, é melhor fazer uma reunião com os homens que vai levar, sabe, repassar tudo certinho. Não gosto daqueles irlandeses. – Muriel entregou a pasta cor de areia para Vitor enquanto caminhavam para dentro do escritório. Nessa pasta, havia listas e valores do arsenal pedido por Augustos que se perdeu no tiroteio meses atrás e estava sendo substituída. – Ian vai conosco? – Perguntou, ao se sentar de frente para o amigo e dar mais um gole no whisky.

Vitor passou os olhos pelas folhas e negou a pergunta de Muriel com a cabeça.

— Hoje não. – Disse com firmeza.

— Ele vai ficar furioso quando souber... – Atentou Muriel.

Vitor apenas deu de ombros.

— Ele está intertido com Emily. Está apaixonado. Deixe que ele passe tempo com a moça em paz. Além do mais, não quero essa garota fazendo perguntas sobre os nossos negócios.

— Não confia nela?

— Não confio em ninguém que não seja da minha família.

A resposta de Vitor foi certeira. Digna de um mafioso. Muriel não contestou.

— Vou mandar chamar os homens. – Anunciou Vitor, se levantando. – Sirva um copo para mim também.

Muriel sorriu e quando o amigo já estava prestes a sair, sussurrou:

— Não é cedo demais, Vitor querido... – Imitando a voz de Valentina.

Vitor ouviu, mas apenas sorriu e foi fazer o que devia.

***

Rio de Janeiro, Brasil

A sacada do quarto de Emily era o lugar favorito de Sophie desde que a filha saíra de casa. De alguma maneira aquilo apaziguava a saudade que sentia, como se pudesse alcançar sua eterna pequena ao chegar na linha do horizonte daquele majestoso oceano. O Sol nascera a poucas horas então ainda estava com seu pijama, tomando uma caneca cheia de café com leite para se manter de pé o resto do dia. Ethan sempre levantava mais cedo, mas logo ia lhe fazer companhia. Ela se senta na poltrona mais próxima com um sorriso no rosto, afinal, dias como aquele lhe traziam uma certa paz. Já estava quase cochilando quando ouviu os gritos do seu sogro, vindos do andar de baixo. Nem pensou duas vezes e já se levantou correndo em direção as vozes que escutava.

— O que está acontecendo? – Pergunta sem se importar com os seguranças, que saem do cômodo imediatamente, vendo Sophie como uma deixa para fugir da ira de seu patrão.

— Eu desisto. São todos uns incompetentes. Já era para Blair e eu estarmos há léguas daqui em algum lugar confortante, longe de toda essa bagunça... Onde está Emily? Estava tudo organizado para ela e, agora, tudo parece estar desandando, como se a máfia já devesse estar nas mãos dela e não nas nossas. – Resmungou Anthony quase fazendo um buraco no escritório, andando de um lado para o outro.

— Ela e Chloe precisaram ficar lá mais um tempinho. Querem aproveitar pelo menos uma semana com os amigos. – Sussurrou, mesmo sabendo exatamente onde a filha estava. Seu avô surtaria se soubesse... – Eu posso ajudar.

— Não é nada que esteja ao seu alcance. As coisas andam de mal a pior. Não era assim que eu queria entregar a organização para minha neta, mas nada está colaborando. Sinto que há algo por trás disso...

— Como assim?

— Sophie, estou há anos comandando tudo isso e as coisas nunca deram tão errado como estão dando agora.

— Tem alguma suspeita?

— Estou com essa pulga atrás da orelha há dias, mas não quero procurar ter certeza enquanto as meninas não chegarem e estarem perto de nós. – Ponderou, dessa vez falando mais baixo, para que ninguém pudesse ouvir.

— Ele acha que a Cosa Nostra descobriu nosso paradeiro e está querendo nos destruir aos poucos. – Ethan aparece dizimando a curiosidade da esposa, que agora estava completamente tensa. Emily estava no território do inimigo e havia chances deles saberem que estão todos bem? Podia desmaiar a qualquer minuto com aquela notícia. Sua filha estava em perigo. Céus! Quando aquele pesadelo iria acabar? Tudo estava bem, e agora ele parecia retornar.

