Mirrors
30 Good Girls Love Bad Boys.
Emily não hesitou nem um pouco ao aceitar o convite de Valentina para tomar sorvete. Alicia, claro, adorou a ideia, mas não fez bom grado ao ver que ela iria junto. Na verdade, a pequena nem lhe deu atenção.
— Onde está indo, Emily? – Questiona Valentina, pegando sua bolsa.
Emily olha para os lados.
— Para a cozinha... Achei que fossemos tomar sorvete. – Respondeu ela.
Valentina sorriu.
— Sim, vamos, mas vamos tomar na cidade. Tem uma sorveteria que serve o melhor sorvete siciliado. Aproveito e já te mostro um pouco da cidade.
Ela assentiu.
— Parece ótimo para mim.
Emily caminhou ao lado de Valentina e de Alicia, que andava calmamente de mãos dadas com a mãe, até fora da casa. A mãe de Ian fez questão de ir dirigindo e dispensou o motorista, mas a morena percebeu que um carro as seguiu o caminho todo.
— Vocês sempre andam com seguranças? – Pergunta, sentada ao lado do motorista.
Valentina olhou pelo retrovisor.
— Eu particularmente não acho necessário. Para mim, Sicília é muito calma. Porém, Vitor insiste e meu pai também. – Ressaltou ela. – E quando estou com Alicia eu também prefiro estar acompanhada, e agora grávida, eles estão sempre comigo.
Emily é pega de surpresa.
— A senhora esta grávida? – Ingada.
Valentina ri.
— Senhora? Dios mio! Nunca mais me chame assim Emily, por favor.
Ela sacode a cabeça, envergonhada.
— Perdão.
— Tudo bem. E sim, estou grávida. Terceiro mês de gestação. Indo para o quarto.
Emily assentiu, se lembrando vagamente de Ian comentando isso com ela.
— Deve ser difícil para você, por conta da idade... – Diz, escolhendo as palavras com cuidado.
Porém Valentina apenas assente. Ela não é boba. Já passou da idade para ter filhos.
— É uma gestação de risco. – Fala baixinho, apontando para Alicia no banco de trás. – Mas eu sei que vai dar tudo certo. No final, tudo dá certo.
Emily sorriu em solidariedade.
A viagem até o centro da cidade não foi longa, mas foi a melhor que Emily já fez na vida. A paisagem era simplesmente deslumbrante. Andar por Palermo era como andar em um museu ao ar livre e logo se lembrou de Chloe e de como ela adoraria este lugar. A sensação que tinha era de que foi transportada para algum filme de fantasia, ou de que ela havia morrido e ido para o céu. A cidade é construída em torno de ruínas antigas e quase todos os monumentos ainda são habitados, outros ficam como parte da história de Palermo. No centro, a visão limpa faz os olhos dela brilharem.
— Esse lugar é muito lindo. – Balbucia Emily, mais para si mesma.
Valentina fica contente ao ver que sua nora se encantara por sua cidade natal. Ela dá meia volta no carro e retira a filha da cadeirinha e depois caminha guiando Emily até a sorveteria de sua escolha. Alicia saiu correndo na frente. Os cabelos soltos esvoaçavam com o vento e o vestido balançava seguindo o ritmo. A menina parou em frente ao balcão e cumprimentou os funcionários com um grande sorriso no rosto.
— Mamãe, o que eu posso pedir hoje? – Perguntou.
Emily se surpreendeu com a educação da pequena. Se fosse ela, já teria feito o pedido que quisesse, sem hesitar.
Valentina ponderou. Mas depois cedeu.
— O que você desejar, il mio amore.
Ouvir isso foi como ganhar na loteria para Alicia, mas ela pediu nada mais que um picolé colorido.
— Ele deixa minha língua colorida. É engraçado. – Disse ela a Emily, a pegando novamente de surpresa. – Você também quer um?
Ela olhou para Valentina e essa apenas sorriu, assentindo.
— Eu vou adorar!
Alicia fez um pedido para a morena e, quando a gentil funcionária perguntou a menina quem era a nova amiga, Alicia surpreendeu dizendo que era a namorada de seu irmão.
— Crianças são mais bipolares do que adolescentes. – Sussurrou Valentina, rindo.
— Acho que isso quer dizer que ela não me odeia tanto assim. – Disse Emily, depois de receber o picolé de Alicia.
— Mamma, posso ir brincar na praça? – Pediu a menina, com o picolé na mão. Valentina assentiu e com um rápido aceno para o segurança que as acompanhavam, ele foi ficar de olho em Alicia.
