Mirrors
31 My Girl.
A mesa de jantar foi posta com a mais bela louça que os Chiacchio tinham em casa. Os empregados também estavam impecáveis em seus uniformes e em suas posturas. A família de Ian conversava tranquilamente, como se aquela reunião fosse a coisa mais normal do mundo, enquanto para Emily era um teste de tranquilidade, pois tinha que se manter calma, tranquila com tudo aquilo ao seu redor. Se sentia de realeza. Pessoas a rodeavam com bandejas de petiscos e bebidas, distribuindo elogios e, até mesmo os funcionários tinham esse ar de superioridade.
A presença dos avós de Ian deixava o ar muito mais... Pesado? Ficava se perguntando qual é o lance da família, porque eles tinham essa áurea de quem dominavam o mundo, ou de quem sabiam de coisas sujas, muito sujas, e ainda assim se mantinham limpos, de consciência tranquila e... Com poder. Ah! Emily em menos de um dia já tinha pegado certa implicância com isso... Se soubesse da onde vinha a autoridade, o poder da família Baldocchi Chiacchio, ela irá ter desejado nunca ter descoberto.
— Emily... — Chamou Catarina, avó de Ian. – Você é de onde mesmo, querida?
Emily foi pega de surpresa, já que estava distraída demais com os ladrilhos de cristais da parede de jantar.
— Brasil. – Respondeu, sorrindo. – Rio de Janeiro.
Catarina se surpreende, assentindo docemente sem tirar o sorriso educado de seu rosto. Ela lembrava muito Valentina — uma Valentina muito mais velha, mas os traços de mãe e filha ainda sim são bem nítidos. Pelo que Ian a alertou, Catarina é advogada e é australiana. O sotaque bem parecido com o do resto da família, o britânico, faz sua nacionalidade passar por despercebido. Mas de acordo com ele, isso é algo que Catarina não faz muita questão.
— Uma carioca. – Augustos aponta, esboçando um sorriso de lado quase despercebido. Emily assente, confiante. Ok, não é tão difícil assim. Eles até que são gentis, pensou.
— O que uma brasileira foi fazer em uma cidade como Chicago? – Questionou Valentina.
— Fui estudar artes cênicas. Acontece que o programa de Chicago é ótimo para esse curso e eu acabei ganhando um bolsa. – Conta a morena, orgulhosa de si mesma. Ian sorriu para ela, feliz por vê-la conversando mais calmamente e se enturmando com sua família.
— Ah, realmente o Brasil é famoso por suas novelas... Quer se tornar uma atriz de novela? – Perguntou a avó dele, curiosa.
Emily riu.
— Não, fiz o curso apenas por gostar bastante de interpretar vários papeis, é uma arte muito bonita. E meus pais concordaram desde que, ao final do curso eu voltasse para o Brasil assumisse a empresa. Junto de minha prima, Chloe. – Contou.
— Chloe não é a garota de Lorenzo? – Sussurrou Vitor para sua esposa, que deu de ombros por não fazer a mínima ideia, fazendo seu marido a olhar feio e revirar os olhos. Valentina sorriu se voltando para a morena.
— Seus pais deixaram você ir para Chicago sem muitas brigas? –Perguntou, apreciando seu delicioso vinho. Sem álcool, claro.
Emily pensou.
“Emily respirava fundo caminhando em direção a seu quarto enquanto seu pai enchia sua cabeça com um milhão de possibilidades do que poderia acontecer em Chicago. Todas incluíam uma morte lenta e dolorosa pela Cosa Nostra.
— E se eles descobrirem nesse exato minuto que você está indo para lá porque já estava escolhendo um lugar para ficar pelas minhas costas? — Perguntou movimentando os braços e fazendo a morena revirar os olhos.
— Tá bem... Foi um prazer falar com você. Não sei porque tive a brilhante ideia de te contar sobre isso... — Sussurrou ela mesmo com Ethan não lhe dando ouvidos.
— E há bem mais perigos nas ruas de Chicago do que apenas a Cosa Nostra.. O único perigo que conhece é os rachas que promove aqui no Rio!
— E se tudo der certo? Não pode prever o futuro, pai. — Falou parando e se virando para ele.
— Emily! Tem tudo para dar errado... Você não está preparada para o mundo lá fora!
— Caso não que tenha notado, estou mais preparada do que você esteve quando conheceu minha mãe. E talvez o mundo lá fora me ensine a assumir a máfia um dia, porque não adianta ficar adiando isso, ela será minha uma hora outra, pai.”
E sorriu.
