Greeny Wicked

— O número de mortos já é de dezenove vítimas pela fome, caso esse número aumente, será decretada situação de emergência. Guardem seus alimentos e se preparem para o pior.

Essa foi a notícia que eu ouvi logo depois de chegar do depoimento, estava tudo em um fio para piorar.

— São trinta vítimas causadas pela fome e crise de alimentos. Supermercados e indústrias alimentícias já estão fechadas, todo e qualquer alimento que vir agora será de origem natural. O governo decreta emergência na ilha. Os alimentos indicados são os que contém mais açúcares. É hora de tirar os alimentos da despensa, essa é a Grande Fome de 2018!

A situação estava alarmante e decadente, a ilha estava um caos, o trânsito estava imenso e o muro parecia aumentar a cada dia. A equipe de construção não conseguiu progredir, nem um pequeno buraco, pois o muro se regenerava.

Eu estava com medo das proporções que aquilo poderia tomar, certamente mais pinguins morreriam, e não havia nada que eu podia fazer. Talvez se eu estivesse ajudando nas investigações, poderia haver um progresso, mas o preconceito e a mente fechada de alguns não permitiram isso.

Eu ainda tinha um pouco de coisas guardadas na despensa, mas o que mais me preocupava era meu jardim, ele parecia mais fraco a cada dia. As plantas estavam demorando muito para florescer, as flores comestíveis nem nasciam mais devido ao clima. Faltava sol, faltavam sais minerais, faltava fertilizante, faltava água. A situação era caótica, e eu não sabia como nós sobreviveríamos á tudo isso.

Talvez o terceiro cavalo era realmente poderoso e terrível. Ninguém sabia quem ele era, e então ninguém poderia detê-lo. Me assustava alguém concordar com um acordo desses e ver milhares de pinguins caírem no chão sem energia e sem vida. Assustador.

Comecei a me questionar, tentando imaginar o que essa Miranda tinha a oferecer de tão bom para os pinguins se venderam tão facilmente. Além dessas questões, eu queria saber o que essa Miranda realmente era e por que ela pretendia voltar, como ela foi expulsa? Por quê? Quem ela foi no passado?

Eu sabia a imensidão do seu poder, mas eu não sabia para que ele servia e por que ela tinha tanto poder assim. Ela era apenas um demônio ou ela era tipo... Deus? Essa possibilidade me assustava, o ser mais poderoso que já existiu tentando voltar e fazer um massacre maior do que esse, maior do que o da guerra, maior do que o da morte.

Mas pelo menos se nós conseguíssemos deter esse cavalo, Miranda jamais voltaria. Se nós detivéssemos apenas esse, apenas um, nós poderíamos ficar em paz por mais um tempo.

Eu ainda tinha dúvidas de quem seria os responsáveis por deterem a demônia, certamente não seria eu e nem meus amigos, nós nunca detivemos nenhum dos cavalos. Imagino que o pinguim que verdadeiramente deveria ter vencido os cavalos está escondido, ou exilado, ou simplesmente morreu, e isso me preocupava bastante.

E se a mansão assombrada que encontrei Thay pertenceu a ele? Ou será que todos os pinguins que eu via nos retratos eram os verdadeiros heróis?

Afastei esses pensamentos e fui para o meu jardim para poder meditar, organizar meus pensamentos e decidir o que fazer.

Sentei-me no mesmo espaço vazio da terra do jardim e fechei meus olhos buscando formas de relaxar.

***

Há 4 anos.

— Mr. Wicked, essa parte do solo não é rica em sais minerais, as plantas não vão crescer. Acredito que seja melhor ver em outra região. O Oeste é pobre. — O corretor disse.

— Mas não existe nenhuma forma de nós tornarmos o Oeste rico? Tipo, sei lá, hidratando o solo? — Perguntei. Nessa época eu tinha pouco conhecimento sobre a natureza.

— Acho melhor não mexermos nessa terra, ela não é boa. — Ele terminou.

Eu fiquei frustrado, eu queria um jardim perto do meu iglu, mas eu já podia imaginar que não nasceria plantas no topo de uma montanha gelada. Não era a mais alta, mas eu acreditava que sim.

Todos os dias eu visitava aquele pedaço de terra, na esperança de nascer alguma plantinha. Ventava muito na montanha, trazia muita sujeira para o meu quintal, sempre pensei que morar na montanha era bom, mas a cada dia eu pensava em vender aquele iglu e ir para sei lá aonde... Talvez o Centro.

Em um dia eu acordei bem cedo, era quase inverno, os pinguins estavam se preparando para o maravilhoso festival do solstício. A ilha estava linda em cores frias, havia várias esculturas de gelo por toda parte da ilha, era lindo como o sol refletia nelas e fazia tudo brilhar.

Era dia 20 de dezembro, ao meio dia todos os pinguins se reuniam na Prainha, porque lá daria para ver o sol se pôr. Os lampiões ficavam pendurados com as velas queimando dentro deles, as fogueiras já estavam acesas e os pratos com as frutas e flores da época já estavam distribuídos numa mesa bem grande lá. Tinham bebidas quentes, sopas e pratos tradicionais da época, como a maravilhosa torta de abóbora.

