Mirrors
24 Let Her Go...
Fazia horas que se esforçava para não atender as ligações e responder as mensagens de Ian. A última coisa que Emily queria era deixá-lo ainda mais metido com aquele ciúme infantil dela. Precisava se concentrar para o papel de Julieta então deixaria para resolver – ou simplesmente ignorar, esse problema depois. A noite já havia caído em Chicago e ela estaciona o carro em frente à universidade, onde o professor Dan já a esperava.
— Preparada Julieta? – Perguntou assim que a viu entrando no teatro.
— Sempre. Tem certeza que não estou incomodando?
— Eu iria passar a noite fazendo isso. Pelo menos terei companhia! – Exclama com um sorriso nos lábios.
— Vou guardar minhas coisas e volto já. – Avisa pegando a bolsa e saindo dali.
Lavou o rosto no vestiário, tirando a maquiagem leve que usou durante o dia, e deixou alguma de suas coisas ali mesmo, levando apenas os roteiros e a bolsa consigo. Dan a esperava com um jarro de água bem gelada e dois copos para servi-los.
— Você adivinhou meus pensamentos... – Murmurou Emily já se servindo enquanto ele estranhamente começa a trancar as portas.
— Os assaltos na região têm aumentado bastante. – Se explicou ao notar o olhar dela.
— Tudo bem. O que acha de começarmos com a cena final? – Questiona vasculhando os papéis, procurando a cena que havia comentado enquanto bebia alguns goles da água. Estava com tanta sede que se serviu mais uma vez.
— Eu sinto muito, Em. – O sussurro fraco de Dan ecoa por todo o teatro em função de sua magnitude e a morena o encara confusa.
— Pelo quê?
— Você também é tão idiota. Não me deixou escolha... Só espero que não me odeie. – A voz dele estava séria, e seu olhar maldoso fizeram ela ficar mais preocupada.
— Do que está falando? Por que eu te odiaria?
Seu rosto, que até então estava atordoado, agora está sério, a encarando de cima abaixo enquanto se aproxima, segurando seus braços com força quando estavam bastante próximos. Os olhos dela se prendem aos seus, procurando alguma brincadeira de mau gosto ali.
— Dan, me solta. – Pede calmamente, tentando manter a respiração tranquila.
— Sempre gostei do som do meu nome na sua boca. Você nunca vai se esquecer dessa noite.
— Me solta... – Ela respira fundo, fechando as mãos em punho.
Quanto mais pedia, mais seu sorriso se aumenta, vendo toda a situação de maneira romantizada. Na visão dele, a morena estava adorando e apenas fazendo uma espécie de jogo com ele, que jamais se cansaria de jogar se assim fosse. Queria ela e pronto.
— Você é tão linda...
Dan estava prestes a beijá-la, mas ela é mais rápida, afastando um de seus braços e segurando o pescoço dele com força, jogando seu corpo no chão. O professor urra de dor e ofega em busca de oxigênio. Emily cambaleia e se apoia em uma mesa, procurando se manter em pé. Foi impossível não focar os olhos no copo de água... Estava dopada. Correu em direção a única porta que não havia trancado: a que dava para os corredores da universidade. O portão de saída parecia pesado demais para ser aberto e sentiu a fraqueza lhe atingir como um jato d’água. Se apoia nas paredes até a sala do zelador, onde ficava os produtos de limpeza. Fecha a porta, e seu corpo cai mole no chão, como um barco ancorando em alto mar. Se arrasta até o canto do cômodo, sentindo seus olhos pesarem. Ela não podia dormir.
— Emily! – O grito de Dan ecoando pelos corredores fizeram ela ficar mais alerta. – Você não está me ajudando. Eu não queria isso, mas você não facilita.
Ouve-se o barulho das portas sendo escancaradas. Ele estava procurando por ela. A morena tenta levantar, mas seu corpo parecia não obedecê-la mais. O sono a consumia e sua respiração estava incontrolável. Sentiu uma vontade imensa de chorar, mas não daria esse gostinho a ele.
Decepção.