— Entrarei em contato com as meninas para que elas venham logo. – Sophie usou todas as forças que tinha para não gaguejar.

— Não, meu amor, não precisa preocupá-las com isso. Ainda mais Emily. Temos que cuidar de tudo para que ela pegue uma época tranquila da máfia. Assim se acostuma com tudo facilmente. Estou até aliviado dela não ter assumido aquele dia. – Ethan diz suspirando alto e alcançando Sophie, abraçando a amada por trás. Se ele soubesse...

— Certo. Hm... Acho melhor eu ir. Vou tomar um banho e deixar vocês conversarem sobre os negócios.

Ela sai do escritório, praticamente correndo em direção ao seu quarto afim de alcançar seu celular, discando o número da sua filha com rapidez. Aquela não era uma boa hora para Emily deixar de atender o telefonema. Mas, a ligação cai na caixa postal. Queria implorar para que ela saísse de lá o mais rápido possível, mas se segurou. Lembrou a idade da morena, lembrou que a mesma tinha responsabilidades e sabia se cuidar sozinha, então apenas foi direta:

Oi filha, hm... Poderia me ligar quando ouvir essa mensagem? Não se preocupe, eu só quero saber se está bem, se está... Segura. E lembre-se que, não importa onde estiver, distância nenhuma é maior do que o amor que sinto por você. Se cuida.

Assim que termina a ligação, Ethan aparece no batente da porta com um sorriso no rosto. Era incrível como conseguia amá-la com a mesma intensidade de sempre, todos os dias. Nunca achava que seria possível ter algo que seus pais tiveram, mas lá estavam eles, depois de tanto tempo. Estar ali, no seu quarto, sabendo que logo no fim do corredor estava o de sua filha Emily, o fazia se perguntar como seria se o Ethan de anos atrás soubesse que estariam ali futuramente. Teria ele se arrependido de tudo? Provavelmente somente da coisa mais estúpida que fez: se afastar daquela mulher de olhos escuros que o olhava naquele momento, quando achou que aquela fosse a última opção. Nos últimos tempos, ele tem notado que juntos, eles eram ainda mais fortes apesar de todas as circunstâncias.

— Achei que ficaria conversando com Anthony... – Sussurrou ela sorrindo pela maneira carinhosa com a qual ele a encarava. Aquele olhar era capaz de aquietar todos os seus medos.

— Ele não tem condição nenhuma de conversar agora. Nos últimos dias anda obcecado que a Cosa Nostra tenha nos descoberto.

— As coisas andam tão feias assim? – Questiona Sophie, que tem cuidado somente de recrutar seguranças desde que sua filha fora para Chicago, ficando bem alheia a tudo. Ethan apenas assentiu, afinal, chegaria um momento em que não conseguiria esconder mais nada. Porque o tamanho do problema era maior do que ele imaginava.

***

Emily não havia dormido naquela noite, pois queria ter certeza que nada atrapalharia o sono do homem deitado ao seu lado, nem mesmo seus próprios pesadelos. Já estava amanhecendo, então decidiu organizar a bagunça daquele quarto, sem deixar de observar cada movimento de Ian, temendo acordá-lo. Ainda estava confusa sobre a noite passada e não sabia o que poderia perguntar ou como poderia reagir diante daquilo. Em menos de uma hora conseguiu colocar todas as coisas no lugar, inclusive sua cabeça. Decidiu que não tocaria no assunto. Seria melhor assim. Estava suada, pois o dia amanheceu mais quente que os outros, então correu para o banheiro, decidindo estrear a maravilhosa banheira que tinha ali, deixou a água bem gelada e entrou pronta para sair em menos de minutos, mas acabou ficando mais tempo do que esperava, encantada com a vista da praia que a grande janela em frente a banheira proporcionava.

— Deixa eu te ajudar. – Ofereceu Ian, que havia entrado no cômodo dando de cara com ela tentando ensaboar as costas. Ela não o encarou, continuando com os olhos fixos no mar agitado em plena manhã. Logo sentiu seu toque delicado sobre sua pele, contornando cada centímetro. – Assim está bom?

— Uhum. – Ela praticamente ronronou encostando a cabeça em seu peitoral, sem se importar em sujá-lo. Ele não era bobo, já havia entendido a indireta e acabou a ensaboando por completo.