As duas sentaram em uma mesinha branca do lado de fora da sorveteria e se deliciaram com os sorvetes do lugar. Só Emily repetiu quatro sabores de sorvete diferentes. Valentina não ficava muito atrás.
— Então, Emily... – Começou Valentina, ao se sentar novamente na mesa após repor seu copo de sorvete. – Conte-me sobre você. O que a sua família faz exatamente?
Ela engoliu em seco. Mesmo tendo a mentira na ponta da língua, sentia que Valentina não deixava passar nada, e se desse um passo em falso...
— Eles são empresários. – Respondeu sorrindo. A mesma assentiu.
— Qual o ramo?
Valentina agora tinha os olhos semicerrados, avaliando cada centímetro do rosto de Emily. A morena não abaixou a cabeça e sustentou o olhar da mãe de Ian com a mesma intensidade.
— Imobiliário. – Mentiu, mesmo sua família tendo alguns negócios no ramo como fachada, não chegava a ser grande coisa.
Valentina balançou a cabeça.
— E conhece Ian há quanto tempo?
— Já vai fazer uns seis meses.
— E o relacionamento de vocês?
— Cinco.
— Você gosta dele?
— Eu o amo.
A resposta de Emily saiu mais rápida do que ela previu, porém não se arrependeu. Valentina se deu por satisfeita e Emily logo percebeu que era ali que ela queria chegar.
— Mas o seu filho não é uma pessoa fácil de se lidar... – Completou.
Valentina riu.
— Você já conheceu o pai dele? – Ironizou. – Emily você é a primeira garota que eu conheci desde que pari aquele garoto. – Enfatizou ela. – Ele não pode dizer com clareza que a ama, mas não se deixe enganar, os homens dessa família são ótimos para esconder seus sentimentos.
As palavras de Valentina eram sinceras, mas Emily ainda se sente mergulhada em um mar de dúvidas e quando se trata de Ian, ela acaba por morrer na praia. Ela sorri gentilmente para Valentina e volta a observar a movimentação na praça mergulhada em seus próprios pensamentos. Ah, Ian, o que você anda fazendo comigo... Pensou olhando para o céu, mas parou no minuto em que observou Alicia, que brincava na praça ali perto. Forçou os olhos para ter certeza de que não estava alucinando.
Sentiu seu estômago embrulhar, porque logo atrás dela e de seu segurança, estava um homem trajado com o símbolo de Cosa Nostra. Emily levanta no minuto em que nota aquilo, atraindo os olhos de Valentina para ela, que mal percebe, caminhando em direção a pequena com as pernas bambas. Se algo de ruim lhe acontecesse, jamais se perdoaria. Quando se deu conta, estava correndo, e não parou até que a segurasse.
— O que aconteceu? – Perguntou ela confusa com sua atitude.
— Fique atrás de mim, Alicia. – Pediu sem esperar por resposta, já a puxando para perto de si.
— Emily, está tudo bem? – Foi a vez de Valentina perguntar ao alcançá-la, tão confusa quanto a filha.
— Ei, você! – Gritou não dando ouvidos a mãe de Ian, correndo em direção ao homem, que se assuta ao vê-la o perseguindo, correndo na direção contrária. Emily sente seu sangue ferver, e a raiva ao notar que a Cosa Nostra seria capaz de machucar uma criança faz com que tenha ainda mais força para seguí-lo.
— Senhorita, espere! – Chamou o segurança particular, que demorou muito, mas enfim, conseguiu alcançá-la.
— Aquele homem estava observando vocês... – Sentia seu corpo em modo adrenalina; o coração bombeando mais sangue que o necessário.
— Querida, tem certeza que não é um de nossos seguranças? Vitor é tão paranoico, que é só ver que sai de casa e manda um batalhão atrás de mim! Dios mio. – Valentina diz colocando as mãos na cintura.
— Não! Não é! Ele... Ele tinha um símbolo no terno. – A voz dela mal saia.
— Um símbolo? E sabe o que ele significa? – Perguntou observando a morena com muito cuidado. Logo Emily nota o quanto estava dando bandeira, relaxando rapidamente e se desprendendo dos braços do segurança.
— Não! É que o segurança de vocês não usam nenhum. – Ela se explicou, apesar do grande nó em sua garganta. Havia momentos em que a arte de atuar valia a pena. – Me perdoe, Valentina. É que eu já fui roubada em Chicago,e o cara estava olhando tão firmemente para Alicia, que...