Era tudo que ocupava seus pensamentos naquele momento. Dan se tornara um grande amigo ao longo dos meses e agora era seu maior pesadelo. Nunca havia mostrado ser um completo psicopata. Seria dupla personalidade? Jamais iria conseguir entender. A imagem dos olhos sedentos dele a atormentariam por toda sua existência.
— Ah! Aí está você! – A voz dele lhe causava arrepios agora que estava tão próximo. Ele escancara a porta dando de cara com a morena encolhida no canto.
Dan sorri tentando passar algum tipo de confiança ou calmaria, puxando ela com cuidado, fazendo ela ficar em pé e a prensando na parede até que seus corpos estivessem colados. Seu membro latejava dentro da calça ao ver aquele rosto tão perfeitamente próximo ao seu. Seus corpos em breve se fundindo em um só e o som de sua voz ao gemer seu nome. Tinha toda a noite do mundo então não se importaria em perder tempo... Ficou ali apenas a admirando.
— Dan... – O sussurro de Emily sai quase inaudível, e o sorriso do professor se
torna ainda mais cheio de malícia.
— Adoro quando geme assim... É tão gostosa. – Os lábios dele tocam os seus e ele usa uma das mãos para abrir sua boca sem delicadeza, acariciando a língua dela enquanto apalpava todo seu corpo, ainda por cima das roupas.
— Sua pele é viciante... – Murmurou trilhando um caminho de beijos até o pescoço da morena, virando o rosto dela para lhe dar mais espaço.
Seus olhos se fecham por alguns segundos e quando se abre, Ian surge ao final do corredor, a procura dela. Precisava entender melhor o que aconteceu... Por que ela o ignorava? Então seus olhos se encontram. A confusão estampada no rosto dele tentando relacionar o que estava presenciando. Aquilo simplesmente desaparece ao notar uma lágrima solitária escapando pelo rosto de Emily, tornando seu entendimento mais fácil. Seus olhos escurecem de tanto ódio e ela jamais havia o visto tão irritado. Por alguns minutos, se permitiu respirar só por ter ele ali tão perto.
O cansaço já estava a atingindo com tanta facilidade que não sentia mais nada, mas ousou sentir alívio.
— Bom... A dopagem dura algumas horas, mas a dosagem que ele usou em você não foi em grande quantidade. Pode ser que sinta um pouco de dor de cabeça depois que o efeito passar, mas nada alarmante. Vou deixar alguns comprimidos aqui caso isso ocorra. – Avisa o médico tirando Emily de seu transe. Seu corpo estava tão mole que mal conseguia parar sentada, quanto mais em pé. Afirmou com a cabeça depois de muito esforço. – Avisarei ao senhor Chiacchio sobre seu estado e enquanto isso eu sugiro que você durma.
A morena se inclina, deitando sobre a cama e encarando o teto enquanto o médico depositava alguns comprimidos sobre uma bandeja acompanhada de um copo d’água antes de ir embora dali já ligando para Ian afim de avisar como ela estava. Ele havia comprado esse apartamento para que os dois tivessem um pouco de privacidade, já que na casa dele era repleto de funcionários indo e vindo, sempre especulando sobre a vida do chefe. Respirou fundo tentando tirar aquele pesadelo da sua cabeça, mas estava gravado com uma tatuagem.
Queria chorar só que as lágrimas pareciam ter acabado e não sobrou nada além de sua carcaça. Se sentia humilhada... Invadida. E pela primeira vez entendeu a necessidade que o pai teve de ensiná-la a se defender antes de ir para Chicago. Haviam homens como Dan, soltos por aí, se aproveitando de mulheres que só querem viver a própria vida. E isso é algo que acontece o tempo todo, e em qualquer lugar. E nem todas tinham a grande sorte de alguém aparecer quando aquilo estava prestes a se concretizar.
Fechou os olhos e acabou dormindo, acordando ao ouvir a porta se abrindo. Seu sono estava leve, imaginando que a qualquer momento seu professor fosse aparecer ali para terminar o que havia começado. Mas era só Ian. Ele parecia cansado, e se sentou nos pés da cama, olhando para a parede, pensativo. O efeito da dopagem parecia ter sumido e suas forças já estavam sendo recobradas – menos sua cabeça que continuava em frangalhos, então ousou se sentar, arrastando seu corpo até ele e o abraçando por trás.
