Mirror

13 Essência


Produzir ideias tem um preço, ser diferente tem um preço, nem sempre fácil de pagar, mas necessário para saldar o débito com o nosso próprio Eu.

— Augusto Cury

— Deem espaço, por favor! — ralhou a srta. Peregrine, depois que levamos Alex para dentro de um dos quartos do orfanato. O garoto já estava perdendo sua tonalidade de oliva, faltava pouco tempo para ele desmaiar. Os olhos pesados expressavam isso.

— O que houve, srta. Peregrine? — Emma nos empurrou assim que viu o garoto sendo arrastado pelo chão (os Bruntley ainda não conseguiam carregá-lo) — Pela Ave, Alex está sangrando! E por que Millard está visível?

— Emma, essa não é a melhor hora para perguntas. — a frase nem chegou a ser dita completamente. Emma rugiu como um leão faminto e fez um movimento brusco com as mãos.

Eu sabia qual era seu plano: nos intimidar com uma chama formada pelas suas mãos, mas nada adiantou. Como resultado, apenas uma linha de fumaça curvilínea foi originada da ponta de seus dedos. A menina abriu a boca, espantada, sem entender absolutamente nada. A verdade era que, enquanto Cassie ficasse perto de qualquer um de nós, nossas habilidades não funcionariam regularmente. Essa era sua habilidade: uma espécie de dasativador peculiar.

— O que está acontecendo? — questionou ela, olhando perdidamente para as mãos que deveriam estar quentes. Emma começou a apalpar os próprios braços, como se o ar estivesse gélido — Por que está tão frio aqui?

— Não está. — a srta. Peregrine esticou o pescoço para perto de Emma, levando a mão até a testa da garota. Instantaneamente, Alma a puxou, como quem tocasse em fogo. Em seguida, lançou um olhar ameaçador para cada um de nós — Você está congelando, srta. Bloom! Alguém tem algo a dizer?

Olhamos para baixo, sem saber o que fazer. O que diríamos, que Cassie descobriu sua peculiaridade no pior momento possível? Que ela estava sugando nossas habilidades? A realidade nem sempre é agradável como alguns pensam. Cassandra deu um passo corajoso para frente, adquirindo uma postura rígida, que nem a de nossa mentora.

— Foi minha culpa. — falou com insegurança — Eu descobri minha peculiaridade. Consigo desligar as habilidades de quem eu quiser, mas ainda não tenho controle sobre isso. O motivo de Alex ter caído? Também fui eu.

— Não s-seja tola, Cassie. — Alex procurou defender a menina, deixando tosses ríspidas saírem de sua boca. Cassie, de repente, parecia não conseguir segurar as lágrimas — Não é sua culpa.

— É... — tentei consolá-la, unindo minhas mãos às suas. Elas estavam tão geladas quanto as de Emma, muito provavelmente — Você é uma de nós, Cas. Sabemos que esse tipo de coisa deveria acontecer.

Ela não parou de chorar, de nada adiantou. Quando mais lágrimas fizeram presença em seu rosto, a sensação de enjoo me atacou novamente, dessa vez com mais intensidade. Ela estava fazendo aquilo de novo!

— É mentira! — berrou, largando meus dedos visíveis e indo em direção à porta — Eu sou um monstro. Olhe tudo o que eu fiz! Não mereço esse lugar. Não mereço viver com vocês.

Então ela se foi, deixando o ambiente muito mais tenso. Senti um formigamento no estômago, onde antes residiam as pinicantes e inexistentes agulhas. Eu estava voltando a ser invisível novamente.

— Não temos tempo para resolver esse problema, sr. Nullings. — srta. Perergine murmurou, com passos pesados — Srta. Bruntley, pegue meu kit de costura. Srta. Bloom, quero que traga meu baú de primeiros socorros. Vou precisar anestesiar o sr. Mubarak.

À cada menção e ordem da nossa mentora minha visão ficava turva. Eu estava nervoso por Alex, não sabia se ele poderia sobreviver aos ferimentos. Pedi para ele ser forte, era a única coisa que eu conseguiria fazer pelo meu melhor amigo.

