Mirror

12 Os dons de Cassie


As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.

— Victor Hugo

Os dias foram se passando com lentidão e eu fui obrigado a viver com o fato de eu ter desaparecido completamente. Passei algumas tardes isolado de todos, mesmo na hora das refeições. Dessa vez era eu quem não havia se acostumado com a pútrida realidade. Cassie, Alex e até alguns dos peculiares me visitavam de vez em quando, obrigando-me a comer pelo menos um pedaço de pão. Por vezes eu recusava, apesar de estar mais magro do que antes. Não suportava o fato de ter que usar roupas para ficar visível.

— Não pode se enfurnar nesse quarto, Mill. — Cassie sussurrou em meu ouvido, depois de ficar por 18 minutos me fazendo companhia junto a Alexander — Você não está se ajudando, amor.

Pus minha testa encostada nos joelhos, sentindo o ar quente da minha respiração que se voltava contra mim. Ouvi um ruído que decidi não ligar, até que Alex se pronunciou.

— O que é isso? Não sabia que garotos americanos tinham diários. Nós, egípcios, costumamos seguir uma antiga tradição semelhante a anotar coisas num pedaço de papel. Só que em nosso caso, usávamos tecido e tinta. — o garoto alado falou com um sorriso deformado, apontando para uma das velhas páginas da minha caderneta. Algo me diz que ele sentia saudades de casa — Quem é Jason?

— Não é da sua conta. Largue isso! — exclamei, erguendo-me do chão quase sem ser percebido. Quando me arrisquei em roubar o caderno dele, fui detido por uma das suas asas.

— Ah, então ele sabe falar! — provocou — Quem é ele?

— Não é da sua conta!

— Millard! — Cassie repreendeu, pendurando as mãos na cintura — Esse não é você! Jason é o irmão dele, Alex.

— Não, aquela coisa não é meu irmão. — cerrei o punho, feliz por eles não verem meu rosto. Forcei para não chorar na menção de alguém que eu considerava meu melhor amigo. Era cruel pensar nele como meu inimigo agora, mas eu não tinha escolha. Não depois de tudo o que Jason fez para me "proteger".

Eles não sabiam o que falar. Incrível como eu conseguia deixar tudo mais mórbido. Cassie segurou minha mão e pôs um cachecol ao redor do meu pescoço.

— Ponha algumas peças de roupa. — ela ordenou — Estamos indo para o jardim.

Mesmo sem ânimo, peguei meu casaco e forcei um sorriso. As coisas poderiam piorar se eu não fosse.

. . .

O vento frio batia contra minhas costas, sussurrando em meu ouvido coisas que talvez eu gostaria de ouvir, se eu o compreendesse. Os arrepios surgiam repentinamente. Agradeci internamente por Cassie ter me obrigado a levar roupas para fora de casa. Meus dentes já estavam rangendo.

Perto de mim estava Cassie e meu tão querido caderno. Parte de mim queria jogá-lo fora, mas outra parte, a mais lúcida, me dizia para guardá-lo. Era uma das poucas lembranças que tinha de um pedaço da minha família, do meu verdadeiro lar. Fui atrapalhado por uma pequenina pedra, que fora lançada contra minha cabeça.

— Desculpe, sr. Nullings! — gritou Bronwyn, fazendo uma breve mesura, como se fosse necessário — Pretendia atirá-la em Victor, mas ele se esquivou.

Os irmãos trocavam olhares sérios, Bronwyn deixou a língua para fora da boca. Depois de milésimos, ambos caíram na gargalhada. Como se eu fosse afetado pela sensação de alegria, decidi ceder um pouco e rir com os dois.

— Que bom que se sente melhor, Mill. — Cassie declarou, segurando a minha mão. Alex estava ao seu lado, coletando flores de diferentes espécimes para dar à nossa mentora.

De acordo com ele, srta. Peregrine ganhava um buquê de flores, negras como carvão, a cada 40 dias, doado por um anônimo do lado de fora da fenda. Ninguém sabia quem era o doador, nem como as flores não murchavam ao entrar em 1940. Todas as informações que tínhamos era que Alma o apelidava de "Morte". Por motivos incertos, ela atirava as plantas no fogo todas as noites, como se as rosas trouxessem lembranças tão moribundas quanto "Morte". "Morte costuma ter um senso de humor sombrio", dizia ela, deixando-nos mergulhados nas dúvidas.

Ninguém a entendia.

Dessa vez, ela não recebeu, assim como na vez anterior. Alex e os outros resolveram, então, juntar alguns maços e entregar as mais belas flores que só Fiona poderia produzir com suas delicadas mãos. Não seriam pretas, como de costume, mas acho que isso ajudaria srta. Peregrine a esquecer do misterioso doador.

— Acho que é o suficiente. — Alex disse, satisfeito. Quando estava prestes a voltar para o orfanato, ouvimos um barulho semelhante ao de um ofegante latido. Quantas vezes teria que ser interrompido por algo estranho?

— O que é isso? — Cassie questionou aterrorizada, arrancando risadas da Bruntley mais nova.