— Não queria te acordar... – Murmurou Ian se virando para ela. – Emily...
— Por favor... Não me faz falar o que aconteceu. Não hoje. – Pede quase que em suplica. A última coisa da qual precisava era reunir tudo o que sentia para contar em detalhes os acontecimentos.
— Eu sinto muito por isso. – Diz com sinceridade. Mesmo tendo torturado Daniel, sua raiva parecia não ter acabado. Se pudesse, ressuscitaria aquele cretino só para ter a chance de torturar e matar ele de novo.
— Eu também sinto.
— Acho melhor você descansar. – Comenta a fazendo se deitar mais uma vez na cama, a cobrindo com uma coberta de seda.
— Por favor, não saia de perto de mim por nada. – Pede segurando a mão dele, que ousou sorrir carinhosamente, tirando seu terno e se enfiando embaixo da coberta e a abraçando com carinho.
— Nunca. – Sussurrou beijando o topo da cabeça da morena.
******
A luz do Sol ilumina todo o quarto de tons pastéis e foi impossível não abrir os olhos, demorando um bom tempo para acordar de fato. Ian não estava no quarto, mas ouviu alguns murmúrios do lado de fora, o que significava que ainda estava no apartamento. As portas de vidro que davam para a sacada estavam abertas e o vento matinal praticamente acariciava o seu rosto. Decidiu se levantar e uma forte dor de cabeça a atingiu, o que a fez pegar os comprimidos que o médico havia deixado sobre a mesa, engolindo sem o auxílio da água. Caminhou até o banheiro a passos lentos e tirou sua peça de roupa com cuidado sentindo algumas dores no corpo. Foi impossível não notar as manchas roxas em sua cintura e pulso em função da força desnecessária de Dan.
Dan.
Lembrar dele fez seu estomago revirar de tamanha repulsa, sem acreditar que aquilo realmente aconteceu. Ligou o chuveiro e tomou um banho gelado, deixando todo o seu cansaço ir para o ralo junto com a humilhação que sentia ao ter se sentido tão indefesa. Colocou uma de suas poucas peças de roupa que haviam no closet daquele quarto e usou uma mochila que encontrou no canto da prateleira para guardar aquilo. Havia tomado uma decisão depois de tudo que passou e só o que precisava era de um pouco de coragem. Pegou sua bolsinha de maquiagem que sempre carregava na bolsa e apagou toda a tristeza de seu rosto. Já estava fechando a mochila quando Ian aparece no cômodo.
— Bom dia... Pedi que uma das minhas cozinheiras viesse preparar algo para você. O médico disse que precisava se alimentar bem. – Comunicou, voltando o olhar para as coisas dela dentro de uma das mochilas que ela trouxera com algumas peças de roupa na primeira vez que vieram para esse apartamento. – Está indo embora?
— É... Eu tenho que resolver umas coisas na universidade e Chloe deve estar preocupada comigo. – Murmura mexendo no cabelo tentando esconder o nervosismo.
— Lorenzo deixou ela a par do assunto. Eu estava pensando que talvez a gente pudesse passar a tarde aqui. Tirei o dia de folga e... – Diz querendo se aproximar, mas a maneira como ela estava na defensiva denunciava que essa era a última coisa que queria.
— Eu vi você com a Katherine noite passada. – Sussurra aproveitando os poucos segundos de adrenalina que a atingiram ao desviar o seu olhar do dele.
— Então foi por isso que...
— É, foi. – Afirma, procurando palavras para ser mais direta. — Sei que o que temos é puramente sem compromisso, mas eu fiquei com ciúmes. E eu não posso julgar sua atitude apesar de ter ficado bem chateada, não posso negar.
— Sobre isso, eu e ela...
— Não precisa se explicar. Não fez nada de errado. Mas, depois disso eu decidi que quero acabar com o que temos. Quero acabar com essa amizade Ian.
Ela então finalmente cria coragem para encará-lo nos olhos e a sua imensidão azul parecia não lhe dar nenhuma resposta. Suas orbes encaravam o nada parecendo procurar algum vestígio de que ela estava mentindo, mas a verdade é que Emily nunca foi tão sincera. Ian rapidamente fica indignado. Como assim ela queria terminar com a amizade dos dois? Ela não pode fazer isso! Ele precisa dela. Ele a quer!
