O despertador de Ian toca pela terceira vez em menos de dez minutos e ele já estava pronto para pegar a arma que mantinha no criado mudo e atirar nele quando ele se lembrou do motivo dele tocar tantas vezes. Emily. Essa garota já está o fazendo fazer coisas que ele não faria nem pela própria irmã. O que é mentira, claro. Sempre que Ian vai para a casa dos pais, Alicia faz questão de acordá-lo todas as manhãs bem cedo para assistirem juntos seus desenhos matinais favoritos. Mas Alicia é sua irmã, um dos seus bens mais precioso na vida. Já Emily, bem, Emily continuando sendo só a Emily.

— Se eu não dormir com uma garota hoje, eu não sou mais o mesmo. – Resmunga ele para si mesmo, se obrigando a levantar-se e indo tomar um banho gelado logo depois.

Ao sair, ele se arruma da maneira mais rápida que conseguiu – e a mais preguiçosa também. – colocando uma calça jeans escura e uma blusa branca social, com os primeiros botões abertos despojados. Pegou um par de óculos e saiu do quarto cantarolando alguma música infantil em italiano que sua irmã sempre canta quando está com ele. Ele odeia claro, mas odeia mais por não conseguir tirar a maldita música da cabeça e principalmente da ponta da língua. Seguiu para fora da casa onde o motorista já estava posto e, depois de lhe desejar um bom dia, entrou e o mandou ir para a mesma cafeteria do dia anterior. Ian seguiu a viagem toda com a janela do carro aberto e observou a movimentação de Chicago logo pela manhã. Como é segunda-feira, as ruas estão lotadas de gente andando de um lado para o outro preocupadas com o horário os coisas do gênero. Alguns adolescentes andam de mãos dadas pelas calçadas e Ian não conseguiu segurar a risada quando presenciou uma cena inusitada de dois casais brigando, onde a menina acaba despejando seu copo de café na cabeça do garoto. Ele riu tanto que seu motorista até estranhou.

— Tenho que andar com a janela aberta mais vezes, coisas assim alegram o nosso dia. – Pensou em voz alta.

— Falou comigo senhor Baldocchi? – Perguntou seu motorista o olhando pelo retrovisor.

— Não, não foi com você. – respondeu sem tirar o sorriso do rosto. O motorista deu de ombros e voltou a prestar atenção no trânsito, enquanto Ian voltou a prestar atenção nas pessoas lá fora.

Cinco minutos depois e seu motorista estaciona na esquina da cafeteria e Ian salta do carro despreocupado e caminhou tranquilo até a porta do estabelecimento, avistando Emily logo de cara. Ela está sentada em uma mesa afastada dos demais, ao lado da vidraça e, assim como ele, observa a movimentação lá fora despreocupada. Ian dá um sorriso encantador ao vê-la e já chama a atenção de algumas freguesas, causando um murmurinho animado entre as moças. Emily ouve os cochinhos das moças a sua frente e enruga a testa, se perguntando como uma pessoa podia ser tão fútil ao ponto de falar tais bobeiras sobre um homem logo de manhã. Mas assim que Ian aparece na sua frente com aquele sorriso de arrancar suspiros de qualquer uma – até dela. – ela entendeu a situação.

— Bom dia. – Saudou Ian ligeiramente mais alegre que o comum.

— Bom dia. – Respondeu ela educada. – Está feliz, aconteceu algo de bom?

Ian deu ombros, lhe dando outro sorriso como resposta e pedindo um café forte.

— Não é nada de mais, acredite.

Emily sorriu sem jeito, hipnotizada com o sorriso hipnotizante de Ian.

— Sua prima te contou como foi o encontro dela com Lorenzo? – Perguntou Ian casualmente.

Emily respirou fundo fazendo que não com a cabeça, tomando um gole do seu café em seguida.

— Ela chegou bem tarde e saiu logo cedo. Não tive tempo de conversar com ela ainda, mas e você? Alguma ideia do que possa ter acontecido?

— Nenhuma. – confessou. – Mas tentarei algo com Lorenzo assim que ele chegar de viagem.

