Minkis Mackenzie

Não! Isso não pode estar acontecendo, nem que seja de brincadeira! Eu não acredito que estou sendo presa, e ainda por cima por algo que não fiz.

Quando chegamos à delegacia, me sentei em uma cadeira de recepção, e dois guardas estavam em pé na minha esquerda. Meus amigos foram chamados para o interrogatório, um por um, e eu fiquei aguardando, olhando o piso do lugar e pensando.

O que eu fiz para chegar nesse ponto? Seria as palavras da minha mãe fazendo efeito no presente? Espero que não, na verdade, tenho certeza que não. Nunca deveria ter pensando nisso! Isso é um absurdo de se pensar, sem sombra de dúvidas.

Após ver Marc sair da sala de interrogatório, vejo o Delegado fazer um movimento com a nadadeira em minha direção, como se estivesse dizendo “venha!”. Levantei e andei em direção à sala, junto com os dois guardas atrás de mim.

Quando entrei no local, me sentia culpada pelos “meus atos”. Todos que estavam presentes me olhavam como se estivessem me julgando, me julgando sem saber a minha versão da história. Sentei em uma cadeira que estava na frente da mesa do Delegado, e logo em seguida, o mesmo sentou em sua poltrona. Cruzou seus braços e me olhou:

— E então, senhorita Mackenzie, o que aconteceu?

Respirei fundo antes de começar a falar, na tentativa de me acalmar e dizer para mim mesma que estava tudo bem, que não havia necessidade alguma de ficar nervosa.

— Assim que abri a porta do meu iglu, vi um corpo ferido no meio da minha sala. Me desesperei, e tentei ajudar a pinguim, tentava conversar com ela, porém, ela não me respondia. E então, quando ia me afastar para pegar um pano e tentar estancar o sangue, ela me segurou pela nadadeira, me sujando de sangue e disse “vida longa a Mi”, mas não consegui entender a última palavra, porque ela parou de falar e fechou seus olhos. Eu pensei que ela havia desmaiado, mas depois soube que ela havia morrido. Foi tudo um choque para mim...

O Delegado estava atento a cada palavra minha e anotava tudo em seu caderno. Quando terminei de depor, o pinguim olhou para os guardas e disse:

— Obrigada senhorita Mackenzie, está liberada.

Quando estava saindo da sala, avistando meus amigos que estavam sentados nas cadeiras da recepção, vi uma pinguim entrando pela porta principal, ela era assustadoramente bela, vestia um sobretudo preto, uma blusa e uma calça que deixava sua canela a mostra, ela também usava botas e seu cabelo estava solto e ondulado, um ruivo avermelhado, porém natural. Estava confusa, por que ela estava lá?

Antes de qualquer pessoa falar, Greeny levanta da cadeira e diz, em direção a mulher que acabara de entrar:

— O que você está fazendo aqui, Gerda?

Agora tudo fazia sentido, a mulher era Gerda.

A bruxa mais velha olha para o pinguim, respondendo:

— Greeny, querido... É uma situação delicada. Gabrielle e Ginger tinham características em comum, ambas eram bruxas. Isso significa que o assassino está matando somente bruxas, você deve se unir a mim e às outras irmãs antes que as coisas piorem!

Greeny revira os olhos e respondendo a mais velha:

— Obrigado, Gerda, mas eu recuso.

A pinguim cruza os braços e revira os olhos, desapontada com a reação do mais novo e vira seu corpo em minha direção. Começa a andar, com o objetivo de entrar na sala, mas, antes de entrar no cômodo, esbarra propositalmente no meu ombro.

Me sento em uma cadeira próxima à sala de interrogatório, com o objetivo de escutar a conversa de Gerda com o Delegado. Consigo escutar poucas coisas, por diversos fatores, por exemplo, a distância de onde eu estava sentada até o local que a bruxa mais velha estava. As únicas palavras que consegui ouvir claramente falavam que Gaia, Ginger e Gabrielle eram muito queridas por ela.

A bruxa fala mais algumas coisas, e sai da sala. Vai em direção a Greeny com um sorriso falso.

— Greeny, querido, tem certeza que não quer entrar pro meu conciliábulo? Nele, todas nós iremos te aceitar e proteger.

— Gerda, querida, eu tenho certeza! Já tenho amigos que me aceitam e protegem, obrigado!

Novamente, a pinguim cruza os braços e sai da delegacia.

Após a sua saída, Thay acha melhor ir embora, já estava tarde. Todos arrumam suas coisas, e quando terminam, me chamam. Eu levanto da minha cadeira, mas nem consegui ficar cinco segundos em pé, pois um dos guardas me empurra, e acabo sentando na cadeira novamente. Viro em sua direção, abrindo meu bico para falar:

— Por que...