— Sobre ontem...

— Shh... – Ela se vira para ele o calando com um beijo rápido, mas ainda assim o suficiente para sentir um arrepio. – Não precisa me dizer nada. Só precisa entrar nessa banheira e aproveitar essa vista maravilhosa comigo.

— Essa é uma das melhores ideias que você já teve. – Sussurrou Ian, já arrancando suas roupas e a acompanhando no banho. Logo Emily estava sobre ele, sentindo seu membro preencher cada espaço vazio de sua intimidade, se sentindo completa. Os olhos dela continuavam firmes, sem deixar de encarar a imensidão azul dos seus. Suas mãos revezavam entre caricia e leves puxões no seu cabelo.

— Ian... – Gemeu já aumentando a intensidade de seus movimentos.

— Vamos na praia...

— Quê?

— Hoje eu sou todo seu.

— Eu percebi. – Deu uma risada, apesar de um simples movimento brusco a fazer gemer mais uma vez. – A praia pode esperar.

— Pode sim. – Ele suspirou, jogando a cabeça para trás enquanto suas mãos auxiliavam os quadris da morena.

Depois de horas na banheira, os dois se vestem e partem para a praia. Alicia estava toda animada sem ao menos ter sido convidada, mas sua animação logo se desfaz quando sua babá insiste que fique para ajudá-la a fazer um bolo. Queria ficar perto do irmão não fazer bagunça na cozinha. Isso ela podia fazer quando quisesse.

O dia estava começando a ficar nublado, mas isso não impediu que Ian e Emily caminhassem pela praia durante horas. De mãos dadas, eles apenas apreciavam a vista e a presença um do outro. Ninguém precisava falar nada para tornar aquele momento especial. Eles apenas sentiam o amor, o carinho e a grandiosidade que era estar um perto do outro, ouvindo o barulho do mar e das gaivotas voando ao longe. Emily vez ou outra admirava o rosto do amado e via ele olhar distraído para as dunas de areia, para o céu quase cinza, para as ondas quebrando... Tudo estava tão calmo. Tão perfeito. Ela queria morar naquele momento para sempre se pudesse.

Em determinado momento, os dois se sentaram sobre a areia e observaram o mar calmo começando a se agitar. Provavelmente choveria mais tarde. Emily enterrou a cabeça no ombro de Ian e fechou os olhos levemente, até sentir um cutucão na cintura.

— Eu tenho algo para você. – Ian quebrou o silêncio.

—O que é? – Indagou a morena, confusa.

Ian tirou do bolso um anel antigo, de cor dourada com uma pedra vermelha já com o brilho apagado de onde saia duas flechas em direção contrarias.

— Uma vez, quando era criança, — Começou ele. – Minha mãe havia ficado grávida, mas logo no começo perdeu a criança. – A boca de Emily se abriu e fechou sem reação. Os olhos de Ian se entristeceram. – Meu pai sugeriu que fizéssemos uma viagem. Lembro-me de encará-la no avião com os olhos marejados e tristes e eu queria desesperadamente fazer algo para mudar isso. Minha mãe me trouxe para visitar meus avós. E ficamos assim, caminhando por horas e horas, se divertindo no mar e na areia. – Ian sorriu ao relembrar. – Era um momento frágil para ela e eu estava fazendo de tudo para animá-la. Decidi fazer um castelo de areia e enquanto cavava, achei esse anel e pensei “Uau, esse anel é a coisa mais preciosa que deve existir no mundo e eu o achei”.

Emily sorriu, imaginando a cena.

— Corri até minha mãe com o anel na mão, tomando cuidado para não deixá-lo cair e o entreguei a ela. O sorriso que ela deu me fez ganhar o dia. Ela me sentou em seu colo e começou a contar uma história de amor linda envolvendo um casal apaixonado e um pedido de casamento no meio do mar. Minha mãe é uma romântica antiga, então o casal acabou morrendo em um naufrágio e por isso o anel veio parar na praia. – Emily gargalhou e Ian também. Valentina e suas histórias dramáticas, pensaram eles. – Ela agradeceu o presente, mas disse que me devolveria um dia. – Nesse momento Ian encarou Emily e ela se deixou ali, naqueles olhos azuis. – Me devolveria no dia em notasse que eu havia encontrado uma mulher na qual eu fosse perdidamente apaixonado e sentisse do fundo da alma que não poderia viver sem ela.

