Mirror
17 O irmão bastardo
O amor e o ódio são irmãos. Mas o ódio é um irmão bastardo.
— Vergílio Ferreira
Já se passara 1 ano desde que srta. Peregrine nos revelou que Morte era, na verdade, seu irmão, Caul Bentham. O outro da foto seria seu outro irmão, Myron Bentham, um pouco mais sensato que o primeiro, mas nada tornava as coisas melhores. Aprendi a ser forte nesses meses, só que a ameaça de Jason nunca saiu da minha cabeça — fiquei algumas noites sem dormir, pensando nisso. Enquanto não dormia, eu me aventurava analisando o Mapa dos Dias, sentindo-me um verdadeiro estudioso, assim como Perplexus Anomalous. Mas e quanto a Jason? E se ele realmente planejasse nos atacar? Estaríamos prontos para lutar contra 2 homens determinados e talvez um exército? Era improvável, contestável e quase impossível.
Como esperava, voltei a falar com Alex, que após ter me pedido desculpas umas 6 vezes, foi perdoado. Nós éramos amigos, o mundo não deveria mudar isso, tinha que dar mais uma chance para o garoto. Cassie se tornou um espírito forte, a mais competente ukrasti que já teria visto (apesar de ela ser a única que já conheci). Eu me tornei visível perto dela, às vezes, literalmente.
— Está bem, Mill? — Cas me perguntou, enquanto brincava com uma bola de fogo que teria pego "emprestada" de Emma. Ela aprendera a fazer isso faz um tempo. Alex estava, admirado, ao seu lado, os olhos cintilavam mais do que a própria labareda flamejante — Parece triste.
— Não é isso, amor. — suspirei, apertando a mão que não portava o fogo. No mesmo instante a chama brilhou mais ainda, como se gostasse da minha presença — É Jason. Ele e Caul ainda me preocupam.
— Me diz o sentido disso. — Alex interrompeu, olhando distraído para uma de suas penas metálicas — Se eles realmente viessem invadir o orfanato, não acham que já teriam feito?
— É, mas não devemos confiar nos acólitos. Eles são engenhosos, mais do que você pensa. — mais uma voz se propagou pela sala. Enoch, o estranho necromante que amava ficar sozinho ou com Victor. Desde que sua namorada, Marie, terminou com ele, O'Connor tem se sentido para baixo. Seus bonecos o faziam companhia como pequenos membros da mais leal infantaria.
— Ele tem razão.
— É claro que tenho. — gabou-se, empinando o nariz — Acham que aquelas coisas não podem nos matar num piscar de olhos? Eles são tão bem disfarçados que não me admiraria se um de vocês fosse acólito.
— Não exagera, garoto! — Cassie o reprovou, estremecendo. Parece que tinha entendido a seriedade da situação — Querem saber? Vou provar que vocês dois estão errados. — ela apontou para mim e Enoch ao mesmo tempo — Vamos falar com a srta. Peregrine. Ela vai dizer a mesma coisa que Alex. Andem!
Sem mais nada para fazer, fomos todos procurar por nossa mentora. Ao subir as escadas que nos levariam para seus aposentos, esbarrei com Pierre Lantier, um dos peculiares que era capaz de se teletransportar. Diferentemente do que se via nos livros de ficção científica, porém, Lantier não tinha limite de onde seria transportado. Certa vez, o pequeno garoto francês nos contou que quase foi para a lua, mas ficou tonto antes mesmo de ultrapassar a mesosfera.
— Desculpe. — murmurei. O menino sibilou algo em francês e seguiu um caminho oposto à nossa direção. Finalmente chegamos no quarto de Alma.
— Srta. Peregrine? — Alex a chamou, antes de bater na porta. Nenhuma resposta foi gerada, deixando-nos mais confusos do que eu e Cassie, ao chegarmos em Cairnholm — Senhorita? Precisamos falar com você. Será que tinha como-
— Ela não está aqui, Alex. — Enoch concluiu com tamanho tom de indiferença — Vamos lá pra baixo, estamos perdendo tempo aqui.
— Arg!
Um grito. Veio do quarto de Horace, assim como na primeira vez que o vi. Todos nos entreolhamos, desconfiados demais para pronunciar uma palavra sequer.
— Faça parar!
A voz novamente. Dessa vez, tínhamos certeza que era de Somnusson. Com passos largos, corremos até seu quarto, o medo perfurando nossas entranhas. Ao chegarmos, nos deparamos com o garoto que puxava todo o ar para dentro de si. Srta. Peregrine estava ao seu lado, alisando suas costas com movimentos circulares. O pesadelo de Horace parecia ser pior do que imaginávamos, ele nunca ficava assim, tão desgastado. O suor, que tornava seus cabelos loiros molhados, fora limpado por nossa mentora.
