Miranda: Coven
19 Chains
Juan Hussie
Voltamos para a ICP no outro dia, e quando chegamos, estava anoitecendo. Eu tinha combinado com Dylan de ficarmos em silêncio até ele me mostrar o que ainda restava.
Dormimos na mesma praia do píer, igual nas outras noites que estivemos ali. Agora fazia quanto tempo que eu estava lá? Duas semanas? Por volta disso. Eu estava preocupado com meus amigos. O que poderia estar acontecendo? Ainda mais agora que eu sabia sobre as tais... bruxíssimas perversas!
Naquela noite, tive outro sonho realista. Ele parecia o da vez anterior. Thay estava no meio de um grupo de pinguins e a lua estava vermelha. Quando acordei, comecei a duvidar de mim mesmo. Aqueles sonhos seriam reais? Eu já tinha tido um sonho com bruxas antes mesmo do Dylan falar sobre elas. Não, não era possível. Dylan tinha me mostrado, ele tinha construído uma máquina que controlava meus sonhos. Nada daquilo podia ser real.
Depois de levantarmos e comermos em um café que estava construído na área comercial da ilha, começamos nossa caminhada. Andamos até o leste da ilha, contornando as montanhas. Passamos pela área residencial, quase no perdendo no meio dos idênticos iglus. Olhando novamente, reparei que cada iglu tinha uma placa em sua frente, e cada placa tinha um nome. Eu não reconhecia nenhum, até localizar "Greeny Wicked" em uma delas. Foi aí que reparei que havia um iglu para cada pinguim da ilha, com seu local já escolhido. Eu queria falar com Dylan sobre isso, mas, como ele tinha pedido, devíamos ficar em silêncio no momento. Por fim, chegamos do outro lado. Era um pouco estranho pensar em como as montanhas só predominavam no centro da ilha, e do outro lado já podíamos ver uma área plana que, futuramente, poderia ser usada para diversas construções.
Andamos por mais ou menos três horas. Ainda bem que tínhamos água sempre que queríamos naquela ilha. Era só pensar que uma garrafinha cheia aparecia bem à nossa frente.
— Ainda tem mais uma coisa que eu preciso te mostrar — A voz de Dylan no dia anterior ecoava em minha cabeça —, mas temos que tomar muito cuidado.
Quando vimos a abertura de uma caverna perto da base das montanhas, percebi que havíamos chegado ao nosso destino. Não era muito grande, mas ainda assim era visível.
As pedras azuladas formavam as paredes do túnel que, embora à primeira vista não parecia grande, começava a ser enorme a medida que andávamos. Dylan carregava uma lanterna para iluminar, mas a luz não era muito forte. Eu me perguntava se ele sabia onde estávamos indo.
Ao chegarmos a certo ponto, encontramos alguns daqueles capacetes laranjas de explorar cavernas, que têm uma lanterna em sua parte superior. Agora ficaria muito mais fácil de ver. Coloquei um sobre minha cabeça e acendi a luz. Fomos andando, e, mais adiante, Dylan colocou sua nadadeira em minha frente. Eu parei subitamente e olhei em diante. Logo em seguida, um enorme buraco se formava. Olhei para Dylan, e ele fez um gesto apontando para baixo.
Sério que iríamos descer ali? Aonde nós chegaríamos? No inferno? Não achava impossível.
Ele pegou algumas cordas que tirou de não sei de onde e começou a amarrar uma em uma grande estalagmite. Deu algumas voltas e depois vários nós, para que ficasse bem resistente.
Depois, começamos a descida. Me segurei bem firme e fui descendo aos poucos logo após Dylan. Como será que ele tinha descoberto esse lugar? Ficamos alguns minutos descendo, até que chegamos a um piso sólido. Me soltei da corda e tentei me manter em pé. Eu já estava cansado. Aquele lugar estava um pouco claro, e, quando percebi, vários cristais azuis e rosa brilhavam. Assim como na caverna onde eu tinha ficado nos meus primeiros dias na ICP.
Olhei o mágico brilho que iluminava o lugar e novamente me perguntei de onde ele vinha. Quando olhei para Dylan novamente, vi que ele fazia um sinal me chamando com a nadadeira. Comecei a segui-lo. Andamos por alguns metros até chegarmos a uma enorme sala. Ela era praticamente inteira composta pelos cristais brilhantes, então era claramente visível.
— A primeira corrente que vou te mostrar é a da guerra — Dylan dissera no dia anterior.
Mas, ao ver aquilo, eu nem sabia mais se realmente era uma corrente. Talvez algum dia tivesse sido. Mas, agora, só se via sua base no chão e sua outra parte em uma das paredes. Eram enormes, maiores do que eu. Por toda a sala, estavam vários destroços e pedaços do que parecia ser metal. A corrente parecia ter sido explodida, destruída completamente, e eu sabia o que aquilo significava. O pensamento me aterrorizava.