— Eles me apoiaram cem por cento nisso.
Todos assentiram.
— Se o ramo da família é administração e é seu destino comandá-la, por que não se aprofundou no assunto? – A voz de Augustos faz com que todos parem e prestem atenção nele. – Gastar tempo com uma atividade inútil não me parece muito inteligente.
Ele fala com uma naturalidade absurda enquanto segura seu copo de vinho, e mal olha para Emily quando desfere tais palavras, a deixando ligeiramente ofendida. E não foi só ela. Ian se mexe na cadeira, ficando desconfortável e olhando seriamente para sua mãe e depois para seu avô, como um aviso, mas Augustos finge que não perceber a irritação do neto, muito menos do clima tenso em que deixou a sala de jantar.
Mas, para a surpresa de todos, Emily não se cala.
— Não que foi uma perda de tempo ou uma atividade inútil, senhor Augustos. Além de promover o autoconhecimento e desenvolver a autoconfiança, fazer teatro é um exercício de aproximação das pessoas, que possibilita uma melhor percepção do mundo. E como futura administradora de uma rede de hotéis no Brasil, um pais tão diversificado culturalmente, eu acho que vou me dar muito bem.
Dito isso, Emily deu um gole em seu vinho, fazendo a linha fina. Valentina riu sozinha. Aos poucos a garota ia mostrando suas garras e estava adorando ver quem ela realmente é. Augustos a encarou finalmente, com os olhos fixos nos dela, que não desvencilhou nem por um segundo. Ela já esperava que ele a atacasse novamente, a deixando ainda mais constrangida, porém o homem apenas sorriu. Sorriu de sua audácia, claro. É muito difícil alguém bater de frente com ele, tirando sua esposa e filha, ninguém nunca o fez. Só consegue se lembrar de uma pessoa em particular que costumava chamar a atenção do chefe da Cosa Nostra, porém essa pessoa está guardada a sete chaves para Augustos, e logo — assim espera ele, também morto.
— Senhoras e senhores, o jantar está sendo servido! – Um empregado anuncia, quebrando o gelo. Ian o agradece mentalmente por isso, pois ele já conseguia ver os olhos de sua amada brilhando ansiosos para uma discussão, sem falar de seu avô, que adora isso. Provocar até o limite.
Alicia é a primeira a correr em disparada para a mesa de jantar, insistindo muito para que a morena se sentasse ao seu lado. Aquilo deixara o avô ainda mais surpreso com a moça, afinal, a neta detestava qualquer um que não fizesse parte da sua família. Esperava uma atitude contrária, ainda mais dada a situação dela como possível namorada de Ian, irmão que a pequena adorava e morria de ciúmes. Emily, no entanto, estava completamente confusa com a mudança repentina da criança, que parecia tê-la odiado de primeira.
— Me fale mais sobre a empresa... Fiquei curioso sobre o início de tudo. Murmurou Vitor após todas as refeições estarem devidamente postas na mesa. Ela parecia ser o centro das atenções, o que não a agradava muito, mas mantinha a compostura ereta como todos eles. Já que estava na mesa do rei, não podia se comportar como a plebeia que era.
— A empresa na verdade surgiu nos Estados Unidos, mas quando finalmente chegou ao poder de meus pais, eles decidiram mudar a sede para o Brasil. Foi uma grande burocracia, mas preferiram aquele clima tropical.
— E por que Brasil? – Foi a vez de Valentina perguntar, tirando as palavras da boca de seu próprio pai, que também se mostrou curioso.
— Tudo é mais fácil no Brasil. – Respondeu simplesmente com um sorriso esperto no rosto. Aquela frase... Por que Augustos tinha a sensação que já havia ouvido ela? Seus olhos estavam cravados na morena, que parecia não notar mais, entrando em uma conversa animada com sua esposa e filha. Havia algo naquela garota. Algo que parecia passar despercebido por todos. Ah! Se ele soubesse o que era...
Ian estava inquieto. Detestava ver sua família inteira a interrogando como se a garota fosse ser sua futura esposa e assumir a Cosa Nostra futuramente. Tudo girava em torno de sua organização criminosa. Sentia que Emily estava prestes a se levantar e fugir, mesmo mostrando o contrário. Por baixo da mesa, sentiu a mão suave dela se entrelaçar a sua. Ela não pôde deixar de notar o nervosismo e era a primeira vez que o via assim. Ele sorriu, tentando passar confiança, mas a verdade é que a última coisa que queria era deixa-la desconfortável. Não queria perde-la de novo.
