No outro dia, depois do roubo dos diamantes, Ian finalmente conseguiu localizar Santiago, que até então havia fugido para o México e ficou escondido lá durante esse tempo, temendo que a Cosa Nostra o encontrasse depois que eles descobriram a verdade. Mas, com a ajuda de alguns traficantes, ele foi encontrado e deportado diretamente para a empresa de Ian, a fim de terem uma conversinha em particular. Santiago foi levado para o andar subterrâneo e a cada degrau que ele descia, fazia uma oração em suplica. Ian já o espera lá embaixo, junto de Lorenzo.

— Não podemos fazer isso depois do almoço? – Insistiu Lorenzo. – Torturar pessoas me deixa com o estomago embrulhado. – Revelou sem muita importância.

Ian riu do primo e deu de ombros. Já estava mais do que na hora de Santiago receber o que merece.

— Se quiser ir, fique à vontade. – Ian disse.

— E deixar você com a melhor parte? Nem pensar. – Respondeu Lorenzo, sorrindo de lado.

Lorenzo tinha um almoço marcado com Chloe, mas assim que ficou sabendo que Santiago foi encontrado, tratou logo de desmarcar, pedindo desculpas e dizendo que a recompensará mais tarde. Momentos depois, Santiago entrou na sala e fitou espantado Ian e Lorenzo sentados em duas cadeiras de aço despreocupados. Assim que o viu, Lorenzo sorriu de uma forma enigmática, diferente de Ian, é claro, que o fitou com um ódio mortal.

— Quanto tempo, Santiago. Já estava ficando preocupado com o seu desaparecimento. – Lorenzo ironizou.

Santiago engoliu em seco.

— Tive que viajar.

— Para o México? – Indagou Ian.

— Tive uns afazeres lá. – Respondeu nervoso.

Foi então que Lorenzo soltou o ar pela boca e pareceu imensamente aliviado, levando a mão ao peito.

— Graças a Deus! – Gritou Lorenzo se levantando e caminhando até Santiago. – Ian e eu pensamos que você havia sido sequestrado pelos ladrões dos diamantes.

Ele parou ao lado dele e sorriu falsamente, se divertindo com a expressão aterrorizada do homem, que estava quase se mijando de medo.

— Não é mesmo, Ian? – Questionou Lorenzo.

Pela primeira vez Ian esboçou um sorriso, porém Santiago ficou ainda mais aflito, pois aquele sorriso era tão sombrio quanto aquele lugar.

— Ah, sim. Muito preocupados.

Assim que falou, Ian fez um sinal para que seus homens saíssem e assim que eles fecharam a porta, Lorenzo pegou com força o homem pelos cabelos e o jogou contra a mesa a sua frente, o fazendo quebrar o nariz com o impacto.

— Achou que iria se esconder para sempre, Santiago? – Sussurrou Lorenzo para ele.

Ian se levantou e foi até uma outra mesa, onde estava alguns utensílios. Facas, tesouras, bisturis, machados... E enquanto isso, Lorenzo amarrava o homem em uma cadeira.

— Você quase me enganou, Santiago. Quase. – Ele escolheu um dos objetos e voltou. – E se tem uma coisa que eu odeio é que mintam para mim. E sabe o que acontece com gente que fala o que não deve? – Ian perguntou próximo ao homem. – Eles perdem a língua!

Com um movimento rápido, Lorenzo segurou a cabeça de Santiago enquanto Ian arrancava com um só golpe a língua do homem. Santiago se debateu e gemeu com a dor alucinante que sentiu. O sangue espirrou por todos os lados e Ian se afastou sentindo nojo daquilo tudo, mas satisfeito por tê-lo feito pegar. Santiago se contorcia na cadeira e se debatia e por um momento desejou que Ian desse logo um fim nele, pois a dor já era demais. Ian deu a volta, parando atrás dele e se debruçou, sussurrando ao seu ouvido:

— Eu poderia te matar agora, mas eu recebi inúmeras ofertas dos seus credores para que eu te deixasse bastante consciente quando eles vierem cobrar suas dívidas. O que acha?