A boca da morena secou, seu coração começou a bater rápido como se fosse explodir...

— Ela me devolveu esse anel hoje, Emily. E eu quero que fique com você.

A sinceridade no som da voz de Ian fez com que o mundo de Emily girasse. Então é assim que se sente quando está apaixonada? A história que ele compartilhou com ela, sobre sua mãe, sobre a perda que sofreram só a fez se sentir ainda mais importante na vida dele. E depois desse momento, ela já se sentia a vida dele.

— Ah, Ian... – Balbuciou, se segurando ao máximo para não chorar.

— Não é nenhuma joia, e com certeza não deve valer mais do que um euro. Também não é um pedido de casamento... Só quero que fique com ele para saber o quanto você importa para mim, tudo bem?

A garota sorriu.

— Tá tudo ótimo!

Ian colocou o anel no dedo anelar da mão direita, depois ela se sentou entre as pernas do amado descansando a cabeça no peito dele e intercalava seu olhar ora para o mar e as ondas quebrando, ora para o anel mais lindo que já havia visto em seu dedo. E eles ficaram ali por mais um tempo, aproveitando aquele momento. Aproveitando a calmaria. Porque logo a tempestade chegaria, e ela não vai passar tão rápido...

***

Emily entra correndo no casarão para beber um pouco de água, mas acaba encontrando o escritório de Vitor lotado de homens que saiam perfeitamente alinhados com ele liderando na frente. Um milhão de perguntas que haviam em sua cabeça poderiam ser respondidas com apenas alguns passos até aquele cômodo, mas aquilo não era certo. Lhe acolheram ali e ela vai ficar de desconfiança? Eles quem deviam desconfiar dela, não o contrário. Ficou parada no meio da casa, travando uma luta interna entre razão e emoção, mas seus pés pareceram falar por si só.

Suas mãos já estavam no computador do escritório, que por coincidência estava aberto em uma planilha. Já havia visto algo extremamente elaborado daquela maneira em sua casa. Estava separada em várias janelas, com preços e tipos de armas, além de um controle de vendas e compras perfeitamente bem feito. Ela sabia que havia algo ali.

Estava pronta para averiguar mais quando ouviu barulho da porta, saindo dali pela janela que estava aberta, dando a volta completa na casa, para entrar mais uma vez pelos fundos dando de cara com Vitor ali, que a cumprimentou casualmente entrando em seu escritório mais uma vez. Emily corre para seu quarto, pegando seu celular e ignorando todas as mensagens de sua mãe. Precisava descobrir mais, mas para isso precisava da ajuda de alguém. Alguém que ela sabia que saberia manter o bico fechado diante de seus pais e avós protetores.

— Eu espero que seja algo importante querida, pois seu tio está um pouco ocupado.— Murmurou Benjamim assim que atendeu o telefone, e, ao ouvir sussurros femininos, logo entendeu a ocupação na qual se encontrava.

— Tio, eu sinto muito te incomodar, mas eu preciso de informações sobre uma pessoa. Uma família na verdade. Se bem que começando por uma pessoa só, já ajudaria muito, mas quem?

— Emily...— Benjamim chama sua atenção em uma tentativa de fazê-la se decidir logo.

— Olha, eu estou... Namorando. – O que quer que seu tio estivesse bebendo, pareceu ter ficado preso em sua garganta, o engasgando. Então ela esperou que ele terminasse o teatro. – Preciso que puxe a ficha de Ian Chiacchio Baldocchi. A família dele tem uma empresa de... Eu preciso ir.

— Baldo... Bal... Emily, espera...

— Baldocchi. B-A-L-D-O-C-C-H-I. Seja rápido. – Ela desligou o telefone sem deixar o tio terminar de falar. Ian logo aparece atrás de si, e quando estavam a um palmo de distância, seu celular tocava novamente, dessa vez, o nome de Joe piscava na tela. – Hm...

— Pode atender, eu vou trazer nosso almoço aqui para cima.