— Acho interessante usarem esse método monárquico dentro da empresa, a passando de geração em geração. São poucas as que conheço que são assim também. – Catarina comenta. Seu sorriso era tão dócil e gentil que a lembrava de Chloe. Instintivamente sentiu falta da prima, que provavelmente estava em algum lugar com Lorenzo se sentindo a garota mais sortuda do mundo, porque era assim que ele a fazia se sentir.
— Minha família prefere assim. Vivemos apenas com essa renda, mas existem alguns de nós que preferem seguir rumos diferentes e tem algum emprego por hobbie.
— Interessante... – Sussurrou Augustos. Cada vez que se manifestava, todos na mesa gelavam, temendo que ele dissesse algo desnecessário como da última vez. — Você será atriz por hobbie então?
— Como mencionei, a faculdade que fiz foi por hobbie, mesmo que tenha me trazido tanto aprendizado. Acho que não posso abusar muito... Uma hora a realidade chega a todos nós e já usei a minha chance de fazer algo que gosto.
— Então não gosta da empresa de seus pais? – Perguntou com as sobrancelhas arqueadas, como se finalmente tivesse pegado a garota, mas ela, ao contrário do que imaginou, sorriu.
— A levo a sério demais para tê-la como um simples gosto pessoal. – Retrucou encarando Ian, que parecia estar detestando o rumo daquela conversa.
— Então de que adianta trabalhar em algo que não goste?
— Não disse que não gosto, disse que a levo a sério. Profissionalismo deve estar em primeiro lugar. E eu tenho total capacidade de assumi-la, mesmo com meu currículo inútil recheado de peças teatrais e cursos cênicos. – Sussurrou usando as palavras que ele dissera há pouco. Aquilo fez todos finalmente se calarem, não aguentando mais acabar com a tensão usando risadas forçadas.
— Vejo que também concorda.
— Usei palavras suas, não minhas. Continuo o achando excelente, principalmente na área de negociação.
— Irá atuar com algum negociante, senhorita Emily? – Ironizou.
— Irei avalia-lo. Veja bem... O senhor está com uma postura ereta, expressão fechada e movimentos bruscos. Cenhos franzidos e olhar enfezado demonstram a inquietude em me ver continuar a responde-lo, o que leva a duas únicas conclusões... – A pausa que havia feito foi agonizante para todos ali. Ela iria mesmo enfrenta-lo? – Ou se importa demais com seu neto, ou quer me levar ao limite, fazendo um simples teste que provavelmente faria muita gente temer devido ao modo autoritário que a conduz mesmo sem querer.
— Um pouco dos dois. – Respondeu sem encará-la.
— Então talvez artes cênicas não seja assim tão inútil. – Foi a vez dela de arquear as sobrancelhas. – Em minha opinião, inútil seria se eu cursasse algo da área empresarial, considerando que sei sobre o assunto muitíssimo bem e não tenho a necessidade de me sentar em uma carteira para ouvir sobre algo do qual já tenho total conhecimento.
— Se acha proprietária de tamanha inteligência, então de fato eu não poderia discordar de você. – Murmurou, cedendo a guerra e derrubando as suas barreiras. Aquela garota tinha absolutamente tudo na ponta da língua. Ian suspirou, como se tivesse prendido a respiração aquele tempo todo, enquanto sua mãe, Valentina, encarava tudo silenciosamente com um brilho orgulhoso no olhar.
O restante do jantar foi arrastado pelo longo silêncio, já que ninguém mais se atreveu a abrir a boca. Sentiam que qualquer conjunto de letra poderia ser o estopim para outra discussão entre Emily e Augustos. Ian havia quase arrancado os cabelos de nervosismo. Catarina tinha o olhar feio repreendendo o marido por sua atitude. Vitor comia tranquilamente assim como sua filha, que vez ou outra espiava os convidados com a sobrancelha arqueada, se certificando de que não está perdendo nada.
Augustos também aproveita o resto do jantar calmo, ignorando os olhares feios de sua esposa. Valentina é a única com um sorriso bobo nos lábios. Ela havia adorada a argumentação entre os dois. Sorte de Emily que Augustos adora tanto uma boa argumentação inteligente quanto sua filha. A verdade é que Augustos estava testando sua nora (será que ele podia a definir assim?). Valentina sabia e gostou de ver Emily pressionada até o final. Gostou ainda mais da atitude dela. A garota tinha garras, e com certeza, força e sabedoria para carregar o nome de sua família um dia.
Um dia.