— Bom, eu só espero que tenha dado tudo certo. Chloe realmente espera encontrar seu príncipe encantado e se magoa muito quando algo não dá certo. – comentou Emily.

Ian a olhou com intensidade, a provocando com o olhar e Emily sentiu um arrepio indesejado quando ele a olho dessa forma.

— E que tipo de cara você espera encontrar, Emily? – perguntou ele um pouco mais sério, não conseguindo evitar um sorriso de canto malicioso.

Emily retribuiu o sorriso malicioso, mordendo os lábios logo em seguida, e sem tirar os olhos de Ian, respondeu:

— Um que não seja o mocinho. Odeio mocinhos.

Ian sorriu de imediato.

— Preferência pelos vilões?

— Eles são os meus favoritos. – respondeu ela de forma sedutora.

Ambos começaram a se encarar com intensidade, dando diversos sorrisos maliciosos, presos em seus próprios mundos perversos. Foram interrompidos pela chegada da garçonete, que entrega o café de Ian, fazendo questão de se agachar em sua frente apenas para lhe mostrar seu decote. Emily respira fundo, fingindo que não viu e Ian tenta não devorar a garçonete com os olhos na presença da morena. Mas a verdade é que não havia nenhuma mulher tão linda como Emily ali e Ian dúvida que jamais tenha. Os olhos cinza da mulher a sua frente e seu sorriso o prendem com facilidade, o desejando tão hipnotizado quanto ela. E ao perceber seu esforço de manter seus olhos nela, Emily sorri internamente, se sentindo a mulher mais linda da face da Terra, corando levemente, e ao perceber que suas bochechas esquentaram e que Ian as notou, ela rapidamente muda de assunto.

— Infelizmente eu não vou poder ficar até mais tarde, tenho que ir mais cedo hoje para a faculdade. Parece que os preparativos para a nova peça da universidade irão se iniciar.

— Eu também já vou indo, segunda-feira sempre resulta em uma mesa cheia de contratos e trabalhos a se fazer. Quer uma carona?

— Não, obrigada, eu vim de carro. – respondeu educadamente e ambos se levantaram.

Ian pagou pela bebida dos dois, mesmo com Emily insistindo em pagar e quase fazendo um discurso feminista, ele pagou pelos dois cafés, dizendo que ele a deixaria pagar a conta do The Club no próximo final de semana, quando os dois saírem para beber. Emily logo aceitou, sorrindo internamente da cara de pau do homem ao chamá-la para sair.

— Até uma outra hora, senhor Ian. – despediu-se Emily parando ao lado de seu carro. – Nos vemos no final de semana.

Ian riu.

— Eu não vou esperar até o final de semana para te ver. Você sabe disso. – respondeu na lata, fazendo o coração de Emily pular.

Os olhos de Ian brilham e Emily sabe exatamente no que ele pensa. Eles não são um casal apaixonado e esses encontros casuais não vão durar por muito tempo, mesmo que ela tenha gostado da ideia de ver Ian todas as manhãs, ela sabe que tipo de homem ele é, e definitivamente ele não se enquadra no tipo que gosta de encontros. Mas quem ela está enganando? Ela também não gosta. Apesar da virgindade ainda torná-la uma garotinha sonhadora, já teria ido para a cama com Ian, afinal, ela até teve sonhos quentes com ele, por que não pensar na ideia também? E é com esse pensamento em mente que ela entra no carro e parte, tentando não focar mais naquele homem que a faz ter arrepios indesejados.

A universidade estava tranquila apesar da segunda-feira e todos estão curiosos com a peça teatral que seria escolhida pelo professor. E por mais que não demonstrasse nenhuma animação, Emily está mais animada que qualquer um ali. Marchou, atravessando o vasto pátio repleto de pessoas perguntando umas as outras qual seria a peça e ela entra na universidade sem se importar com o olhar de alguns garotos. Nota de longe Bryan a encarando mortalmente e dando um murro em um dos amigos que a encarava quase babando, arrancando um sorriso malicioso da morena. Pelo visto, todos já estão sabendo que ela está solteira de novo. E provavelmente seu ex quis deixar bem claro que não se importava com o término. Isso, se não tivesse ido longe a ponto de dizer que foi ele quem terminou. Mas isso não era tão importante quanto o fato dele finalmente ter saído de seu pé. Ela vai em direção a um bebedouro, pegando um copo descartável e enchendo de água bem gelada, tomando alguns goles até notar uma presença atrás dela.

