Mirror
1 Magic Mirror
Notas iniciais
Magic Mirror
No sótão de uma casa escondida no meio da floresta, morava um menino; um frágil adolescente que sonhava com a felicidade no meio de um mundo solitário cheio de desespero.
O garoto, Sawada Tsunayoshi, andou com muita dificuldade — culpa de sua doença, que o consumia cade vez mais — até parar em frente à um grande espelho velho. Apoiando-se na parede, sentou-se na frente do objeto e observou seu reflexo sorrindo levemente. Tsuna gostava de olhar sua imagem no espelho, não porque era narcisista, muito pelo contrário — com sua baixa autoestima, achava que não tinha nenhum pingo de beleza nem charme. Mas ver alguém, mesmo que fosse ele mesmo, retirava-o de sua solidão.
Ele iria começar sua rotina de conversar com seu reflexo quando sua imagem foi substituída por a de uma outro garoto muito parecido com sigo. A única diferença entre os dois eram os olhos: enquanto Tsuna tinha olhos castanhos grandes que transbordavam com suas emoções, o outro tinha olhos alaranjados da cor do pôr-do-sol mais estreitos; o resto desde a cor da pele, altura até aos cabelos arrepiados castanhos eram iguais.
— Olá. Eu sou um mágico e sou conhecido como Natsuyoshi ou Natsu. — o outro apresentou-se com uma voz suave. O sorriso que se fazia presente no rosto do outro parecia muito com o seu, pensou Tsuna.
Mesmo surpreso com a aparição de uma pessoa que não era seu reflexo, Tsuna estava estranhamente confortável e não com medo. Algo, bem no fundo de sua mente, dizia que Natsuyoshi era alguém confiável e faria grandes mudanças na sua vida.
— O-oi. Eu sou Tsunayoshi, mas pode me chamar de Tsuna.
Felicidade transbordava de seu coração. Finalmente estava conversando com uma pessoa que não fosse seu irmão mais velho, Giotto. Depois de tantos anos preso na casa para sua própria segurança por causa da guerra que ocorria, poderia falar com alguém e não se sentiria só! Um sorriso bobo apareceu em seu rosto.
Facilmente palavras escaparam dos lábios de Tsuna e logo o garoto e Natsu estavam conversando, o primeiro de forma animada com um grande sorriso e com seus olhos achocolatados brilhando em animação; o segundo com uma pequena curva nos lábios, indicando sua alegria, enquanto seus olhos observavam o outro com um brilho quente e acolhedor.
A conversa foi se prolongando e a felicidade pulsava no coração de Tsuna. Seu sorriso aumentou ainda mais quando Natsu demonstrou um pouco de sua magia, fazendo um fogo alaranjado aparecer em sua testa e mãos. A cor da chama que dançava nas mãos do mágico era linda na opinião de Tsuna, transmitindo um sentimento de paz para ele.
Com o fim do dia chegando e seu tempo para conversar com o outro adolescente diminuindo, Tsuna não resistiu e tocou levemente na superfície do espelho.
— Ne... Você é o meu primeiro amigo... Posso te chamar assim? — sua voz saiu trêmula, com medo de ser rejeitado.
Natsu surpreendeu-se com a pergunta do outro, mas logo sua feição de surpresa foi tomada por uma de carinho e lentamente colocou sua mão no mesmo local em que Tsuna estava tocando, sorrindo.
Como se soubesse o que iria acontecer depois, Tsuna falou:
— Chame meu nome...?
Com seu sorriso aumentando ao ouvir as palavras saírem da boca de Tsuna, o mágico respondeu:
— Tsunayoshi... — foi quase como um sussurro, mas ouvir o som da voz de Natsu fez com que Tsuna estremecesse.
A magia começou a se espalhar pelo quarto e Tsuna sentiu o frio do vidro do espelho que sentia em sua mão ser substituído pelo calor agradável e pela maciez da mão de Natsu. Sem notar, lágrimas começaram a cair de seus olhos acastanhados.
Ele poderia mesmo continuar segurando a mão do outro?
Antes mesmo que Tsuna pudesse vocalizar sua pergunta ele sentiu um aperto em sua mão. Levantando o olhar encarou os olhos pôr-do-sol de Natsu e um sentimento de segurança tomou conta de suas emoções.
XX
Uma semana se passou e Tsuna sempre conversava com Natsu. Vez ou outra eles brincavam com as chamas alaranjadas (Chamas do Céu, dizia Natsu) ou então simplesmente jogavam conversa fora e aprendiam pequenos detalhes da vida do outro, sendo que a maior parte do tempo era Tsuna quem falava.
Milagres também começaram a acontecer e tudo graças a magia de Natsu. Agora Tsuna não sentia mais dificuldade de andar, podendo até mesmo correr, apesar que tropeçava muitas vezes por causa de sua natureza atrapalhada; a guerra que se prolongava sem previsões de acabar finalmente chegou ao fim com um acordo de paz; e aquele sótão que era tão silencioso e esquecido, estava cheio de felicidade e risadas.
Num dia, depois de tantos milagres, Tsuna não pode deixar de contar sobre um sonho antigo.
— Era tão vívido, tão real que eu chegava a achar nostálgico, como se fosse uma memória da minha infânncia. — explicou apoiando-se no espelho, de costa para Natsu. — Eu era um príncipe de um país e morava num castelo... Meus dias eram tão felizes com a minha família e amigos...
— Tsuna... — murmurou Natsu, seus olhos brilhavam com emoções que o outro não conseguia identificar direto. Culpa? Tristeza? Ele não sabia ao certo.
