Mirror

11 O anjo mecânico


Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine.

— Paulo de Tarso

Com passos trôpegos, Emma correu até a origem do grito, deixando marcas negras no assoalho envernizado da casa. Pelo que parecia, eu não era o único mal acostumado com minha peculiaridade.

Seguimos os passos dela. Até a srta. Peregrine seguiu, mesmo após ter sibilado algo sobre não correr nas escadas. Naquele ritmo, porém, Emma estava quase nos ares de tanta velocidade. Ao chegar no local que aparentava ser um quarto, toquei na maçaneta, emitindo instintivamente um gemido de dor. O piso das escadas não foi os único a ser atingido pelo calor de Bloom.

— Horace, acalme-se! — Emma expeliu, com uma expressão ilegível. "Horace", o menino que não parava de se contorcer, caiu da cama e finalmente despertou de seu provável e tenebroso pesadelo.

— Ow! — reclamou ele, traçando círculos ao redor da cabeça. Ele olhou para Bloom como se ela fosse a criatura mais bela desse mundo — E-Emma? Oh, você está aqui!

Eles se abraçaram. Não pareciam irmãos ou namorados, mas fizeram com tanto amor que retiraram toda a tensão da sala abafada. Horace pousou os olhos na mentora, ignorando à mim e à Cassie como se nós dois estivéssemos realmente invisíveis.

— O que houve, meu bem?

— Mais um sonho, srta. P. — respondeu ele, entre respirações profundas — Eu vi 5 refugiados peculiares. Eles estão vindo para cá.

— Quando? — perguntou Emma, inquieta e com a mesma paranoia de quando nos conhecemos — Quem são eles?

— Não faço ideia. Por outro lado, sei o nome de um deles. Enoch Shepherd O'Connor. Soa familiar?

Os olhares das duas mulheres do orfanato deslizaram pelo chão, como se este fosse responder com prontidão. Alma deu de ombros e suspirou um "não" pesado.

— Tem certeza que não são acólitos? Eles podem estar em todos os lugares.

— Acólitos? — dessa vez fora Cassie quem falou, rompendo o silêncio que teria se submetido há alguns minutos.

— Vocês têm muito a aprender, crianças. — piou a ave peregrina, num sorriso modesto — Quanto ao sonho, deixe-o para depois, sr. Somnusson. Não precisamos de mais preocupações, por hora.

— Sim, claro. — o menino de terno elegante sorriu, pegando uma cartola que se pendurava num rústico cabideiro. Só se deu conta que estávamos aqui agora — Quem são estes? São idênticos aos peculiares que eu sonhei alguns dias atrás.

Queria esconder o espanto que senti assim que Horace me revelou, indiretamente, sua peculiaridade. Meu estômago se comprimia a cada palavra que saía da boca de uma das pessoas estranhas que acabamos de conhecer. Era real! Isso tudo era real. Eu estava falando com uma ave, uma garota de fogo e um vidente numa sala escura de um excêntrico orfanato dos anos 40. Como isso poderia ficar melhor?

— É porque são eles, seu besta! — Emma reprimiu o riso, apontando para mim e para minha namorada, em seguida — Millard Nullings e Cassandra Valentine.

— Cassie, por favor. — Cassie corrigiu. Lembro de ela ter me falado que, se pudesse, trocaria seu nome. Eu, por outro lado, o acho tão bonito quanto ela. Horace segurou sua mão e projetou um beijo suave, olhando para Cassie como se ela tivesse virado sua musa. Cocei o pescoço, como sempre fazia quando tinha ciúmes de alguém. Essa era minha técnica.

— Andem logo, vamos apresentar os outros. — pediu Emma, puxando Cassie, que se deixou levar pela garota de fogo.

. . .

Ao fazermos um tour pela casa, fiquei perplexo ao notar quantos quartos haviam por lá. Isso não parecia um orfanato, mas sim um hotel peculiar! As crianças, de acordo com srta. Peregrine, deveriam estar espalhadas pelo jardim, então para lá fomos. Ergui as bordas do suéter, com medo de quando eles vissem qual era minha peculiaridade, fugissem no mesmo instante.

— Cassie, você poderia me acompanhar? — ela assentiu, pedindo licença à Emma e à ave. Seguimos de mãos dadas até uma enorme laranjeira.

O cheiro era estonteantemente agradável. Esse parecia ser o paraíso deles, pois tudo o que eu via era esplêndido. Sair daqui talvez deveria ser a pior coisa para alguém como eu. Esse lugar parecia me preencher por completo. Nos encostamos no tronco da árvore.

— Você quer ficar aqui, não é? — Cassie interrompeu meus pensamentos. Sua voz estava tão distante que me preocupou — Ficar com eles.

— Parece ser uma decisão complacente. Além disso, você também é uma peculiar, Cassie. Só precisamos descobrir do que é capaz.

Eu beijei a ponta de seu nariz e ela se aconchegou em meu peito. Sua respiração me fazia sentir em casa.

De repente, algo nos apartou. Algumas laranjas caíram da parte superior da árvore, alguém deveria estar lá no topo retirando-as. Tentei ver quem seria, mas infelizmente os ramos dos galhos me impediam de visualizar com clareza.

— Acha que é um dos peculiares? — perguntou-me Cassie, levantando-se da grama com certo nervosismo.

— Veremos.