— Desculpe, eu acho que quer beber água também. – Desculpou-se sorrindo e se afastando do bebedouro e o garoto sorri para ela.

— Não, na verdade, o bebedouro era uma desculpa para me aproximar, mas pelo visto estou confiante hoje a ponto de te chamar para sair. – Balbuciou ele cruzando os braços para exibir os músculos que tinha. Seus cabelos são loiros e seus olhos, castanhos claros. Emily morde o lábio inferior o observando de cima a baixo, se aproximando dele por fim, prensando seus corpos na parede com facilidade.

— Você tem lábia, não posso negar. – Sussurrou ela arrancando um sorriso ainda maior do rosto do garoto. – Mas precisa se esforçar mais.

A morena o empurra com força apenas para se afastar e então caminha em direção à sala de aula como se estivesse em algum desfile de moda luxuoso, piscando para o garoto antes de virar o corredor e desaparecer de vista. Ficar com alguém não seria tão ruim assim. Ainda mais quando estava cansada depois da péssima tentativa em ter um relacionamento sério. Esse tipo de coisa faz uma pessoa se enjoar rapidamente uma da outra e ela não estava a fim de ser propriedade de ninguém naquele momento. Queria se divertir. E era isso que iria fazer. Abriu a porta da classe dando de cara com um homem alto, com o rosto quadriculado e o cabelo castanho escuro, olhos de mesma cor e postura elegante. Ele nota a presença da garota ali e sorri educadamente.

— Olá, não sabia que alunos chegavam tão cedo. – Comentou organizando algumas papeladas na mesa que ficava em frente ao palco improvisado daquela sala.

— E eu não sabia que a universidade ainda estava aceitando alunos. Mas não me chateio por isso... Novatos como você deveria ser regra aqui. – Murmurou Emily e o homem ri da cantada fajuta dela. Mal sabe ele que aquilo não era típico da morena. Ela foi sincera, não atirada.

— Sou novato, mas não aluno. – Sussurrou ele passando os dedos pelo lábio inferior e checando o relógio pela milésima vez.

— Então o que você é? Porque a não ser que Thomas esteja morto ou internado com camisas de força, você não pode ser o professor. – Brinca ela se lembrando de quando seu professor ia para as aulas mesmo estando muito doente.

— Thomas se aposentou e eu serei o substituto. Aliás, eu sou o Daniel, mas todos me chamam de Dan, então... – Murmura ele estendendo a mão para ela que rapidamente pega, em um cumprimento rápido.

— Emily.

— Emily Hamswere?

— Sim.

— Todo o conselho da universidade fala muito bem de você e de suas atuações. – Comentou ele cruzando os braços e mostrando interesse em iniciar uma conversa com ela.

— Culpada. – Brinca mais uma vez, erguendo as mãos em rendição. Ele ri da maneira espontânea da morena.

— O que uma aluna faz tão cedo na sala? – Perguntou voltando a se sentar-se à mesa enquanto Emily faz o mesmo nos vários bancos existentes ali.

— Gosto de checar as redes sociais antes das aulas, mas conversar com o novo professor parece ser mais interessante. – Foi sincera e ele volta à atenção a ela com um sorriso espantando seu rosto.

— É... Essas papeladas também não parecem tão interessantes quando tenho uma nova aluna para conversar. – Sussurrou guardando as papeladas e ela desligou o celular. Os dois iniciam uma longa conversa sobre atuação e peças teatrais.

Emily não podia negar que o novo professor era atraente e ela, de fato, se divertiu conversando com o Dan, que realmente parecia ser um ótimo cara. Não, a morena jamais se interessaria por um cara que estava dando aulas para ela. Mas Dan é o primeiro amigo que teve desde que pôs os pés na universidade e aquilo a deixava feliz por finalmente ter alguém com quem conversar naquele lugar. Vários alunos começam a entrar na sala fazendo ele se calar imediatamente e voltar à postura de professor e a morena faz o mesmo, voltando a se sentar em sua carteira e pigarreando diante daquele silêncio entre os dois que pareceu, de fato, constrangedor.