— Você não pode fazer isso. – Diz tentando não mostrar sua irritação.
— Ian...
— Não pode. Eu avisei que isso não era uma brincadeira adolescente, eu te avisei que era só uma amizade...
— Ian...
— Você faz parte da minha vida agora, droga. – Gritou antes que ela o interrompesse de novo. – Não pode simplesmente sair dela.
— Eu sinto muito. Mas isso é demais para mim! – Fala se esforçando para continuar calma.
— Demais para você? A única regra imposta era que não houvesse sentimento nisso tudo... Desde quando isso se tornou tão difícil? Desde quando isso...
— Desde que eu me apaixonei por você seu idiota. – Foi a vez dela gritar. Ian finalmente se cala a encarando com cuidado. Ela o amava? Isso não podia ser verdade... Emily não é como as outras garotas, ela é durona, tem pulso firme. Não pode ter se apaixonado por ele, mesmo que isso incha o ego dele, isso era a última coisa que ele queria que acontecesse. Ainda mais porque o sentimento não é recíproco.
Emily respira fundo, falando com mais calma.
– Desculpa. Aconteceu. Acredite, fiquei mais surpresa do que você está agora. Porque dentre tantas pessoas no mundo, foi justo com a pessoa que menos se importa.
— Eu me importo. – Protestou ele.
— Não. Não se importa. Pra você eu sou só uma amiga que nas horas vagas você transa.
— Eu era só isso pra você também.
— Mas não é mais. E se acha que é egoísmo da minha parte poupar a mim mesma de sair machucada no meio de tudo isso, então que seja. – Retruca, pegando sua mochila.
— Eu queria muito poder...
— Não ouse dizer que queria corresponder a esse sentimento. No momento, qualquer coisa que você diz ou faz pode me magoar e não tem ideia do quanto isso é chato. Nunca me senti vulnerável em toda minha vida! – Exclama.
Ian respira fundo e se aproxima dela, segurando seus braços com delicadeza, forçando que ela o encare.
— Fiquei com a Katherine. Não posso mentir. Mas a gente não transou. – Emily segura as lágrimas usando todas as forças que lhe restava, respirando fundo. – Você que é a minha garota.
— Mas você nunca foi meu. E nunca vai ser. De qualquer forma, isso ia acabar mesmo. Em menos de um mês estarei embarcando pro Brasil e vou assumir a empresa dos meus pais. Talvez jamais volte para Chicago e será como se não tivéssemos nos conhecido.
— Sabe muito bem que eu não iria deixar o que temos acabar. Você fala como se fosse nos custar uma fortuna visitar um ao outro.
— Não complica as coisas, Ian.
— Mas é você quem está complicando. – Diz se afastando e indo em direção à sacada a fim de se acalmar.
Ian passa as mãos pelo cabelo e respira fundo. Se debruça sobre a sacada e solta o ar pela boca. Ele está com raiva. Com raiva porque o sentimento de perda o incomoda e não tem nada que ele possa fazer para mudar isso. E muito menos o sentimento de Emily por ele. E com mais raiva ainda porque entende o lado da morena. Continuar a amizade estando apaixonada por ele só a machucaria. Pois Ian não poderia retribuir o sentimento, mesmo dando todo o carinho que pudesse a ela, isso só serviria para iludi-la. E consequentemente, a machucaria. E isso é a última coisa que ele quer. Ele se importa com ela, e isso ele não pode negar.
Emily sai do quarto atravessando o corredor e descendo as escadas dando de cara com a mesa completamente arrumada a sua espera. O apartamento era na cobertura então o elevador ficava no meio dos cômodos que eram bem amplos e iluminados. Apertou um dos botões e entrou quando Ian apareceu correndo e entrando naquele cubículo com ela.
— Me deixe pelo menos levar você até sua casa. – Pede em súplica e a morena assentiu depois de um longo tempo pensando sobre isso.