— Oh querida, não se preocupe. – Seu rosto desconfiado rapidamente volta ao normal, afinal, entendeu perfeitamente que o roubo pelo qual a morena passou lhe deixou sequelas. Emily se sentiu mal por mentir descaradamente, mas o que ela iria dizer? Que achou que fosse a Cosa Nostra, organização que persegue sua família há anos? Talvez devesse ter feito isso, afinal, acabaria vendo a grande brincadeira que o destino havia plantado para ela.
— Me perdoe mesmo, não queria assustar vocês. – Murmurou ainda envergonhada.
— Relaxe, Igor irá resolver esse... Problema. – Sussurrou se referindo ao segurança, rapidamente se virando para ele. – Já sabe o que fazer.
Tinha certeza que um de seus homens estava usando o terno com o símbolo de sua organização, mesmo tendo dado ordens restritas sobre não usarem esse uniforme enquanto Emily estava na cidade. Ian ainda não havia lhe contado a verdade, então era impossível imaginar como reagiria ao descobrir isso. O segurança que quebrou essa regra deveria ser punido de alguma maneira, e ela fez questão de avisar a Igor, com apenas um olhar, que Ian merecia saber sobre isso. Ele sai sem hesitar e Alicia já estava tão cansada de brincar que pediu para ir embora e assim elas fizeram, dando de cara com Vitor e Ian do lado de fora do casarão, as esperando. Os dois mantinham a mesma postura ereta; os braços cruzados e a expressão séria.
Valentina já desce do carro revirando os olhos ao ver o olhar reprovador do marido que a segue até o andar de cima. A pequena recebe apenas um carinho do irmão e sai correndo para dentro afim de brincar com a babá que mal exercia sua função já que sua mãe estava sempre presente. Ian observa a irmã até ela desaparecer de sua vista, então se volta para a morena. Ele não estava muito diferente de seu pai.
— Já não bastava termos que nos preocupar com minha mãe, agora você se tornou cúmplice? – Perguntou em tom de brincadeira desfazendo seu posto sério, mas Emily ainda estava tão absorta, que apenas sorriu de lado e tentou entrar na casa, mas ele a impede. – Ei, o que houve?
— Foi horrível, Ian. – Ela confessa o abraçando forte. – Um homem estava observando Alicia de longe no parque. Sua mãe pensou que fosse algum de seus seguranças, mas ele tinha um símbolo costurado no lado esquerdo do peito.
— Como? – Ele agora estava sério, e já iria começar a enchê-la de perguntas quando vê Igor, um de seus seguranças, correndo em sua direção e parando imediatamente ao notar que a morena estava ali. – Relaxe. Meu pessoal vai resolver isso, está bem?
— Não! Ian! Isso... – Ela para, tentando escolher as palavras. – Pode ser perigoso.
— Perigoso? Era só um cara, morena. Eu dou conta. – Sorriu acariciando o rosto dela afim de acalmá-la.
— Por favor, deixe isso pra lá. Valentina e eu ficaremos seguras aqui dentro. Fim. Eu só me assustei. Talvez seja só um cidadão da sicília com seu uniforme de... Trabalho. – Murmura arrancando risadas de Ian.
— Certo. O que é isso? – Ele nota que a lígua de Emily estava colorida e foi a vez dela rir, esquecendo por alguns minutos do ocorrido.
— Alicia me convenceu de pegar o picolé que pinta a lígua. – Sussurrou. – Parece que ela está começando a gostar de mim.
— Isso é ótimo. Desculpe não estar tendo tempo nenhum com você, mas a sede da empresa é aqui na Sicília e eu tenho que resolver algumas coisas.
— Tudo bem, eu entendo. Sua mãe é incrível. A companhia dela já faz a viagem valer a pena. Apesar dela estar me enchendo de perguntas, o que não a culpo. Meu pai faria o mesmo se conhecesse você.
— Acho que ainda não estou preparado para conhecer ele. Eu mataria o cara que tirasse a inocência de Alicia. Aposto que com seu pai não seria muito diferente. – Comentou Ian e a morena sorriu.
— Ei. Eu já não era inocente há muito tempo. – Ela piscou entrando na brincadeira.
— É... Mas, eu piorei um pouco a situação.
— Acontece. Garotas boas gostam de garotos maus. – Emily deu de ombros e a única vontade que Ian tinha naquele momento era de beijar aqueles lábios que ameaçavam sorrir novamente. Como ele amava vê-la feliz.