Quando a mesa foi tirada, todos se levantaram e Emily ficou sem saber o que fazer. Devia se despedir e ir para o quarto? Ficar e continuar a bater o pé com o avô de Ian? Aproveitar o bom humor de Alicia para com ela e ganhar alguns pontos com os sogros?
— Pai, será que podemos conversar antes do vocês irem? – Pediu Valentina e seu pai assentiu.
Ao lado de Emily, Alicia continuou sentadinha, exausta, já com os olhos pendendo de sono.
— Mamãe, quero ir dormir. – Bocejou ela.
Valentina por um momento ficou sem saber o que fazer. Já estava acompanhando seu pai até um o escritório quando ouviu o apelo da filha. Ian e Vitor já haviam se afastado a alguns minutos e então Emily se manifestou pela primeira vez desde a discussão.
— Posso coloca-la na cama se quiser... – Ponderou, olhando da pequena para Valentina.
Ela ficou surpresa com a atitude, mas feliz pela ajuda, olhando para a filha de deu de ombros, pois àquela altura nada mais importa a não ser sua cama macia e confortável. Poderia ser o próprio Grinch (personagem natalino que Alicia tanto odeia – odeia, não teme) a levando para a cama agora e ela nem ligaria. Então porque não deixar Emily leva-la?
— Agradeço sua ajuda, querida. A babá vai te ajudar a colocá-la na cama. Obrigada. – Valentina mandou um beijo para a filha, que já caia de sono nos braços de Emily, e depois saiu entrando em um escritório logo após a sala.
— Vai deixar aquela garota tomar conta da sua filha, Valentina? – Provocou Augustos, sentando-se.
Valentina riu.
— Está duvidando da maneira como crio meus filhos?
— Não, só com quem os deixa.
Valentina riu e serviu o pai com whisky e para si própria uma garrafa de vinho suave. Sim, estava grávida, mas um gole não fazia mal as vezes e ela só queria molhar a boca.
— O que quer comigo, Valentina? – Seu pai foi direto ao ponto. Ela se sentou de frente para ele e abriu uma das gavetas da mesa e retirou uma pasta amarela de lá, a jogando sobre a mesma.
— Daya me ligou esses dias. – Começou ela, se referindo a uma de seus aliados mafiosos. – Disse que você anda fazendo um percurso estranho por aí. Ligações incomuns, se encontrando com antigos parceiros... Me diga, meu pai, o que anda fazendo?
Augustos se sentia desconfortável sempre que alguém o interrogava, pedindo explicações sobre suas atitudes. Não era do feitio dele dar explicações a ninguém, muito menos sobre seus negócios. Mas, Valentina era chefe parcial da Cosa Nostra e ele sabia que lhe devia algumas respostas.
— Essa mulher... Sempre fofocando. – Vociferou ele. Daya era uma espécie de intermediária de relações empresariais e pessoais dentro da Cosa Nostra. Ela trabalha mais especificamente para a família Baldocchi Chiacchio (Ian tem seu próprio intermediário nos Estados Unidos) e é uma grande amiga de Valentina também. Ela está basicamente de olho em tudo: em todos os contatos, contas, negócios, relações, escândalos políticos, mafiosos... Sabe de tudo. Claro que ela saberia do comportamento estranho de Augustos nos últimos dias e é óbvio que contaria para sua chefa.
— Pai, desde o encontro com os irlandeses e o incidente eu sei que algo está errado. Algo não está se encaixando e o senhor tem a peça final, porém não me diz qual. Anda fazendo negócios por fora ou o quê?
Augustos tentou não ficar puto com sua filha com aquela insinuação. Para um mafioso, fazer negócios por fora era uma traição humilhante e desrespeitosa. Ele bufou e olhou para os lados, ajeitando o paletó.
— Não diga uma coisa dessas, Valentina. – Repreendeu ele, ofendido.
— Um tempo atrás o senhor me disse que estava lidando com algumas suspeitas do passado e que me contaria quando chegasse a hora. Será que ela já chegou? – Questionou.
Augustos encarou a filha.
— Sim, ela já chegou. Porém não será hoje. Mas, se acalme, ainda essa semana você saberá de tudo. – Disse ele.
Valentina o analisou e respirou fundo. Não conseguiria tirar muita coisa de seu pai agora, e se ele diz que vai lhe contar é porque vai. Se disse que não é agora, não é.
