Mirrors

25 Why I Got You On My Mind.


Os segundos pareciam se tornar anos e as pessoas que sempre acompanharam o ritmo de Chicago, pareciam andar em câmera lenta. O tempo parecia ter parado, mas a verdade é que era Emily quem já não estava mais ligada a realidade. Sua cabeça se ocupava entre o fato de que a qualquer momento teria Dan em suas mãos, e ela ter colocado um ponto final em relação ao que sentia a Ian.

E lá estava ele a fazendo repensar pela milésima vez se aquilo era uma burrada ou não, porque já se passaram quatro horas e a saudade já havia lhe corroído. Principalmente por saber que não o veria mais. Foi um pedido dela, e tem certeza que ele a cumprirá, especialmente pelo fato de não ser importante na vida dele. Ele pode muito sair por aí atrás de mais uma...

Quem sabe Katherine não é sua mais nova amiga colorida? Tentou espantar isso quando o sinal tocou, pegando suas coisas e saindo as pressas dali. Foi impossível não encarar o outro lado da rua. Parecia querer ter certeza de que Ian não estaria ali. Ou foi só uma maneira de se machucar ainda mais.

Entrou em seu carro e dirigiu até seu apartamento, onde passou a tarde hackeando o sistema da universidade e pegando todos os dados que conseguiu do professor Dan. Seu tio, Benjamim, havia lhe ensinado o básico dessas coisas, mas ainda assim era complicado demais, então nunca conseguiu aprender mais do que isso.

Anotou tudo em uma pequena folha de papel e tomou um banho gelado antes de pegar algumas armas no cofre escondido em seu guarda roupa. Pegou suas chaves e quando estava prestes a sair, Chloe entra irritada acompanhada da risada estridente de Lorenzo, que para de rir no momento em que se depara com a morena ali na porta. Ele sabia que passaria por esse constrangimento uma hora ou outra, afinal, estava com a prima dela e elas moravam juntas. Mas esperava evitar aquilo. Seus olhos denunciava que sabia de cada detalhe do ocorrido, inclusive, o que Emily mais sentia vontade de saber: O que Ian pensava disso tudo e como ele estava agora.

— Estava saindo? – Pergunta a ruiva ao notar a luta interna da sua prima.

— Sim... Eu tinha feito uns sanduíches para comer agora a tarde. Sobrou bastante, caso sintam fome. Como você está Lorenzo? – Emily sussurra se virando para ele, que engoliu em seco, sorrindo de lado.

— Bem... E você? — Ela ousou sorrir abertamente assentindo.

— Estou ótima. Acho melhor eu ir.

— Mas aonde você está indo?

— Atrás de Dan. – Emily responde a prima, fazendo Lorenzo engasgar com a própria saliva.

— O cara que tentou te...?

— Eu preciso de uma explicação. E tudo que preciso é recusar todas as bebidas que ele me oferecer. – Ironizou, se dando conta do que havia soltado. Chloe a encara com o cenho franzido... Eu preciso matar esse desgraçado, era o que estava escondido nas palavras de Emily.

— Tem certeza que não quer que eu vá com você? – Pergunta a ruiva.

— Quero fazer isso sozinha. – A morena segura sua bolsa com força e a prima assentiu deixando que ela finalmente partisse.

— E se esse Dan por acaso tentar algo com ela? – Lorenzo finge preocupação, já que sabia que seu primo colocou um fim naquele babaca noite passada.

— Emily sabe se virar. – Chloe foi direta. – Vamos comer?

— Eu estou faminto.

— Eu notei.... Você é irritante demais quando tá com fome. – Ela ironiza indo em direção a cozinha e sendo acompanhada por ele.

— Diz isso só porque eu falei que...

— Fala isso de novo e eu corto a sua língua com essa simples faca de cozinha. – Murmurou a ruiva já segurando a faca para cortar os sanduíches.

— Você adora demais a minha língua para fazer isso. – Brincou a abraçando por trás, prensando seu pequeno corpo na cozinha e ela se vira para contestar, mas ele a beija, arrancando uma risada dela entre um beijo e outro.

**

A casa de Dan era no subúrbio de Chicago, no bairro mais afastado da cidade, onde algumas crianças jogavam bola no meio da rua enquanto suas mães penduravam as roupas no pátio do prédio que parecia estar caindo aos pedaços. Caminhou em direção a residência dele que era do outro lado da rua e era a mais simples do bairro. Feita de tijolos, sem muitos detalhes, com a grama alta, que já cobria sua varanda. As janelas estavam completamente sujas, impedindo uma visão do lado de dentro. Emily abre o portão e atravessa aquele matagal, subindo as escadas que faziam barulho, em função da madeira que estava solta. Parou na entrada, observando a porta fechada e respirando fundo, antes de dar algumas batidas.