— Agora eu tenho mesmo que ir. – Falou beijando sua testa e se virando de encontro a seu segurança. – Aproveite que já está quase na hora do jantar e vá se arrumando.
— Jantar? – A confusão tomou conta de Emily.
— Meus avós vão vir conhecer você. Não se preocupe. Eles não mordem. A não ser que peça – Brincou, contribuindo ainda mais para a sua tensão. Logo ele some ao entrar no carro junto com o segurança que havia a acompanhado no passeio.
Emily aproveita a deixa e pega seu celular, pronta para enviar uma mensagem a seu tio Benjamim, que a ajudaria sem contestar, mas imaginou que ele a faria ir embora naquele minuto, então desistiu. Sorte a dela. Se ele sonhasse que sua adorável sobrinha estava na casa do inimigo, as coisas não poderiam sair tão bem asim... Ela entra na casa e corre para o quarto, tomando um banho demorado e colocando um moletom que ia até a metade de suas coxas, apenas para procurar alguma roupa. Nada parecia bom o suficiente para conhecer o avô de Ian. Que ódio! Por que isso sempre acontecia comigo? Pensou. Valentina bate na porta algumas vezes antes de abrir e se deparar com a bagunça no quarto do filho.
— Me perdoe por isso. Fui avisada de última hora que irei conhecer seus pais e definitivamente não trouxe nada para essa ocasião. Vocês se vestem como anjos, e eu só tenho esses trajes mais... Simples. – Disse ela ao notar seus olhos arregalados.
— Acho que já pediu perdão demais. – Comentou Valentina e a morena sorriu. – Olha, eu costumo não abrir esse tipo de exceção, mas você é especial para meu filho, então... Pode dar uma olhada no meu guarda-roupa.
Emily não queria incomodar, mas gostou da ideia de passar mais um tempo com sua mais nova... Amiga? Talvez seja melhor usar essa expressão, já que não tem ideia de onde está em relação a Ian. O que ela chamava de guarda-roupa, a morena chamava de shopping. Aquele lugar era do tamanho do seu apartamento e as roupas eram tão extravagantes, que jamais teria a coragem de emprestar uma única peça a alguém, o que a fez se sentir lisonjeada. Entretanto, seus olhos estavam focados em uma peça mais trabalhada, bela demais para ser usada em um jantar, mas linda a ponto de te hipnotizar. Os olhos de Valentina seguem os dela e sua mente é atacada por uma série de lembranças.
“O vestido é um modelo longo que se arrasta no chão. Da cintura pra cima ele é bem apertadinho, definindo sua cintura e valorizando seus seios. Da cintura pra baixo, é todo soltinho, onde se parece ter várias tiras e se arrasta em uma pequena cauda. O cabelo iria ser um coque com trança.
— Quanto tempo falta para o baile? Não quero tirar esse vestido nunca. – Diz se namorando no espelho.
— Apenas duas horas, irei fazer seu cabelo e maquiagem, até lá já vai estar pronta.
[...]
A música acaba e demora alguns segundos para todos aplaudirem. Com certeza eles sentiram a tensão que estava entre eles. Valentina se afasta aos poucos de Vitor, segurando a saia do seu vestido e sobe novamente a escadaria, imersa em seus próprios pensamentos. Parece um zumbi andando por aqueles corredores, com seus pensamentos gritando para ela, que não consegue ouvir nada do lado de fora. Vitor é um homem que na maioria das vezes é frio, mal e sem coração. Na verdade ele deve ter sido criado para isso, não o culpava. Mas ele é. Já ela era sensível, cheia de rachaduras e indecisa, se escondo atrás de uma armadura de ferro e se dando por satisfeita. Nunca dariam certo, se apaixonar novamente não dará certo e com certeza se jogar de um penhasco outra vez não vai resolver muita coisa.
— Valentina? O que está fazendo nessa chuva? – A voz de Vitor a tira do transe e ela percebe que está fora do clube, debaixo da chuva forte.
Ele se aproxima correndo e para a centímetros dela, a envolvendo com o calor que o corpo dele exala. Ele segura seu rosto nas suas mãos e ela fecha os olhos com força. Por que a vida tem que ser tão injusta com ela?
— Me diga, o que está fazendo aqui? – Pergunta novamente.
— Estou me perguntando por que fui amar justo você. – Diz.
Ele a olha com dificuldade por conta da chuva, se aproxima mais e sussurra:
— Me deixa lhe mostrar a resposta.
Um beijo. Um beijo quente e envolvente que faz seu estômago revirar como se tivesse milhões de borboletas lá dentro.”