***
Emily caminhava com a pequena Alicia no colo, que lutava firmemente contra o sono, fazendo seus olhos se abrirem e fecharem freneticamente. A babá de quem Valentina se referiu, as observava um pouco mais afastada, com olhos de águia sobre a morena. Parecia estar irritada, o que fez a morena sentir uma leve vontade de confrontá-la. Ouviu mais passos pelo corredor e parou avistando Catarina que queria se despedir da neta antes de ir embora. Ela então observa a moça que encantara seu neto mais velho, uma de suas joias mais preciosas e sorri, a abraçando de modo desajeitado e sussurrando que havia adorado conhece-la no ouvido. Aquilo foi como música para Emily, que sorriu quase que instantaneamente.
Estava se sentindo mal por ter discutido com seu marido, mas o que poderia fazer? Ele havia lhe provocado e seu avô sempre dizia que não se pode levar desaforo algum para sua casa. Apenas seguiu conselhos do velho Anthony, deixando toda a situação ainda mais cômica. O quarto da pequena parecia ainda mais organizado do que a última vez que ali entrou. Provavelmente empregados entravam ali a cada minuto, deixando tudo lindo. Não havia outra possibilidade. Ela colocou Alicia sentada com muito custo, e com a ajuda da babá, pôs o pijama de seda na criança, que era repleto de ursinhos estampados sobre a cor creme. Já estava saindo do quarto depois de deixar somente o abajur ligado e deixado a pequena na cama, quando ouviu aquela voz infantil chamar seu nome.
— Me conta uma história? – Pediu, mesmo com o sono já vencendo aquela árdua batalha.
— Adoraria, mas não conheço muitas.
— Conte como conheceu meu irmão! – Exclamou, incentivando a morena a contar-lhe algo.
— Bem, uma plebeia muito irritada e desastrada esbarrou em um ogro bruto e sem educação. Ele mal a desculpou, entrando no... – Ponderou por alguns instantes. – Restaurante. Ela também entraria naquele mesmo lugar e não demorou muito para que o grande ogro percebesse a burrada que cometera e fosse até a plebeia se desculpar. Eles conversaram muito e mesmo sem perceber, ela já havia se apaixonado por ele.
— O ogro é Ian! – Ela parecia encantada, nem notando o real sentido daquele adjetivo dado ao irmão. – Ele também está apaixonado pela plebeia?
— Eis ai algo que ela não pode responder. Para resumir, o ogro na verdade é um príncipe disfarçado e decidiu levar a plebeia para conhecer toda sua família no castelo. Mas, ela parece fazer tudo errado. Nem mesmo a princesinha que vivia ali gostou dela.
— A princesinha sou eu? – O sono de Alicia aos poucos evaporava, o que a fez se sentar na cama, próximo a Emily que se sentara no chão, com as costas no móvel. – Eu não gostei de você no início. Me desculpe. Entendi tudo errado! Mas, meu irmão explicou direitinho quando eu liguei para ele antes de irmos tomar sorvete e agora eu prometo não te olhar de cara feia.
— Você não consegue me olhar de cara feia. É a criatura mais bela mesmo irritada. – A morena lhe sorriu, mas logo se lembrou das últimas palavras da pequena. – O que ele te disse?
— Ele falou em forma de historinha como você. Disse que papai e mamãe se amam, mas isso nunca foi motivo de me amarem menos. Falou que era a garota dele, mas eu também era. E que seria até legal porque você seria a irmã mais velha que não tive! – Exclamou ela pensativa. – Emily?
— O quê? — A morena pergunta, ainda extasiada com tudo que havia ouvido.
— Eu acho que na história, você é uma princesa, não uma plebeia. E acho que o ogro gosta de você. Ele disse que é a garota dele. Papai sempre diz isso pra mamãe... – Sussurrou como se estivesse lhe contando um segredo. – Promete que nunca vai deixar meu irmão me abandonar?
— Ian jamais faria isso, pequena.
— Então é verdade? Você é tipo minha irmã mais velha agora? – A cabeça de Alicia parecia uma bagunça tão grande quanto a de Emily, que não sabia como responder nenhuma das perguntas, já que estas eram as mesmas que martelavam seus pensamentos. Optou por assentir, afim de não magoá-la.
— Claro que sou. Se você quiser...
— Eu nunca tive uma irmã mais velha. O que elas fazem?
— Podemos descobrir juntas. – A morena piscou para ela, que sorriu em êxtase, lhe dando um abraço apertado, já querendo descer da cama.
— Vou te mostrar minha coleção de bonecas. Bella adora quando eu mostro para ela! Você gosta de bonecas, Emily?
— Será um prazer.
— Senhorita Emily, me perdoe a intromissão, mas Valentina sempre exige que Alicia durma a essa hora e como ela pediu que a trouxéssemos para a cama...