— Não. Ian, sua mãe vai achar desrespeitoso...

— Parece até que não conhece dona Valentina. – Murmurou ele entre risadas, já deixando ela sozinha mais uma vez.

— Joe, está tudo bem? – Perguntou assim que atendeu.

— Emily, preciso de você. Katherine apareceu nessa madrugada completamente acabada. Diz ter apanhado do pai.

— Como é que é?

— Foi isso mesmo que ouviu. Não sei o que fazer. Só quero encher esse cara de porrada.

— Mas, pai dela? – Emily estava perplexa.

— Me ajude a encontrar ele, Emy. Kat diz que é um cara perigoso, mas é claro que ela não sabe o que você e sua família faz. O pai dela deve ser só um bandido raso.

— Claro que eu ajudo! Preciso do nome dele, pelo menos. Céus! Ela está bem?

— Está indo. Mal sai do quarto. E não diz mais que cinco palavras durante o dia. Droga! Não tenho ideia do nome. Ela não diz nada sobre o pai, como vou saber?

— Sei de alguém que conseguirá tirar essa informação para nós dois. Amanhã estarei aí. Prometo. – Sussurrou ela sentindo um grande nó em sua garganta. A ligação mal acaba e Ian aparece com uma bandeja gigante acompanhado com um sorriso no rosto, que logo desaparece ao ver a expressão no rosto dela.

— Emily, aconteceu alguma coisa?

— Precisamos voltar para Chicago. A Katherine precisa de você. – Murmura e ele logo solta a bandeja em um lugar qualquer se sentando com a morena na cama, pronto para escutar tudo que acontecia a sua volta.

***

Augustos acabara de desligar o telefonema com Vitor, que lhe passava as informações da entrega de hoje quando sua empregada entrou em seu escritório com um envelope amarelo nas mãos. Ela o depositou sobre a mesa, dizendo que o mesmo havia sido deixado sem remetente, e saiu. Ele pegou o envelope e a primeira coisa que notou foi um borrão vermelho, que logo viu-se que era uma frase escrita com letras cursivas caprichosas: O amor está mais perto do ódio do que imaginam.

Augustos abriu o envelope e fotos caíram dentro.

Emily estampava a maioria delas. Logo pensou que fosse algum tipo de ameaça a namorada do neto, e sua mão correu para o telefone celular a fim de ligar para o jovem e alertá-lo, mas em seguida, a próxima foto revelou algo que fez o coração do antigo chefe da Cosa Nostra parar.

Anthony Gavin Brian.

Anthony e Emily. Juntos. Sorrindo. Afetuosos.

Emily e Ian. Juntos. Sorrindo. Se amando.

Emily e uma moça ruiva no galpão onde mercadorias da Cosa Nostra foram roubadas a meses atrás, vestidas de preto, comandando a ação.

— Sfortunata! – Vociferou.

O copo de chá gelado que sua esposa o obriga a beber todas as noites antes de dormir voou pelo cômodo e se espatifou na parede em pedaços. Logo em seguida bateu com tamanha força com os dois punhos na mesa que com o baque, seu relógio se quebrou e uma rachadura se formou na mesa de madeira. E então um grito de raiva ecoou pelo local. A última foto era mais clara e objetiva. Anthony com sua família reunida em algum quintal, sentados ao redor de uma mesa farta. Alguns rostos ele desconhecia, mas alguns não passaram despercebidos, como Ethan, filho de Anthony com Blair, ao lado de sua esposa. E Emily, no meio, recebendo um beijo na testa do pai. Isso. A maldita era filha de Ethan, neta de Anthony e nesse exato momento se encontrava na casa de sua filha, na companhia de seu neto como uma moça qualquer. Mas, ela não era uma simples brasileira cursando artes cênicas em Chicago. Era uma espiã do avô. Uma infiltrada.

— Maledetta. – Murmurou o homem, amassando a foto com raiva.

Ah! Mas essa afronta não vai ficar assim. Com as veias do rosto quase pulando para fora, Augustos saiu pisando duro de seu escritório. Reuniu seus homens. Reuniu todo o ódio que sente por Anthony e adentrou em seu carro com uma certeza que nem mesmo seu neto poderia lhe arrancar aquele prazer: Emily vai sofrer. Com mais de cinco carros o seguindo, Augustos Baldocchi seguiu a caminho da casa dos Chiacchio.