— Bom dia turma, eu sou o novo professor de vocês e como todos sabem, fiquei encarregado de escolher o tema da apresentação. – Anunciou o professor, observando cada um daqueles pares de olhos com atenção.

— Vindo de você, querido... Faço qualquer coisa. – Sussurrou Odete estalando a língua e gerando risadas em toda a sala.

— Não sendo uma peça antiga, lógico. – Completou outra que sabe Deus o que fazia estudando artes cênicas já que não curtia nenhum tipo de peça.

—... Decidi escolher então nada mais que Shakespeare. – Diz ele após todos se acalmarem, deixando ele terminar o que falava.

— Romeu e Julieta? – Pergunta Suzan, a garota que quase nunca se manifesta.

— Shakespeare não escreveu somente essa obra, sua tonta! – Resmunga Odete, fazendo a outra revirar os olhos.

— Mas é a mais conhecida e...

— Ambas estão corretas e é exatamente essa peça que iremos interpretar! – Murmura animado impedindo que Suzan terminasse de responder a garota com acidez. Emily ri cinicamente chamando a atenção de todos ali. – Algum problema?

A morena tenta dizer algo, mas gagueja vergonhosamente.

— Não, é só que eu esperava algo mais original. – Sussurrou se arrependendo de ter dado risada.

— Original? – Questiona ele erguendo as sobrancelhas.

— Não que Shakespeare não seja original, mas é uma peça bastante comum quase todos os anos na universidade.

— E por que não seguir a tradição? – Sorriu vitorioso.

— Fugir do tradicional torna a sala original e talvez isso destaque de outras peças. Acho que nunca vi nenhuma peça de Anna Karenina. – Emily dá de ombros.

— Que porra é essa de Karena? – Pergunta Odete confusa.

— É Karenina... E sua colega está se referindo a uma das maiores obras de Tolstói. – Diz Dan cruzando os braços sem deixar de encarar Emily. Ele então volta a retrucar a morena. – Você está certa, mas acho que ser original ou não vai depender mais da atuação de vocês. Interpretem com emoção e determinação. Saibam incorporar uma personagem perfeitamente bem e emocione a plateia. Lágrimas. Algo que nem todas as peças conseguem arrancar dos olhos das pessoas que os assistem. Façam isso e então poderemos tentar algo como Anna Karenina que precisa de uma dramatização ainda maior em função da forte personalidade.

Emily se rende, sorrindo abertamente encantada com as palavras dele.

— E quem fará o papel de Julieta? – Pergunta Suzan cruzando os braços.

— Isso depende de vocês! – Exclama Dan. – Irei entregar o roteiro dela a todas vocês e peço que escolham um par que interprete Romeu para ajuda-las. Treinem as falas e amanhã iremos fazer o teste acompanhado do conselho.

— Ah! Então Emily já ganhou o papel. Com certeza essa garota dormiu com um deles para receber tantos elogios e conseguir todos os papéis importantes. – Murmura Odete e a morena fecha o punho, pronta para levantar e espancar a garota ignorando os ensinamentos do avô quando Dan se manifesta.

— Alguns só precisam de talento! E todo papel é importante. Se não fossem os secundários, não haveria os principais e assim sucessivamente.

— Pelo jeito ela dormiu com você também. – Suzan revira os olhos ao pronunciar aquilo.

— Ela só precisou ser educada. Deviam tentar também. Aproveitem e expandem ainda mais seus conhecimentos aprendendo também sobre o respeito. Isso aqui é uma universidade e não o colegial. – Vocifera Dan.

— O mais irônico é que isso está vindo de uma garota que dormiu com o último inspetor das peças teatrais achando que ele poderia fazer algo para melhorar suas notas. – Diz Emily contando o segredo da garota que descobriu em segredo.

— Sua...

— Nem ouse terminar a frase! – Grita Emily se levantando.

