Miranda: Coven
18 I'll Never Be The Same
Greeny Wicked
Eu tinha saído do meu iglu e em menos de uma hora eu recebi uma ligação de Minkis, a pinguim dizia que ela e Thay acabaram derrubando um vaso de flores pesado na minha televisão e estava tudo pegando fogo. Achei estranho, mas mesmo assim me preocupei, pedi para que elas se acalmassem e fiz o caminho para o meu iglu mais uma vez.
Não demorei mais do que 10 minutos para chegar, mas quando cheguei parecia que tudo estava calmo, eu não conseguia ouvir nenhum barulho pelo lado de fora. A porta da frente estava trancada, então fui para os fundos e acabei dando de cara com Marcus, o que aquele maldito fazia lá? Revirei meus olhos e abri a porta que ele tentava arrombar.
— O que faz aqui, troglodita? — Perguntei enquanto inseria a chave na fechadura.
— Thay me chamou falando que precisava de ajuda para configurar alguma coisa.
— Mas Minkis me disse que minha televisão estava pegando fogo e que era pra eu vir correndo. Estranho... — Respondi. Ok, algo estava estranho.
Assim que abri a porta me surpreendi, estava tudo apagado, mas havia um brilho sobrenatural na sala, o que poderia ser aquilo?
Marcus segurou-me pelo ombro e sussurrou perguntando o que eu iria fazer, eu o respondi fazendo uma bola de fogo. Queimar.
Dei passos silenciosos até a sala de jantar, mas me decepcionei quando vi que era apenas uma mesa com um candelabro em seu centro. Havia rosas vermelhas e amarelas por todo o lugar, dois pratos da minha coleção de porcelana e ouro, garfos dourados e também uma enorme caixa de pizza.
— Podia ter simplesmente me convidado para sair, eu aceitaria, não precisava de todo esse teatro. — Marcus disse rindo.
— Nem foi eu que montei isso, idiota! — Respondi revirando os olhos.
Ele fechou a porta dos fundos e logo voltou para o mesmo lugar.
— Isso deve ser coisa daquelas garotas... — Eu disse encostando na parede. Tinha uma garrafa de Cream Soda lá, eu quase a derrubei.
— Bom, mas deve ser pra gente né? Eu estou com fome... — Ele respondeu sentando-se na mesa e pegando um pedaço de pizza na caixa. Folgado como sempre.
— Você é muito abusado, sabia? — Eu disse revirando os olhos e sentando na mesa. Revirar os olhos significa muitas coisas para mim.
Peguei um pedaço de pizza e comecei a comer. Eu não sabia o sabor, mas estava maravilhosa.
— Ei... Eu nunca te falei isso, mas enquanto eu estive fora eu sempre pensava em você quando via as plantas... Tinha tanta coisa diferente que você iria adorar! — Marcus relembrou.
— Eu adoraria mesmo se você não tivesse me ofendido e desaparecido. — Respondi friamente esfregando as nadadeiras para limpá-las.
— Qual é! Eu estou tentando conseguir seu perdão! Me dê mais uma chance! Só mais uma, eu não vou te decepcionar, Greeny. — Ele disse. Minhas penas se arrepiaram. Será que eu estava sendo muito rígido? Não! Ele me xingou de monstro! Mas ele se arrependeu depois e está tentando se acertar...
— Tudo bem. — Respondi me levantando e pegando duas taças para bebermos Cream Soda.
— Mentira! Eu não escutei isso! Verdade? — Zombou.
— Eu não vou repetir, Marcus. — Respondi colocando a bebida nas taças e levando até a mesa. Entreguei uma delas até ele e nós brindamos.
Antes que eu pudesse sentir o maravilhoso gosto daquela bebida, Marcus me puxou pela cintura e me encarou, em seguida me beijou. Eu o empurrei com raiva. Se tivesse empurrado com mais força ele provavelmente iria cair e se machucar.
— Desculpa... Achei que estava tudo bem entre a gente... — Ele respondeu cabisbaixo.
— As coisas só vão estar bem quando eu disser que estão. — Gritei com raiva e saí da sala de jantar, arremessando uma taça de vidro na lareira, destruindo-a. Eu estava tão irritado! Odeio que façam coisas comigo sem meu consentimento.
— Pode se arrumar e se preparar para sair, já comeu a pizza, pode sair. — Em seguida fui em direção à porta indicando para que ele saísse.
Mas espera... Eu havia dito para mim mesmo que tinha sido muito duro com ele, e o que estava sendo agora? Colocando-o para fora dessa forma, sendo estúpido e grosseiro como ele foi comigo naquele fatídico dia. Não, eu estava errado dessa vez, era a minha vez de me desculpar. Quando ele vinha em direção à porta eu resolvi me manifestar:
— Espera!
— O que foi? — Respondeu, ele parecia triste e profundamente magoado, ele parecia estar cansado de ser maltratado.