— Esse é o vestido mais lindo que já vi! – Exclamou Emily a tirando de seu transe. Um sorriso gigante estava estampado no rosto de Valentina, que, agora encarando a nora, se perguntava por tudo que ela passou para aos poucos conseguir espaço no coração de Ian.
Só torcia para que seu filho percebesse a importância que a morena tinha em sua vida antes que a perdesse por completo. Vitor tinha a capacidade de perceber quando ela estava quase desistindo, e em uma fração de segundos a fazia voltar atrás do que quer que passasse em sua cabeça. Ficou ali, só a observando e então uma questão passou pela sua cabeça: Sabia Emily até onde iria por amor? Afinal, Ian não havia lhe contado sobre a máfia. Os olhos acinzentados dela, brilhando por um simples vestido vermelho, parecia ser resposta o suficiente para Valentina. Aquela garota ainda a surpreenderia, afinal, havia algo nela que lembrava a própria Valentina de quando conheceu Vitor pela primeira vez. E ela não poderia estar mais certa.
— Talvez um dia você o use... – Valentina jogou aquela resposta no ar depois de longos segundos em silêncio. Afinal, aquele vestido era praticamente a representação da esposa do chefe da máfia e quem sabe aquele não era o destino de Emily? Garra a garota tinha, do contrário, já teria fugido de seu interrogatório.
— Não teria coragem de usá-lo... É perfeito demais! Sinto que iria rasgá-lo.
— Acredite... Esse vestido foi feito para mulheres como nós. – Murmurou com um sorriso no rosto.
— Bem... Obrigada por me mostrar seu guarda-roupa. É lindo, mas eu não quero incomodar. Acho que vou continuar procurando algo em minha mala mesmo. – Sussurra Emily e ela parece compreender.
— Claro, querida. O jantar é daqui a duas horas, então acho melhor eu me aprontar também. Preciso do vestido perfeito para prender a atenção de Vitor a ponto dele não chamar minha atenção sobre o passeio de hoje. Devido a gravidez, ele... Tem sido cuidadoso. Mais do que já era. Isso ás vezes sufoca, mas eu entendo porque é a maneira dele de demonstrar que...
— Ama você. – A morena a interrompeu, colocando as palavras em sua boca que couberam com perfeição. Ela apenas assentiu mordendo os lábios. – Valentina... Meu agradecimento não é só por ter me mostrado suas roupas. É por tudo mesmo. Você tem sido bastante hospitaleira e já me sinto sua amiga mesmo tendo poucas horas que estou aqui. Isso me deixa mais... Confortável.
— Não me agradeça querida. Você dá alegria ao meu filho. Isso pra mim é o suficiente para criar um pedestal para você. – Brincou. – Agora vamos. Eu ainda tenho que procurar Alicia, que deve estar brincando em algum lugar aqui. Ah! As desvantagens de ter uma casa tão grande.
Emily riu e as duas saíram do quarto juntas, tomando caminhos completamente diferentes. Já no quarto de Ian, se voltou para sua mala se lembrando de um vestido vermelho que ela comprou há um tempo e Chloe era apaixonada, a ponto de viver o pegando para si. Se foi ela mesmo quem arrumou suas coisas, essa peça há de estar ali. Não demora muito para encontrá-la no meio de alguns pijamas extremamente ousados. A prima foi inteligente em não colocar seus conjuntos velhos. Correu para o banheiro a fim de colocá-lo no corpo. Ele ia até cinco dedos acima do joelho e era extremamente justo, de mangas compridas e havia dois cortes na região dos quadris, deixando-os a mostra. O colo também ficava levemente exposto, fazendo com que o vestido seja comportado e sexy ao mesmo tempo. Finalizou com um salto preto, algumas pulseiras de mesma cor e um penteado simples – trança escama de peixe lateral, que deixou alguns fios soltos dando uma impressão bagunçada, algo que adorava. Demorou um pouco mais na maquiagem. Já estava pronta quando seu celular tocou e o nome de sua mãe brilhava na tela. Droga!
— Hey, mãe...
— Me dê um belo motivo para você e Chloe não estarem nesse exato momento aqui no Brasil ou eu mesma vou até aí buscar vocês!— Disse Sophie levemente irritada.
— Eu não estou em Chicago. E antes que surte, eu só decidi aproveitar uma semana viajando com um amigo e prometo que volto para casa o mais rápido possível.
— Emily Hamswere Gavin...