— Estão dispensadas para estudar as falas. – Dan grita ainda mais alto antes que Suzan se levanta-se e as duas partissem para a briga.

Aos poucos, a sala vai se esvaziando e a garota que implicou com a morena, encara ela de forma ácida e sínica. Emily sustenta o olhar sem medo nenhum e Suzan quase passa perto dela, apenas no intuito de implicar, quando nota o quanto os seus olhos cinzas estavam mais escuros que o normal. A garota engole em seco por alguns segundos e sorri sem graça para a morena, atravessando a sala e sendo a última a sair dali. Sobraram apenas Emily e o professor. Ela o encara envergonhada, encolhendo os ombros timidamente e se virando para guardar seu caderno de anotações na bolsa.

— Já tem alguém para treinar as falas? – A pergunta dele a pega desprevenida. Bryan era quem a ajudava com esse tipo de coisa, mas antes dele, sempre se virou sozinha, então por que não se virar sozinha agora também? Ela morde o lábio inferior negando com a cabeça.

— Estou acostumada a treinar sozinha! Não se preocupe, isso não vai afetar minha interpretação. – O acalmou de imediato, colocado a bolsa sobre as costas.

— Talvez eu possa treinar com você, o que acha? Estou com o tempo livre essa tarde! – Avisa e Emily se vira, encarando aqueles olhos claros com intensidade.

— Não incomodo? – Questiona colocando as mãos nos quadris.

— Nunca. – Murmurou com um sorriso no rosto arrancando outro ainda maior dela.

— Tudo bem então. – Sussurra soltando a bolsa, pegando as falas e indo em direção ao palco.

— O que acha de treinarmos as falas da cena dois, no jardim dos Capuletos?

— Certo.

— Está preparada.

— Sempre estou.

— Além de tudo é convencida! – Exclama ele em ironia e os dois acabam rindo disso.

Emily sobe no palco enquanto Dan continua um pouco abaixo, pronto para interpretar Romeu. Ela respira fundo tentando espantar a ideia daquele romance idiota entrar em sua cabeça, apesar da necessidade que a personagem tinha para que aquilo acontecesse de modo natural. Precisa fazer isso. Então ela fecha os olhos e conta números primos, uma mania que tinha quando estava tensa. Por fim, os abre sorrindo de lado antes de se virar em direção ao professor, fingindo não vê-lo ali e observando ao longe. Podia facilmente imaginar ela usando vestidos de época na sacada do jardim dos Capuletos. Seus olhos passeiam pelas falas por alguns segundos e então lá estava ela agindo perfeitamente como uma verdadeira Julieta.

— Que silêncio... Que luz brilha através daquela janela? Surge claro sol, e mata de inveja a lua, vento que tu, tua serva, és mais linda que ela! – Diz Dan a encarando com o olhar brilhante, mostrando verdadeira admiração pela moça que estava posicionada na sacada improvisada.

— Ai de mim Romeu! – Exclama ela fingindo estar envergonhada. O rubor em suas bochechas fez o professor estar ainda mais encantado. Agora entendia porque o conselho admirava tanto a atuação da garota. Com quatro palavras, já estava óbvio que ela já havia incorporado perfeitamente seu papel.

— Oh, fala outra vez anjo de luz, pois é assim que te vejo. És o mensageiro alado do céu. – Pede Dan, ou melhor, Romeu.

— Oh, Romeu, Romeu! Por que tu és, Romeu? Nega teu pai, rejeita teu nome por mim. Ou então jura teu amor por mim que não serei mais uma Capuleto. – Julieta sente seus olhos se encherem de lágrimas. Como pôde se apaixonar pelo inimigo? Mas já era tarde demais e agora, tudo que restava era observar a grande destruição que iria ocorrer em sua volta e talvez, se culpar pelo resto da sua vida por isso.

— Continuarei a ouvi-la ou falo com ela agora? — Pergunta ele, Romeu, plantado próximo à sacada observando a garota mais bela que já vira em toda a sua existência, se perguntando as mesmas coisas que ela e desejando encontrar uma maneira de parar o caos que está prestes a vir.