Santiago tremia e Ian apenas dava de ombros, não se importando com a dor que causará nele.

— Achei que iríamos nos divertir bem mais com ele. – Lorenzo exclamou, parecendo estar chateado.

— E vamos. – Ian afirmou, se levantando. Ian caminhou para frente de Santiago e encostou-se à mesa. – Como você é um antigo sócio do me avô, decidi te dar um tratamento especial. Eu preparei para você uma dose de um bloqueador neuromuscular. Ela irá permitir que você não mova um só músculo do corpo, te deixando paralisado. Porém, você irá sentir tudo. E sempre que o seu coração estiver prestes a parar, você irá receber uma dose de adrenalina, impedindo que você nos deixe fora de hora. O que acha? Divertido, não?

Ian sorria de uma forma divertida e Lorenzo fazia o mesmo. Ambos sorriam da cara de espanto de Santiago, que por hora, já havia se mijado todo. Lorenzo foi até a porta e pediu que o médico entrasse e instalasse o aparelho no homem. Lorenzo e Ian observavam a cena pelo canto da sala.

— Torturar Santiago já não me parece mais tão divertido agora. – Sussurrou Lorenzo desinteressado. – Que horas Clyde vai chegar?

Clyde é o cara que pagou Ian para torturar Santiago, já que o mesmo passou a perna nele e roubou milhões de dólares.

— Daqui a pouco. Se quer saber, eu achei que isso seria mais interessante. – Informou Ian, decepcionado consigo mesmo. – Vamos deixá-lo aqui até que Clyde chegue. Temos coisas mais importantes a fazer.

Lorenzo acenou em concordância.

— Eu odeio ter que disser isso, mas nós teremos que ir, Santiago. Espero que se divirta bastante com seu novo amiguinho. – Lorenzo avisou sorrindo despreocupado lhe dando um soco no estômago logo em seguida.

Ian também se aproximou do homem e cravou um bisturi em sua perna, rasgando sua pele sem nenhum impedimento.

— Até nunca mais, Santiago. – Sussurrou Ian.

Santiago tentou falar, mas sem a língua, apenas resmungou algo inaudível aos ouvidos de todos, fazendo Ian rir consigo mesmo. Ele deu meia volta e junto com Lorenzo, subiram para as suas salas, onde trocaram de roupa. Algum tempo depois, Lorenzo voltou à sala de Ian com o telefone em mãos.

— Alicia acabou de me ligar. Acho que queria falar com você. – Avisou.

— Minha irmã? – Questionou Ian. – O que ela disse?

— Pediu para falar com você, mas logo depois desligou. Ligou do celular da sua mãe, com certeza deve estar aprontando.

Ian sorriu e pegou seu celular, discando o número da mãe e colocando ao viva voz.

— Ian? – Chamou Alicia.

— Alicia? O que faz com o celular da mamãe? – Perguntou ele, curioso.

Alicia suspirou.

— Ela está comemorando. – Falou tristemente.

— Comemorando o que?

— O bebê. O vovô fez um bolo para comemorar um mês. – Explicou, ainda se mostrando chateada.

— Ah, claro. Hoje faz um mês que a mamãe descobriu que está grávida. – Lembrou-se. – Mas por que você parece estar chateada com isso?

— Porque eu estou! – Exclamou irritada. – Ninguém nunca fez um bolo para mim antes. – Protestou.

Ian e Lorenzo caíram na gargalhada. Alicia sempre foi muito mimada pela mãe e, com a descoberta que teria outra criança na casa com qual iria dividir a atenção, Alicia se tem mostrado bastante insistente e ciumenta. Mesmo quando não há motivos.

— Alicia, você tem festas de aniversários todos os anos. Com vários bolos de diversos sabores. Essa é a primeira vez que fazem um bolo para o bebê. – Argumentou Ian, tentou dobrar a irmã mais nova.

Alicia ficou quieta por alguns minutos, pensando nos argumentos do irmão, enquanto Lorenzo e Ian seguravam o riso.

