Juan Hussie

Depois que Dylan me disse que iria contar sobre quem era a tal ela, eu não pude evitar ficar ansioso. Ele me levou até um dos cantos do píer, onde se encontrava o grande farol com listras vermelhas e brancas, e, ao lado, estava um pequeno barco. Era tipo um barco pesqueiro, com as cores azul e branco predominando em suas laterais. Ele não era muito grande, caberiam talvez até dez pinguins ali.

O veículo tinha um deque bem espaçoso e totalmente limpo, com dois banquinhos, um em cada canto. Um suporte vertical de ferro segurava um toldo com alguns metros de altura, que se conectava à cabine. A cabine tinha mais do que dois metros e meio e janelas por todos os lados. Lá dentro, provavelmente estavam o leme e as alavancas e botões dos barcos modernos que o ajudavam a ser controlado.

Vários outros objetos completavam o barco de um lado e do outro, como cordas entrelaçando as colunas e uma pilha de boias.

— O que é isso? Por que um barco? — eu tinha perguntado, mas ele simplesmente continuava quieto e não dava respostas.

Não sobrou nenhuma alternativa senão pular no veículo e me equilibrar no deque, já que ele balançava junto com o movimento da água. Eu me acomodei em um dos banquinhos que eu tinha visto antes enquanto Dylan desamarrava as cordas, libertando o barco para o mar aberto.

Como estava de noite, e o dia tinha sido cansativo, eu logo dormi. Nenhum sonho essa noite. Acordei horas mais tarde, com o nascer do sol. Eu ainda conseguia ver a Ilha do Club Penguin ao fundo, então deduzi que Dylan também tinha dormido em vez de conduzir a embarcação.

— Não vai me falar onde estamos indo? — perguntei, logo que acordei e vi o pinguim apoiado por suas nadadeiras em uma das bordas do barco. Ele olhava o horizonte vazio com uma expressão séria, como se estivesse profundamente em seus pensamentos.

— Para longe. — Foi sua resposta.

— Por quê? — perguntei.

Ele dessa vez não respondeu, apenas colocou sua nadadeira em frente ao bico, indicando silêncio.

Ok..., pensei, enquanto andava até a cabine do barco para ver o que tinha lá dentro. Quando entrei, por algum motivo achei o lugar bem agradável. Em uma das paredes, tinha um leme de madeira pendurado. Era um círculo perfeito com oito estacas de madeira presas, formando um tipo de asterisco. Um pouco mais afastado do círculo central, tinha um outro anel circular entalhado. Eu nunca tinha parado para prestar atenção em um leme.

Outros objetos que se destacavam nas paredes eram duas âncoras cinzentas que aparentemente eram pesadas. Alguns desenhos de pranchas e ondas completavam a parede, dando um toque especial. Uma pequena estante branca estava encostada em uma das paredes, e em cima de suas prateleiras estavam vários potes de vidro com iscas e algas marinhas dentro. E, apoiadas sobre a parede oposta, estavam cinco varas de pesca.

Olhei pelas janelas. O mar era realmente imenso, e não se podia ver quase nada, pois a Ilha do Club Penguin já se distanciava no fundo e logo já não seria visível. Depois de alguns segundos, só era possível ver os topos de suas montanhas. Quero ver falarem que a Terra é plana agora.

O dia passou bem vagarosamente. Foi possível ver as nuvens se movimentando de um lado ao outro, e eu já estava cansado de ver apenas as cores azuis por todos os lados. Eu nem sabia mais onde estávamos. Será que tínhamos nos perdido? Aliás, será que aquele mundo teria outros continentes ou ele era só aquela simples ilha?

Mas foi quando o sol se deitava no horizonte é que o silêncio que me matava finalmente foi quebrado.

— Bom... Agora podemos falar — Dylan disse.

***

— Então você fez um acordo? — perguntei, depois de ouvir alguns minutos da história de Dylan sobre uma entidade maligna — E como fez para encontrá-la?