Eu estava vestindo um suéter roxo, acompanhado de uma jaqueta jeans, minha calça era jeans e meu sapato era cinza, eu usava como ornamento um colar com um pingente azul, meu cabelo estava penteado para o lado e eu usava uma touca de lã roxa. Meu rosto estava com várias pinturas, um céu estrelado nas bochechas com as fases da lua e muito brilho. Era tradição naquela época fazer pinturas em qualquer parte do corpo, mas eu tinha vergonha, fazia apenas no rosto. Tinha pinguins mais corajosos com pinturas no peito, nas nadadeiras, em tudo.

Estava tudo maravilhoso. Comi algumas coisas, mas logo voltei para meu iglu, lá também era bom para ver o espetáculo no céu.

Como meu jardim não iria florescer, eu decidi me sentar no espaço de terra, colocando minhas nadadeiras para trás e os pés para frente, logo a vista ia começar.

O sol começou a se pôr lentamente, formando um crepúsculo maravilhoso no céu, seu brilho refletiu em meu rosto e em meu jardim, eu apertei a terra e fechei meus olhos para não ficar cego.

Quando o sol finalmente caiu, eu pude abrir meus olhos. A lua já estava se levantando, estava uma algazarra lá embaixo. Uma ventania começou, era normal, pois logo que ventava era frente fria chegando. Quando abri meus olhos, percebi que uma sementinha havia germinado no jardim. Aquilo só podia ser um milagre do solstício.

***

Aquelas lembranças me fizeram sorrir. Eu desconfiava que aquela sementinha que tinha surgido era por causa minha magia, eu só não sabia disso na época. Hoje ela se tornou um maravilhoso pé de abóbora, pois naquela época era solstício de inverno, abóbora era uma das poucas coisas que floresceria.

Me decepcionava ver que tudo aquilo iria morrer por conta do frio, até mesmo a abóbora guerreira que consegue superar o frio para expandir suas raízes.

Toquei em uma das suas folhas secas fazendo-a rejuvenescer, não duraria para sempre, mas seria suficiente para nascer pelo menos um fruto.

Então assim que fiz isso, me veio uma ideia maravilhosa na cabeça, e se eu criasse vários jardins comunitários por toda a ilha? Isso ajudaria a conter um pouco da fome.

Peguei todas as sementes que eu tinha no meu armário e desci pela ilha para dar vida a minha ideia.

Quando desci, os pinguins perceberam que eu segurava envelopes e frascos pequenos:

— A bruxa! Queimem-na!

— Acalmem-se! Eu trouxe uma solução para a Grande Fome. — Eu disse mostrando os envelopes. — São sementes! Nós podemos criar um jardim comunitário e gigante aqui para todos se alimentarem!

— E como podemos saber que não é veneno? — Um deles gritou.

Como demonstração eu cavei um buraco rapidamente com as nadadeiras mesmo, coloquei a semente e tapei o buraco novamente. Com as nadadeiras ainda sujas, eu fiz a pequena planta florescer.

— Estão vendo? É inofensivo, isso pode resolver boa parte dos nossos problemas.

Eles pensaram com receio, minha reputação estava péssima, mas talvez isso ajudaria a melhorar.

Todos concordaram e foram buscar pás, luvas, garfos, regadores e até pedaços de madeira para fazermos uma cerca.

Como a loja pinguim era perto, eu comprei um macacão e algumas botas para cada pinguim. Me vesti e me preparei.

Enquanto alguns cavavam, outros construíam a cerca. Eu estava selecionando as sementes perfeitas para a época. Outros pintavam o chão para demarcar os limites do jardim, iria ficar perfeito.

Equipe.

Eu nunca gostei de trabalhar em equipe, mas dessa vez eu sentia que era necessário e estava sendo até divertido.

Quando todos acabaram, eu coloquei as sementes, cada fruto em um setor, abóboras, maçãs, morangos, cenouras e tomates.

Me agachei colocando minhas nadadeiras na terra, apertando-a com força, liberando energia mágica do meu corpo. Fechei meus olhos me concentrando, senti um vento vindo de baixo, fazendo meu chapéu quase voar. Barulho de folhas também surgiram, elas pareciam sair com toda força do chão, também dava para escutar galhos se contorcendo e folhas voando.

Os pinguins comemoravam, mas eu ainda não podia abrir os olhos até que tudo fosse concluído. Poucos segundos depois o vento e os barulhos pararam, só se ouvia os pinguins pulando e comemorando. Abri os olhos e estava tudo na minha frente, várias frutas, vegetais, árvores, flores. Tudo.

Eu sorri vendo toda a alegria dos pinguins, assim poderíamos diminuir a catástrofe.

Voltei para o meu iglu com o sentimento de vitória, já estava tarde, nós ficamos a tarde e boa parte da noite trabalhando naquilo, eu só queria tomar um banho e descansar.

Fui para o banheiro, tirando a minha roupa suja de terra. Entrei na banheira e relaxei, parecia que mais uma parte do peso que eu carregava tinha desaparecido.

Logo após o banho, eu me vesti e fui direto para cama, seria a primeira noite tranquila do mês.

Mas pouco tempo depois que me deitei, comecei a sentir um cheiro de queimado. Estranho, será que eu tinha deixado algo no fogo?

Levantei-me da cama e fui até a cozinha, não tinha nada lá. O cheio parecia vir de fora. Abri a porta e comecei a tossir, o cheiro estava horrível.

Quando andei para mais longe, presenciei uma coisa horrível, péssima na verdade.

Alguém tinha incendiado o jardim comunitário, com toda certeza aquilo era obra do terceiro cavalo, ninguém poderia ser tão cruel quanto esse inimigo.