— Só que a mamãe ia me levar a praia hoje, não comemorar! – Protestou novamente e Ian podia imaginá-la com os braços cruzados e com o bico de menina pidona feito. Sorriu ao lembrar-se dela. Sentia sua falta e precisava visitá-la.

— Mio amore, escute, o bebê não irá ocupar o seu lugar em nossas vidas, ok? Não precisa ficar com ciúmes, afinal, eu nunca fiquei com ciúmes de você, fiquei? – Perguntou.

— Não. – Resmungou Alicia.

— Então por que você não vai lá comemorar junto com a mamãe?

Alicia respirou fundo, parecendo estar convencida.

— Tudo bem, mas vou lá apenas para comer o bolo. – Argumentou.

Ian riu.

— Assim já está melhor. – Falou.

— Eu sinto a sua falta, Ian. – Confessou ela. – Quando irá me visitar?

— Que tal mês que vem? Prometo ficar alguns dias com você.

— Combinado! Mande um beijo para o tio Lorenzo também, eu desliguei na cara dele. – Disse ela, sorrindo do seu feito.

— Eu te perdoo. – Lorenzo exclamou se inclinando para o telefone. – Outro beijo para você, pequena.

— Obrigada. Tchau. – E desligou.

Os dois riram do jeito de Alicia.

— O ciúme dela só tende a crescer. – Especulou Lorenzo.

— Talvez durante a gestação ela fique mais ciumenta, mas talvez se anime quando o bebê nascer. – Ian disse.

— É, pode ser. Enfim, eu estou indo almoçar e depois vou me encontrar com Chloe. Irá ficar a tarde toda aqui?

— Vou. Emily está ocupada ensaiando a peça teatral, só nos veremos no fim da tarde. – Contou.

— Certo, eu vou indo. Até mais.

— Até.

Lorenzo saiu e Ian continuou em seu escritório até o começo do fim da tarde, quando deixou seu escritório e pediu que o seu motorista o levasse para a cafeteria onde havia marcado de se encontrar com Emily. Ele está ansioso para vê-la. Quer beijá-la e sentir todo aquele estresse ir embora. Talvez conversar com ela já o deixe mais calmo, sua presença sempre o anima.

Assim que chega na cafeteria, Ian atrai olhares e é admirado por meia dúzia de mulheres encantadas com sua beleza e postura. Se sentou no canto da cafeteria de costas para elas, pois não queria que Emily o visse dando bola para outra, pois mesmo para Ian, que dorme com várias sem se importar, não é coisa que se faça. Mas ele sorriu divertido ao sentir sua nuca se esquentar com tantos olhares sobre ele.

E Ian ficou sentindo sua nuca esquentar por muito tempo e por diversas mulheres, mas nada de Emily chegar.

****

O Sol já havia raiado e Emily não havia pregado o olho direito desde que Ian foi embora. Contou cada segundo torcendo para que o próximo dia finalmente chegasse e ela pudesse ir correndo para a Universidade ver com qual papel havia ficado. Se levanta da cama assim que o seu despertador toca e coloca um vestido solto assim que termina o banho mais rápido que já tomou em toda sua existência. Faz um coque bagunçado, de qualquer jeito, já correndo até a cozinha procurando algo para comer dando de cara com Chloe fazendo um delicioso café da manhã, mas a pressa não queria deixa-la aproveitar todas as gostosuras que estavam sobre a pequena mesa em frente ao balcão onde a prima cozinhava.

— Bom dia. – Cantarolou a prima, se virando em direção a morena e notando o nervosismo em seu rosto. – Tudo bem, você vai me dizer o que aconteceu ontem ou vai desconversar?

— Do que está falando?

— De toda a preocupação que está estampada em seu rosto. Se esqueceu? Eu conheço você desde sempre. – Chloe ergueu a sobrancelha cruzando os braços. – Sei que não foi por causa do roubo de ontem. Você definitivamente nunca se preocupa com isso.

— Eu não consegui. – Suspirou pesadamente deixando a ruiva ainda mais confusa. – O papel de Julieta. Eu não consegui.

— Como não? Você interpreta Julieta quase todo ano! – Exclama Chloe.