— Está procurando pelo Daniel, senhorita? – Pergunta uma senhora parando na entrada da casa e chamando a atenção da morena, que ousa sorrir.

— Ele é meu professor e eu precisava entregar um trabalho hoje, mas como não apareceu na universidade, pensei em vir...

— Oh! A última vez que vimos ele foi ontem, no fim da tarde. Ninguém tem notícias dele desde então. – Avisa ela e a morena agradece, esperando a mulher ir embora antes de dar a volta na casa.

Era muito estranho o fato de não ter voltado, a não ser que esteja arrependido do que fez e teve a genial ideia de ir embora da cidade, ou quem sabe do país, se Emily tiver sorte. Chutou a porta dos fundos, arrombando ela e entrando com facilidade. O lado de dentro era completamente organizado, a não ser pela sua mesa, repleto de trabalhos e os roteiros de Romeu e Julieta. A morena sobe as escadas, onde havia apenas seu quarto e um cômodo fechado onde supôs ser o banheiro.

Sentou em sua cama e decidiu não sair dali enquanto não vê-lo entrar naquela casa e se deparar com ela ali, esperando ele com um sorriso sanguinário nos lábios. Mas ele não apareceu. A noite já havia caído, mas continuava a espera-lo, olhando para a porta com olhos de águia. Se levantou apenas para espreitar a janela, e as ruas já estavam tranquilas. Sem crianças ou mulheres, apenas alguns adolescentes e adultos vendendo drogas na rua.

— Talvez ele tenha fugido... – Emily pula assustada, jogando o punhal que segurava contra a voz que ouvira, mas um alívio toma conta de seu rosto ao ver Chloe ali, que se desvia com facilidade, encarando a prima indignada.

— Desculpe, você me assustou! – Exclama a morena. – Onde está Lorenzo?

— Já é meia noite... Ele já foi embora. E eu decidi vir atrás de você. Demorou muito e eu também quero dar uns belos socos nesse babaca que você chamava de professor. – Murmurou. – Mas parece que ele foi esperto e se mandou...

— As coisas dele estão intactas. Duvido que ele tenha se mandado. E se estiver certa, dou um jeito de encontrar ele. – Ela sussurra se sentando e a ruiva se senta ao seu lado.

— O que acha de continuar a busca amanhã... Eu ajudo você. – Diz Chloe tocando os ombros dela com delicadeza.

— E se ele aparecer?

— A gente volta amanhã e acaba com a raça dele. – Emily sorri com a resposta da prima e as duas se abraçam, sentindo um conforto atingir seus corpos só por ter uma a outra tão perto. Sempre se sentiram mais seguras quando estavam juntas.

— Você não tem ideia do quanto é desesperador se sentir tão impotente mesmo depois de tantos anos treinando para ser cada vez mais forte. Com o tempo, acaba pensando que é indestrutível e isso tudo acontece... É humilhante. Como se tivesse desperdiçado todas aquelas horas de treino. – A morena finalmente se abre, admitindo tudo o que sentia naquele exato momento. Chloe assentiu, mesmo não entendendo como era essa sensação na pele.

— O que acha de descontar a sua raiva? – Pergunta se levantando e indo em direção a escrivaninha onde havia uma garrafa de vodka.

— Deixa eu ver se entendi seu raciocínio... Quer que eu simplesmente beba isso sabendo que é de Dan? – Emily arqueia as sobrancelhas e a ruiva nega.

— A não se que queira, mas tive uma ideia melhor...

Quando se deram por si, já despejavam toda a bebida alcóolica que tinha nos armários em cada extremidade da casa. As duas acabaram se divertindo com toda a situação e só o que se ouvia pelos cômodos eram suas risadas e piadinhas enquanto tentavam inutilmente não fazer muito barulho para acordar a vizinhança. Pegam alguns fóforos, ateando fogo na residência dele, queimando cada vestígio de sua existência. Chloe tinha um sorriso diabólico no rosto, mas sua prima continuava parada e séria, observando as chamas tomarem conta de cada pedaço do lugar que Dan viveu. Já estavam do outro lado da rua, apenas observando.

— O que houve, Emily? – Pergunta a ruiva preocupada com a mudança de humor repentina da prima.

— Não estou satisfeita.

— Como assim?

— O Dan merece mais. Bem mais depois do que ele tentou fazer comigo... – Sussurrou mais para si mesma do que para Chloe.

— E ele terá mais.

— Disso não tenha dúvidas. – Emily ousou sorrir fraco antes de se virar em direção ao seu carro. Assim que entrou no automóvel, pisou fundo no acelerador ao ver que a prima entrara no seu também e partira para o apartamento.