Caminhei ao redor da laranjeira, ainda sem ver o indivíduo. Bati no caule da planta, mas Cassie me repreendeu. Por fim, quando teria já desistido de descobrir o que estava na árvore, ouvimos um barulho semelhante ao de metais rangendo. Uma sombra de pelo menos 2 metros de comprimento regou o chão, revelando uma figura flutuante e de altura mediana cobrir o sol.

— O que é isso? — Cassie se aproximou de mim, acompanhando meus movimentos. Não respondi, minha surpresa foi tamanha que perdi a voz pela segunda ou terceira vez.

O ser foi se aproximando, até que conseguimos decifrá-lo. Era um anjo! Por sinal, um bem peculiar. Suas asas eram completamente revestidas de metal. Ele fez seu trajeto até a grama e mostrou uma expressão assustada.

— V-Você é um... — Cassie ousou questionar, estupefada.

— Um anjo? É, talvez. — o menino respondeu, sorrindo para ela com timidez. Cocei novamente o pescoço, minha pele ameaçando ser brutalmente arrancada pelas unhas.

O garoto possuia características diferentes dos americanos. Seus cabelos, tão negros quanto os olhos, possuiam terminações loiras e tocavam nos ombros morenos, balançando conforme o ritmo do vento. As asas emitiam o reflexo do sol, quase ao ponto de cegar alguém. As penas se estrangulavam em finas e cortantes agulhas que lembravam facas afiadas. Afastei-me assim que ele se moveu.

O anjo sem suas asas

— Não são acólitos, são?

— Creio que não. — falei com indiferença, ocultando minha empolgação por ver um ser alado — Sou Millard Nullings.

— Cassie Valentine.

— Que agradável conhecer as mais novas aquisições da srta. P! Horace não parava de falar de vocês. — seu sotaque arranhado denunciava que não era, de fato, americano. Talvez o inglês nem fosse sua língua materna — Sou Alexander Mubarak. Mas podem me chamar de Alex.

As asas do anjo se movimentavam com dificuldade, como se a soma do peso de cada uma o pusesse no chão. As engrenagens que faziam presença em seu peito nu se movimentavam como se ele fosse uma máquina. Me perguntei se ele sobreviveria sem elas.

— Não vão falar nada? — indagou, possivelmente incomodado com a tranquilidade a que fomos expostos.

— Desculpe, isso é totalmente novo para nós. — apressei-me em justificar, oferecendo uma das mãos enluvadas como um cumprimento — Sou invisível. Quer dizer... mais ou menos. — retirei a luva, que pinicava minha mão, para comprovar. Alex não parecia estar espantado como os outros. Aquilo deveria ser uma das coisas mais normais que ele já teria visto na vida.

— E você, doçura? — ele apontou para Cassie, me esforcei para não socar a cara do menino. Não havia mais pele para ser coçada. Ela sorriu sutilmente.

— Já tenho um namorado, se quer mesmo saber. E ainda não sei qual é minha peculiaridade. Todos andam me perguntando isso.

— Que estranho. Bom, nem posso dizer que descobri a minha depois de anos. — falou, enfiando as mãos no bolso da calça — Já nasci com as asas de metal.

— Sério? Como sua mãe sobreviveu com você dentro do ventre dela?

— E não sobreviveu. — comentou, com uma aparência sisuda. Tossi rapidamente, arrependido de ter falado algo — Minhas asas arranhavam seu útero, quando eu me movia. Antes de a parteira desmaiar de surpresa ao fazer o parto, ela sabia que minha mãe não teria chances. Fui considerado uma desonra pelo meu pai por anos, até encontrar a srta. Peregrine.

— Sinto muito.

— Não sinta. — ralhou, cruzando os braços.

Não falamos mais nada, depois. Deixamos nossos olhos apreciarem a sublime paisagem, até ouvirmos vozes distantes nos chamando.

— Vejo que conheceu o sr. Mubarak. — disse srta. Peregrine, olhando para o menino de soslaio. Atrás dela, uma fila indiana tinha sido formada. Havia umas 8 ou 9 pessoas nela, as crianças que tanto desejava conhecer — Tenho certeza que serão amigos. Bem, eis aqui meus pequenos.

Cada um nos cumprimentou, apresentando suas habilidades. Hugh Apiston tinha abelhas dentro do próprio estômago; Fiona, a garota que ele não parava de olhar apaixonadamente, era conectada com a natureza. Rosely Alligier, uma garota incrivelmente sarcástica e esnobe, conseguia se comunicar com os animais ao seu redor. Em relação ao resto, honestamente, tive dificuldades para me lembrar.

As apresentações tinham acabado. Muitos perguntaram sobre a peculiaridade de Cassandra, mas ela sempre se esquivava do assunto. Ainda não se encaixava na nova realidade. Depois de algumas horas, fui para meu quarto, observar de longe ao que eles chamavam de Transição, quando a fenda se reiniciava. Tirei as roupas e me aventurei em tomar um banho na água gélida. Me enrolei na toalha e segui até o ornamentado espelho do lugar, tomando um tremendo susto ao fazê-lo. Tudo o que eu podia ver no espelho era uma toalha flutuante e um par de sandálias novas. Eu pisquei uma, duas, até cinco vezes, mas nada se desfez.

Eu estava lá, mas não estava. Essa era a sensação que me apoderava ao olhar naquele pedaço de esperança que eu costumava chamar de reflexo.