E o pinguim corta minha fala, olhando nos meus olhos

— Você vai passar a noite aqui. Achava que iria passar a noite no seu iglu? Você foi acusada, não pode sair até que se prove que você não matou essas garotas.

Os dois pinguins me levam para uma cela próxima à sala de interrogatório e onde estava sentada, me colocam dentro dela e trancam o local. Vejo meus amigos saindo pela porta da delegacia, através de vários quadrados por conta da grade.

Bato minha cabeça na parede. Droga! Droga! Droga! Não acredito que vou ficar aqui, presa nessa cela, e não vou poder ajudar eles em nada. Não irei ajudar na busca pelo Juan, simplesmente não vou fazer nada! Muito pelo contrário, apenas irei atrapalhar tudo. Parabéns, Minkinha! E em mais um dia, Minkinha Mackenzie consegue atrapalhar tudo, parabéns, Mackenzie!

Sento em um banco de concreto que estava a minha direita e começo a admirar a parede. Será que outro pinguim já esteve aqui? Como será que ele era fisicamente? E a sua história? Olhei em volta da cela inteira, havia algumas pedras em baixo dos bancos e uma pequena janelinha com grades de ferro.

Me levantei do banco e agachei, pegando uma das pedras. Passei a mesma pela parede, e fiz um risco branco. Era como se uma lâmpada tivesse acendido na minha cabeça. Começo a desenhar, fazendo riscos e curvas, além dos barulhos que se assemelhavam de um giz na lousa, me lembrando rapidamente dos tempos de colégio. Será que a Minkinha de doze anos pensava que no futuro ela seria acusada de matar uma bruxa? Acho que não, acho que a pequena Minkis nem imaginava que iria se meter nisso tudo.

Minha nadadeira começava a doer pela pressão que fazia com a pedra na parede, estava usando muita força. Provavelmente, iria demorar muito tempo para aquilo sair, se estou certa de meus cálculos. A cada movimento que fazia com a nadadeira, o tempo passava, não importava se fazia uma curva, uma linha reta ou uma forma geométrica, a cada movimento eu esperava que se passasse uma hora, mas infelizmente nem dez segundos se passavam, quem sabe três?

Fazia riscos juntos para mostrar que estava pintando, já que estava sem tinta ou qualquer outro material que liberasse uma coloração. Repetia muitos movimentos, até que assoprei meu desenho, tirando um pouco de pó que ficou e larguei a pedra no banco. Apertei minha nadadeira direita, na tentativa de aliviar a dor, mas foi em vão. Me afastei para visualizar minha ‘’obra de arte’’ e sorri, quem sabe aquilo retratado um dia poderia se realizar? Era possível, não era? Bem, naquele momento, era tudo que a Minkinha de 20 anos desejava.

Deixei algumas lágrimas escorrerem pelo meu rosto, e comecei a soluçar. Sentei no chão, com a cabeça encostada no banco, e coloquei meu rosto entre minhas pernas, me abraçando. Por que aquilo estava acontecendo comigo? Por que aquilo estava acontecendo conosco? Parecia estar destinado, mas acho que não é muito saudável pensar que estamos destinados a sofrer. Tirei meus óculos, colocando-os sobre minhas pernas e sequei minhas lágrimas com minhas nadadeiras. Coloquei o óculos novamente, conseguindo ter minha visão novamente. Olhei para o desenho novamente, e dando um pequeno sorriso. Passei minha nadadeira pela minha bochecha, tirando o último resquício de água que se encontrava no meu rosto. Fiquei admirando meu desenho por alguns segundos até franzir meu cenho e perceber que havia esquecido de algo, minha assinatura! Me levantei e peguei a pedra que estava no banco á minha frente, minha nadadeira ainda estava um pouco vermelha e dolorida, mas dava para aguentar. Me curvei, ficando com o rosto próximo ao canto direito do desenho, e por um momento pensei, como seria minha assinatura? Pensei um pouco, mas logo ri, movi minha nadadeira pela parede, tentando fazer minha melhor letra cursiva, não era fácil escrever em uma parede, ok? E bem, até que não ficou mal! Minkis Mack estava escrito, e logo me bati levemente por ter esquecido outra coisa, a data! Mas foi ai que eu percebi, qual era a data? Bem, até que não tem problema uma obra sem data, né? Acho que o próximo pinguim a ficar preso nessa cela vai me entender, mas se ele for um crítico de arte, acho que não.

Deixei a pedra no canto do banco, próxima a porta da cela, subi no banco de concreto, e deitei, fazendo minhas nadadeiras de travesseiro e tentei me acalmar com a minha respiração e pensar em alguma música calma. Minha tentativa foi certeira, minha respiração ia diminuindo e o som dos meus pés contra a parede então, que até então não havia percebido esse barulho e adormeci, esperando que tudo se resolvesse.