— Diz isso para o corpo docente. Eu juro que estava cem por cento concentrada. Fiz tudo como antes. O que mudou? – Perguntou mais para si mesma.

— Veja pelo lado bom, há outros papéis e você com certeza pegará um importante. – Diz a prima se aproximando de Emily e lhe dando um confortante abraço. – Adivinhe só o que eu comprei hoje cedo?

— O meu café favorito? – Os olhos da morena brilham só de imaginar um copo cheio de seu café, já que Chloe só fazia o café doce.

— Não, bobinha. O nosso parque de diversões finalmente abriu aqui em Chicago. Se lembra que tínhamos que ir sempre a Nova York ou durante as férias no Brasil? Não mais. E eu tenho duas entradas para hoje.

— Eu até iria, mas não acho justo. Caso não se lembre, eu também te conheço e sei que comprou um ingresso para Lorenzo e não para mim. Podem ir se divertir. Vou ficar bem. Talvez eu vá outra hora.

— Ele irá entender. – Insistiu Chloe.

— Tenho que ir. – Emily desconversa. – Vá com ele.

A morena pega sua bolsa correndo e rapidamente sai antes que Chloe reclamasse e dentro do elevador, ela procura suas chaves, encontrando elas assim que chega ao estacionamento. Pisa fundo no acelerador ao entrar no carro e em questão de minutos, estava na porta da universidade, onde não havia um único aluno ainda. Seus pés se movem tão rápido e mesmo de salto alto, não escorregou ou tropeçou em nenhum segundo.

Não podia perder tempo e precisava saber qual era seu papel. Isso até pode parecer infantil, mas ela gosta da ideia de atuar. Talvez jamais irá conseguir viver sem a atuação. A vida dela é quase uma peça teatral. Emily abre as portas pesadas do lugar e corre pelos corredores até o mural ao lado da sala da diretoria e seu coração parece pular pela boca. Sentou-se no banco ao ver que a folha com o relatório dos papéis ainda não estava ali, mas rapidamente se levanta ao ver o reitor se aproximar com o papel em mãos.

— Bom dia reitor. – Sussurrou, e ele apenas assentiu como se desejasse o mesmo a ela. Pregou a folha no mural e saiu dali tão rápido quanto chegou.

A garganta de Emily seca, e a coragem de olhar o relatório desaparece, dando lugar ao medo de saber qual seria o papel em que ela deveria se destacar. Então seus olhos focam imediatamente em seu nome ali e logo ao lado, o personagem que iria interpretar. Nenhum. Aquilo só podia ser brincadeira! A morena seria substituta de Odete. Ou seja, se a garota não tivesse condições, ela interpretaria o papel de Julieta. Sendo assim, ficaria de escanteio. Seus olhos ferveram de raiva e já estava prestes a arrancar aquilo dali e ir atrás do reitor quando dá de cara com Dan.

— O que eu fiz de errado? Já que é o professor e estava julgando, me diga... O que eu não fiz que Odete fez? – Perguntou tentando esconder a irritação.

— Você é espetacular Emily! Mas não foi você mesma que disse que se cansou da mesmice? – Retrucou ele de braços cruzados.

— Não foi você mesmo que disse sobre seguir tradições? Adivinha só... Romeu e Julieta não é a única tradição. Eu estar na peça também é. – Murmurou ela se sentando no banco. – Estou me sentindo uma criança de seis anos dando birra por não ter conseguido o que queria. Mas essa peça era importante para mim. Seria minha última.

— Como assim, sua última? – Perguntou Dan se sentando ao lado dela.

— Esse é meu último ano aqui. Trancarei o curso e voltarei para o Brasil a fim de assumir a empresa de meus pais. – Com empresa, Emily quis dizer máfia. – Esse foi nosso combinado.

— Talvez haja alguma solução... – Sussurrou ele, prendendo a atenção da morena. – Mostre que sabe atuar melhor. Estará treinando junto de Odete, então... Se você acha que é uma ótima Julieta, prove ao corpo docente dessa universidade.