— Não seja chata, tia Marilou. – Resmungou a pequena para a babá, que sorriu de lado, quase que em um pedido de desculpas, se voltando para a morena, que se sentiu derrotada.
— O que acha de me mostrar amanhã cedo? Não quero chatear sua mãe. – Sussurra fazendo a pequena voltar para a cama imediatamente.
— Tá bom. – Alicia revirou os olhos e Emily sentiu uma leve vontade de rir, depositando um beijo estalado na testa dela antes de colocar o cobertor sobre seu corpo. – Boa noite.
— Boa noite, anjo. – Murmura se levantando, não sem antes terminar sua frase mesmo sabendo que a criança nem mesmo a ouvia mais. – Obrigada pela chance.
***
Já do outro lado da casa, Vitor e Ian admiravam o mar pelo deck da sala de estar. Ambos apreciavam um bom copo de whisky.
— A garota parece ser gente boa. – Comentou Vitor após um gole, observando cada nuance de seu filho. – Ela é especial para você?
Ian suspirou.
— Ela é. – Disse todo bobo.
Vitor sorriu feliz por ele.
— Ela sabe que é especial para você?
Ian deu de ombros.
— Eu espero que sim. Já não sei como passar meus dias sem ter ela em minha cabeça, me deixando louco. – Confessou. – Quero que saiba que é especial para mim. Emily disse que me ama, mas não consegue acreditar que eu... bem, o senhor sabe.
Seu pai assentiu.
— Digamos que você não deve ter uma reputação muito boa lá em Chicago... – Imaginou o pai, fazendo o filho expressar uma careta.
— E eu não tenho mesmo.
— Antes de eu conhecer sua mãe, eu também me divertia muito com as mulheres, mas eu gostava de ser cauteloso, escolhia a dedo quem queria. Não era igual você e seu primo que mal vê cara e coração, e já saem levando para casa. Mas quando conheci sua mãe... Simplesmente soube que não teria que escolher mais. Eu a havia achado. E foi a melhor escolha da minha vida. Não foi o melhor método, me arrependo disso. Mas foi a melhor decisão, com certeza.
Ian assentiu com a confissão do pai e sorriu internamente. O amor de seus pais era o que ele procurava para si mesmo. Alguém que o entenda, que o faça rir e que nunca desista dele. E ele tem isso com Emily, bom, ela chegou a desistir dele por um momento, e doeu bastante. Teme medo que desista novamente quando descobrir que ele é na verdade, não um empresário renomado, mas sim um mafioso sanguinário.
Pobre Ian, mal sabe que eles têm mais coisas em comum do que imaginam...
****
Não tem ideia de quanto tempo ficou no batente da porta observando Alicia deixar o sono vencer, enquanto seus pensamentos a atacavam se lembrando das palavras da pequena. Seus lábios mostravam o quanto estava tensa, mas deixou isso de lado, pelo menos tentou. Valentina se aproximou sorrateiramente pelo corredor e parou ao lado da morena observando a filha finalmente dormindo.
— Obrigada por ter colocado ela para dormir. – Sussurrou piscando para a garota, que sorriu. Um sorriso que logo desapareceu ao se lembrar de algo.
— Valentina, me desculpe pelo que aconteceu no jantar. Sei que planejou tudo cautelosamente e eu também esperava algo mais tranquilo, mas seu pai...
— É bem intimidador quanto quer. Não precisa se desculpar, já esperava por aquilo.
— A propósito, não me senti intimidada. Ofendida, talvez de início. Mas, intimidada não. Conheço aquele tipo.
— Acredite querida, não somos tão diferentes.
— Já notei isso. – Retrucou e as duas sorriram automaticamente ao notar que estavam quase entrando em mais uma discussão naquela noite. – Apesar de tudo, obrigada pelo jantar.
— Acho que já fizemos agradecimentos demais. – Brincou Valentina. – Mas, antes de finalizarmos isso, tem mais uma coisa que eu quero agradecer a você.
— O que é?
— Emily, você trouxe luz para meu filho. Vejo isso nos olhos dele. O avô o cobra muito, mas nesse jantar só o que ele pensava era em como estava se sentindo diante de tudo aquilo. Vi isso em seus olhos. E vejo também o motivo de ser tão especial para ele.
— Especial... Claro. – A morena sussurrou e revirou os olhos mesmo sem querer.
— Querida, sinto que algo a aflige desde que chegou aqui. Sei que não sou sua mãe, amiga ou confidente, mas pode contar comigo.