— Somente teu nome é meu inimigo. Como desejo que tivesses outro nome. Renega teu nome odiado que não faz parte de ti, e me terás inteira. – Sussurra Julieta desejando com todas as forças que assim ele o fizesse, mesmo que talvez ela não tivesse a coragem de fazer o mesmo. Queria arriscar. E queria, principalmente, ter ele pelo resto de sua vida.

— Então me chama somente de amor e serei de novo batizado. – Diz ele se aproximando daquele palco e subindo ali.

— Dan... – Murmura Emily mordendo o lábio inferior. Falara seu nome tão baixo que por alguns segundos pensou que ele não tivesse ouvido. Mas então seu professor sorri mostrando tê-la ouvido. – Romeu não sobe a sacada.

— Então Romeu é um idiota por não ter ido atrás de sua amada quando teve a oportunidade. – Diz segurando o rosto de Emily e ela sorri sem graça tirando as mãos dele de seu rosto. Sentiu-se constrangida diante daquele simples gesto vindo do professor então para não arranjar confusões, desceu do palco e pegou sua bolsa.

— Eu acho melhor eu ir... – Avisa mantendo o sorriso nos lábios.

— Desculpe se o gesto te desagradou.

— É, me desagradou sim porque pensei que estivesse prestes a me beijar e caso não tenha notado, estamos em uma sala de aula e você é o professor. Você é como todos os outros, eu já devia saber. – Sussurra se virando, mas ele desce do palco rapidamente segurando os pulsos da morena.

— Não, eu não sou. Perdoe-me. Talvez eu tenha entendido mal, não sei...

— E o que você entendeu? Que eu estava dando em cima de você? Gostei de você sim, mas como um amigo. Achei que pudéssemos ser amigos. – Diz ela mordendo o lábio inferior.

— E podemos. Apenas vamos nos esquecer disso, desculpe! – Pede mais uma vez e ela assentiu, decidindo dar mais uma chance ao homem na sua frente.

— Tudo bem. – Balbucia e ele a solta suspirando aliviado. – Só não faz isso de novo.

— Nunca farei nada que não queira, prometo. Eu acho que confundi as coisas... É que você é tão educada e, encantadora. É tão madura. Se não fosse seu professor, te chamaria para sair, de fato.

— É, mas você é meu professor e eu não gosto de confundir as coisas então... – Diz Emily e ele assentiu entendendo. – Preciso ir.

Seus pés caminham apressados para fora da sala sentindo um grande peso sair pelas suas costas. Tudo bem que ele havia entendido errado a maneira espontânea dela de dizer as coisas, mas o fato dele ser bonito e ela ter dito isso indiretamente, não significa que está a fim dele. Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com outra. E pessoas tendem a confundir isso. O que a irrita muito. Mais do que o normal.

**

Como sempre, Ian termina mais um dia de trabalho exausto. Hoje ele avaliou uma nova mercadoria de armas e também o melhor vendedor. Ligou para o escritório de seu avô na Itália e acabou pedindo conselhos ao pai, Vitor, que o aconselhou a conversar com os russos, pois eles sempre têm as mais potentes. E ele estava certo. Ligou e marcou uma reunião com o chefe da Máfia russa, pedindo que eles trouxessem
mercadoria, pois ele estava interessado. Depois, foi à sala de Mark, o hacker secreto da Cosa Nostra e o acompanhou enquanto o mesmo invadia mais uma vez o sistema da Casa Branca.

— Ultimamente invadir o sistema deles se torna cada vez mais difícil. – comentou Mark. – Eu gosto. – sorriu.

Ian sorriu do parceiro e continuou a encarar a grande tela onde números e códigos apareciam. O som dos dedos apertando com força o teclado era o único som ouvido ali. Demorou vinte minutos para Mark conseguir invadir o sistema deles, e mais dez para Ian ficar ciente que o Governo americano está criando uma nova tecnologia e que ela está sendo testada na Área 51.

— Isso deve valer milhões. – Ian sussurrou para si mesmo.

— Deve, mas se está na Área 51, vai ficar na Área 51. – disse Mark. – E nós nem sabemos o que é que eles estão criando dessa vez. Pode ser um disco voador, quem sabe. – satirizou ele.