— Acho que vou voltar para casa hoje. Não estou no clima de ver Odete se vangloriando com o papel. – Comentei dando de ombros e ele sorriu. – Mas para todos os efeitos, eu passei mal e tive que ir embora.

— Claro... – O sorriso dele se tornou uma risada. – Prometo não contar a ninguém.

— Nos vemos amanhã então... – Diz ela se levantando do banco e correndo para fora da universidade. Queria sair sem ver absolutamente ninguém, mas isso não ocorreu.

Odete descia de seu carro, usando óculos escuros e mascando um chiclete de maneira nojenta. As duas não trocam uma palavra, mas se olhar matasse, a garota não estaria viva para interpretar seu papel e Emily já estaria nos palcos. Assim que chega no apartamento, a morena coloca uma roupa mais fresca e prepara o seu tão amado café, decidindo toma-lo na sacada, observando a paisagem de Chicago. Desde que chegou ali, quis deixar claro a si mesma que iria embora um dia.

E agora que esse dia está tão próximo, ela havia se esquecido daquilo. Lógico que estava animada para assumir a máfia dos pais, aquele era um sonho desde que seus treinamentos com a família se iniciaram, mas agora não estava mais tão certa do que realmente queria. Atuar sempre foi seu grande sonho e seus pais terem deixado ela fazer universidade de artes cênicas já havia sido praticamente o suficiente considerando que nem isso eles deixariam graças aos erros do avô. Se pudesse trazer a sede da máfia Gavin de volta para os Estados Unidos, mas era impossível já que a Cosa Nostra a mataria antes mesmo de criar um plano para isso.

— Problemas no paraíso? – Perguntou Ian, a assustando por um instante. Ele havia subido pela escada de incêndio e rapidamente já estava ao lado dela.

— Pensei que iria trabalhar a manhã toda. Não era para nos encontrarmos a tarde?

— Era, e eu fiquei te esperando uma eternidade. – Ele sorriu ao observar o rosto dela finalmente se dar conta que ficara por horas ali.

— Desculpa! Perdi a noção do tempo. – Sussurrou ela se sentando em uma das cadeiras que havia na sacada e Ian faz o mesmo, sorrindo e dando de ombros mostrando não se importar.

— Está tudo bem? – Questionou e foi a vez dela sorrir.

— Qual é Ian? Só fazemos sexo, não precisa ser gentil ou parecer preocupado.

— Emily... Quando concordei com essa amizade colorida, isso incluía a parte da amizade. – Diz ele calmamente.

Emily respira fundo, frustrada.

— O teste que fiz ontem para a peça de Romeu e Julieta... Fiquei como substituta. Só irei interpretar alguma coisa na peça se a garota que ganhou o papel principal não tiver condições. – Murmurou. – Eu sei que é infantil ficar triste com algo assim, você provavelmente deve estar rindo internamente.

— Não, só estou confuso. Sei que é uma boa atriz e treinou muito para conseguir um papel. – Comentou e ela sorri.

— Nem tudo é como queremos... Mas não estou a fim de falar disso. Afinal, parece que não sou a única que estou tendo problemas no paraíso.

— Comandar uma empresa não é tão fácil quanto parece e eu não curto muito a ideia de escorregar de vez em quando... Sei que errar é humano mas sou orgulhoso demais para isso. – Ian tentou simplificar o máximo possível, afinal, talvez ela soubesse o que era uma máfia. No mundo atual, quase todo mundo sabe o conceito disso. E Emily jamais poderia saber que ele era mafioso. E nenhum de seus inimigos deveria saber da existência dela.

Ele sempre soube que estar com alguém mais tempo do que costuma ficar, faria dela uma espécie de alvo, mas a verdade é que Ian já havia se acostumado com a presença da morena.

E nunca esteve tão certo das escolhas que fez quando aceitou aquela proposta de ficar com ela. Nunca acreditou em sentimentos mesquinhos como o amor e sabia que estar com Emily tanto tempo poderia fazer ele mudar de ideia, mas seu orgulho dizia que isso jamais mudaria. E mesmo sabendo que o orgulho estava errado, não foi embora e talvez jamais vá.