— Não é nada demais... É só que... Seu filho é bem complicado. E ás vezes eu acabo tentando colocar a culpa em mim também, mas não posso lutar uma guerra perdida. Não que eu tenha o costume de desistir tão fácil, prova disso é minha presença aqui.
— Perdoe se parecer grosseira, mas sinceramente? Até mesmo eu, que também achava Vitor uma grande confusão, entendia em partes esse jeito frio de expressar o que sente. Entendo a necessidade de querer ouvir tudo isso em palavras, mas se for parar para pensar, é melhor um homem demonstrando do que jogando frases feitas ao vento. Ian irá te dizer tudo o que precisa um dia. Paciência é o segredo para lidar com esses homens Chiacchio. – Murmurou Valentina, pegando Emily totalmente de surpresa. Ela parecia pensar sobre o assunto e em todos os momentos que já tivera com seu filho. Cada expressão, movimento e cena que passou despercebido pela sua memória.
Talvez ela estivesse certa, afinal, era mãe de Ian não? Quem mais iria conhece-lo assim tão bem? Como pôde ser tão cega? Desde quando deixou de ser confiante? Não era do seu feitio fazer aquilo. Não era do seu feitio fugir. E foi exatamente isso que fez quando decidiu abandoná-lo. A intenção era ir na direção contrária aos seus sentimentos. Jamais houvera luta alguma, porque a morena deixou a batalha antes disso. Se dizia tão apaixonada, mas o que havia feito afinal? Por que não gritar isso ao mundo? Ele não precisava lhe responder a altura. Paciência era a resposta. Aproveitar o momento era o que estava faltando.
— Você me dá licença? Eu acho que vou procurar o Ian... – Valentina sorriu assentindo. – Boa noite.
Emily sai em dispara, atravessando os corredores ás pressas até o escritório onde viu Ian e seu pai entrando pela primeira vez antes de levar Alicia para o quarto. Bateu na porta e a abriu sem esperar por resposta, dando de cara com Vitor, que se virou sorrindo imaginando ser Valentina. Ele ainda estava surpreso com a presença da garota, já que seu filho nunca havia falado dela, além de ser a primeira que ele trás, o que significa que sente algo por ela e soube no momento em que conversaram sobre o assunto minutos atrás.
— Desculpe. Eu achei que Ian estivesse aqui... – Sussurrou constrangida.
— Ele acabou de subir.
— Devíamos subir também. – Sua esposa aparece no batente da porta, logo atrás da morena e foi impossível não notar o olhar de Vitor ao vê-la.
Era o mesmo olhar que Ian tinha quando a via.
Como nunca tinha notado?
Encarou Valentina que sorria abobalhada para o marido.
— Bem, boa noite... – Emily murmura antes de se retirar, apesar dos dois nem mesmo terem a ouvido. Estavam em sua própria bolha agora.
Caminhou até as escadas, onde teve que subir com cuidado para não acordar a pequena Alicia, mesmo não tendo se lembrado disso quando deixou o quarto e foi atrás do irmão da pequena. Tirou os sapatos na intenção de poder andar mais rápido e então correu até o fim do corredor, abrindo a porta do quarto e jogando seu calçado em um lugar qualquer. Fez questão de trancar a porta antes de retirar sua jaqueta de lã, indo em direção ao banheiro onde ouviu o barulho do chuveiro. Abriu a porta dando de cara com Ian usando apenas uma calça jeans clara, lavando os fios bagunçados.
Ela o empurra para dentro do box, prensando seu corpo contra o dele sem se importar com o jato de água sobre os dois, beijando seus lábios sem pressa. Ian não demora muito para se dar conta da presença dela ali, se entregando para ele como fez tantas vezes. Suas mãos vão em direção as costas dela, deixando ela contra a parede e aprofundando o beijo com facilidade. As mãos delicadas tocando cada nuance de seus músculos o fizeram se arrepiar diante da sensação de tê-la ali tão perto, tão próximo de novo.
Emily não conseguia acalmar o coração que pulava inúmeras batidas enquanto sua respiração estava descompassada só de sentir seus corpos grudados. Ele a pega no colo, deixando seus rostos frente a frente, sem se separar. Suas línguas acariciavam uma a outra reconhecendo cada extremidade de suas bocas.
— Eu amo você. – Sussurrou assim que teve a oportunidade. E sussurraria quantas vezes fosse preciso para que ele tivesse certeza absoluta do que ela sentia. Se ele sentia o mesmo ou não podia dizer aquilo, que se dane. A última coisa que desejaria era não ter dito para Ian quando tivesse a oportunidade. Mesmo já tendo dito aquilo uma vez, o que os separou por uma semana, aquelas três palavras se tornavam cada vez mais fáceis de pronunciar cada vez mais. A mão dele passeava por todo seu corpo, em uma tentativa de ter certeza que não estava sonhando.