— Então eu acho que esse é o seu mais novo dever. Descubra o que eles estão criando e me informe assim que tiver uma novidade, use os recursos que quiser. – ordenou Ian já se dirigindo a porta, mas parou antes de girar a maçaneta. – Ah, ligue para a minha mãe e a informe sobre isso, ela adora essas coisas e pode ser que saiba de algo.

— Sim, senhor.

Ian então saiu e voltou para o escritório, onde começou a trabalhar novamente até se cansar, como sempre. O sol já está se pondo quando ele deixa o prédio e segue para o carro, onde seu motorista o aguarda. Entrou e pediu que o levasse para casa, onde tomou um banhou quente e demorado. Resolveu sair novamente, mas dessa vez por conta própria e pediu para um dos seus empregados que tirassem seu Lamborghini Sesto Elemento da garagem e colocou um par de calças pretas e uma blusa branca por debaixo de sua jaqueta de couro. Desceu as escadas saltitando já sentindo a adrenalina correr por suas veias ao lembrar-se da potência do carro. Esta Lamborghini é de marca italiana e foi presente de sua mãe assim que o carro foi lançado. Valentina sempre gostou de carros potentes, e a mesma já participou diversas vezes de algumas corridas ilegais em Chicago quando jovem.

Para alguns é difícil de acreditar que os pais já foram radicais na adolescência, mas esse nunca foi o caso de Ian, pois desde pequeno ouvia histórias dos dois sobre suas aventuras. Enquanto alguns dormiam sonhando com contos mágicos, Ian dormia sonhando com fugas, tiros e alta velocidade. Ao colocar o pé no acelerador, Ian não parou mais. Correu pela avenida principal, pelas ruas desertas onde geralmente ocorrem os rachas e também pelas redondezas de Chicago. Nada disso o saciava, por diversas vezes deseja estar na Califórnia, onde pode correr a vontade por quilômetros e quilômetros todas as rodovias no meio do deserto. Mas como não está lá, por fim, ele decide subir para o morro que havia na entrada da cidade.

Com trezentos e vinte e cinco metros de altura, o morro, ou melhor, penhasco, disponibilizava uma vista incrível de toda a cidade de Chicago. E de noite o lugar é ainda mais maravilhoso. A estrada para chegar até o topo é o tanto quanto delicada, mas Ian não tira o pé do acelerador por um segundo e faz as curvas fechadas com
perfeição. O que um carro normal levaria no máximo dez minutos, levou a Ian cinco.
Quando estacionou o carro alguns metros da beira do penhasco, Ian se surpreendeu ao ver que ele não é o único ali em cima. Um Ford Torino 1969 está estacionado não muito distante dele e uma moça está sentada em sua lataria observando a cidade. Ao ver a moça rapidamente se lembrou de Emily, porém não é ela ali, os cabelos claros da jovem e o carro delatam isso.

Ian forçou a vista tentando identificar a garota e demorou alguns minutos até perceber que é Katherine quem está ali. Ela veste um short jeans curto rasgado e uma regata branca e botas de uma cor escura. Os cabelos estão soltos e ao ver de Ian, parecem estar mais curtos desde a última vez que a viu. Ela parece despreocupada observando a vista maravilhosa a sua frente e ele não vê maldade alguma em se aproximar da jovem.

— Se você não se jogar está tudo certo. – exclamou ele, chamando a atenção da jovem.

Katherine primeiro passou os olhos em Ian, tentando lembrar-se quem ele é. Depois observou o carro atrás dele com cuidado, checando cada detalhe.

— Não estou a fim de papo. – disparou ela ríspida sem nem ao menos reconhecê-lo. Ian sorriu contrariado e andou até ela, parando ao seu lado.

— Não foi isso que eu ouvi da primeira vez. – cutucou.

— Olha só cara, eu não... Ian? – indagou curiosa ao ver que é ele quem a distraiu.

— Em carne e osso. – brincou. – O que faz aqui?

— O mesmo que você. – disparou, sorrindo de lado. – Apenas relaxando e curtindo a vista. – respondeu calmamente.