— Me desculpa... Marc. — Eu disse. Era a primeira vez em tempos que eu o chamava daquela forma, fazia tanto tempo que eu não pronunciava esse apelido. Fazia tanto tempo que eu não sentia tanto arrependimento.
— Eu tenho sido ruim com você, de verdade. Me desculpa! — Minha voz estava trêmula, eu iria chorar.
A primeira lágrima desceu pelas minhas penas, e depois a segunda, a terceira, a quarta, a quinta, a sétima.
Fechei meus olhos e me agachei encostando na parede, e colocando minha cabeça para baixo, eu me sentia tão ruim, tão... perverso.
Perverso.
Essa era a palavra que eu usava para me definir, mas eu não esperava que eu era tão perverso assim, a ponto de tratar alguém como um objeto sem valor.
Eu chorava sem parar, se ele saísse e me ignorasse eu entenderia, ninguém merecia tanta humilhação como ele, mas não, ele fez diferente dessa vez, ele colocou sua nadadeira em volta de mim e deitou no meu ombro, em seguida beijou minha cabeça.
— Tá tudo bem... Eu fiz isso com você um dia também, estamos quites agora. — Ele disse acariciando meu cabelo.
Parei de chorar e levantei minha cabeça encarando seus belos olhos castanhos por trás das lentes de seus óculos preto e vermelho, tinha me esquecido como ele era de perto, bonito.
— Fazia tempo que nossos rostos não se encontravam. — Eu disse sorrindo e secando algumas lágrimas que insistiam em sair dos meus olhos.
Então nós nos aproximamos, mais e mais a cada segundo. Até que finalmente nos beijamos, e dessa vez com o consentimento de ambos. Eu me senti em outras épocas, quando o conheci e também quando tudo acabou. O começo e o fim, agora talvez o começo de novo.
Nós ficamos um tempo ali conversando bobagens, conversando sobre o que aconteceu todo esse tempo, enfim, tudo. Era muito bom finalmente estar em paz com o pinguim que mais me amou antes dos meus amigos chegarem em minha vida, o primeiro a me dar suporte.
Nós nos levantamos do chão e lavamos a louça do jantar cantando e brincando. Depois assistimos um filme, quer dizer, ele assistiu, porque eu acabei dormindo. Acordei com suas nadadeiras me fazendo cócegas.
Eu estava meio cansado por conta das fortes emoções do dia, primeiro um susto, depois raiva, depois arrependimento e depois felicidade. Felicidade era uma coisa que eu não via há muito tempo. Desde dezembro do ano passado minha vida nunca mais foi a mesma, foram experiências traumáticas, e dias atrás tudo se repetiu.
Subimos para o quarto, arrumei a cama de casal que ficava em meu quarto enquanto ele escovava os dentes. Vesti um pijama, escovei os dentes e me deitei. Marc veio logo em seguida, também se deitou e ficou me encarando.
— Eu amo você. — Ele disse sorrindo, parecia falar sério. Eu nunca disse que o amava, nem antes de brigarmos no passado, eu sentia que amor era uma coisa grandiosa demais, talvez eu não o amava naquela época, mas agora eu tinha certeza que ele era o pinguim certo para mim.
— Eu também te amo, boo-bear. — Eu disse beijando seu bico.
Apagamos as luzes e então eu senti uma paz interior, uma calma, calma tão grande que acabei dormindo rapidamente.
***
Por conta da noite passada acabei acordando um pouco mais tarde, na verdade eu nem sabia que era um pouco mais tarde, sempre que eu acordo o céu está escuro, e dessa vez também estava, só que era duas horas mais tarde que o horário que eu costumo levantar.
Levantei-me, Marc ainda dormia, resolvi deixá-lo em paz. Corri até a janela e abri as cortinas, o céu estava assustador, um degradê de preto a vermelho, estava nublado e a lua ainda estava lá, estava em fase minguante e seu brilho atravessava as nuvens. Não era só o céu que estava estranho, eu também estava, parecia que a qualquer momento eu poderia criar um campo de força ou explodir tudo em minha volta, minhas nadadeiras brilhavam e tremiam freneticamente, bizarro. Tomei um banho rápido e percebi que Marc acordou em seguida:
— Por que ainda está escuro? — Perguntou esfregando os olhos.
— Eu não sei, boo-bear, mas algo está estranho. — Eu disse vestindo luvas, eu pretendia sair para fora para ver o que era o céu escuro as 8h da manhã.
— Por que você está tremendo? Tá tão frio assim? — Indagou.
— Eu acordei assim, minhas nadadeiras não param de brilhar e pulsar...
Quando atravessei a porta para fora tudo pareceu tremer, um feixe de luz surgiu de uma montanha, um feixe de luz que ia até a lua.
Peguei meu celular e liguei para Minkis e Thay:
— Sisters, tem algo estranho acontecendo!
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