— É só um gatachorro, sua boba. — Bronwyn respondeu como se fosse a coisa mais óbvia, apontando para uma figura menor do que seus joelhos, que estava apoiada no galho de uma árvore. Ao forçar a vista, tomei um susto. O ser tinha a cabeça de gato e o corpo de um cão. Meus olhos se arregalaram e Cassie parecia ser a única a notar isso.

— É um animal peculiar. — Victor complementou — Uma mistura de cachorro e gato. Faz um bom tempo que não vejo um desses por aqui.

— Incrível! Adoraria estudar espécies extraordinárias como esta. — murmurei — Sempre fui fascinado pelo diferente.

— E você pode. — Alex falou, com um tom amigável. Suas asas se esticaram preguiçosamente — Eu posso pegá-lo pra você.

Agradeci pelo seu gesto. Cassie se aproximou dele para mostrar onde o gatachorro estava com exatidão. Victor pediu para que todos ficassem em silêncio, qualquer ruído poderia assustar a coisa. Alex deu seus primeiros passos, ou para ele, suas primeiras batidas de asas e em poucos segundos seu corpo teria virado apenas uma massa flutuante e barulhenta pelos ares. Observamos enquanto o menino subia até o topo.

— Onde ele está? — gritou ele lá de cima — Parece que a coisa está subindo nos galhos.

Meu coração foi até a boca quando Alex se aventurou em subir mais ainda.

— Cuidado! — Bronwyn advertiu, gesticulando — Gatachorros são tão traiçoeiros quanto jumirafas.

— Eu vou ficar bem! — retrucou, sua voz sendo confundida com o sussurrar do vento.

Depois de exatos 3 segundos, uma onda nauseante percorreu pelo meu corpo inteiro, deixando-me cair de joelhos ao chão. Cassie nem os outros sequer me viram, pareciam estar intrigados com algo mais interessante. Ou perturbador. Para nosso desespero, as asas de Alex estavam se debatendo de maneira pasmódica e irregular, era como se ele tivesse desaprendido a voar.

— Alex, o que está acontecendo aí? — Victor gritou, a preocupação em sua voz era mais que notável. Como resposta, o garoto alado deixou um grito escapar.

— E-Eu não sei! — rebateu, tentando se recompor — Não consigo me controlar. Estão... estão pesadas!

Pesadas? Sim, claro! As asas do anjo. Para alguém como eu, carregar tamanho peso nas costas era uma sobrecarga que talvez apenas os Bruntley conseguiriam aguentar. Mas Alex já era mais do que acostumado a perfurar os céus com suas asas metálicas e sintilantes. Por que a gravidade só teria se tornado um fardo para ele agora?

Antes que eu pudesse ser respondido, Alex já estava caindo para a grama. Com uma altura daquelas, era quase impossível dizer que ele não fraturaria algumas costelas. No mesmo instante, ordenei que Victor e Bronwyn se unissem para agarrarem o anjo e amortecerem sua queda. Cassie só assistia de longe, querendo chorar o tempo inteiro.

O chão finalmente estava a poucos centímetros de Alex, e quando eu estava pensando que os Bruntley pudessem ser nossa salvação, minhas esperanças foram atiradas no lixo. Nem Bronwyn, nem mesmo seu irmão, pouco mais musculoso que ela, conseguiram deter o inevitável. O rugido dos metais se espatifando foi o único e agonizante estrondo originado. Estava tudo procedendo em lentidão. Tudo.

— Alex! — Cassie correu para o menino, que agora possuia um filete de sangue perto das costelas. Na pior das hipóteses, uma das suas penas afiadas teria cortado sua pele, atravessando uma artéria em cheio. Sussurramos palavras calmantes em seu ouvido. Dessa vez, eu estava implorando para o vento fazer o mesmo por ele.

— O q-que aconteceu? — perguntei, minha voz soando trépida — Pensei que tivesse dito para segurar Alex!

— Não sei! — Victor retrucou, na defensiva — De repente me senti mais fraco.

Estava cheio de dúvidas. Como isso teria ocorrido? Para provar o que Victor dizia, pedi para ele carregar Alex, um peso que, para alguém com a peculiaridade dos Bruntley, seria como segurar um travesseiro de plumas. Victor fez o que eu pedi, mas na mesma hora, suas pernas tremeram e ele caiu no chão, junto a Alex, que reprimiu um gemido.

Cassie estava pasma, enquanto olhava para suas mãos. O motivo era compreensível e estranho: um brilho ofuscante se formou de ambas as mãos, quando se aproximou de nós 4. Quando o fez, a onda enjoativa voltou a atingir meu estômago como se fossem agulhas. Teria sido ela a responsável?

— M-Millard... — Alex arriscou algumas palavras, ainda no estado de dor. Aquilo rasgou o meu peito. Não esperava ver meu melhor amigo praticamente sendo levado pela morte — E-Eu consigo te ver.

O fôlego se esvaiu completamente de mim. Meus olhos percorreram de Alex até minhas mãos, Cassie fez o mesmo. Elas estavam lá novamente! Depois de semanas sendo invisível, pensei que nunca mais poderia voltar ao normal novamente.

— Cassie — suspirei, sem tirar os olhos das minhas mãos -, Foi você. V-Você fez isso.

E o vento finalmente se calou, como se sentisse falta da minha voz.