— Saiam daqui. — ordenou Alma Peregrine, soando ríspida como nunca fora. Seus olhos mutilavam os meus, obrigando-me a baixar a cabeça em sinal de respeito. Tentei protestar, dizer que ela não poderia liderar um procedimento cirúrgico, por mais simples que fosse, sozinha. Ela não me ouviu e mandou-me para longe dela, assim como as pessoas que não gostavam da minha companhia faziam. Não sabia o que teria mudado a mente de Alma, mas minhas suspeitas apontavam para "Morte".

. . .

O barulho da porta se abrindo chamou minha atenção. Assim que vi a srta. Peregrine saindo de lá com um pano cheio de sangue, corri para sua direção como um potro que acabara de nascer. Emma estava ao meu lado, esfregando suas mãos quentes ao redor das minhas costas. Abe, o garoto polonês que ela gostava, estava ao seu lado como um fiel escudeiro. Olive, a garota mais leve que o ar, nem conseguiu se manter em suas botas de chumbo. A ansiedade era tanta que a fez flutuar até o teto da casa.

— Como ele está? — fui o primeiro a questionar algo. Ela não parecia querer responder à uma pergunta sequer, mas não desisti de chamar sua atenção — Por favor, srta. Peregrine!

— Alex está descansando. Ele deve ficar bem daqui a algum tempo. — suspirou, limpando as mãos num pedaço ainda branco do tecido — Tenho que admitir, quase pensei que a solução fosse cortar as asas dele.

Todos da sala, o que incluia até mesmo Rosely, a "insensível" do grupo, estavam boquiabertos. Não soube se estavam chocados pela afirmação ou pelo tom doentio de naturalidade que Alma utilizou para responder a pergunta.

— Srta. ... do que está falando? Por que você fazer isso com Alex? — Abe se pronunciou pela primeira vez depois de inquietantes horas, seu sotaque tão firme quanto meu inglês.

— Alex quase morreu por causa delas. Uma de suas penas perfurou suas costas, próximo a coluna. Mais alguns centímetros para a esquerda e ele teria ficado paraplérgico.

— Para o quê? — Olive gritou lá de cima, deixando-me com vertigens.

— Nada com que tenha que se preocupar, pirralha! — Rose respondeu. Eu não estava no pique de repreendê-la, no momento.

— Tive que parar o sangramento. — continuou ela — Tirei uma ou duas penas que se quebraram no impacto.

— Não entende, srta. P? — falei com os punhos cerrados — Se tirasse as asas de Alex... ele não seria mais um peculiar!

A afirmação pareceu ter chocado mais ainda os peculiares que estavam no local, o silêncio foi mais devastador do que das outras vezes. Ouve uma troca de olhares perturbadora entre Abe e Emma, que depois olhou para Alma com pena.

— Ele não sabe, não é? — Bloom sussurrou para o ar, como se eu não estivesse aqui. Ergui as sobrancelhas, chateado por parecer um segredo nunca revelado para mim.

— Do quê? — bufei, escondendo a onda de medo que navegava pelas minhas entranhas.

— Não são as asas de Alex que o tornam peculiar. — explicou a mentora — Pelo menos não especialmente.

— Isso é impossível! — falei — E o que o tornaria um de nós?

— As asas dele não são as únicas peças revestidas por metal. — Emma completou o raciocínio — Alex, antes mesmo de nascer, tinha um coração mecânico. Diferente de máquinas, porém, ele aprendeu a desenvolver sentimentos desde seus primeiros anos de vida. Era impossível um robô respirar, sentir dor ou amar, mas Alex sentiu tudo e da pior maneira possível.

— Por que da pior possível? — insisti, retirando toda a paciência de alguns dos peculiares.

— Por causa do julgamento inconveniente dos normais. — chiou, cabisbaixa — Porque ele já foi tão inútil quanto qualquer um de nós, Millard.

Fiquei calado, sendo abraçado pela vergonha. Como pude ser tão insensível? Como pude não perceber o lado deles? Eles eram peculiares, pessoas estranhas para o mundo, coisas abomináveis. Cairnholm era seu paraíso porque escondiam a todos como se fosse uma pesada e acolhedora lona. Ninguém reconhecia isso, porém. Ninguém ligava para criaturas como nós.

Eu era um deles, agora, um estranho. E até estava gostando disso.