As duas estacionam lado a lado e entram no elevador juntas. Chloe queria ter um poder de simplesmente apagar todos esses últimos meses Emily... Apagar o que Daniel fez, o que precisaram fazer pra salvar Maria, avó da morena e por fim, apagar Ian de sua memória – Estava mais do que claro que grande parte da confusão que se instalava na mente dela era por causa dele também.

Emily não se dava conta disso. Durante o dia era até fácil fingir que esqueceu e acabar esquecendo por alguns segundos, o problema era depois de seu banho gelado, quando coloca um pijama e se deita na cama. E só então ela desiste, porque não consegue, é um fato. Ian estava em sua mente o tempo todo, mas durante as noites ela não conseguia mais lutar para ignorar aquilo. Porque enquanto se agarrava as cobertas, seu corpo sentia a falta dele ao seu lado. E só fazia vinte e quatro horas desde que partiu.

***

Ian soca o saco de areia com tanta força que os parafusos começam a ficar frouxos e a estrutura que prende o saco ao teto começa a ceder. Ele havia dormido mal a noite inteira e precisava aliviar a tensão que sentia. Emily não saia da sua cabeça. A diferença de se lembrar dela antes para agora, é que ele não pode mais ir atrás da morena para se distrair. Pois ela não quer mais vê-lo. E isso o machuca de certa forma. Ele se sente mal por ela. Se sente mal por ele mesmo. Sente mal pela situação que os rodeia. E sente pelos sentimentos da Emily. De imaginar que há algumas semanas eles estavam juntos à uma hora dessas. Se amando, se provocando. Apenas se curtindo. As lembranças ainda estão nítidas na cabeça de Ian.

"— Você está roubando! — Protestou Emily, já perdendo a paciência.

Ian ri alto, se divertindo.

— Só por que estou ganhando? — Questiona ele. — Você tem que aprender a perder, Senhorita Hamswere. — Disse a provocando ainda mais.

Eles estavam jogando basquete há mais de hora uma em uma quadra perto do apartamento de Emily. Ian veste apenas uma bermuda esportiva, deixando seu peitoral à mostra, o que distrai a morena mais vezes do que ela gostaria de admitir. Ela, por sua vez, veste um short curto, também esportivo, e uma camiseta regata de Ian branca, com um top preto por baixo. Os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo e algumas mechas escapavam por conta do suor.

— Eu comecei ganhando de você, estava com 40 e você 36. Agora você está com 60 e eu com 54? — Questiona ela. — No basquete é de dois em dois pontos, e não quatro! Trate de fazer essa conta direito, ouviu?

Emily já estava se estressando com Ian e ele adorava isso. Ele adorava vê-la irritada. Ele sorri de orelha a orelha para ela e ela parece perder o ar. Mas revira os olhos, ainda irritada.

— Você está precisando aliviar sua tensão, Emily. — dispara Ian.

— Sim, foi por isso que eu te chamei para jogar. Mas você só sabe me irritar e roubar! — Acusou ela.

Ian deu de ombros e começou a caminhar até ela. Emily estranhou, até porque o sorriso sacana de Ian estava ali, bem no cantinho dos lábios dele.

— Eu tenho uma maneira mais gostosa de aliviar a sua tensão. — Disse ele, frente a frente com ela.

Emily sorriu. Era exatamente disso que ela precisava."

Ah, o sorriso dela.

Mais um soco, e o saco finalmente se desprende da armação e voa para o canto da sala, pegando Ian de surpresa. Seu peito sobe e desce e o suor escorre pelo seu rosto. Ele tem uma sensação estranha no peito. Uma sensação de perda... E ele não gosta dessa sensação. Ele a odeia.

Sai da academia particular que tem em sua casa e vai tomar um banho gelado. Veste uma calça social e uma camiseta de botões brancas. Pega um dos seus carros e dirige pelas ruas de Chicago tranquilamente, apenas para se distrair. Quando percebe, está estacionando em frente ao apartamento que comprou apenas para ele e Emily na cobertura. Quando o elevador se abriu e ele pisou no apartamento, uma onde de lembranças o atingiu e um sorriso involuntário escapou de seus lábios.

"- Ian, o que estamos fazendo aqui? — Perguntou Emily, ao entrar no luxuoso edifício ao lado de Ian.

Ian caminha despreocupado e comprimenta uma jovem que trabalha no local, arrancando um sorriso tímido dela. Ele apertou o botão do elevador e laçou a cintura de Emily, fazendo com que ela entrasse ao seu lado.

Emily fitou o rosto de Ian curiosa, mas ele nem ao menos a olha. Apenas sorri. Um sorriso calmo, porém brincalhão, de quem estava aprontando algo. Ela decide então ficar quieta e esperar para ver.