Fiquei alguns minutos observando o local, mas aquilo estava me dando medo, como se, a qualquer momento, um monstro fosse chegar por trás de mim e me pegar.
Eu imaginei o que teria acontecido comigo se eu estivesse ali no momento em que a corrente tivesse sido arrebentada. Eu provavelmente não sobreviveria. Imagina, os pedaços voando para todos os lados.
Depois de um tempo, saímos de lá. Voltamos pelo caminho e saímos da caverna. Andamos por mais algumas horas, até chegarmos em uma floresta de pinheiros. Fomos andando até chegarmos em mais uma caverna. Mas essa eu conseguia reconhecer. Era a mesma caverna onde eu tinha me escondido ao chegar naquela ilha. De fato, eu só tinha ido até pouco mais de sua entrada, mas não imaginava que dentro dela estaria uma enorme corrente que aprisionava uma entidade maligna.
Fomos andando, fazendo o mesmo processo da caverna anterior, mas dessa vez, o túnel se estendia praticamente horizontalmente, então não precisamos de cordas para descer. Mas, de fato, o processo demorou bastante tempo, o que me deixou exausto, ainda mais depois de andar por tanto tempo. Nós praticamente demos volta na ilha.
Depois de um tempo, chegamos até o final. Havia um lugar semelhante ao da caverna anterior: extenso, cheio de cristais. E, ali, estava outra corrente, mas essa estava completa, indo de uma parte mais baixa da parede até o teto. No entanto, ela não estava intacta, mas sim cheia de rachaduras, e não parecia que ia durar por muito tempo.
— Com o sacrifício das bruxas, eu imagino que a segunda corrente possa se quebrar — a voz de Dylan ecoou em minha mente.
— Quantas correntes são? — eu tinha perguntado.
— Eu encontrei três. Mas não tenho certeza, podem ter mais.
— E o que vai acontecer quando todas forem quebradas?
— Ela será libertada e... Acontecerá... — ele hesitou. Estava com medo de falar — o Apocalipse.
***
Depois de nossa pequena expedição pelos subterrâneos da Ilha do Club Penguin, eu estava incomodado. Dylan dissera que tinha sido assim que ele tinha percebido que aquele lugar era horrível. E agora eu não duvidava de mais nada.
Resolvemos não tocar no assunto pelos próximos dias. O Sol foi nascendo e se pondo, repetindo o mesmo ciclo infinito. Infinito. Como eu poderia saber que era infinito, sendo que, a qualquer dia, sem mais nem menos, tudo poderia parar? Sendo que o mundo poderia acabar em um piscar de olhos?
Mas, em meio aos meus pensamentos, me lembrei do sonho que tive com Thay. Parecia que tudo estava interligado, aquilo não poderia ser falso. Eu precisava ter certeza.
— Ei, Dylan — chamei. Ele olhou para mim, esperando que eu falasse — Quando você criou aquela máquina para controlar meus sonhos... Como você fez aquilo?
Ele hesitou, e então abriu um sorriso, dizendo:
— Você realmente acha que eu conseguiria criar uma máquina tão poderosa assim, que pudesse simplesmente criar sonhos e manipular qualquer pessoa? Eu seria tipo, sei lá, o rei do mundo, se usasse de uma maneira inteligente.
Fiquei confuso. Ele não tinha criado a máquina? Mas eu tinha visto, eu tinha certeza.
Antes de ele continuar a falar me lembrei de ele me mostrando as partes do portal. Aquela invenção era tão geniosa. Pena que ela não estava mais funcionando... queria tanto conseguir voltar para o Club Penguin... Nós tentamos reconstruir algumas vezes, mas não dava certo. Discutíamos teorias, olhávamos os cálculos... Mas ainda faltava alguma coisa. A voz do pinguim me trouxe de volta ao lugar:
— Mas sim, eu criei a máquina. Mas não é uma máquina comum que funcionaria em qualquer pessoa, ela só funcionaria em você.
— Por quê? — eu perguntei.
— Porque você já tinha o potencial. Se eu consegui controlar seus sonhos, é porque você já tinha o poder de ver o futuro antes.
Aquela informação me chocou. Então, sim, o sonho sobre a Thay era verdadeiro. E eu estava lá, sentado na praia. Ela poderia estar em muito perigo naquele exato momento.
— Dylan, nós precisamos reconstruir o portal, sem descanso, sem pausas, sem parar. Agora. — Eu corri em direção ao portal e comecei a olhar todas as suas partes. Alguma daquelas coisas tinha que funcionar.
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