— Como eu tinha dito, não fui eu que a encontrei. Ela veio me procurar, depois de perceber que eu persistiria até a morte. Depois de ver que eu seria... útil para ela — o pinguim contava — Eu caí em suas conversas e joguinhos, e, aos poucos, ela conseguiu me convencer. Mas com certeza foi um erro. Apenas um demônio mesmo teria poder suficiente para me dar esse lugar. Ou, no caso, uma demônia.

— Então... Ela te dava a Ilha do Club Penguin, que você tanto queria criar... E você dava outra coisa? — perguntei, novamente pensando em como Ilha do Club Penguin era um nome nada original — E o que era essa coisa? — perguntei.

— Eu ainda vou chegar lá — ele respondeu.

Nesse momento, eu olhei em volta, pois ouvi algo se mexendo próximo a mim. Tinha alguma coisa ali, na água.

— O que é que tem ali? — perguntei a Dylan. Ele se levantou de onde estava sentado e correu até o canto do barco, olhando o imenso oceano. Enquanto nós olhávamos, vimos tentáculos se movimentando.

— Deve ser um polvo ou uma lula... — ele respondeu.

— Mas tem outros seres vivos aqui além de você? Tipo... Sem ser as árvores — eu falei.

— Sim... Peixes, lulas. Animais aquáticos estão nadando em todo o mar. Calma, está tudo bem. Vou continuar a contar.

Eu tentei me acalmar e me acomodar, mas tudo parecia mais sombrio a partir daquele momento. Então Dylan esteve se metendo com criaturas... divinas? Eu não sabia se podia tratá-la assim. Eu estava ficando louco. Só eu mesmo pra namorar alguém que no futuro faria um pacto com o demônio para se tornar um ditador!

— Bom... Juan. Antes de você chegar aqui... O que tinha acontecido?

— É... — As imagens pareciam bagunçadas em minha mente. Eu não me lembrava muito bem. Só de ver pinguins saindo das caixas de fertilizantes e... uma enorme ventania. Contei sobre o que tinha visto e sobre eu ter caído da montanha até chegar na caverna, que depois me levou ao portal.

— Ah. Eu acho que sei quem são as pinguins que estavam na caixa. E... receio que seus amigos estejam em perigo — Dylan falou.

— Sério? Quem eram?

— Bom... A... — Dylan repetiu o nome que tinha me dito no começo da conversa, a tal ela de quem ele sempre falava — não precisava de apenas um acordo para conseguir o que queria. Ela precisava de vários. E pouco antes de você chegar aqui, eu tive uma visão. Foi exatamente isso que você disse: seis pinguins saindo de dentro de caixas.

Eu fiquei um pouco duvidoso sobre aquilo. Será que ele estava mentindo?

— E quem são elas?

— Elas são... bruxas.

— Bruxas?! — exclamei.

— Sim. Seis bruxas muito poderosas que faziam parte de um culto. Elas estavam presas na Dimensão das Caixas há anos e para serem libertadas, seria necessário que sete atos perversos fossem feitos com uma certa varinha.

— A varinha que Greeny usou para petrificar a pinguim que estava roubando... — eu pensei em voz alta.

— Então... isso quer dizer que Greeny realizou o sétimo ato? Parece que agora todos no Club Penguin estão em perigo! — Dylan exclamou.

Eu estava cada vez mais preocupado, e meu coração batia rápido, por isso perguntei rapidamente:

— O que mais você sabe?

— A criadora do culto é Gerda, mãe de Greeny.

A mãe de Greeny é uma bruxa? Tudo estava ficando cada vez mais complexo.

— E tem mais duas coisas que eu preciso falar. O poder delas fica mais forte em datas específicas: quando a lua está minguante. O quarto de minguante é o auge de seu poder.

Olhei a lua, tentando ver em qual estávamos. Mas fui surpreendido quando vi uma lua cheia bem no alto e outra, crescente, com apenas um feixe de luz. Me lembrei que aquele lugar não era o mesmo que o Club Penguin.

— E qual é a outra coisa?

— Elas não estão lá, fazendo perversidades, sem motivo algum. Como eu disse, elas também fizeram um acordo com a... — ele repetiu o nome —, e parece que elas querem sacrificar alguém. Esse alguém pode ser qualquer pessoa. Inclusive um de seus amigos.