A água morna caia nos corpos dos dois e molhavam bem mais do que a superfície. Molhava a alma. E eles sentiam isso. Ian jogou a morena contra a parede e abocanhou o seu pescoço enquanto uma de suas mãos estavam em sua nuca, os puxando com certa violência. Queriam mostrar o que sentiam um pelo outro apenas com o toque, mas não conseguiam. O prazer falava mais alto que qualquer demonstração de afeto naquele momento, mas de fato aquilo significava mais do que simples sexo como antes. Emily arfava de desejo e prazer. Ian sempre sabia o que fazer para excitá-la, para fazê-la querer mais e ela adorava. Nunca foi de abaixar a cabeça para homem algum, mas ela sabia que entre quatro paredes, era Ian quem liderava até mesmo seus pensamentos mais sujos.
— Como senti a sua falta. – Murmurou ele com a voz rouca e autoritária. Emily fechou os olhos com força, cravando suas unhas nos cabelos dele. – Do teu corpo. – Disse, passando a mão nas coxas dela e deslizando até seu seio, o acariciando. – Da tua boca. – Ele lambeu seus lábios. – De você. – Ian agarrou ainda mais os cabelos de Emily e a puxou para si. — Mi sono sentito così tanto.¹
Emily arfou alto. Ian penetrou dois dedos nela e sussurrava a todo instante palavras em italiano. E se ela o conhecia bem, não era palavras carinhosas.
— Farò il grido di desiderio di me.² – Falou ele.
Emily tentava a todo custo não fazer tanto barulho, ressentia que alguém os ouvisse. Suas unhas deslizam pela parede molhada do banheiro e seu peito subia e descia, descontrolado. Ian iria fazê-la gozar sem muito esforço. Em certo momento, ele abocanhou um de seus seios e ela agarrou seus cabelos, gemendo baixinho só para ele.
— Sono tutto tuo.³ – Arriscou ela, acertando em cheio e fazendo o coração do italiano palpitar.
— Ah, como eu quero que seja, morena...
Ian parou o que estava fazendo e antes que ela protestasse, ele a pegou no colo, depois de tirar delicadamente cada peça de sua roupa, e andou até o quarto, a deitando na cama e tirando as próprias vestes também. Ambos molhados, mas nenhum se importou. Ian pegou os dois braços da garota e o prendeu acima de sua cabeça, a deixando de certo modo paralisada, enquanto destruía beijos por todo seu colo.
— Me deixa tocá-lo. – Insistiu Emily, quase sem fôlego. Ian sorriu e a olhou, abaixou a boca lentamente até um de seus seios e com a ponta da língua brincou com o bico de seu peito. Ela fechou os olhos, como há tempo não fazia, já que sempre se entregava de olhos abertos, e sentiu um arrepio na espinha. – Por favor. – Suplicou, voltando a abri-los.
Ian soltou seus braços e Emily logo suspirou aliviada, arranhando em cheio as costas dele, o fazendo gemer. Ela o jogou para o lado e assumiu a posição de dominante. Já não havia mais nada ali para se despir, e Ian já parecia animado.
Ela se abaixou e dominou seu membro, só parando ao sentir o gosto de Ian em sua boca. Levantou a cabeça e o encarou, limpando o canto da boca com um dos dedos o provocando, levando ele a loucura. Ian a puxou de volta e ela se sentou em cima dele, o recebendo dentro de si em êxtase. Fazia tanto tempo que não o sentia, que ele não a tocava assim. Sem falar que para eles, essa noite tem muito mais significado. A noite adentrou madrugada a dentro e só pararam quando não conseguiam mexer mais nenhum só músculo ou dedo. Caíram na cama lado a lado. O suor pingando e a exaustão dominando cada milímetro de seus corpos, porém os dois sorriam.
— Promete que não vai fugir mais de mim. – Pede Ian a olhando daquele jeito que Vitor olhava para Valentina, acariciando o rosto da morena, que se entregava aquele gesto.
— Prometo. – Diz, sorrindo.
Uma promessa dessas devia ser pensada com mais cautela, ou prometida com mais sabedoria. Mas pobre Romeu e Julieta, quem poderia imaginar o fim que iriam levar? Como diria o velho Shakespeare:
Estas alegrias violentas têm fins violentos... Falecendo no triunfo, como fogo e pólvora, que num beijo se consomem.
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