Mirror
16 Morte
A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais.
— Epicuro
Fui, tropeçando em meus próprios pés, até o quarto de Cassandra, que deveria estar deitada nesse exato momento. Bati na porta e ouvi um grunhido abafado como resposta. Disse que era eu e que era importante. Na mesma hora, ela me deixou entrar. A garota estava pálida, os cabelos desgrenhados escondiam o brilho dos seus olhos. Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, lancei-me contra ela e a beijei, deixando-a assustada.
— Pra que foi isso? — perguntou com um sorriso mais realista no rosto — Não que eu não tenha gostado.
— Eu te amo. — respondi como se fosse a coisa mais óbvia possível — E não é um mal entendido que vai nos separar, amor.
Ela me abraçou novamente e descansou a cabeça em meu peito — ainda me perguntava como ela conseguia olhar para meus olhos, como se eu fosse visível. Talvez fizesse parte de sua peculiaridade. De repente, senti sua mão tocar na minha, a que segurava com firmeza a fotografia. Com agilidade, ela roubou o papel de mim e o analisou como se estivesse procurando por defeitos.
— O que é isto?
— É o que está me importunando. — falei, um pouco entristecido para dizer a verdade — Pelo que as circunstâncias indicam, esse deve ser "Morte".
— Não acha que está exagerando? — ela opinou, sem tirar os olhos do homem misterioso da foto — Nunca vimos uma fotografia dele. Além disso, Morte só entrega as flores negras.
— É, mas olhe para cá. — mostrei um dos pedaços engolidos pela chama. Cassie acompanhou — Srta. Peregrine sempre queima as flores de morte. Ela deve ter ido queimar isso também, mas acabou escapando do fogo.
Ela olhou para mim com mais seriedade, como quando ficava nervosa com alguma coisa. A foto era mais do que pensávamos, disso eu tinha conhecimento. Era por isso que precisávamos falar com a própria Alma Peregrine.
— Está pensando o mesmo que eu? — perguntei.
— Precisamos falar com ela.
. . .
— Ora, minhas crianças! Esses são modos? — Alma nos reprovou, assim que lhe contei o que acontecera. A mentora nos encarava com repúdio, assim como o homem da imagem. No lugar de guardá-la, srta. Peregrine rasgou a fotografia em 16 pedaços, o que tornou mais clara sua raiva pelo rapaz.
— Quem é ele, senhorita? — Alma não nos olhou nos olhos como sempre fazia. Ela parecia preocupada e sentida, como se eu tivesse tocado numa ferida ainda não cicatrizada — Um namorado seu?
Alma ficou rubra de vergonha. Cassandra me deu um olhar de reprovação e pediu desculpas à mentora por mim. Não tocamos mais no assunto de quem era o indivíduo, por isso tentei procurar por mais questionamentos na minha cabeça. Cassie parecia fazer o mesmo, seu olhar perdido evidenciava isso.
— Por que ele está enviando tantas coisas? — Cassie tomou a iniciativa antes de mim — Ele gosta da senhora?
— Vamos dizer que Morte tem uma concepção doentia de o que é gostar de alguém. Eu gostava dele há muito, muito tempo. Mas isso já passou, acreditem.
— Não, eu não acredito. — forcei uma postura de revolta. Era simplesmente incompreensível! Isso já estava virando uma obsessão — Eu vejo em seus olhos, srta. Peregrine. Você não está bem.
— Eu temo que ele me encontre. — sussurrou para ela mesma, porém pudemos ouvir — Tenho medo que ele tente qualquer coisa contra mim e meus peculiares.
— Não quer mesmo dizer quem é esse "Morte"? — insisti, dessa vez mais evasivamente, para não irritá-la. Ela esticou o pescoço para o lado, mantendo a coluna curva. Rapidamente, piscou os olhos e se levantou de sua poltrona.
— Olhe o que você fez! — murmurejou Cassie, puxando minha orelha, algo que mal esperava.
— Ow! Como fez isso?
— Eu consigo te ver. — retrucou — Você está visível.
— Não estou, não. — falei, esticando a borda da minha camisa. Não consegui ver meus braços, algo que já virou fato.
— Mas está para mim, bobo. — brincou, mesmo ainda com a postura séria — Devo ser a única que consegue te ver. Talvez pelo fato de eu ser uma ukrasti.
— Bom... eu não imaginava alguém melhor para me tornar visível. — ela forçou um sorriso. No mesmo instante, srta. Peregrine veio até nós com uma caixa de metal amassada. Achávamos que ela tinha ido embora por minha causa, por isso mostrei a língua para Cas, como se eu fosse uma criança. Ela retribuiu com uma expressão que dizia "faça isso de novo e eu queimo seus livros".
— Tenho recebido, de fato, correspondências de Morte. — srta. Peregrine prosseguiu, mais determinada — Normalmente são flores negras ou fotos desgastadas como estas.
As imagens eram inúmeras, por isso srta. Peregrine fez a seleção de 2 delas, na qual uma mostrava um homem de olhar perdido e meio triste e na outra, a silhueta de um falcão e de seu domador.
— Tem uma delas, porém, que veio endereçada à mim, mas não era de alguém que antes conhecia. — Alma comentou, olhando para baixo.
— Como assim "antes"? — pedi. Na mesma hora, a boca de Cassie se abriu no máximo. Ela segurava uma fotografia que Alma não tinha nos mostrado.
— Millard... você tem que ver isso. — peguei o papel de sua mão e finalmente entendi o motivo de tanto espanto. Nela, havia a imagem de um garoto sem nenhuma expressão, de coluna levemente curva e cansado. Não tinha nenhuma possibilidade, mas aquele era eu! Tinha certeza disso.
— Eu iria contar para vocês amanhã, mas como vieram até aqui, resolvi aproveitar a situação. — Alma complementou — Tem algo escrito no verso. Foi o que mais me apavorou. Você deveria ler.
Segui suas instruções e virei o papel de costas. A caligrafia era bem robusta e apressada. Eu me lembrava muito bem dela...
Nós estamos chegando
J. G.
— Jason. — falei prontamente, notando que ele não pôs o "N" de Nullings — Foi ele quem me enviou isso. Claro, como pude ser tão idiota! Sabia que ele me perseguiria algum dia. Acho que ele deve ter se unido, coincidentemente, a esse cara que a senhora chama de "Morte".
— Se diz isso, estaremos perdidos. — Alma sussurrou, tornando o ar mais pesado.
— Como assim? O que quer dizer, srta. Peregrine? — Cassie se arriscou, diminuindo a distância entre ela e nossa mentora.
— Porque... — hesitou ela — Porque o verdadeiro nome de Morte é Caul Bentham. Ele é meu irmão.
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