— Vai ver somos mais parecidos do que imaginávamos... – Diz a morena tirando Ian de seus devaneios.

Os lábios dele rapidamente capturam os dela em um beijo rápido e os dois ficam ali um bom tempo até ouvir o barulho da porta sendo aberta e sua prima adentrando no apartamento. Ele se despede rápido de Emily e vai embora pelo mesmo lugar que chegou e a ruiva nem mesmo havia o visto. As duas se encaram e rapidamente e Chloe entende o que havia acontecido.

— Tem certeza que não quer ir ao parque? – Perguntou ela.

Não precisou nem mesmo ouvir a resposta e quando se deram conta, já estavam adentrando o parque com sorrisos no rosto e por alguns segundos, a morena havia se esquecido de absolutamente tudo, com exceção de suas memórias de infância ao lado da prima. As duas trocam risadas e vão direto até a roda gigante, onde a bela vista de Chicago ao fim do entardecer as esperavam. Se divertiram até o fim à noite, jogando conversa fora como fizeram quando crianças. Fizeram questão de ir ao tiro ao alvo onde conseguiram o maior urso, deixando todos estupefatos pela boa pontaria das garotas. Riram por horas da expressão dos que estavam a sua volta e voltaram assim para casa. Chegam em seu apartamento sentindo a tão famosa dor na barriga depois de tantas risadas, e ao ligarem a luz da sala, dão de cara com suas mães sentadas no sofá. Hannah e Sophie se levantam rapidamente correndo até as filhas e as abraçando apertado.

— Mãe, tia... O que aconteceu? – Perguntou Emily preocupada, voltando o olhar para a mãe que parecia não conseguir parar de chorar. – Por que está chorando, mãe?

— Ficamos preocupadas que vocês também tivessem... Quando encontramos o lugar vazio, nós... Não sabíamos o que fazer se algo tivesse acontecido com vocês. – Sophie dizia entre soluços. Ela e Hannah não haviam mudado absolutamente nada quando o assunto era beleza. A idade definitivamente não havia mudado aquilo. Emily encara sua tia Hannah que continua agarrada a Chloe e encarava a morena com pena.

— Vocês precisam voltar para o Brasil por alguns dias. – Sussurrou sua tia.

— O quê? Eu não posso, não agora...

— Sua avó, Maria... – Hannah não conseguiu terminar e sua mãe já estava aos prantos de novo. As pernas de Emily fraquejaram por alguns segundos.

— O que aconteceu com minha avó mãe? Me responda! – Grita ela rapidamente se arrependendo e sentindo uma vontade imensa de chorar. – Tia...

— Mãe, o que está acontecendo? O que aconteceu com Maria? – Perguntou Chloe tão preocupada quanto Emily.

— Ela desapareceu. Vamos ficar menos preocupadas se voltarem para o Brasil conosco. Ainda essa noite. – Diz Hannah e Emily rapidamente envolve sua mãe em um abraço apertado. – Precisamos da família mais unida do que nunca para descobrir quem fez isso.

— Seja quem for, irá pagar. – Diz Sophie enxugando as lágrimas que insistiam em cair. – Eles pegaram a mãe da pessoa errada.

— Eles vão pagar Sophie, tente se acalmar. Ethan vai ficar maluco se ver vocês duas chorando assim. Temos que ir...

— Acham que foi a Cosa Nostra? – Pergunta Chloe indo em direção a Sophie e abraçando a tia.

— Se fosse eles, teriam pegado vocês, não acham? Será que descobriram? – Hannah agora ficara de fato preocupada. Emily enxuga suas lágrimas e seu rosto, que demonstrava apenas tristeza, toma outra forma. A Cosa Nostra finalmente havia descoberto e usado seu ponto mais fraco, a família. O ódio toma conta de sua face e ela respira fundo.

— Seja quem for... Irá pagar bem caro por isso. – Diz a morena com firmeza.

Mas verdade seja dita... Era ela quem estava pagando caro por estar com o neto daquele que deseja a cabeça dela e de toda sua família em uma bandeja de prata.