***

Benjamim dirigia pelas ruas do Rio de Janeiro, quase que voando enquanto desviava dos carros, ligando pela milésima vez para todos os membros da família, que parecem ter escolhido o pior momento para deixar o celular de lado. Olhar para seu computador no banco do passageiro e ver a ficha do menino Ian, que só confirmou sua teoria, fazia ele correr ainda mais rápido. Cada minuto que guardava essa informação pareciam que mais horas se passaram em que Emily estava com ele. Caramba! Tantos garotos no mundo... Isso era muita coincidência. Mais coincidência do que podia processar. Havia mais nisso... Sentia o cheiro de armação de longe. Talvez Anthony estivesse certo. E usaram logo sua sobrinha para se vingar. O ódio parecia alimentá-lo para que chegasse na mansão dos Gavin em alguns minutos. Estava tão absorto que mal desligou o carro, dando quatro passos em um na direção da entrada, onde havia dois seguranças. Mal os cumprimentou, correndo até o escritório e encontrando Thony em completa paralisia enquanto segurava várias fotos.

— Antho...

— Aqueles filhos da puta usaram minha neta!! – Exclamou interrompendo Benjamim e se levantando. – Eles foram longe demais. Eu devia ter desconfiado. Não deixariam tão fácil quanto da última vez.

— Há uma chance de ser...

— Coincidência? A essa altura do campeonato? – Ele gritava, andando de um lado para o outro sentindo a impotência lhe atingir em cheio. – Eles querem guerra, Benjamim! Olhe tudo o que está acontecendo em nossa volta e não ouse chamar isso de coincidência.

— Certo. – Sussurrou erguendo as mãos em rendição. Sabia que nada do que fizesse ou dissesse o faria se acalmar agora.

— Junte todos os nossos homens, estamos indo para Chicago. – Avisou ele.

— Mas, e essa casa?

— Que exploda essa casa. Emily é nossa prioridade.

— Ethan é o chefe da máfia agora e deve averiguar a situação também por ser o pai. Se acalme. Não cometa o mesmo erro de antes. Pense, Anthony! – Exclamou Benjamim recebendo um olhar mortal.

— O que tem minha filha? – Ethan adentrou no escritório sereno, mas confuso ao ouvir do corredor que Ben deferia. Usava um terno caro e havia acabado de fechar parcerias para expandir a rede hoteleira, deixando a máfia ainda mais no escuro, longe de todos.

— Veja com seus próprios olhos e depois nos diga o que pretende fazer, já que é o chefe da máfia agora. – Anthony diz usando as palavras do amigo que, lá no fundo, lhe ofenderam, e saindo dali, não sem antes entregar o envelope e puxar Benjamim para fora com ele.

Ethan formava um vinco na testa, completamente confuso, mas já preocupado com sua pequena. Respirou fundo, sabendo que o que quer que fosse, tentaria ser racional. Tentaria. Esse pensamento se dissipou no momento em que se sentou na mesa do escritório e abriu o envelope. Em uma foto havia Emily com um garoto. Ele nem precisou ver as outras desse mesmo garoto ao lado de Augustos Baldocchi, pois ele era a cópia fiel do avô quando mais jovem. Reconhecia também o olhar que a filha dava ao garoto, pois era o mesmo que compartilhava com sua amada Sophie. Aquilo fora o suficiente para se levantar e ir em direção a sala, onde Anthony e Benjamim o esperava.

— Junte todos os homens. Vamos para Chicago. – Declarou sobre o olhar vitorioso que Anthony lançou a Benjamim. Sophie, que havia acabado de entrar com Blair e Maria, engoliu em seco, completamente alheia ao assunto, mas sentindo lá em seu íntimo que sua filha estava bem encrencada.

Havia logo no verso do envelope com as fotos, que ninguém havia notado, mas era uma verdade que reinava sobre eles:

O amor está mais perto do ódio do que imaginam.

Que Deus tenha piedade de suas almas, pois é fácil corromper um casal jovem que preza mais do que tudo a sua organização. Ou seria o diabo?