Ela se encostou na parede metálica e gélida do elevador, do lado oposto onde Ian estava, encarando o chão a fim de evitar observar sua expressão em uma tentativa desesperada de ler seus pensamentos sem a ajuda de uma bola de cristal. Pareciam ter demorado séculos até finalmente chegarem na garagem onde foram sem pressa até o carro. Queriam que o tempo congelasse e ficassem ali. Foi a primeira vez que ele não dirigiu com rapidez pela cidade de Chicago e tentou ao máximo prolongar o caminho, pegando o mais longo deles.
Emily encarava o lado de fora, e um silêncio constrangedor reinava dentro do automóvel. Cada um reorganizava sua mais nova rotina sem um ao outro, que nem notaram que passaram na porta do edifício da morena por cinco vezes. Ele finalmente estaciona e ela tira o cinto de segurança, querendo sair dali o mais rápido possível quando sente a mãos dele segurando a sua com carinho. Com uma rapidez impressionante, a morena entende o recado e seus lábios se unem pela última vez, e os dois aprofundam o beijo sem pressa. Quando se separam por alguns segundos, ela aproveita a oportunidade para se afastar e sair do carro, se segurando para não olhar para trás e entrando no prédio.
— Em... – Chloe se levanta do sofá assim que ouve o barulho da porta, envolvendo a prima em um abraço sufocante e até desesperado. Sentia raiva por não estar ao lado dela naquele momento. E queria acabar com aquele professor babaca. Queria torturar Dan até ele implorar pela morte. A morena corresponde o abraço quase que imediatamente. – Você está bem?
— O Ian me salvou... – Sussurrou ao pé do ouvido da ruiva, que se afasta beijando sua bochecha.
— Lorenzo havia me dito que vocês ficariam juntos a tarde toda, o que houve?
— Acabou. – Emily diz indo em direção ao seu quarto, abrindo sua mochila e guardando suas roupas em seus devidos lugares, colocando algumas peças de roupa do Ian (que estavam ali quando decidiam dormir nesse apartamento) colocando na mochila que havia trazido. – Pode avisar pro Lorenzo levar essas roupas com ele quando vocês se encontrarem?
— Claro. Mas como assim acabou?
— Eu contei para ele que o amava e acabei com tudo. A gente já vai para o Brasil mesmo para assumir a máfia e preciso me ocupar somente com isso agora. – Murmura.
— Sério? Essa é a sua desculpa?
— É o certo a fazer, Chloe. Eu e ele não somos iguais. Não nascemos destinados um ao outro. Contos de fada só existem em histórias infantis. Sugiro que comece a conversar com Lorenzo sobre sua ida porque depois disso terá que ser mais cautelosa se quiser continuar com o relacionamento de vocês. – Avisa.
— E o que você vai fazer agora? – Pergunta a ruiva mudando de assunto.
— Vou resolver algumas coisas na universidade e depois... Vou procurar o Dan até no inferno. E quando eu o encontrar, ele vai desejar não ter nascido.
**
Quando Emily deixou o carro de Ian, ele sentiu que aquele não poderia ser o fim deles. Não desse jeito. Mas o que ele poderia fazer para mudar isso, já que a presença dele a machuca? Como ele poderia consertar as coisas? A resposta é simples e abre um buraco no coração de Ian. Dessa vez ele não podia fazer nada. Ele teria que deixá-la ir. Ele bate com força no volante e vai embora, dirigindo para o apartamento de Lorenzo, a fim de se desabafar com o primo.
Lorenzo o recebe e estranha a presença dele ali, mas depois de ouvi-lo, compreendeu. Ele nunca presenciou uma cena dessas. Ian desabafando sobre uma garota. Ele ficou calado e deixou o primo falar tudo que precisava para se sentir melhor.
Ao final de tudo, Ian já havia acabado com meia garrafa de whisky.
— Eu compreendo você. Você se importa com Emily, mas não pode ficar com ela.
Ian assente.
— Me importar com ela não é o suficiente. Ela me ama! — Exlama ele, se sentindo, de alguma forma, culpado. — Ah, como eu odeio isso tudo! — Exclamou ele, passando as mãos pelo cabelo com força. — Ela não podia ter se apaixonado... — murmurou, mais para si mesmo do que para Lorenzo.