E quando ela põe os olhos naquela cobertura, sua boca se abre sem palavras.

— Ah, meu Deus... — Sussurra, adentrando o apartamento e observando cada detalhe de perto. — Isso aqui é lindo! De quem é?

Ian sorri, contente com a reação da morena. Andou até ela é colocou uma de sua mechas atrás de sua orelha e a abraçou pela cintura.

— É nosso. — Disse ele.

— Nosso? — Indagou ela. — Você comprou pra gente?

Ian assentiu.

— Eu gosto da privacidade. E de passar tempo com você. A ideia surgiu e eu pensei: por que não?

Emily estava sem palavras, deslumbrada com o gesto.

— Você não podia ter simplesmente alugado um quarto de hotel, algo mais barato? — Brincou ela.

— Não, — Respondeu ele. — você merece o melhor.

Emily sorri e laça o pescoço de Ian com seus braços, os aproximando.

— Você é o melhor!"

O apartamento está vazio e isso trás uma sensação ruim a Ian. Todos aqueles móveis que traz todas aquelas lembranças a ele. E o pior, o perfume de Emily ainda emanava pela casa, fazendo com que Ian feche os olhos o sentindo.

— Senhor Baldocchi, que bom vê-lo aqui. — Uma funcionária do edifício surge na porta e sorri de orelha a orelha. — Posso ajudá-lo?

Ian respira fundo, ainda de costas para a funcionária e toma uma decisão drástica, porém precisa.

— Sim, por favor. Coloque este apartamento a venda o mais rápido possível. – Diz seco, dando meia volta e entrando o elevador particular e saindo dali sem mais nenhuma palavra, deixando a funcionária confusa e intrigada.

Cansado de ficar andando sem rumo e pensando em Emily, Ian decide ir trabalhar. Na empresa, só de olhar para a cara do patrão todos já recuam um passo, assustados. Até mesmo as pessoas que estavam prestes a entrar no elevador para subirem, recuaram e deixaram apenas Ian ocupar o local. O mau humor dele está visível em cada traço de seu rosto. Os óculos escuros até tentam esconder a raiva que sente, mas não dá em nada.

— Boa tarde, senhor Baldocchi. – Desejou Susi, a secretária pessoal de Ian, a qual ele sempre trata bem.

Mas nem ela se salva do mau humor dele.

— Traga os relatórios para mim imediatamente. – Disse a ela, entrando em seu escritório logo em seguida.

Dona Susi engoliu em seco, envergonhada, e foi organizar o que ele pediu. Em menos de uma hora, Ian já havia sido grosso e maltratado metade de seus funcionários e alguns até saíram chorando do expediente. Em uma dessas cenas, Lorenzo acaba chegando ao escritório.

— Mas o que está acontecendo aqui, Ian? – Indaga Lorenzo assim que outra funcionária sai da sala do primo com os olhos marejados.

— Esses incompetentes. Não fazem nada direito! – Esbravejou Ian, jogando milhares de pastas no chão.

— Que porra é essa, Ian? Algum problema na empresa? – Perguntou ele, preocupado.

— Não, nenhum problema. Esses idiotas que tiram a minha paciência. – Comentou Ian, coçando a cabeça.

Lorenzo observou o primo e seus movimentos brutos enquanto trabalha, e logo percebe o que está acontecendo com ele.

— Está assim por causa da Emily? – Lorenzo pergunta, ajeitando o blazer.

Ian parou o que estava fazendo e respirou fundo.

Emily...

— Eu não sei o que está acontecendo comigo. – Murmura ele.

— Sente a falta dela?

— Eu não sei... Eu sinto que a perdi e isso me incomoda pra caralho. – Confessa ele.

Lorenzo se sentou a frente do primo.

— É porque você gosta dela. – Apontou ele.

Ian deu de ombros.

— Mas não é isso que ela quer agora. Ela quer mais, e eu não posso dar a ela.

Lorenzo engoliu com seco, não sabendo o que dizer. Ian muito menos.

— Você vai superar essa. Só faz um dia que vocês se separaram, logo mais está na ativa de novo. – Lorenzo disse, tentando animar o primo.

Ian assentiu, ainda desanimado. Lorenzo estava certo, só faz um dia que eles se separaram e ele já sente a falta daquela morena linda. É como abstinência. É viciante. Mas os dias vão se passar e logo ele retira esse mau humor e sensação ruim. Aliás, é fácil preencher essa vazio que sente. Mais fácil ainda arrumar outra para preencher o lugar.

Mesmo que Emily seja aquela que ele quer. Ian tem que aprender que não se pode ter tudo na vida.