— Até mesmo isso você fez tornar-se realidade. Obrigado, Natsu. — falou se virando para encarar o outro.
Tsuna sentia um estranho sentimento crescer dentro de seu peito, seu coração parecia que estava sendo apertado e algo no fundo de sua mente dizia que logo algo ocorreria.
— Você garantiu todos meus desejos, mas eu sinto como se algo ainda estivesse faltando... algo que apenas a sua magia pode garantir. — erguendo seu olhar para encarar os olhos do outro, ele segurou suas mãos. — Por favor, nunca solte minha mão.
Novamente Tsuna notou aquele brilho estranho nos olhos alaranjados de Natsu, mas não disse nada, apenas segurou fortemente nas mãos do outro.
O silêncio se fez presente por alguns minutos até que, lentamente, Tsuna soltou Natsu e deu um fraco sorriso em direção ao jovem, começando outra conversa. De pouco em pouco o clima do lugar foi ficando mais leve.
Quando a noite chegou, o novo príncipe foi para cama. Pensando no pedido que fez para Natsu e sua falta de resposta, o sentimento que algo iria acontecer apenas aumentou. " Eu queria que a gente ficasse juntos para sempre ", pensou enquanto sentia a solidão acumular-se em seu peito.
– Por favor, venha até mim. — sussurrou.
Não aguentando mais o sentimento de solidão, Tsuna jogou o cobertor para o lado e saltou da cama. Depois que Natsu conseguiu fazer com que ele virasse um príncipe e vivesse em um castelo, Tsuna tinha seu próprio quarto e conseguiu até trazer o velho espelho em que seu amigo aparecia para seu aposento.
Correndo até o objeto que deveria refletir sua aparência, o castanho tocou no no vidro.
— Natsu! Você está aí?! — perguntou desesperado. — Natsu!
Algo aconteceria e ele sabia o que estava por vir. Quando o outro castanho apareceu com um sorriso forçado, ele não segurou as lágrimas que ameaçavam cair.
— A magia esta acabando, não? — perguntou em um sussurro.
Natsu levou sua mão ao encontro da mão de Tsuna.
— Eu tenho que ir...
— Não! — Tsuna balançou a cabeça, apertando a mão do mágico.
— A magia vai sumir... mas seus sonhos são realidade agora. — tentou alegrar o outro, mas sabia que não era isso que ele queria. — Eu tenho que me despedir.
Novamente Tsuna negou, chacoalhando sua cabeça e forçando seus olhos ficarem fechados; lágrimas quentes escorriam por sua bochecha avermelhada.
— Não diga adeus. — implorou.
Soltando suas mãos de Tsuna, Natsu levantou-as até segurar o rosto do outro, limpando as lágrimas que caiam.
— Eu peço, por favor, que não chore. — falou num tom suave.
— Não vá... — implorou segurando no pulso do outro; seus olhos achocolatados travados nos alaranjados de Natsu.
Trazendo a cabeça de Tsuna mais para perto do espelho, o mágico encostou suas testas, não quebrando com o olhar do outro.
— No outro lado do espelho está o "mundo onde tudo é invertido". — começou calmamente, acariciando as bochechas de Tsuna. — Nossos destinos são contrários e não podem se encontrar.
Natsu parou um pouco, sorriu levemente, fechando seus olhos e dando um pequeno beijo na testa do Tsuna. Afastando-se com um passo para trás, Natsu colocou sua mão em seu próprio peito.
— Eu estou apenas devolvendo o que você me deu.
Tsuna observou a imagem de seu amigo começar a se desfazer e quando ia falar para ele não ir, foi interrompido pelo mesmo, que voltou a falar.
— Eu nunca vou esquecer suas lágrimas, nem seus sorrisos... — a cada palavra sua imagem estava sumindo, mas ele continuou sorrindo com seus braços abertos, como se fosse aceitar um abraço do outro. — Por isso, nunca se esqueça de mim.
Com essas palavras ele sumiu do espelho e o reflexo de Tsuna voltou a seu devido lugar. Olhando ele mesmo no vidro, viu sua face chorosa. Caindo no chão, cansado, fechou sua mão na superfície gélida do objeto, como se esperasse que Natsu fosse voltar e segurá-la.
— Eu queria ficar do seu lado para sempre, mesmo que não tenha mais magia... eu quero ficar com você! — exclamou.
O quarto estava silencioso, ele não tinha mais alguém que iria lhe confortar, segurar e dizer palavras gentis que o faziam sentir protegido e amado. Ele sentia falta da gentileza de Natsu.
— Por favor, venha me ver mais uma vez... — implorou para o espelho, mas nada aconteceu. Ele sabia que fazer isso não mudaria nada, mas como poderia desistir de seu primeiro e melhor amigo? Da pessoa que mudou sua vida só por estar ao seu lado?
Olhou novamente para o espelho e por um breve segundo pensou ter visto seus olhos mudarem de castanho para a mesma cor pôr-do-sol de Natsu; pensou também ter sentido o mesmo calor que sentia quando ele segurava sua mão, mas logo o frio retornou.
— Eu... eu vou continuar a polir esse espelho e esperar por você. Não importa quanto tempo passe, eu continuarei...
Apoiando a cabeça no espelho, sentiu suas pálpebras ficarem pesadas e aos poucos cedeu para a escuridão, entrando no mundo dos sonhos, onde, talvez, encontrasse Natsu mais uma vez.
"...esperando por você"
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