— Ela não tem culpa, Ian, sabe disso. — Retruca ele.
— Eu sei. O pior é que eu sei...
— Não tem nenhuma parte em você que sinta o mesmo por ela? — questiona Lorenzo encarando o primo.
Ian o encara de volta e olha bem no fundo dos seus olhos. Ele nega com a cabeça. Sua sinceridade de certa forma o machuca. Queria ele sentir algo pela morena, mas infelizmente não sente. Não da proporção que ela deseja. Ele não pode oferecer amor a ela.
Não agora.
Lorenzo assente e ambos abaixam a cabeça, pensativos.
— Enfim, isso vai passar... — Ian apressa a dizer. — Daqui a alguns dias tudo volta ao normal e isso será esquecido.
Lorenzo não diz nada, apenas assente. Não quer contrariar o primo agora, isso não o deixaria bem. Então ele simplesmente concorda com Ian, dando um abraço rápido do primo antes dele partir para sua casa.
Ian estava sendo tolo ao pensar que, com alguns dias, Emily sairia da sua cabeça. Pois ela já a dominava.
**
Caminhar por aqueles corredores parecia uma verdadeira sessão de tortura que jamais teria fim. A sala do zelador estava aberta e ele organizava alguns produtos de limpeza que se espalharam pelo chão misteriosamente. Emily respirou fundo e continuou caminhando em direção a sala do reitor, desejando imensamente que não desse de topo com o professor Dan ali. Aliás, não queria ver ele de maneira nenhuma. Se o visse, não se controlaria. O mataria em público mesmo. A mágoa havia finalmente dado lugar ao ódio e o seu parecia nunca ter fim. Bateu na porta apenas uma vez e entrou sem ouvir a permissão dele.
— Reitor Lockwood?
— Emily. A que devo a honra? – Pergunta indicando a cadeira a sua frente para que ela se acomodasse.
— Quero entregar meu papel de Julieta. Nos últimos ensaios com o professor Dan, notei que não temos a menor química e se não se importa, já quero trancar meu curso para voltar para o Brasil. – Murmura sem enrolação.
— Oh! Quando ao Dan... Ele não apareceu hoje e não atende nenhuma de nossas ligações. Já deve saber o quanto odeio atrasos e principalmente, falta de responsabilidade. Por isso decidimos tirá-lo do papel de Romeu. Ainda estamos procurando por alguém, mas se quiser desistir do papel de Julieta mesmo assim...
— Não, eu retiro o que eu disse. Mas, sem querer intrometer... E as aulas de hoje? – Emily questiona curiosa.
— Assim que Dan aparecer hoje, sua carta de demissão estará sobre sua mesa. Detesto atrasos e ele não apareceu a manhã toda. Nem mesmo sua família sabe de seu paradeiro. Então chamamos o professor Thomas de volta. É ele quem irá escolher o nosso novo Romeu. Mais alguma dúvida?
— Era somente isso. Obrigada! – A morena sorriu antes de se retirar.
Apesar da curiosidade em saber onde aquele babaca estava para acabar com a raça dele, decidiu deixar isso como segundo plano. A felicidade em descobrir que poderá interpretar Julieta sem o medo correndo em suas veias ao encarar aquele homem já era o suficiente para que seu dia ficasse perfeito. Seu rígido professor Thomas havia se aposentado, e ela nunca havia gostado dele, mas foi impossível não sentir alívio ao tê-lo de volta. Então correu para a sala de aula, onde sabia que ele já estaria. O abraçou com tanta força e nem se importou com seus resmungos.
— Ei! Me larga garota! Já não basta ter que voltar para esse lugar! – Murmura arrancando risadas dela.
— O senhor não tem ideia do quanto eu senti sua falta.
— Sei... – Falou antes do horário de aula se iniciar e todos os alunos entrarem aos poucos na sala, se sentando em suas devidas carteiras.
Thomas não tinha ideia da falta que ela sentiu dele depois de tudo o que ocorreu...
E Emily não tinha ideia da falta que sentiria de Ian ao sair da universidade e não vê-lo ali, do outro lado da rua, a esperando encostado em seu carro com um sorriso sacana no rosto.
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