— O que houve? — pedi, assustado. Alma não revirou a cabeça para mim, para nenhum de nós, honestamente.
— Está acontecendo, não é? — foi tudo o que Alma falou, ainda olhando para Horace, como se ele fosse um horáculo.
— S-Sim... — respondeu o garoto. A linguagem que os dois utilizavam me deixava com náuseas. Não eram códigos, mas só os dois sabiam do que estavam falando — Eles estão aqui.
— Eles quem, Horace? — Cassie se pronunciou, a preocupação era translúcida em seu rosto.
— Bentham. Jason. Acólitos. — o que eu mais temia que ele dissesse. Todos tomaram suspiros de terror, burburinhos tomaram conta do local. A única que parecia calma era Alma LeFay Peregrine, mas ela deveria estar eufórica por dentro. Eis a resposta de Cassie: ela sabia. Srta. Peregrine sabia desde o início que seríamos atacados por eles, só não quando. Caul deveria ser mesmo um homem de palavra, assim como meu irmão.
. . .
— Acalmem-se todos! — Alma lufou, enquanto se esforçava para conter a multidão alvoroçada de peculiares do orfanato. A essa altura, todos sabiam do veredito — Quero que me escutem!
Ninguém obedecia. Foi aí que Emma e Cassandra juntaram forças para projetar fogo de suas mãos, de uma intensidade mediana, ao ponto que todos prestassem atenção nelas. Funcionou.
— Obrigada, crianças. Escutem, os acólitos chegarão daqui a alguns instantes. Peguem tudo o que conseguirem usar como arma. Formaremos nosso próprio exército.
Uns uivaram de medo, outros vociferaram com um grito de guerra. Apesar de Alma aparentar e ser uma ótima líder, aquilo não parecia com ela. Nossa mentora era tão pacífica, que pensar na possibilidade de ela ter sido uma revolucionária dava uma vontade de rir que cessava no momento em que eu lembrava que estávamos sob ataque. Fizemos o que pediu. Procuramos por objetos que pudéssemos utilizar, Abe até preparou sua voz, caso precisasse usá-la contra algum etéreo (apesar de eles normalmente não entrarem nas fendas, nunca se sabia).
Depois de tanto alvoroço, ouvimos uma batida delicada na porta. Todos pararam de respirar ao mesmo tempo e srta. Peregrine repousou um dos dedos nos lábios. A batida se repetiu, dessa vez com mais estridência e necessidade, parando após muita insistência. O lugar estava silencioso, até demais. Arrisquei em falar algo, mas Alex tapou minha boca.
Os próximos segundos foram os mais estranhos da minha vida. Alguma coisa estava passando pela porta, atravessando a madeira como se ela não fosse nada. Foi aí que me dei conta de quem era, mas a figura não deu o trabalho de mostrar seu rosto. O garoto que acabara de atravessar a porta, movimentou a maçaneta e a abriu, deixando que um homem de olhos totalmente brancos entrasse.
— Olá, damas e cavalheiros. — o homem nos cumprimentou, cordialmente e com um tom irônico escarnecendo sua voz — Como vão nesse maravilhoso fim de tarde?
— Acho que com muito sono, Jack. Devemos ter atrapalhado o chá das 5. — Jason, o garoto que por sinal ainda não teria mostrado o rosto, falou com o mesmo tom que o mais velho, arrancando uma risada cínica dele.
— Caul. — srta. Peregrine foi a primeira a falar, agarrando-se a um objeto cortante e fino, uma das penas das asas de Alex, cortesia do próprio anjo — O que quer aqui?
Os passos de Caul ecoaram pela sala. Ele se revirou para meu irmão, que usava um capuz na cabeça, e o chamou.
— Ah, não estrague a surpresa, irmãzinha! — reclamou com ânimo — Deixe-me, primeiramente, apresentar meu aprendiz. Este é Jason George Bentham. Espero que não se importe de eu ter emprestado nosso sobrenome a ele, pequena Alma. O garoto tem sido como um filho para mim.
As palavras me machucaram, mas olhar para Jason só piorou tudo. Quando ele retirou o capuz, vi algo que nunca na vida pensaria em ver. Os olhos dele estavam completamente brancos, tão sem vida quanto os de Caul. E-Ele... ele era um acólito?!
— Olá, irmãozinho. — se pronunciou pela primeira vez — Sentiu saudades?
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