Ian concordou e deu um passo para trás, observando o carro.

— Você tem um belo carro. – comentou.

— Não é meu, é do Joe. Nunca conseguiria pagar por um desses. É antigo, mas é um clássico. – contou. – Mas e você? Pretende dirigir até o Canadá com essa Lamborghini? É uma bela máquina. – comentou sorrindo. Ian sorri observando junto com Katherine seu carro logo atrás deles. Ela parece entender o assunto e isso o deixa curioso.

— Vejo que entende do assunto. – ele diz.

— Eu não sou uma vadia que só vai para os rachas atrás dos homens, eu vou atrás dos carros. – respondeu o provocando. Ian ri tomando para si a provocação e aproveita para sentar-se ao lado da loira e, juntos, começaram a observar a vista.

— Esse Joe... é algum namorado? – perguntou ocasionalmente. Katherine não conseguiu evitar um sorriso singelo ao ouvir a tal pergunta.

— Não, longe disso, Joe é quem organiza os rachas aqui na cidade. Ele sempre me empresta seus carros quando peço. É apenas um amigo. – respondeu sem encará-lo. Ian murmurou concordando.

— Acho que isso me dá uma brecha para dizer que eu adorei a nossa noite juntos. – falou, arrancando uma risada da garota e o mesmo não conseguiu não rir.

— Você é muito cara de pau, sabia? Devia abordar uma moça de um jeito menos... erótico. – exclamou ela sorrindo.

— O que eu posso fazer se você é muito boa na cama? – respondeu ele, levando um soco no braço logo em seguida. – Ok, foi mal, foi mal.

Ian a observa com mais intensidade e percebe que seus olhos estão inchados e vermelhos, e não ser que ela tenha andado fumando maconha, ela...

— Andou chorando? – indagou Ian, parando de rir assim que chegou a essa conclusão. – Aconteceu alguma coisa?

Katherine virou o rosto quase que de imediato e passou as mãos por de baixo dos olhos, secando qualquer vestígio de lágrimas ali.

— Eu só fiquei chateada, nada demais. – disse voltando a olhá-lo, mas Ian continua a fazer uma cara de sério, como se estivesse mesmo preocupado com o motivo que a teria deixado daquele jeito. – Eu tive um dia difícil, só isso. – confortou. Ian a analisou por mais alguns segundos, mas o olhar insiste da garota o fez desistir de descobrir o verdadeiro motivo.

— Eu também tive um dia difícil. Cansativo na verdade. – comentou ele, tendo uma ideia em seguida e sorrindo com malícia, chamando a atenção da loira. – Sabe, eu tive uma ideia.

Katherine sorriu, já imaginando o que seria.

— E qual foi?

— O que acha de nos dois irmos afogar as nossas magoas juntas? — Katherine riu alto.

— Isso foi bem ridículo se quer saber. Um garoto de quinze anos falaria algo desse tipo.

Ian também riu, mas logo se recompôs e olhou com intensidade para a loira ao seu lado.

— Você está a fim de ir transar comigo e esquecer-se dos seus problemas por uma noite? – perguntou, sendo direto dessa vez.

— Você não faz do tipo que dorme com a mesma garota mais de uma vez. – confessa ela.

— Eu não sou tão canalha quanto pensa. E eu já falei, você é boa no que faz, eu gosto disso.

— Vou ser considerada uma puta se aceitar.

— Eu não ligo para rótulos. E isso é uma puta de uma mentira. – falou ele fazendo a outra sorrir. – Já somos adultos, sabemos o que fazemos e o que quê tem de transarmos com estranhos de vez em quando? Eu não conto pra ninguém se você também não contar. – brincou ele mais uma vez.

Katherine o encarou pensativa. É difícil dizer não para um cara como ele e como ele disse, os dois eram bons no que faziam juntos. Mas o seu dia não tinha sido um dos melhores e tudo o que ela queria era ter um tempo só para ela. Porém é difícil resistir a aquele par de olhos azuis escuros e tempo para si ela têm de sobra. Então, por que não? Então ela sorriu.

— No meu carro ou no seu?