— Mãe! Acho que não preciso te lembrar minha idade. Eu estou bem! Só quero tirar umas férias antes de voltar para casa e assumir tudo. Prometo não demorar.
— E onde você está, afinal?— Dessa vez, ela pareceu estar mais calma. Mas antes, estava tão desesperada temendo a vida de sua filha, que ficou com a raiva ao notar que ela estava bem sem informá-la sobre isso.
— Esse é outro detalhe que você poderia irrelevar sem surtar...
— Como assim?
— Eu estou na Itália. – Disse logo, sem enrolações. Houve um longo tempo em silêncio, ouvindo apenas a respiração de sua mãe que não sabia se contava algo a família, ou se mantia aquilo para si, mesmo que isso custe a vida de sua filha um dia. Estava se sentindo entre a cruz e a espada.
— Emily... Nunca lhe privei de nada e tento o máximo que posso te dar espaço porque sei que apesar de tudo, você também é humana e isso tudo... A máfia... O medo... É estressante. Então lhe farei uma pergunta e quero que seja extremamente verdadeira comigo, do contrário, dê meia volta desse lugar imediatamente.— Sophie sussurra escolhendo com cautela as palavras. Tinha que se lembrar que a filha já era adulta e não precisa mais de seus cuidados com a frequência de quando era pequena. – Está segura aí?
Ela então se lembra do segurança da Cosa Nostra que observava Alicia no canto, com os olhos atentos como uma águia pronto para morder a isca no momento em que ela se movesse. Estava prestes a ser totalmente sincera com sua mãe quando se lembrou de Ian também. Ele a pediu uma chance. E ela precisava entender o que estava sentindo. Precisava entender seus sentimentos antes de assumir a máfia. Queria assumí-la com a mente clara, para focar apenas no que de fato importará. Respirou fundo, se crucificando por aquilo e se preparando mentalmente para aceitar as consequências que viriam junto com aquela mentira caso algo acontecesse com ela ali.
— Eu não poderia estar mais segura. Não se preocupe, estou em boas mãos aqui. – Sussurrou a morena suspirando alto e sua mãe pareceu estar aliviada.
— Não vou me intrometer em sua vida, minha filha. Apenas fique viva. E mande notícias. O tempo todo.— Pediu Sophie quase em suplica.
— Certo. Obrigada pelo voto de confiança.
— Agora eu tenho que ir. A gente conversa depois, está bem?
— Está bem.
As duas desligam sem dizer tchau e Emily sente o peso da culpa cair sobre suas costas. Ouviu barulho de dois carros estacionando e imaginou que Ian e seu avô chegaram ao mesmo tempo. Ela então decide pensar no que sua mãe havia aconselhado depois, abrindo a porta do quarto e colocando os pés para fora, com os ouvidos já na sala prestando atenção em toda a conversa. Alicia dava gritinhos animados com a presença do avô. Ele tinha um voz grossa, que exalava pura autoridade.
Estava uma pilha de nervos quando captou a voz de Ian que dizia que havia alguém que gostaria que ele conhecesse. Já ia atrás da morena quando a vê próxima a escada. Não tinha a menor ideia de quando começou a caminhar até ali. Desceu os degraus vagarosamente e assim que os olhos de Valentina se encontraram com os dela, ela soube que a garota era esperta o suficiente para saber, mesmo que de modo indireto, o verdadeiro significado da cor vermelha na família Baldocchi.
— Vô... – Ian segura as mãos da morena antes de guiá-la em direção ao homem que estava na porta, apenas observando seus movimentos com cuidado. – Essa é Emily. Emily, esse é meu avô... Augustos.
Ela estende as mãos para ele, que continuava encarando seus olhos acinzentados como se pudesse ver através deles. Quem dera se tivesse esse dom... A verdade é que estava cego demais mesmo com a verdade diante daquela imensidão cinza. A mesma imensidão cinza que Anthony carregava nos olhos quando se conheceram.
— É um prazer, Augustos. – Sussurrou, vendo como era o som daquele nome em seus lábios.
Lá estava. O encontro que ele tanto ansiava. Augustos estava frente a frente com a neta de seu maior inimigo, também conhecida como sua maior fraqueza, e quer ouvir a piada? Não tinha a menor ideia disso. Quem imaginaria? Sophie não precisava se preocupar com a filha... Porque ela estava no território da Cosa Nostra e eles não estavam lhe dando nenhum tipo de corretivo. Estavam apenas lhe dando boas vindas por estar a poucos passos de entrar na família.
Tik tok, Emily...
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